A sociedade desigual: racismo e branquitude na formação do Brasil
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A sociedade desigual: racismo e branquitude na formação do Brasil

Há livros que marcam, e este seguramente é um deles. Um estudo em profundidade, bem organizado, com fontes sólidas, muito bem escrito, e tratando de um tema essencial para o Brasil: a dimensão racial das desigualdades. Leitura fundamental não só para entender o racismo, mas para entender o Brasil.
Autor
Mario Theodoro
Tamanho
448 páginas
Editora
Ano
2022
ISBN
9786559790524

Há livros que marcam, e este seguramente é um deles. Um estudo em profundidade, bem organizado, com fontes sólidas, muito bem escrito, e tratando de um tema essencial para o Brasil: a dimensão racial das desigualdades. Leitura fundamental não só para entender o racismo, mas para entender o Brasil. 

Alguns dados básicos, que me traz Gracielle da Silva, que menciono apenas para lembrar a que ponto se trata de uma dimensão estrutural: De acordo com o informativo “Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil”, divulgado pelo IBGE, 55,8% da população se declarou negra em 2018. Entretanto, quando se observa o grupo dos 10% com maior rendimento per capita, 70% são brancos enquanto apenas 27,7% são negros. Quando se observa o grupo dos 10% com menor rendimento, a proporção se inverte: 75,2% são negros e 23,7% são brancos. Apenas 11,9% das pessoas que ocupam cargos gerenciais são negras ou pardas. Entre os brancos, esse percentual sobe para 85,9%. Ainda de acordo com o mesmo informativo do IBGE, o rendimento médio do negro é de R$ 934 e o do branco é de R$ 1.846. Estamos falando de mais da metade da população do país. 

Mas ainda que tais dados apareçam no trabalho de Mário Theodoro, a centralidade está no sistema articulado de reprodução das desigualdades, entendidas no plural, nas dimensões políticas, culturais, sociais, econômicas. “Decerto existem muitos elementos de relevo na reprodução da sociedade desigual, e o leitor talvez se lembre de alguns; enfocarei e analisarei historicamente aqueles considerados seus principais potencializadores: o mercado de trabalho, os sistemas de saúde e de educação, a distribuição espacial da população e, ainda, a ação da Justiça e as políticas de segurança pública. Nesse sentido é importante assinalar que o objetivo central deste trabalho não é descrever dados de desigualdade racial, em muito já conhecidos, pois difundidos por vários e qualificados estudos. O objetivo aqui é apresentar e analisar as complexas dinâmicas de produção e reprodução dessas desigualdades no sentido de formatar e consolidar a sociedade desigual assentada no racismo.”(27) 

A indignação perpassa naturalmente o texto, de forma direta e sem rodeios: “O Brasil cresceu como poucos países no século XX, e a desigualdade manteve-se inerte, em detrimento da população negra. Uma das mais importantes economias do mundo sustenta um dos países mais desiguais do globo. Meninos pretos morrem aos milhares, meninas pretas se prostituem. Inúmeras famílias negras vivendo em lixões a céu aberto. Definitivamente, a desigualdade brasileira tem uma forte clivagem racial.”(88) 

Mas a indignação se traduz por sua vez numa análise sólida dos componentes, ou vertentes: “Forjaram-se no território brasileiro todos os ingredientes necessários à formação da sociedade desigual: o racismo como ideologia dominante, o preconceito e a discriminação racial como práticas sociais corriqueiras, a branquitude e a valorização do branco e, no caso da ação do Estado, o biopoder que flagela e a necropolítica que mata”. 

Isso afeta a sociedade como um todo: “Negros e brancos são todos reféns dessa desigualdade, que forja uma sociedade anômala”.(89) Ao recorrer aos conceitos de racismo e branquitude, o texto permite visualizar não só como tantos brancos vêm o negro: colocar o negro abaixo de si lhes permite se sentirem superiores, o orgulho da branquitude, que perpassa tantos países e tantas políticas. Inclusive de brancos pobres que compensam as suas humilhações encontrando quem oprimir. Lembremos que a KKK norte-americana chegou a ter 4 milhões de membros registrados. 

A explicitação e detalhamento de como essa desigualdade se reproduz, e se potencializa com o racismo, é essencial para entender esse círculo vicioso, em que as diversas dinâmicas que reproduzem a opressão e pobreza, por meio de políticas que sempre se atualizam e modernizam, permitem confirmar na mente racista de que se trata de inferioridade racial. Isso é importante, e volta em diversas partes do livro, de que as economias se modernizam, mas a dinâmica permanece. Lembremos que na captura, transporte e inserção inicial no trabalho foram mortos mais de 5 milhões de negros. “Até hoje nem o tráfico negreiro nem a própria escravidão foram objeto de autocrítica das nações que deles se beneficiaram, seja no sentido de reparar ou mesmo no de desculpar-se junto ao povo negro e honrar o seu martírio.”(280) 

Hoje a desigualdade é reproduzida de maneira sistêmica, e o racismo está inserido no conjunto das políticas e das instituições, não só na mente dos racistas. Theodoro resume: “Com o progressivo avanço da violência nos territórios de concentração da população negra, o conjunto de seus moradores – e não apenas os jovens e homens negros – é submetido a um amplo cerceamento de direitos. Ao lado da violência inscrita na limitação do acesso a uma moradia condigna, a uma renda minimamente capaz de garantir sua manutenção e a de seus dependentes, a um sistema de saúde decente, a uma educação de qualidade, somam-se outras violências – como o constrangimento do direito de ir e vir, do direito à inviolabilidade do domicílio e à prisão regular, cumpridos os preceitos e as prerrogativas individuais que dão base ao Estado de direito.”(303) 

Não se trata evidentemente só do Brasil e só da escravidão. Até ontem o chamado Ocidente tolerava o apartheid, prisões e massacres na África do Sul. Só recentemente os tribunais da Grã-Bretanha reconheceram os massacres e tortura generalizados na colonização do Quênia. Quem são os selvagens? Hoje diversas ex-colônias não pedem ajuda, pedem reparações. O Black Life Matters abre caminhos de conscientização. Na segunda metade do século 19, gerou-se no mundo uma nova cultura, a de que a escravidão, que havia durado séculos, era inaceitável, desumana. No Brasil, o negro se tornou livre, mas se lhe travou o acesso à terra. Como discursou um senador no início da república, “se tiverem acesso às terras, quem cultivará as nossas?”

Neste país que produz hoje amplamente o suficiente para todos viverem de maneira digna e confortável, essa patologia social que constitui o racismo, nas suas diversas dimensões, tem de ser visto e denunciado como barbárie, e ser enfrentado com políticas ativas de transformação. Temos de sair desse emaranhado pré-histórico que trava o desenvolvimento e nos envergonha. É uma questão elementar de dignidade, de decência humana. Theodoro não escreve, mas eu sugiro: trata-se também de imbecilidade. 

Um dos aportes essenciais deste livro, que aparece no próprio título, é a inserção da questão do negro no conjunto das nossas contradições: é “A Sociedade Desigual” e não apenas “racismo”. Este enfoque sistêmico das nossas desigualdades, que parte da questão do negro mas abre para o escândalo mais amplo das desigualdades em geral, aponta, no horizonte político, para uma convergência das nossas lutas, no enfrentamento do conjunto das humilhações que vivemos, racial, mas também de gênero, de opções sexuais, de território (periferias!), regionais, e nas suas diversas dimensões, ética, econômica, política, social, cultural. Trata-se de sair da pré-história, de resgatar a nossa dignidade humana.  

O Brasil é rico em narrativas para justificar o injustificável. Neste livro amplo (450 páginas) mas de leitura que flui, o leitor encontrará os dados, argumentos e precisão conceitual para que o país se civilize. A desigualdade tem no negro (e no indígena) as suas vítimas principais, mas o problema é de todos nós, e em particular desta “Elite do Atraso” que nos governa e que Jessé Souza tão bem caracteriza.  

Belíssima leitura, uma ferramenta poderosa para todos nós.  

 

 

 

Uma resposta

  1. negros x branco X pardos

    com nossa sociedade miscigenada, esses números levam em consideração o fenótipo ou o genótipo
    temos filhso negros de pais brancos e filhos brancos de pais negros
    não sei como alguém consegue calcular tão perfeitamente essa proporção na prática

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