Share on Facebook16.1kShare on Google+0Tweet about this on TwitterPin on Pinterest0Email this to someonePrint this page

É natural que uma empresa de transporte escolar se preocupe em saber se o motorista bebe. Mas também é natural que um motorista possa tomar os seus tragos com os amigos no fim de semana sem se preocupar, e ser um funcionário responsável na hora do trabalho. O problema é que as tecnologias de vigilância dentro e fora do espaço do trabalho estão se tornando tão amplas e tão baratas, que as empresas, particularmente as grandes, simplesmente não resistem. Na dúvida, preferem saber tudo.

Frederick Lane não tem nada contra as empresas. Muito menos a AMACOM quepublica o livro. Mas Lane estuda o problema, e nos traz um livro bem documentado sobre o que está acontecendo nas empresas norte-americanas, informação que aliás também pode nos sugerir algumas idéias sobre o está acontecendo entre nós. Há uns tempos atrás, o Business Week mostrava que a vigilância de trabalhadores no emprego constitui a área de software em expansão mais acelerada.

Os sistemas são impressionantemente variados. A UltraClenz instala na sua empresa um sistema de sensores que monitora o tempo que você gastou em cada segmento da complexa operação de lavar as mãos, o gasto de sabão, o número de toalhas de papel, e a vítima recebe em viva voz as instruções correspondentes. Isto para empresários que gostam de tudo limpo.

Mas há também as empresas que gostam se saber se por acaso você não fumou maconha no fim de semana, e tornaram o teste de urina uma prática regular. Como a liberdade empresarial é inesgotável, já surgiram empresas que vendem urina limpa. Conhecendo este novo estratagema, as empresas passaram então a revistar as pessoas antes do teste, para se assegurar que elas não estão levando urina limpa no bolso. Por sua vez, a empresa Assured Testing Resources passou a vender uma pílula de urina concentrada que você derrete num copo, e que passa por qualquer revista. Os criativos departamentos de RH passaram então a observar as pessoas no ato de, digamos, criação da amostra.

Nada derrota a classe operária, que hoje pode comprar um “whizzinator”, produto que acopla uma pequena bomba com um pênis artificial, que vem em cinco tonalidades de pele, e que permite ao zeloso encarregado assegurar a seu chefe que “viu” tudo, e permite ao empregado manter o seu emprego. O whizzinator custa 150dólares. O Pib sobe. Um senhor Donald Milligan, preso em 2002 com o dito instrumento, foi acusado de “posse de instrumentalidade forjada” pela justiça de Missouri. O orgulhoso segurança responsável pela descoberta da fraude atribuiu o seu sucesso ao “treinamento que recebeu na observação tanto da aparência como do ruido da urinação”. São seguramente as chamadas novas competências.

O que parece divertido não é necessariamente divertido. O teste de urina detecta também doenças, gravidez e condições gerais do empregado, e como os laboratórios valorizam os contratos que têm com as empresas, não se privam de comunicar tudo que pode interessá-las. Muitas empresas, nos Estados Unidos, oferecem planos corporativos de saúde, e gostam de poder detectar antecipadamente eventuais problemas que o empregado potencialmente apresenta. Isto tem levado a inúmeras demissões para economizar dinheiro dos planos de saúde corporativa.

Como a saúde do empregado pode representar um custo potencial para a empresa, a justiça americana passou a considerar que o direito da empresa investigar o estilo de vida dos empregados, dentro ou fora da empresa, deve ser assegurado. Com isto surge um grande mercado de empresas de investigação de trabalhadores. A Talx Inc., disponibiliza o serviço Work force que mantém fichas sobre 70 milhões de empregados.

Um segundo eixo de motivação que leva à investigação dos empregados é a construção da imagem da grande empresa, da “marca”. A lógica que levou a justiça americana a favorecer mais levantamentos sobre os empregados é que a marca faz parte do patrimônio da empresa, e se uma pessoa se comporta de maneira inadequada num jogo de futebol ou numa festa, está prejudicando a imagem da empresa, portanto ocasionando danos a uma propriedade privada. Com isto o que se define amplamente como “estilo de vida” passa a ser legalmente do interesse do empregador.

Um outro eixo que despontou recentemente, e que acelerou todo o processo, é o gigantesco clima de espionagem que se instalou no país depois dos atentados às torres de Nova Iorque. Os sucessivos programas nacionais como o TIA (Total Information Awareness) no quadro da “homeland security” levaram a um acordo entre as empresas, que pelo convívio diário podem recolher um manancial de informações sobre os seus trabalhadores, e os sistemas de segurança do Estado. Com este respaldo, as empresas se sentiram cobertas para recolher toda e qualquer informação que lhes pareça util, inclusive para o seu próprio uso, e por razões patrióticas.

Lane não é nenhum extremista. A sua visão é de que se deve buscar um razoável equilíbrio entre a legítima preocupação da empresa em saber com quem está trabalhando, e o direito do trabalhador, uma vez que cumpra a sua obrigação de fornercer um trabalho decente, fazer da sua vida o que bem entende: “If personal privacy is something we truly value, however, we need to bring that resistance to surveillance into the workplace, and find ways to balance the legitimate interests of the employers with the equally valid privacy interests of employees”. (272)

O problema é que juntando os interesses (e o manancial de informações) dos planos de saúde, a perquisição dos marketeiros na defesa da marca, e a obsessão do governo em transformar empresas em extensões de mecanismos de segurança, o resultado é tudo menos equilibrado. E quem protesta depara-se imediatamente com um olhar de suspeita: segundo John Major, ex-primeiro ministro britânico, “se você não tem nada para esconder, não tem nada a temer”. O reverso implícito, é que se você é contra a vigilância…

Lane descreve em detalhes um fator crítico no aprofundamento do desequilíbrio, que é a tecnologia. Os problemas que surgem vão desde a clássica observação de banheiros femininos ou masculinos – hoje as câmeras podem ser literalmente invisíveis – até a comunicação das informações dos cartões de crédito que permitem que se saiba que medicamento você compra, ou que revista você lê, e de que tendência.

As empresas fornecem frequentemente um computador para você trabalhar em casa. Com o computador você leva todo um sistema de monitoramento do seu uso do computador, sequenciamento de teclas, acessos internet, horários de uso e assim por diante. Com isto, borra-se a distância entre a privacidade do lar e o espaço de trabalho, e a vigilância do que se faz em casa passa a fazer parte do interesse do empregador. A simpática Raytheon (que vigia a nossa Amazônia), vende um programa de vigilância chamado SilentRunner, que observa tudo que você faz no computador.

Hoje empresas já fornecem gentilmente o celular da empresa, com GPS incorporado, que permite seguir de maneira detalhada não só com quem você fala, mas onde está. O localizador de idenficação por frequência de rádio (RFID – Radio Frequency Identification) permite ultrapassar as limitações do GPS em locais fechados. O sistema “Active Badge” que o empregado usa obrigatoriamente emite um sinal infravermelho que emite um sinal com código único a cada 15 segundos. A pessoa que se livra do localizador para ter um pouco de privacidade se torna evidentemente suspeita, e alvo de maior vigilância.

O casamento da tecnologia GPS com o RFID levou ao surgimento de inúmeras empresas que oferecem serviços de vigilância. O Digital Angel – nome sinistro – custa 400 dólares, mais 25 dólares por mês para vigiar empregados ou filhos. O romântico “My Child Tracker”, da Cellpoint, permite aos pais visualizar no seu celular um mapa e o lugar onde está o celular do filho (e possivelmente o próprio). Perguntar ao filho onde está é evidentemente uma prática ultrapassada.

É de se pensar, naturalmente, que tipo de clima social estamos gerando com essa corrida. O uso deste tipo de tecnologia é seguramente mais barato e simples do que a construção de relações responsáveis e decentes na empresa, o desenvolvimento da ética e da transparência. E a eficiência não é necessariamente tão segura: já que se trata do vale-tudo, cada um vai buscar como burlar o sistema, como prejudicar a máquina.

Lane oferece um critério prático: as empresas devem limitar a informação ao que está diretamente e razoavelmente ligado à nossa abilidade de fazer o nosso trabalho. O resto é abuso.

No final do livro encontramos um conjunto de sites que lidam com o assunto, e que podem interessar o leitor: as pessoas estão se organizando, pois, nas palavras do autor, “a privacidade no emprego não é algo que será protegido efetivamente por forças do mercado” (276). Um bom site seria www.aclu.org (American Civil Liberties Union), ou ainda www.epic.org (Electronic Privacy Information Center), www.privacyrights.org (Privacy Rights Clearinghouse), e outros sites listados nas páginas 275 e 276.

Boa leitura. Em tempo: saiu na imprensa americana a revolta de alunos de uma escola onde se tornou obrigatório cada aluno levar pendurado no pescoço um localizador eletrônico. “Não somos vacas” disseram os alunos, que destruiram os equipamentos. Outras escolas já se interessaram.