The God Delusion
Richard Dawkins, Houghton Mifflin Company (no Brasil, Cia das Letras, 2007), New York, 2006, 406 p., 13: 978-0-618-68000-9 (edição americana)

Algumas leituras são eminentemente saudáveis. O caso da religião, da fé, da existência ou não de Deus, além da imensa variedade de opções (diferentes deuses, diferentes religiões para cada um deles, diferentes textos considerados sagrados, diferentes escolas e agrupamentos religiosos dentro de cada religião) só podem induzir à confusão. Acrescente-se o fato óbvio de que o principal interessado (Deus ou deuses) nunca apareceu para defender o seu lado da história, o que autoriza personagens dos mais variados tipos a falar em seu nome, e temos, no mínimo, pano para amplas discussões.

Colocar em dúvida o conjunto deste universo de argumentos pode parecer blasfémia para os que crêem estar no único caminho certo, mas não deixa de ser interessante. Aliás, é interessante para todas as nossas certezas, pois o sentimento de ter a Verdade na mão, enquanto os “outros” estariam no mau caminho, é perigoso. Toda convicção deve ser moderada por uma pitada de ceticismo.

Neste sentido, acho extremamente útil, mesmo para os mais iluminados nas diversas religiões, ler o livro de Dawkins. Calmo e bem humorado, este cientista de primeira linha na área da biologia expõe a sua visão das coisas, e em particular as razões do seu ceticismo radical. E quando estamos convencidos de uma verdade, é ótimo dar uma olhada nos argumentos contrários. É mais do que ótimo, é correto.

O texto e a estrutura lógica são de altíssima qualidade, e o resultado é que já surgiu um manancial de livros e artigos buscando responder aos argumentos. Não estamos aqui perante uma retomada dos milenares debates filosóficos nos rarefeitos espaços da metafísica. Com um saudável pé no chão, Dawkins busca por exemplo os dados básicos sobre o impacto da religões em termos de comportamento ético, o seu uso e mal-uso para justificar guerras, o perigo que representa a deshumanização do inimigo como sendo “infiel” – portanto autorizando as piores violências – e assim por diante.

Os argumentos sobre a existência ou não dos mais variados deuses com que a humanidade povoa os ceus aparecem evidentemente. Neste plano, os argumentos são próximos do clássico de Bertrand Russell, “Porque não sou cristão?”, também uma belíssima leitura, ainda que curtinha e centrada na tênue fronteira entre a filosofia e a ciência.

Todos temos direitos às nossas crenças. Mas temos todos a obrigação de pensar cientificamente os impactos do que pode estar além da ciência, mas está presente nos comportamentos humanos. Muito mais do que eleger o caminho que consideraremos como “certo”, devemos entender as opções. A mensagem de Dawkins vai no sentido mais profundo na direção da tolerância humana, da construção de atitudes mais generosas. Eu senti o livro como uma saudável lição de anti-fundamentalismo, de bom senso nas suas diversas formas e dimensões.

E acho excelente ter aparecido a tradução pela Companhia das Letras, que produz edições muito bem cuidadas. Boa leitura…