Betrand Russell escreveu durante a II Guerra Mundial um belíssimo livro. É provável que o próprio horror da guerra que transcorria – ele que lutara tantos anos contra as guerras – o levou a repensar a visão que o ser humano tem do sentido das coisas. O resultado é um imenso panorama da eterna busca, que se repete de diversas formas com os gregos, os romanos, os filósofos medievais, a renascença, os românticos e não românticos, os homens das certezas e os dos pensamentos inseguros, enfim, as grandes escolas.

Como Russell foi ele mesmo um grande matemático e filósofo, com particular interesse pela lógica, o resultado não é um livro “escolar” com “classificações”, mas um passeio pelos principais eixos de pensamento, com idas e vindas entre as diversas épocas, dando sentido ao conjunto. A forma como o ser humano vive e revive os mesmos dramas, em diversos tempos, tende a gerar uma reação de ternura pela “pobre raça humana”, sempre em busca de uma racionalidade que lhe escapa, buscando a luz como as mariposas que não param de se chocar com as lâmpadas, incapazes de conciliar razão e emoção numa sociedade equilibrada.

Com 900 páginas, não é um livro de fim de semana. Mas é profundamente enriquecedor reencontrar as primeiras teorias sobre o átomo, a raízes culturais e históricas do cristianismo moderno, a frágil construção das visões científicas.

Fica de fora, naturalmente, um mundo que continua ausente da nossa cultura, que são os aportes das civilizações não “ocidentais”. Mas de toda forma o livro permite entender como as visões do Ocidente se formaram, e de certa forma se impuseram, para o bem ou para o mal. Russell sempre impressiona pelo “recúo” que consegue manter frente à realidade, inclusive frente a dramas como o hitlerismo que vive no momento de escrever o livro: tranquilidade, a eterna suave ironia dos seus escritos, muita compaixão.

De toda forma, quanto mais se borram os nossos horizontes, mais vale a pena dar uma olhada para trás. Se o caminho para a frente não está claro, pelo menos entendamos os rumos que temos trilhado. O livro me acompanhou durante um mês, um grande livro bem escrito pode parecer bem curto, enquanto um pequeno artigo mal escrito às vezes parece levar uma eternidade.

Se não quiser enfrentar, compre para o seu filho, ou sua filha. E se não maneja o inglês, pegue uma versão mais leve publicada em português, sob o título de História do Pensamento Ocidental, Ediouro, 2004, com 550 páginas e ilustrações. O livro completo existe em espanhol.