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Como os EUA foram do capitalismo familiar ao feudalismo tecnológico
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Como os EUA foram do capitalismo familiar ao feudalismo tecnológico

A crise de 2020 criou a maior desigualdade de riqueza na história. A classe média, o capitalismo e a democracia estão sob ameaça. O que deu errado e o que pode ser feito?
Autor
Ellen Brown
Tamanho
2 páginas
Originalmente publicado
Data
24 de maio, 2021
Jeff Bezos
Jeff Bezos é um dos maiores beneficiados pelo novo sistema tecno-feudal (Daniel Oberhaus)
Ellen Brown

*Publicado originalmente (em inglês) em ‘Scheerpost‘ | Tradução de Carlos Alberto Pavam

Em questão de décadas, os Estados Unidos foram de uma forma de capitalismo benigno para uma neofeudal que tem criado um desnível cada vez maior na riqueza e no poder. Em seu livro de 2013 O capital no século XXI, o economista francês Thomas Piketty declarou que “o nível de desigualdade nos EUA é provavelmente o mais alto de qualquer sociedade em qualquer tempo no mundo.” Em um podcast de 2014 sobre o livro, Bill Moyers comentou:

Aqui está uma de suas extraordinárias deduções: Estamos agora caminhando para um futuro dominado pela riqueza herdada, na medida em que o capital está concentrado em um número cada vez menor de mãos, dando aos muitos ricos um poder cada vez maior sobre a política, o governo e a sociedade. O nome disso é capitalismo patrimonial e ele tem potencialmente consequências terríveis para a democracia.

Paul Krugman defendeu no mesmo podcast que os Estados Unidos estão se tornando uma oligarquia, uma sociedade de riqueza herdada, “o mesmo sistema contra o qual nossos pais fundadores se revoltaram”. Enquanto a situação apenas piorou desde então, graças à crise econômica de 2020, vale a pena resgatar a história que nos trouxe a este volátil momento.

 crise de 2020 criou a maior desigualdade de riqueza na história. A classe média, o capitalismo e a democracia estão sob ameaça. O que deu errado e o que pode ser feito?

O tipo de capitalismo sobre o qual os Estados Unidos foram originalmente construídos tem sido chamado de capitalismo familiar. Famílias tinham a propriedade de suas fazendas e pequenas empresas e competiam umas com as outras num campo de jogo mais ou menos nivelado. Foi uma forma de capitalismo que se libertou do modelo feudalista e refletia valores inovadores definidos na Declaração de Independência e na Carta de Direitos: que todos os homens são criados iguais e são dotados por seu Criador de direitos inalienáveis, incluindo o direito à liberdade de expressão, liberdade de imprensa, de crença e assembleia; e o direito de não ser privado da vida, liberdade ou propriedade sem um devido processo.

Era bom na teoria, mas havia gritantes, desumanas exceções a este modelo idealizado, incluindo o confisco de terras da população indígena e a escravidão que prevalecia. Os escravos foram emancipados pela Guerra Civil dos EUA; mas enquanto eles foram libertados como pessoas, não eram economicamente livres. Eles continuaram presos na servidão econômica. Apesar de as comunidades negra e indígena serem desproporcionalmente oprimidas, todos os pobres foram capturados num tipo de “servidão contratada” – a obrigação de servir para pagar dívidas, isto é, o débito dos trabalhadores irlandeses com a passagem para os Estados Unidos e o débito dos meeiros (dois terços dos quais eram brancos) que tiveram de pegar empréstimos a juros dos senhores de terra para comprar terra e equipamentos. Hoje o sistema prisional estadunidense também tem sido classificado como uma forma de escravidão, onde trabalho gratuito ou barato é extraído de pobres negros.

Para os credores, o cativeiro econômico na verdade tinha certas vantagens sobre a escravidão (direito de ter humanos como propriedade). Segundo um infame documento chamado Circular de Hazard, divulgado por interesses bancários britânicos entre seus colegas americanos durante a Guerra Civil dos EUA:

A escravidão provavelmente será abolida pelo poder da guerra. Isto agrada a mim e a meus amigos europeus, pois a escravidão nada mais é do que a posse do trabalho e traz consigo cuidados com os trabalhadores, enquanto que o plano europeu, liderado pela Inglaterra, é de o capital controlar o trabalho controlando os salários.

Escravos tinham de ser abrigados, alimentados e cuidados. Homens “livres” têm de se abrigar e alimentar por conta própria. Homens livres podiam ser mantidos escravizados através das dívidas, pagando a eles salários insuficientes para arcar com o custo de vida.

Do ‘capitalismo industrial’ ao ‘capitalismo financeiro’

A economia quebrou na Grande Depressão de 1929, e o governo de Franklin D. Roosevelt a reparou e reconstruiu o país por intermédio de uma instituição pública chamada Corporação Financeira de Reconstrução. Depois da Segunda Guerra Mundial, a classe média dos EUA prosperou. Pequenos empresários competiam num campo de jogo mais ou menos nivelado semelhante ao capitalismo familiar dos primeiros pioneiros. Enquanto isso, grandes corporações se envolviam com o “capitalismo industrial” no qual o objetivo era produzir bens reais e serviços.

Mas a classe média, considerada a espinha dorsal da economia, foi progressivamente corroída desde a década de 1970. O golpe da Grande Recessão de 2008 e o que o FMI tem chamado de o “Grande Lockdown” jogaram novamente muito da população em uma servidão contratada; enquanto o capitalismo industrial foi no geral deslocado pelo “capitalismo financeiro”, no qual dinheiro gera dinheiro para aqueles que o tem, “enquanto dormem”. Como explica o economista Michael Hudson, o objetivo é a renda de investimento, não de produtividade. Corporações pegam empréstimos baratos de 1% ao ano, não investem em maquinário nem em produção, e o usam para comprar ações pagando 8% ou 9% ao ano, ou empresas menores, eliminando a competição e criando monopólios. O ex-ministro da Finanças grego Yanis Varoufakis explica que “capital” tem sido dissociado da produtividade: empresas podem fazer dinheiro sem ter lucros com seus produtos. Como Kevin Cahill descreveu a dificuldade das pessoas hoje em seu livro Who Owns the World?:

Esses faraós dos últimos dias, os donos do planeta, os 5% mais ricos – fazem com que o resto de nós pague todo dia pelo direito de viver no planeta deles. E à medida que o fazemos mais ricos, eles compram ainda mais do planeta para eles, e usam sua riqueza e poder para brigar entre eles por mais riqueza – apesar de, naturalmente, sermos nós que temos de lutar e morrer na guerra deles.

O nocaute de 2020

O golpe final na classe média veio em 2020. Nick Hudson, co-fundador da companhia de análise de dados PANDA (Pandemics, Data and Analysis, ou Pandemia, Dados e Análise), argumentou em uma entrevista após uma palestra em uma conferência sobre investimentos em março de 2021:

Lockdown é a mais regressiva estratégia já inventada. O rico se tornou muito mais rico. Trilhões de dólares de riqueza foram transferidos para os ricos… Nenhum país fez uma análise de custo/benefício antes de impor a medida.

Formuladores de políticas seguiram as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) baseadas em modelos preditivos feitos pelo Imperial College London, que posteriormente provaram ser totalmente imprecisos. Em estudos posteriores concluiu-se que lockdowns não têm efeito em significativo número de casos e que o custo deles superam substancialmente os benefícios, em termos não apenas de custo econômico, mas em vidas.

No front econômico, lockdowns globais eliminaram a competição de pequenas e médias empresas, permitindo o crescimento de monopólios e oligopólios. “O maior perdedor de tudo isso é a classe média”, escreveu Logan Kane no serviço de conteúdo financeiro Seeking Alpha. Em maio de 2020, cerca de um em cada quatro americanos estava desempregado, com quase 40 milhões deles entrando com pedido de seguro desemprego, e 200 mil negócios a mais do que a média histórica anual sendo fechados. Enquanto isso, os bilionários dos EUA aumentaram seu patrimônio coletivo em US$ 1.1 trilhão nos últimos 10 meses de 2020, e 46 novas pessoas entraram no clube dos bilionários.

O número de “centi-bilionários” – indivíduos com fortuna avaliada em US$ 100 bilhões ou mais – também cresceu. Nos EUA, eles incluem:

Jeff Bezos, prestes da ser ex-CEO da Amazon, cujo patrimônio cresceu de US$113 bilhões em março de 2020 para US$182 billion em março de 2021, crescimento de US$ 70 bilhões em um ano;

Elon Musk, CEO da Tesla e SpaceX, cuja fortuna subiu de US$25 bilhões em março de 2020 para US$164 bilhões em março de 2021, US$ 139 bilhões a mais em um ano; e

Bill Gates, ex- CEO da Microsoft e considerado atualmente o “czar global da vacina”, que tinha uma fortuna de US$124 bilhões em março de 2021, um crescimento de US$ 26 bilhões em um ano.

Dois outros são quase centi-bilionários:

Mark Zuckerberg, CEO da Facebook, que tinha US$55 bilhões em março de 2020 passou a ter US$95 bilhões em março de 2021, US$ 40 bilhões a mais em um ano; e

Warren Buffett, da Berkshire Hathaway, cuja fortuna cresceu US$ 27, 6 bilhões em um ano, de US$68 bilhões em março de 2020 para US$95 bilhões em março de 2021.

Esses cinco indivíduos acresceram coletivamente US$ 300 bilhões a suas fortunas apenas em 2020. Em perspectiva, seria o suficiente para criar 300 mil milionários ou para dar US$100 mil para 3 milhões de pessoas.

Filantropo-capitalismo

A necessidade de proteger de impostos a classe dos multibilionários e para transformar a imagem de corporações predatórias deles surgiu uma nova forma de capitalismo, chamado “filantropo-capitalismo”. Riqueza é transferida para fundações ou sociedades de responsabilidade limitada que teriam objetivos de caridade, mas continuam sob propriedade e controle de seus doadores, que podem investir os fundos de forma que interessem às suas corporações. Como destacou The Reporter Magazine, do Rochester Institute of Technology:

Na essência, o que estamos testemunhando é a transferência de responsabilidade por bens e serviços públicos de instituições democráticas para os ricos, para serem administradas pela classe executiva. No mundo de CEOs, o exercício de responsabilidades sociais não é mais debatido em termos de se as corporações deveriam ou não ser responsáveis por mais do que apenas seus interesses de negócios. Na verdade, a discussão é como a filantropia pode ser usada para reforçar o sistema político-econômico que permite que tal pequeno número de pessoas acumule quantidade obscena de riqueza.

Com US$100 bilhões, praticamente tudo pode ser comprado – não apenas terras e recursos, mas a mídia e jornalistas, influência política e legislações, agências reguladoras, departamentos de pesquisa e laboratórios universitários. Jeff Bezos é agora dono do jornal The Washington Post. Bill Gates não é apenas o maior financiador da OMS e do Imperial College London, mas também o maior proprietário de terras aráveis nos EUA. E a fabricante aeroespacial Space X de Elon Musk efetivamente privatizou os céus. Astrônomos e observadores de estrelas reclamam que os milhares de satélites que ele já lançou, e os muitos mais a caminho, estão bloqueando a visão dos cosmos. A professora de astronomia Samantha Lawler escreveu em um artigo para The Conversation:

SpaceX já recebeu autorização para lançar 12 mil satélites Starlink e busca aprovação para mais 30 mil. Outras companhias não ficam muito atrás […] Apoiadores do Starlink dizem que ele vai permitir acesso à internet em locais do globo que atualmente não são servidos por outras tecnologias de comunicação. Mas informação disponível mostra que o custo do acesso será alto demais em praticamente toda localidade que necessita de acesso à internet […] Com a autorização de lançamento de dezenas de milhares de satélites, e nenhuma lei regulamentando o engarrafamento em nossa órbita, o direito de passagem e a limpeza do espaço, é grande a possibilidade de ocorrer a Sindrome de Keller, o choque entre satélites que provocaria um efeito cascata, com destroços destruindo a maioria dos satélites em órbita e impedindo novos lançamentos por décadas…. Grandes corporações como SpaceX e Amazon só responderão se houver uma legislação — o que é lento, especialmente em âmbito international — e à pressão dos consumidores […] Nossa espécie tem observado as estrelas por milhares de anos, nós realmente queremos perder acesso agora pelos lucros de algumas poucas grandes corporações?

Grupos de defesa pública, como o Cellular Phone Task Force, têm feito objeções baseados em preocupação sobre o efeito do aumento de radiação eletromagnética para a saúde. Mas as pessoas têm pouca influência na definição de políticas públicas nos dias de hoje. Num artigo na Foreign Affair de janeiro de 2021, o professor de Princeton, Martin Gilens, escreveu:

Os cidadãos virtualmente não têm influência sobre o que o governo dos Estados Unidos faz… A formulação de políticas governamentais nas últimas décadas refletem a preferência… das elites econômicas e de interesses organizados.

Varoufakis chama nosso atual estágio econômico de “pós-capitalismo” e “tecno-feudalismo”. Como no modelo feudal medieval, os bens são propriedade de poucos. Ele destaca que o mercado de ações e os negócios dentro dele são no essencial controlados por três companhias – os gigantescos fundos de investimento BlackRock, Vanguard e State Street. Pela controversa “Grande Reinicialização” defendida pelo Fórum Econômico Mundial, você não terá propriedade de nada e será feliz. Em consequência, tudo será propriedade de senhores feudais tecnos.

De volta aos trilhos

O modelo capitalista claramente saiu dos trilhos. Como fazê-lo retornar? Uma opção óbvia é taxar os super-ricos. Como escreveu Chuck Collins, em um artigo de 2021:

Um imposto sobre a fortuna iria reverter mais de meio século de redução de impostos para as famílias mais ricas. Os bilionários viram seus impostos declinarem uns 79% desde 1980. A “taxa efetiva” sobre a classe dos bilionários – a porcentagem real paga – foi de 23% em 2018, menor do que para a maioria dos contribuintes de renda média.

Ele destacou que a senadora democrata Elizabeth Warren apresentou um projeto visando cobrar um imposto anual de 2% sobre a riqueza, começando com US$50 milhões e elevando para 3% sobre fortunas maiores do que US$1 bilhão.

O imposto, que iria incidir sobre menos de 100 mil moradores dos EUA, arrecadaria estimados US$ 3 trilhões em uma década, Ele seria pago integralmente por multimilionários e bilionários que ficaram com a parte do leão das riquezas produzidas nas últimas quatro décadas, incluindo durante a pandemia.

Varoufakis argumenta que, entretanto, taxar fortunas não será suficiente. Precisa haver uma revisão do modelo corporativo em si. Segundo ele, para se criar um capitalismo “humanista” a democracia tem de ser levada para o mercado.

Politicamente, um adulto tem direito a um voto. Mas nas eleições corporativas, o peso do voto depende do investimento financeiro: quanto maior o investidor mais votos ele tem. Varoufakis argumenta que o princípio adequado para reconfigurar a propriedade das corporações para uma sociedade de mercado seria um empregado, uma ação (não negociável), um voto. Com base nisso, diz ele, podemos imaginar como alternativa ao nosso modelo pós-capitalista uma sociedade democrática baseada no mercado sem capitalismo.

Outra solução proposta é um imposto sobre o valor da terra, restaurando pelo menos uma parte da terra como “bem comum”. Como observou Michael Hudson:

Tem um calcanhar de Aquiles na estratégia dos globalistas, uma opção que permanece aberta aos governos. Esta opção é um imposto sobre a receita de aluguel – a “renda não auferida” – de terras, recursos naturais e ações de monopólio.

A reforma do sistema bancário é também outra importante ferramenta. Bancos operando como uma utilidade pública poderia alocar crédito para atividades produtivas servindo os interesses públicos. Outras possibilidades incluem a aplicação da legislação antimonopólio e a reforma da lei de patentes. Entretanto, talvez a falha esteja no próprio modelo capitalista competitivo. Os vencedores irão inevitavelmente capturar e explorar os perdedores, criando uma divisão crescente na riqueza e poder. Estudos de sistemas naturais têm mostrado que modelos cooperativos são mais eficientes do que os competitivos. Isto não significa o tipo de “cooperação” coercitiva com um totalitarismo mão de ferro no topo. Precisamos estabelecer regras que verdadeiramente nivelem o campo de jogo, recompense produtividade e maximize benefícios para a sociedade como um todo, ao mesmo tempo em que preserve os direitos individuais garantidos pela Constituição dos EUA.

3 respostas

  1. A China dá um bom exemplo no plano econômico de como o capitalismo pode conviver com o planejamento. No plano político ela resolveu a questão com um regime de partido único que não se adequa à maioria dos países. Esse é o desafio. Como adequar as soluções da China a um estado democrático?

  2. O objetivo principal do capitalismo continua sendo o lucro. Como apostar em capitalismo humanista? Capitalismo sem mercado ? Então é economia planificada.

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