Autor: Stephen Kinzer

Times Books, New York, 2006, 987-0-8050-7861-9,

Stephen Kinzer é um jornalista e pesquisador de renome, tendo dirigido durante longo tempo os escritórios do New York Times em diversos países. Já resenhamos neste site um excelente livro dele, “Todos os homens do Shah”, sobre o golpe de Estado no Irã que os Estados Unidos organizaram em 1953. Outro livro famoso dele é o estudo sobre o golpe de Estado na Guatemala (Bitter Fruit: the untold story of the American coup in Guatemala). O sucesso do autor se deve ao fato de ser muito bem documentado, ter excelentes contatos, escrever bem, e trazer análises críticas, mas equilibradas. Faz parte de um jornalismo investigativo de primeira linha que encontramos raramente.

Neste livro, Kinzer fez um balanço dos diversos estudos que realizou sobre os mecanismos de poder internacional dos Estados Unidos, e decidiu juntar os fios, apresentando uma visão de conjunto, um panorama histórico de intervenções americanas do final do século XIX até o presente conflito no Iraque. Cada capítulo contém os dados básicos de como se deu a intervenção, mas foca em particular os mecanismos de poder que levaram os EUA a derrubar diferentes governos em diversas épocas. Cada capítulo foi revisado com acadêmicos especializados na história dos respectivos países.

Foram deixados de lado os casos do Congo (golpe e assassinato de Patrice Lumumba), da Indonésia (derrubada do presidente Sukarno e instalação da ditadura Suharto) e do Brasil, “porque os agentes americanos jogaram apenas um papel subsidiário na derrubada dos seus governos nos anos 1960” (p.2) Os casos do México, do Haiti e da República Dominicana também foram deixados de lado, “países que os Estados Unidos invadiram mas cujos líderes não depuseram”.

O primeiro grupo de intervenções analisado é o da virada do século (por volta de 1900), quando se dão as intevenções no Hawaí, posteriormente anexado; em Cuba, ajudando o país a conquistar a independência da Espanha, mas aproveitando para alí instalar uma ditadura amiga; na Nicarágua, com a derrubada de Zelaya e assassinato de Sandino; no Panamá, para abrir espaço para o Canal; em Porto Rico, também posteriormente anexado; nas Filipinas, país conquistado em guerra sangrenta, onde depois se instalaria a igualmente sangrenta ditadura de Marcos. Esta é uma era basicamente de “flexão de músculos” de um país que descobre o seu poder, e abre espaços na aliança entre visões religiosas, interesses econômicos das corporações, e o eterno sentido de “destino manifesto” de grande potência.

O segundo grupo, mais recente, está mais diretamente ligado a uma conjugação de interesses econômicos das corporações transnacionais com o clima histérico da guerra fria. De certa forma, qualquer país que apresentasse alguma resistência aos interesses corporativos seria denunciado como instrumento do comunismo internacional. Kinzer apresenta o argumento forte de que personagens como Allende no Chile, Arbenz na Guatemala, ou Mossadegh no Irã representaram movimentos muito mais ligados ao nacionalismo, no sentido de recuperação das riquezas nacionais que estavam sendo espoliadas, do que a Moscou. No Irã tratava-se do petróleo, na Guatemala era a terra (apropriada pela United Fruit), no Chile era o cobre. No caso do Vietnã, com o assassinato do presidente Ngo Dinh Diem, a motivação era mais claramente geopolítca.

Kinzer fecha esta parte do livro com um capítulo muito rico (capítulo 9) de análise política das motivações americanas e de como se articularam interesses dos grupos políticos, econômicos e religiosos dos EUA. É uma análise extrtemamente bem articulada e documentada, que permite inclusive entender melhor processos atuais como a tentativa de golpe contra Chavez na Venezuela ou as tentativas de penetração militar na Colômbia.

Em particular, aparece como evidente o desconhecimento, por parte dos políticos americanos, da realidade diferenciada dos países do hemisfério sul (“não existem” dizia Kissinger). O resultado trágico, é que a guerra fria terminou por travar qualquer progresso social ou movimento de democratização dos países do Terceiro Mundo, pois todo programa social aparecia como pro-Moscou, e sofria as repressões correspondentes, semeando assim grande parte dos dramas atuais.

A terceira parte do livro analisa a folclórica “Guerra” sobre a ilhota de Granada, que permitiu ao presidente Reagan afastar o fantasma do Vietnã e proclamar ao mundo que “os nossos dias de fraqueza terminaram; as nossas forças militares estão novamente de pé, e bem alto” (p. 238) O sentimento seria reforçado com a segunda invasão do Panamá e o resgate de quem tinha sido durante décadas funcionário da CIA, o general Noriega. Claramente, o exercício da força militar apareceu aqui como essencial, inclusive porque oficiais panamenhos anti-noriega já tinham prendido o ditador antes da invasão, e quiseram entregá-lo, mas o general americano recusou: precisava de uma vitória militar.

A parte final analisa os processos atuais, mas à luz dos acontecimentos anteriores já apresentados. Isto é particularmente interessante, pois não é viável entender o que acontece com o Irã de hoje sem se referir ao golpe de 1953 e ao quarto de século de ditadura do Shah, que por sua vez descambou no obscurantismo atual. As dificuldades atuais no Iraque resultam por sua vez do apoio que os americanos deram a Hussein para invadir o Irã, e do apoio incondicional ao expansionismo israelense. Os dramas do Afganistão estão diretamente ligados ao objetivo, que na época pareceu esperto, de criar um “vietnã” soviético por meio do armamento e treinamento dos extremistas afegãos e paquistaneses.

Estas diversas pedras do mosaico tomam sentido, não que pertençam a alguma lógica estratégica, mas porque passa-se a entender os sucessivos conflitos e interesses que geraram o processo do terrorismo moderno: um fundamentalismo religioso retrógrado de um lado, e de outro a aliança da tradicional direita política americana, dos grandes grupos como Halliburton e Bechtel, e da direita religiosa americana. Aqui não há um lado bom e um lado mau, e sim uma trágica degradação onde cada lado justifica as suas atrocidades pelas ações do outro, enquanto a visão moderada da tolerância e da construção democrática perde espaço.

Acho francamente que se trata de um belíssimo trabalho, é muito bom documentado, e com a revisão de cada caso por historiadores especializados, temos um documento de primeira linha para entender como se “arquiteta” a política externa norte-americana, e como articulam os interesses dos grupos transnacionais. Tudo é sempre feito, naturalmente, no interesse dos respectivos povos, únicos ausentes de todo o processo, a não ser como vítimas.