Dicas de Leitura

Dicas do Dowbor – junho 2017

Nos últimos tempos têm aparecido trabalhos de fundo repensando o sistema. Queria aqui fazer um tipo de comentário de leitura sobre textos que têm em comum a convicção de que não se trata mais apenas do problema de Trump nos EUA, de Temer no Brasil, de Macri na Argentina, de Erdogan na Turquia, do Brexit na Inglaterra, do fato dos dois grandes partidos (socialista e republicano) que repartiram o poder na França não terem chegado, nem um nem outro, sequer ao segundo turno.
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Judson Nascimento – Gestão situada de incubadoras sociais: o caso da Incubadora Afro Brasileira – Ed. Luminaria Academia, out, 2016 – 302 p.

É possível termos maior controle e iniciativa sobre as nossas atividades econômicas? O mundo está assolado por gigantes corporativos, e nos tornarmos consumidores passivos de identidades globais. Mas cada cidade pode tomar em suas próprias mãos uma série de aspectos do seu desenvolvimento, respondendo de maneira participativa às necessidades locais. Ao analisar o caso da Incubadora Afro Brasileira, Judson Nascimento apresenta neste estudo a possibilidade de se liberar potenciais de um desenvolvimento enraizado nos sentimentos de identidade e de pertencimento comunitário. Com bibliografia particularmente rica, este trabalho abre perspectivas para quem quer dinamizar a sua comunidade.
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Hudson, Michael – Killing the Host: how financial parasites and debt destroy the global economy – Islet, Baskerville, 2015

O livro de Michael Hudson, Killing the Host (matando o hospedeiro), constitui uma análise de primeira linha sobre os sistemas financeiros dos Estados Unidos e de outros países, e com um enfoque que fica claro desde o próprio subtítulo: Como parasitas financeiros e a dívida destroem a economia global. Somando-se aos estudos recentes de Ellen Brown, de Epstein e Montecino, bem como de Joseph Stiglitz, esta pesquisa nos permite entender esta estranha arquitetura que o capitalismo financeiro gerou no nível planetário. E como Hudson analisa os formatos de enraizamento e apropriação do poder que os sistemas financeiros adotam nos diversos países, começamos entender este animal estranho em que o global não está “lá fora”, mas dentro das dinâmicas nacionais. E não há como não ficar impressionado com a semelhança do modelo financeiro imposto à sociedade americana com os nossos próprios dramas.
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58 milhões de adultos com nome sujo na praça – janeiro 2017 – 1p.

Interessante o dado de 58 milhões de adultos com nome sujo na praça, resultado direto dos juros extorsivos. Aliás, não é mais "nome sujo", é "negativado", mais simpático. Mas travaram o principal motor da economia, o consumo das famílias. E sem consumo das famílias, as empresas param. Travou o segundo motor. Quanto ao motor representado pelas políticas públicas (infraestruturas e políticas sociais), a taxa Selic há tempos gerou curto-circuito para os bancos. Link: (1 página)
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A Enorme Taxa de Juros do Brasil: Será que os brasileiros conseguem suportá-la? – CEPR – dezembro 2016

Este relatório olha para as excepcionalmente altas taxas de juros brasileiras. O Brasil possui o quarto maior encargo no mundo com o pagamento de juros da dívida pública (em meio a 183 países). O relatório indica que isso não é um resultado de conhecidos fatores de risco, mas sim decorrente da incomum alta taxa de juros estabelecida pelo Banco Central — as taxas de juros estabelecidas por política econômica também têm estado entre as mais altas no mundo — e do poder político e de mercado de um altamente concentrado setor bancário.
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Joris Luyendijk – Swimming with sharks : my journey into the world of the bankers – Guardian Books, London, 2015

swimming-with-sharks-cover-xlargeO livro "Swimming with sharks", de Joris Luyendijk, realiza uma façanha impressionante. Consegue que você – sim você – entenda como funciona o sistema financeiro. O autor foi convidado pelo Guardian para escrever um livro que as pessoas possam ler e entender sem sofrimento. A vantagem de Luyendijk é que ele não entendia do assunto, e alerta logo no início o leitor de que vai proceder passo a passo na construção da pesquisa: você o acompanha, de capítulo em capítulo, conforme vai construindo o conhecimento que ele próprio ganha. Francamente, é um passeio. E como você, como tantos outros infelizes, está atolado neste sistema, vale a pena a leitura.
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Arthur R. Kroeber – China’s Economy – Oxford, Oxford University Press, 2016 ISBN 978-0-19-023903-9 – 320 p.

51wby-ceaql-_sx331_bo1204203200_Kroeber não é mais uma pessoa que passou um tempo na China e escreveu um livro. Vivendo em Beijing e Nova Iorque, editor do China Economic Quarterly, reúne tanto conhecimento técnico como vivência e familiaridade cultural num livro de excepcional qualidade. Quase uma pessoa em cada cinco no planeta é chinesa. O pouco que sabemos sobre como funciona este país, em particular considerando os seus impressionantes avanços, é simplesmente uma vergonha. Vergonha aliás em particular para a nossa mídia, onde a editoria internacional se resume basicamente à última explosão no oriente médio e à foto do dia do presidente dos EUA. Não é possível continuarmos com este grau de desconhecimento. Eu já estive três vezes na China, acompanho as suas transformações, e o presente livro me convence.
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Ladislau Dowbor: O alto custo do sistema financeiro (resenha/artigo)

epstein_montecinocapaÀs vezes precisamos de um espelho. Com o grau de deformação ideológica dos argumentos quando se trata da realidade brasileira, é bom dar uma olhada como todo o debate sobre o resgate do sistema financeiro está se dando no resto do mundo. Não somos uma ilha, e muito menos o nosso sistema financeiro, ainda que aqui algumas deformações sejam muito maiores. Hoje já não podemos ignorar o sólido acervo de pesquisas, que deslancharam após a crise de 2008, e que mostram a que ponto o sistema financeiro se distanciou dos seus objetivos iniciais de financiar o investimento e o crescimento econômico. Aqui apresentamos a excelente pesquisa de Epstein e Montecino sobre o sistema americano, organizando as ideias chave, e este espelho gera um impressionante efeito de ver na imagem refletida a sombra dos nossos dramas.
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Joseph Stiglitz – Rewriting the rules of the American economy: an agenda for shared prosperity – New York, London, W. W. Norton &Company – 2015, 237 p. – ISBN 978-0-393 -25405-1.

16-stiglitz-rewriting-the-rulesJoseph Stiglitz organizou um documento muito forte, que representa uma agenda para os Estados Unidos, hoje presos numa armadilha de elites que insistem em combater políticas sociais, promover mais desigualdade e atacar políticas ambientais. Invertendo radicalmente as velhas visões, o amplo grupo de economistas que participam deste relatório rejeita "os velhos modelos econômicos". Segue uma ampla agenda prática de desenvolvimento inclusivo. O documento coincide praticamente com o "The Next System", lançado em março 2015 por Gar Alperovitz, Gus speth, Jeffrey Sachs e outros. Os economistas americanos estão acordando e construindo novos rumos. Aqui estamos tentando voltar ao que eles estão abandonando. Os dois documentos constituem instrumentos preciosos para repensarmos a economia política.
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Arun Sundararajan – The sharing Economy: the end of employment and the rise of crowd-based capitalism – Cambridge, MIT Press, 2016, ISBN 9780262034579

16-arun-sundararajanArun Sundararajan publica uma das melhores análises abrangentes da economia do compartilhamento, The Sharing Economy, livro tão essencial para entender as novas dinâmicas como por exemplo A sociedade de custo marginal zero de Jeremy Rifkin. A internet das coisas constitui em geral uma atividade comercial que aproveita a conectividade ampla das pessoas e agentes econômicos, com uma grande variedade de arquiteturas organizacionais. A grande vantagem aqui é que o autor sistematiza de forma muito legível o que são as atividades, os desafios econômicos, culturais e legais, os impactos no emprego, as formas de regulação. O fato de dar numerosos exemplos explicando como funcionam ajuda muito.
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Economia das Dádivas – Marina Pechlivanis – Alta Books – 2016

O mundo não vai parar de repente e tomar outros rumos. Toda ideia de transformação que ajude a construir dinâmicas mais construtivas é bem vinda. Marina Pechlivanis traz neste volume respostas a "uma demanda mundial por um novo formato nas relações de troca, comerciais ou não, trazendo à tona determinados valores que, com o poder da monetização e da plastificação das relações, estavam esquecidos." O mundo corporativo está aberto para isto? Otimista, Marina considera que "Gift Economy é um conceito que tem relevância tanto para o comportamento individual quanto para as empresas. Está sendo conduzida por poderosas tendências macroeconômicas e por um novo ethos, preocupado com a justiça e com a igualdade." O eixo central, ir "para além do sistema de “compra-consumo-descarte” amplamente promovido nos últimos anos" ajuda a mostrar novos horizontes. A contribuição de Ladislau Dowbor é uma curta nota sobre como as novas tecnologias e a economia imaterial contribuem para as mudanças, confira a íntegra da nota (em PDF).
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George Monbiot – How did we get into this mess? – Verso Ed., London, New York, 2016, 340p. – ISBN 13: 978-1-78478-362-4

Monbiot tem o dom da palavra, e associa este dom com uma impressionante lucidez. Eu em geral não gosto de livros em que o autor reúne artigos, mas no caso dele a qualidade dos textos, a variedade das questões tocadas, a capacidade de ir direto onde dói e de explicitar os nossos dramas culturais, sociais, econômicos e políticos constitui um refresco. O que os artigos têm em comum aparece exatamente no título: como é que fomos nos meter nesta encrenca? E haja encrenca. (L.Dowbor)
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Wolfgang Streeck – Buying Time – The delayed crisis of democratic capitalism – Verso, London, New Left Books, 2014 (original: Berlin, 2013)

O trabalho de Wolfgang Streeck analisa essencialmente como o capitalismo gradualmente restringe os espaços democráticos. Na sua visão, não é o fim do capitalismo, mas sim o fim do capitalismo democrático. O estado que cobra impostos para prestar serviços públicos é substituído por um estado endividado que transfere os nossos impostos para os grupos financeiros que o endividam, enquanto o acesso ao que eram serviços públicos passa a depender cada vez mais dos nossos bolsos. Streeck, alemão, tem claramente a Europa em mente, mas a mensagem é mais ampla: trata-se da erosão da democracia no contexto do capitalismo. (L. Dowbor)
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Pasi Sahlberg – Finnish Lessons – What can the world learn from educational change in Finland – Columbia University, New York and London, 2015

Estamos acostumados a ver muita coisa sobre o sistema educacional na Finlândia, como algo muito diferente. Neste pequeno livro, a vantagem é que não se trata de mais um estudo de alguém que visitou, mas de um relatório por parte de um protagonista que ajudou a construir o sistema, e continua ativo nos novos desafios. Na leitura, constata-se a que ponto a redução das desigualdades, a equidade no acesso, a convergência das políticas educacionais com as de ciência e tecnologia, e a própria cultura, geram uma dinâmica de construção interativa e colaborativa de construção do conhecimento.
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Nicholas Shaxson – Treasure Islands: uncovering the damage of offshore banking and tax havens – St. Martin’s Press, New York, 2011

O livro de Nicholas Shaxson é uma ótima ferramenta de trabalho, vem enriquecer um conjunto de pesquisas que desde a crise de 2008 vão desenhando como funciona o caos financeiro mundial. O livro é de 2011, e com aprovação em outubro de 2015, por parte do G20 e da OCDE, de uma série de resoluções, ganha muita atualidade. Continua sendo uma leitura básica para entender o caos financeiro, inclusive naturalmente os impactos para o Brasil. (L. Dowbor)
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