Share on Facebook2Share on Google+0Tweet about this on TwitterPin on Pinterest0Email this to someonePrint this page

Jeremy Rifkin – The Zero Marginal Cost Society: the internet of things, the collaborative commons, and the eclipse of capitalism – New York, Palgrave Macmillan, 2014 – Disponível online em http://digamo.free.fr/rifkin14.pdf

 

>> O livro já esta publicado em português com título: A sociedade com custo marginal Zero.

 

Ladislau Dowbor

15 de março de 2015

Todos sentimos que as regras do jogo da sociedade estão mudando. Não ainda as leis, sempre atrasadas, mas as práticas econômicas em geral. Jeremy Rifkin pinta as transformações da sociedade com gestos amplos e decididos, apontando o que podemos chamar de megatrends, macro-tendências que transformam as nossas vidas. Foi assim com O fim do emprego, A era do acesso, A terceira revolução industrial e outros. Vejo-o como herdeiro de Alvin Toffler, que com A Terceira Onda buscou delinear os grandes eixos de mudança, ainda em 1980. Ou Manuel Castells, que descreveu de maneira ainda mais ambiciosa o surgimento da sociedade em rede. Nesta era de perplexidade geral, um recuo para ver a floresta em vez de se perder nos arbustos é muito útil.

O exercício exige muita cultura e profundo conhecimento diversificado, pois estamos falando de resultantes gerais de transformações multifacetadas e que ocorrem em ritmos diferenciados. Em outros termos, trata-se de um exercício arriscado, em que a confiabilidade do autor é essencial. Toffler, por exemplo, foi por vezes visto como um pouco vulnerável pelas simplificações que exigiu a sua pintura do quadro geral. No entanto, tanto Toffler como Rifkin, e mais ainda Castells, me parecem ser autores extremamente confiáveis, pois fazem a lição de casa, pesquisam de maneira detalhada os setores que analisam, e nos permitem chegar a um sentimento extremamente precioso de distinguir novos rumos no caos das transformações aceleradas que vivemos.

Primeiro, o título: A sociedade de custo marginal zero. Pode ser grego para não economistas, mas o princípio é muito simples: à medida que penetramos na sociedade do conhecimento e na economia criativa, o eixo de análise econômica se desloca: estamos na economia imaterial, como a chama André Gorz, em que o principal fator de produção, o conhecimento, uma vez produzido, pode ser difundido de forma ilimitada e gratuita por todo o planeta, com custo zero. Se eu passo um bem físico para alguém, deixo de tê-lo, é um “bem rival” como dizem, e a propriedade é essencial. Mas se passo uma ideia a alguém, continuo com ela, é um “bem não-rival”. Ou seja, todo o arcabouço de análise econômica baseada na escassez – alocação racional de recursos escassos é o objeto da economia – se desloca. Em vez de produzir mais para ganhar mais, o capitalismo passa a buscar formas artificiais de gerar escassez para ganhar dinheiro, e a combater os processos descentralizados e colaborativos.

Assim o sistema inverte os valores. Proibir o livre acesso ao livro ou ao filme que poderiam ser acessados online tornou-se fundamental para o sistema, enquanto o consumidor quer ter a facilidade e simplicidade do acesso. Afinal, a economia de bens cuja produção exige o mesmo investimento para cada unidade adicional produzida pode se reger pelas mesmas regras quando a reprodução infinita pode ser feita a custo zero?

Em que consiste a internet das coisas? Como organizar a economia, pergunta Rifkin, “quando os custos marginais de se gerar, armazenar e compartilhar comunicações, energia, e um número crescente de produtos e serviços estão se aproximando de zero? Uma nova matriz de comunicação/energia está emergindo, e com ela uma nova infraestrutura pública “esperta”. A Internet das Coisas (IoT na sigla em inglês), permitirá conectar todos e tudo em um novo paradigma econômico que é muito mais complexo do que a Primeira e Segunda Revoluções Industriais, mas cuja arquitetura é distribuída em vez de centralizada. Mais importante ainda, a nova economia irá otimizar o bem-estar geral por meio de redes integradas lateralmente na esfera dos bens comuns colaborativos (Collaborative Commons), em vez de empresas integradas verticalmente no mercado capitalista”. (65)

Coerentemente, Rifkin disponibiliza o livro online. No plano mais amplo, ao difundir melhor compreensão dos mecanismos econômicos está contribuindo para o nível educacional da sociedade, e pontualmente também para o bem-estar de todos. A prosperidade é uma construção social. Estará perdendo dinheiro? Na realidade amplia a sua visibilidade, e ganhará mais com os convites que recebe. No ciclo econômico denso em conhecimento e com forma imaterial, precisamos equilibrar as tarefas remuneradas e as colaborativas, sabendo que à medida em que o conhecimento se torna o fator de produção mais importante do planeta, a dimensão não diretamente remunerada se amplia. São os novos equilíbrios em construção.

Não se trata aqui apenas de compartilhar uma música com os amigos, ou de colocar um filme no Youtube. Rifkin nos traz centenas de exemplos na área das finanças, com inúmeras redes peer-to-peer (P2P) permitindo fluxos financeiros entre quem tem recursos parados e quem deles precisa, escapando aos juros e tarifas escorchantes dos intermediários financeiros. Com a queda acelerada das células foto-voltáicas expande-se rapidamente a produção própria de energia nas casas das pessoas, e um processo de transferência em rede de excedentes. Na área da logística, onde grande parte das viagens dos caminhões, por exemplo, é feita sem carga, a generalização do acesso em rede de informações sobre quem tem carga e com que destino permite que o caminhão de uma empresa leve a carga de outra, otimizando os trajetos e reduzindo o desperdícios de combustível. Mesmo o proprietário individual do caminhão passa a pertencer a uma rede informativa em que o conhecimento dos fluxos permite melhorar o conjunto, sem esperar ordens superiores.

A própria publicidade está mudando de rumos. Em vez de comprar porque a publicidade paga diz que o produto é uma maravilha, o cliente aproxima o celular do código de barras, e aparece na tela uma lista de opiniões de pessoas que compraram o produto – inclusive já filtradas em termos de falsas opiniões pessoais que as empresas tentam introduzir. A migração da audiência de TV para a internet, sobre tudo na nova geração, levou a publicidade a migrar para este meio, mas com problemas, pois enquanto as pessoas se acostumaram à interrupção publicitária nos programas de TV, a intromissão de uma publicidade quando as pessoas navegam gera rechaço e irritação com a marca. Novos rumos. O denominador comum, é que a conectividade planetária e a primazia da dimensão imaterial do principal fator de produção está gerando novas regras do jogo.

Na visão de Rifkin, a rápida expansão desta nova economia leva a uma possibilidade de escaparmos do poder dos gigantes da intermediação e da filosofia da guerra econômica de todos contra todos, expandindo progressivamente os espaços de colaboração direta entre os agentes econômicos ao mesmo tempo produtores e consumidores, os famosos “prosumers”.

Otimismo exagerado? Talvez, mas o que tiramos de muito útil do livro não é saber se o futuro será mais ou menos cor de rosa, mas uma compreensão muito aprofundada das oportunidades que surgem para uma economia mais humana. Na obra de Rifkin ecoam evidentemente os trabalhos de Hazel Henderson sobre a “win-win society”, do Clay Shirky sobre o excedente cognitivo, do Tapscott sobre as articulações horizontais do Wikinomics e outros. A realidade é que há uma outra economia/sociedade em construção, e entender os mecanismos, além de instrutivo, é profundamente agradável.

À medida que entramos na economia do conhecimento as novas dimensões começam a se desenhar. Temos aqui excelentes aportes de Yochai Benkler, do James Boyle, ou o fantástico O futuro das ideias de Lawrence Lessig http://www.the-future-of-ideas.com/download/lessig_FOI.pdf . Sobre esta dimensão, Gar Alperovitz e Lew Daly escreveram o magistral livrinho Apropriação Indébita, publicado aqui pelo Senac http://dowbor.org/2010/11/apropriacao-indebita-como-os-ricos-estao-tomando-a-nossa-heranca-comum.html/ . Veja uma resenha dos diferentes aportes que apresentamos no artigo Da propriedade intelectual à economia do conhecimento, http://dowbor.org/2009/11/da-propriedade-intelectual-a-economia-do-conhecimento-outubro.html/