Resolver os problemas da economia a partir da própria economia está cada vez mais problemático. Christian Comeliau, neste texto de poucas páginas, esboça o óbvio: a economia só se resolve ao resolvermos ancorá-la nos objetivos mais amplos da sociedade, na sustentabilidade, no bem viver, na sociedade mais harmoniosa porque menos desigual. Ao recolocarmos no centro da pauta os objetivos reais da sociedade e dos indivíduos, a economia volta a um lugar mais modesto, e a principal deformação da atualidade, que é a dominância esmagadora das dinâmicas econômicas sobre tudo mais, pelo movimento próprio e pela dimensão de apropriação do poder político e cultural. Emerge da análise de Comeliau uma visão muito mais clara deste conceito fugidio, o “desenvolvimento”, no sentido mais pleno. Um belo trabalho, de um cientista muito experimentado. A tradução do francês é de Fernando Kolleritz. (L. Dowbor)

 

Situar melhor a economia na sociedade

 

                                                            Christian Comeliau (abril 2010)[1]

 

Introdução: qual é o problema?

Gostaria de abordar aqui uma questão que me parece essencial, mas que pode parecer também surpreendente. Trata-se do lugar da economia na sociedade: este lugar, que é hoje extremamente importante nas nossas preocupações cotidianas, não será excessivo, desproporcional, eticamente indefensável? E se reconhecermos que assim é, será possível imaginar seriamente reduzi-lo sem sacrifícios consideráveis, e até mesmo sem renunciar às condições materiais elementares da vida em sociedade e às exigências legítimas do progresso social?

Vou primeiro explicar como e porque cheguei a tal pergunta, antes de situá-la melhor frente ao pensamento mais comum neste domínio. Passei a maior parte de minha vida profissional trabalhando, enquanto economista, sobre o “desenvolvimento” e sobre o progresso social, tanto nos paises ricos quanto nos paises pobres. Este trabalho conduziu-me a um sentimento cada vez mais acentuado de insatisfação e até mesmo de ansiedade: primeiramente em razão da agravação persistente das situações de miséria, de desigualdade, de injustiça, de opressão, de violência, e por tanto de ameaças pesando sobre a viabilidade econômica, social e ecológica de nosso mundo, malgrado (ou talvez por causa de) suas capacidades tecnológicas sem precedente, mas também em razão da insuficiência profunda de nossa compreensão destas situações, e por tanto do domínio que sobre elas possamos exercer, porque acreditamos poder tratar destas perspectivas de evolução do mundo em termos principalmente econômicos.

É exatamente este lugar dominante da economia na compreensão e no domínio do desenvolvimento das coletividades humanas que entendo questionar aqui de modo radical. Não pretendo evidentemente ser o primeiro a fazê-lo, mas pode-se sublinhar de chofre um duplo paradoxo da questão. É em primeiro lugar o contraste entre, de uma parte, o consenso da imensa maioria dos “especialistas” que trabalham estas questões para afirmar que na prática são de fato questões econômicas que governam e devem governar estas perspectivas de desenvolvimento, e de outra parte, a emergência de uma reflexão cada vez mais estruturada para constatar e criticar este domínio onipresente das preocupações econômicas. Mas é também o contraste entre a própria existência desta crítica e a resignação propriamente unânime, incluindo aí a dos seus adversários de princípio, em favor de uma aceitação passiva desta dominação da economia, face à qual ninguém consegue ver muito bem o que seria possível fazer, sem correr o risco de questionar as exigências materiais da vida cotidiana, a sobrevivência das sociedades e sobre tudo a possibilidade de seu progresso. Este duplo paradoxo desemboca sobre uma recusa quase unânime de questionar o economicismo das abordagens de gestão e de desenvolvimento das sociedades, seja porque esse economicismo é reconhecido como legítimo, seja porque é considerado como inevitável enquanto a “sociedade de abundância” não for atingida, o que remete qualquer mudança a uma época bem longínqua. Os especialistas do “desenvolvimento” continuam por tanto a trabalhar principalmente sobre a economia, em sua imensa maioria; e o que é mais grave, o pensamento sobre as sociedades e sobre seu  desenvolvimento permanece estreitamente condicionado – quando não predeterminado – pelas questões da economia e pelas  respostas que lhe são dadas . De modo mais grave ainda, a evolução do mundo que temos hoje sob os olhos parece confirmar a inevitabilidade de tal perspectiva: os paises chamados hoje de “emergentes” emergem como potências econômicas, a partir duma lógica econômica, e não segundo um tipo de organização radicalmente diferente da experiência dos paises hoje industrializados.

É todavia este questionamento radical que gostaria de empreender aqui, mesmo se é inabitual, mesmo se parece ir à contra-corrente da quase totalidade da literatura em ciências sociais. O leitor cético deve de qualquer maneira admitir, em todo caso, que este questionamento concerne questões práticas muito concretas que se colocam a cada dia, a cada um de nós, nos contextos sociais os mais variados: as que dizem respeito às condições de satisfação das necessidades elementares, à sobrevivência dos indivíduos e das coletividades, à produção,  consumo e  troca, ao papel do dinheiro, à competição e ao poder; e, também, mais globalmente, as que buscam explicar o funcionamento das sociedades e seu dinamismo. Não se vê muito bem como poderíamos nos dispensar de responder a essas perguntas sem adotar uma atitude quase suicida de cegueira voluntária. Mesmo se a ambição da presente reflexão permanece radical, uma atitude prudente impõe-se diante do duplo paradoxo que acaba de ser lembrado, e diante dessa espécie de negativa generalizada que parece se impor a todo questionamento sério dessa abordagem econômica, pois que se trata de exigências aparentemente inelutáveis da vida em sociedade. No quadro deste breve artigo, basta-nos, aliás, esboçar algumas afirmações, algumas interrogações e algumas orientações, que deveriam ser mais aprofundadas e desenvolvidas por um trabalho coletivo de maior amplitude e  de maior duração.

Três exigências de método me parecem, todavia, importantes para evitar ambigüidades sobre o sentido de tal reflexão.

A primeira é a da longa duração, precisamente, ou melhor a da perspectiva histórica.  Impõe-se pela natureza mesmo de nossa interrogação inicial, que concerne o predomínio esmagador das preocupações econômicas nas sociedades contemporâneas. Pois se essa interrogação merece ser posta, é exatamente porque nem sempre foi assim. Mesmo se só conhecemos imperfeitamente a história, sabemos que as grandes civilizações do passado não ignoravam por certo os problemas econômicos, porém que estes não eram objeto de uma atenção tão radicalmente prioritária – a ponto de se sobrepor a todas as outras características da organização social – como o fazem hoje. Foi possível mostrar que algumas sociedades tradicionais tecnologicamente pouco desenvolvidas consideravam a si próprias como “sociedades de abundância” onde as exigências da economia não eram preocupantes.[2] Há, portanto, possibilidades práticas para formas de organização radicalmente diferentes da nossa, porém viáveis – seria preciso ver em que condições – embora a economia não constitua seu anseio principal. Se semelhantes sociedades existiram no passado, permanecem concebíveis no futuro, e seria preciso interrogar-se, não somente sobre as condições de tal possibilidade como também sobre seu significado e seu conteúdo: quais podem ser as ambições maiores de uma sociedade que não se preocuparia, como a nossa, com potência técnica ou produtiva, e, logo, com enriquecimento? A resposta não pode ser nem apressada nem idealizada: pois estas ambições podem variar da harmonia social à ditadura de uma pessoa ou de um grupo, da simples sobrevivência material às formas culturais as mais refinadas, ou até mesma à procura espiritual de uma transcendência, de um além, face às preocupações da vida material. Descobre-se que as ambições das coletividades humanas podem ser múltiplas, diversificadas, e não necessariamente materialistas como a nossa: não é preciso ser grande conhecedor em história das civilizações e das religiões para se aperceber disso. Mas estas respostas mostram também que a convicção contemporânea, que coloca a economia no centro das preocupações humanas afirmando que toda concepção diferente é necessariamente suicida,  nunca foi universal e não está condenada a tomar essa forma. Resta saber, por certo, como pode ser evitada, e em proveito de que outras ambições.

Segunda observação prévia de método: Colocar a questão nos termos que acabam de ser evocados – isto é, perguntar-se se uma organização social que não fosse centrada na economia é concebível, não somente no passado (a resposta afirmativa é evidente), mas também no futuro – supõe interrogar-se sobre outras dimensões da condição humana, individual e social, e outras dimensões que, por definição, não são em primeiro lugar econômicas. Mas se o homem e a sociedade não são em primeiro lugar seres econômicos, o que são? Como descobrir as outras dimensões, desejáveis ou não, que podem ser concebidas se nos interrogarmos sobre outras evoluções eventuais? Estas questões estão no centro da reflexão aqui proposta, mas o que se pode dizer desde já é que transbordam com toda evidência a dimensão estreitamente “econômica” ou “economicista” das ciências sociais hoje dominantes. Essas questões são de natureza societária, ou antropológica, ou antes, em última análise, de natureza filosófica, pois que interrogam a natureza do homem, o conjunto das dimensões de sua condição, e inevitavelmente, pois, as finalidades e objetivos últimos que ele persegue, ou presumivelmente, persegue. Assim circunscrita, a pesquisa proposta aparece seguramente de complexidade temível. Mas procede de uma exigência fundamental para o estudo do desenvolvimento: permite compreender que a história humana não culmina naquilo que se passa há três séculos no Ocidente (e em seguida no mundo sob a influência ocidental), que as potencialidades humanas transbordam largamente esta experiência, e que estamos em condição de procurar orientações alternativas.

Antes mesmo de lembrar do que a economia se ocupa, gostaria de propor ainda uma distinção metodológica que me parece importante, mesmo que não seja aceita por todo mundo. Consiste em afirmar que a reflexão ética e a reflexão econômica têm objetos diferentes: uma procura os critérios do desejável, a outra se interroga sobre os meios os mais adaptados à realização dos objetivos que foram escolhidos. Que haja elos múltiplos entre esses dois tipos de reflexão é evidente; mas a natureza de sua démarche difere, e logo também os critérios sobre os quais cada uma se apoia. Por conseguinte, não creio que se possa fazer uma objeção de princípio contra uma busca estabelecendo um elo entre os dois vieses, se reconhecermos claramente suas diferenças: nem a economia se confunde com a ética, nem a ética com a economia, mas cada uma dessas disciplinas coloca perguntas à outra.

O objetivo da presente pesquisa pode ser definido de maneira mais clara: não pretende corrigir a economia com preocupações éticas, deseja apenas interrogar-se, no plano ético, a propósito da organização do nosso mundo tal qual se apresenta hoje e tal qual se anuncia para o futuro, e isso em razão dos múltiplos aspectos eticamente inaceitáveis que esta organização comporta. Coloco, portanto, questões éticas a propósito de uma organização dada pela economia, e creio que o fato de deferir um lugar menos central para as preocupações econômicas permitiria engendrar uma organização do mundo eticamente mais satisfatória, ou menos inaceitável. Não declaro guerra, logo, aos economistas e ao conteúdo de sua “ciência” – o que seria provavelmente útil mas é um outro assunto, provavelmente ainda mais complexo que o nosso – oponho-me apenas a uma dominação cega e sistemática dos economistas sobre as sociedades, em razão das conseqüências dramáticas que decorrem para estas sociedades e para o seu futuro.

O raciocínio se organiza em duas partes. A primeira propõe uma série de constatações, que concernem sucessivamente a natureza da abordagem econômica (ou ao menos da abordagem econômica dominante), as razões e os vetores de sua predomínio atual, e finalmente os laços recíprocos que se estabelecem entre este predomínio e a concepção do homem e da sociedade que o acompanha. Conclui-se resumindo as críticas maiores que podem ser formuladas quanto às conseqüências desta situação sobre as sociedades e sobre suas perspectivas de evolução, notadamente quando se leva em conta o fenômeno agravante da globalização. A segunda parte tenta esboçar, não “soluções” – no meu conhecimento, ninguém está em condição de propor algo neste sentido hoje -, mas pelo menos algumas primeiras reflexões e orientações para sair deste bloqueio.

 

O  economicismo: uma constatação geral

A rigor de que se ocupa a economia?

Creio que é preciso começar colocando uma questão aparentemente trivial: o que é a economia? Como se caracteriza uma abordagem econômica dos fenômenos de sociedade? Sabe-se que as questões mais elementares sobre a disciplina científica e sobre suas fronteiras com outras disciplinas são muitas vezes as mais  difíceis de resolver. Não entrarei por tanto aqui na comparação interminável das definições que já foram avançadas e me limitarei a algumas considerações de princípio.

De que fala a economia? De questões muito concretas que concernem, em definitivo, o que Fernand Braudel chamava de “civilização material”[3]: fala do trabalho, da produção, do consumo, de trocas, por certo, porém mais amplamente de necessidades, do crescimento destas necessidades, da competição pela sua satisfação, da procura do lucro, do investimento para o futuro, tudo isso num contexto de escassez relativa (natural ou criada pelo homem), isto é de recursos insuficientes para cobrir inteiramente a totalidade das necessidades. A confrontação com o problema econômico da escassez exige assim decisões de alocação de recursos, de escolhas, mas estas escolhas não são necessariamente feitas com o mesmo grau de liberdade para todos. A economia fala, pois, também de desigualdades, de relações de poder, de lutas entre indivíduos e entre grupos sociais. Quanto mais o jogo econômico se torna complexo, mais aparecem formas de interdependências cumulativas entre essas decisões e entre os procedimentos de alocação que daí resultam; e esta complexidade manifesta-se especialmente quando as relações de trocas econômicas se estendem ao mundo inteiro e começam a formar um “sistema”, cujas regras de coerência, ao menos em teoria, impõem-se a todos aqueles que pretendem participar do seu funcionamento. Os componentes da organização econômica são mais ou menos desenvolvidos segundo as sociedades, mas são observáveis em quase todas. Esta presença obrigatória da economia talvez seja a tradução moderna da velha fórmula mítica da Gênese, “ganharás o teu pão com o suor do teu rosto”, que certamente não esperou os séculos recentes e a chegada do capitalismo para ser verificada; constitui também a razão pela qual Braudel designa a economia, na sua historia da civilização industrial, como o conjunto das regras que definem o limite “entre o possível e o impossível”.[4] Contudo a pressão desta coação é muito diferente segundo as sociedades na história. Nosso período caracteriza-se, paradoxalmente, por um crescimento fantástico das quantidades de recursos utilizados, das quantidades de bens e de serviços produzidos, e ao mesmo tempo, paradoxalmente, por um nível exigente de satisfação das necessidades e pela frustração cada vez mais profunda daqueles que são excluídos da abundância, isto é a maioria da população. Conseqüência evidente para as sociedades contemporâneas de “abundância”: essas são caracterizadas por uma obsessão permanente do cálculo econômico, entre a maior parte dos atores sociais e especialmente entre aqueles que detêm uma responsabilidade coletiva.

Temos de insistir sobre o que diferencia essas sociedades “obcecadas” dos outros tipos de sociedades. Pode-se, pois, admitir que fora alguns casos limites assimiláveis a uma espécie  de “paraíso terrestre” –  aliás, existiram de fato? – todos os homens e todas as sociedades foram confrontados pelo menos a algumas formas de problema econômico. Mas se for assim, como se traduz o caráter “obsessivo” das sociedades que são ditas dominadas pelas preocupações econômicas, e em que são diferentes das outras? Em primeira aproximação, a diferença não se explica, precisamente, pela mera presença das preocupações econômicas – pois que essas são praticamente universais -, mas pelo fato que as preocupações em pauta revestem uma importância maior, no condicionamento comportamental dos indivíduos e dos grupos, de que todas as outras: os anseios por repouso, por exemplo, de tranqüilidade, de disponibilidade espiritual; os anseios por convívio, por amor, por fraternidade, por justiça; os anseios por espiritualidade, por reza, sonho, poesia, metafísica, etc. Mas tal distinção não basta, porque o conjunto das preocupações materiais e imateriais revela-se na análise muito mais interdependente do que se acredita à primeira vista: é preciso comer para permanecer em vida antes de rezar ou sonhar, é preciso mobilizar recursos para promover a justiça ao redor de si ou assegurar a serenidade de todos, e assim por diante. Para tornar mais precisa a diferença, é preciso então introduzir uma noção de prioridade  (mas talvez seja também uma noção econômica), e distinguir qual é o objeto desejado com prioridade por quem decide: será a promoção da justiça que constitui seu verdadeiro objetivo, ou será simplesmente a aquisição ou a acumulação de recursos (dissimulada sob a aparência dum mero instrumento)?  Descobre-se então que uma sociedade “economicista” é essencialmente uma sociedade cujos membros são ávidos de poder sobre recursos, sobre meios, considerados justamente como instrumentos de poder, mas que este poder é procurado como um fim em si mesmo, de maneira relativamente independente dos objetivos aos quais podem eventualmente servir, exceto o próprio poder. Assim esse rodeio aparentemente complicado nos traz a um diagnóstico hoje amplamente aceito: as sociedades obcecadas pela dimensão econômica – e o mesmo parecer pode aplicar-se aos indivíduos e aos grupos – são sociedades obcecadas pela aquisição e pelo reforço de seu poder sobre instrumentos, e assim indiretamente pelo seu poder sobre outras sociedades ou outros homens; porém elas se desinteressam em definitivo das finalidades para as quais este poder e esses instrumentos poderiam ser orientados.

A ilustração a mais clara desta “deriva” rumo aos meios: quando são organizadas sob forma de economias de mercado (como hoje quase todas), estas sociedades estão, principal se não exclusivamente, à procura do enriquecimento material dos seus membros e da coletividade no seu conjunto. Este anseio de enriquecimento traduz-se, de maneira mais geral e mais universal, pela procura prioritária do crescimento do “poder de compra”, e, logo, das massas de dinheiro de que a sociedade e seus membros dispõem. O dinheiro permite a aquisição de bens de consumo, de bens de equipamento, de valores de reserva: mas permite também exercer um poder sobre outros tomadores de decisão, pois que, por definição, todos os membros da coletividade estão com prioridade à busca dum único e mesmo objetivo, o do enriquecimento materializado pela acumulação dum poder de compra indiferenciado. Esta constatação não implica de forma alguma que os membros desta sociedade deixem de perseguir outros objetivos que não sejam os econômicos, significa apenas que todos os outros objetivos, ou todas as outras preocupações, tornam-se subordinados face a essas preocupações econômicas. Com uma razão aparentemente inatacável: já que os objetivos econômicos são instrumentos universais permitindo atingir todos os outros objetivos, são os únicos que contam na organização coletiva, as outras escolhas de finalidades podendo ser deixadas para a escolha exclusiva dos indivíduos. Recai-se de fato assim na sociedade individualista, produtivista, consumidora e mercantil que nos caracteriza hoje, e de que admitimos esqueceu-se das finalidades últimas do homem e da sociedade em detrimento dos meios materiais de que se esperaria  servissem para realizá-las.

 

Razões e vetores deste domínio

A partir desta avaliação preliminar, podemos nos perguntar quais as razões, em definitivo, deste domínio hoje esmagador das preocupações econômicas, e quais são os vetores que asseguram sua difusão.

As razões principais deste domínio foram evocadas acima, e não parece que uma enumeração detalhada possa nos levar muito longe na interpretação. As primeiras são de natureza bastante evidente: no final das contas, não se pode prescindir da economia e do cálculo econômico numa sociedade onde a abundância não está disponível para todos – ou seja, na prática, em todas as sociedades – porque é preciso em primeiro lugar assegurar a sobrevivência física dos homens, na falta do que todas as outras necessidades, questões e finalidades se tornam sem objeto. Mas não se trata apenas de sobrevivência fisiológica elementar: quando esta se encontra assegurada, sabe-se que as necessidades ditas de “desabrochamento” assumem, e que, paradoxalmente, elas próprias crescem à medida do enriquecimento. A tecnologia utilizada torna-se cada vez mais aperfeiçoada, o que aumenta  sem dúvida a duração necessária aos investimentos, e por tanto a necessidade e a complexidade dos cálculos técnicos e econômicos (é preciso efetuar mais cálculos e mobilizar mais recursos para colocar em serviço um avião de linha do que para construir uma cabana ou fabricar uma faca). Quando o progresso técnico e econômico difunde-se geograficamente e se torna um sistema, até mesmo um sistema mundial, sua gestão torna-se ainda mais complexa; basta observar a diversidade das atividades industriais, comerciais e financeiras da economia mundial, assim como a das regras múltiplas e coercitivas que governam essas atividades, para compreender que as preocupações econômicas se tornam efetivamente o anseio principal dos seus animadores, a ponto mesmo de se tornarem exclusivas. O homem moderno torna-se assim literalmente, queira ou não, um homo oeconomicus que por definição, ou em todo caso, por falta de tempo, não é mais capaz de interessar-se em outra coisa do que na economia. Pode-se assim falar duma deriva obsessiva.

Quais são os vetores desta deriva obsessiva? São em primeiro lugar, com evidência, as próprias atividades econômicas, que já foram evocadas: o trabalho, a produção, o consumo, a acumulação, o investimento; são, sobretudo, as trocas cada vez mais detalhadas às quais estas atividades levam quando se desenvolvem nas economias modernas. A esta extensão considerável das trocas acrescenta-se naturalmente o que constitui sua origem, a saber, o progresso técnico, com a pesquisa cientifica e técnica que o permite, e, sobretudo, a divisão do trabalho que daí resulta. Assim que é esboçado, este fenômeno adentra uma lógica de complexidade crescente: deverá, pois, se apoiar sobre diversas instituições, que constituem uma espécie de quadro jurídico dessas atividades e se tornam por sua vez vetores dessas mudanças. Na primeira fila destas instituições, apresentam-se certamente a propriedade privada, fundamento da troca no mercado, como também as normas dos contratos, os instrumentos de cautela contra riscos que constituem os seguros, os meios de regulação financeira, e assim sucessivamente. Não é necessário listar de maneira exaustiva estas instituições para descobrir mais uma vez o que se procura justamente explicar aqui: é que essa extensão fantástica das atividades econômicas, assim como a do quadro institucional que as permite, só se tornam possíveis se os atores concernidos por estas atividades econômicas modernas – isto é uma parte cada vez mais considerável da população em idade ativa no mundo inteiro –  consagram a elas um proporção crescente de seu tempo, de suas capacidades técnicas e intelectuais, e finalmente de suas preocupações cotidianas. Se esta interpretação não estiver errônea, as atividades econômicas estariam de fato elas mesmas  na fonte de seu próprio domínio sobre as sociedades humanas, em razão do tempo e da preocupação constante que sua complexidade crescente exige. A preponderância das preocupações econômicas nas sociedades modernas talvez não precise de outra explicação, sobretudo se admitirmos, como foi sugerido acima, que estas atividades econômicas vêem-se elas próprias estimuladas pelos dois motores particularmente poderosos do comportamento humano que são a busca do enriquecimento e do poder (o poder sobre as coisas tornando-se, no seio de tais sociedades, uma condição que propícia o poder sobre os homens).

 

Uma concepção do homem e da sociedade estreitamente dependente da economia.

A etapa seguinte consiste em tomar consciência do alcance considerável do fenômeno da invasão das sociedades humanas pelas preocupações econômicas, como acabou de ser sugerido. Pois que não se trata de um mero aumento quantitativo do tempo consagrado aos anseios e às atividades econômicas. Muito mais profundamente, é a concepção de conjunto do homem e da sociedade no mundo que se encontra condicionada, talvez até mesmo determinada, por este fenômeno.[5] A imagem do homem que se desenha doravante nesta perspectiva não é mais em primeiro lugar a do membro de uma família ou de um clã que deveria respeitar a hierarquia e as regras tradicionais, nem a de um ser chamado a ultrapassar seu meio ambiente por um destino de transcendência, nem a de um cidadão a serviço de um Estado. É em primeiro lugar a de um ser calculista, racionalista e utilitarista; um ser preocupado em aumentar sua produção, seu consumo e sua capacidade de troca em termos principalmente quantitativos (mais igual a melhor), por meio de processos de crescimento indefinidos: um ser preocupado antes de tudo com seu interesse individual mais de que com o das coletividades às quais pertence, e, logo, um ser cujas relações sociais serão concebidas antes de tudo em termos de mimetismo, de rivalidade e de competição, e certamente também (a menos que as instituições tentem opor-se a isso) de dominação, de exclusão, de violência, de guerra, entre indivíduos, entre grupos sociais, entre nações. Esses cálculos, esses anseios de crescimento, de interesses, de competição, situam-se no essencial no domínio da “civilização material” que é o das atividades econômicas. Neste quadro, pode-se assim continuar afirmando que o homem é um ser à busca de enriquecimento e de poder; mas esta busca deve ser entendida principalmente nos limites do domínio circunscrito por preocupações econômicas. Uma sociedade dominada pela economia é assim uma sociedade na qual a busca do poder e da riqueza, e mais amplamente ainda o conjunto dos comportamentos individuais e sociais, e finalmente a totalidade das relações sociais, são pouco a pouco invadidos por um economicismo  generalizado.

As consequências desta invasão, e, portanto, as perspectivas quanto ao seu controle eventual, não são fáceis de interpretar, porque o sentido das causalidades encontra-se nela obscurecido. Os historiadores da economia analisam com freqüência o surgimento da sociedade industrial e da economia moderna como o produto de uma transformação das mentalidades e dos comportamentos, pelo menos no seio dos grupos sociais que gozam de uma possibilidade privilegiada de impor a outros seu poder e, pois, sua influência. Nesta perspectiva, é a emergência de uma concepção peculiar do homem e da sociedade que teria permitido a industrialização, o desenvolvimento das economias modernas, e até mesmo a formação progressiva do sistema econômico mundial à qual assistimos em nossa época. Claramente, esta interpretação permanece amplamente verificada hoje; mas a análise da situação atual e da evolução previsível complica-se ao considerarmos inversamente – de uma maneira que não parece menos legítima, quando se admite a interpretação proposta acima – que são na realidade o desenvolvimento das economias modernas em si e a formação do sistema econômico mundial que determinam, de modo cada vez mais coercitivo, a concepção do homem e da sociedade característica do nosso mundo de hoje. Pode-se constatar, parece-me, que a relação de causalidade vale simultaneamente nos dois sentidos.

 

 

Critica do predomínio da economia

Foi dito o bastante, me parece, para poder resumir as críticas principais que o predomínio das preocupações econômicas nas sociedades modernas levanta. Foram sublinhadas as derivas mais importantes que resultam deste traço, especialmente se as preocupações  econômicas organizam-se em torno da instituição central do mercado: esquecimento das finalidades em prol dos meios; obsessão do cálculo econômico e do utilitarismo materialista; individualismo, produtivismo, consumismo; crescimento auto-sustentado e indefinido das necessidades, assim como das atividades, das técnicas e das instituições apropriadas; quase-monopólio das preocupações econômicas na alocação do tempo para o  trabalho produtivo, na busca do poder e do enriquecimento nas relações sociais; reforço recíproco dessas preocupações e da concepção do homem e da sociedade associada a elas.

A essas características acrescente-se uma fraqueza interna profunda do cálculo econômico proposto pela economia do mercado e o sistema dos preços, e assim o fracasso destas pretensões à racionalidade. Este cálculo, de fato, mostra-se falseado porque é parcial. Por definição, o sistema dos preços só leva em conta as vantagens e os custos de uma decisão, quanto são quantificáveis e valorizáveis; ignora, logo, custos como os das lutas sociais e das injustiças, os da destruição do capital dos recursos naturais, ou ainda os da degradação dos valores culturais próprios a cada sociedade.

Mas explicar não é aprovar, e a descrição proposta não constitui uma justificação ética: não permite considerar que a concepção atualmente dominante do homem e da sociedade deva ser aceita tal qual, porque resultaria de uma espécie de fatalidade histórica, e que seria vão pretender criticá-la; não permite tampouco ignorar as conseqüências dramáticas de tal concepção para uma parte importante da população mundial. Ao contrário, a concepção do homem e da sociedade que se depreende desta descrição parece exigir uma crítica rigorosa em razão do seu reducionismo, isto é, do fato de propor uma imagem extremamente empobrecida do homem face às potencialidades efetivas da condição humana. Nada, em outros termos, permite considerar que a filosofia que inspira a ordem econômica e social hoje dominante no mundo, possa ser considerada algo como “fim da história” [6], um marco de cumprimento supremo da humanidade porque esta humanidade atingiria um ideal doravante insuperável, e não restaria senão generalizar, sem escrúpulo, este ideal ao conjunto do planeta.

 

O problema, é preciso repeti-lo, não provém apenas da presença destas tendências; resulta antes de tudo do seu caráter radicalmente dominante, e do fato que as preocupações econômicas que daí resultam beneficiam de uma prioridade sistemática sobre todas as outras preocupações atual ou potencialmente presentes na condição humana, tais como o altruísmo, o desejo de contemplação, de poesia ou de beleza, a espiritualidade e a aspiração mais ou menos confusa a uma certa transcendência no tocante à vida material cotidiana, o respeito à natureza, e assim por diante. Esta prioridade encontra-se, aliás, tão interiorizada pelos indivíduos e pelos grupos que se torna praticamente inconsciente. Ou, pior ainda, apresenta-se como um intermediário indispensável para atingir todos os outros valores (o acesso à beleza, à espiritualidade ou à fruição de um quadro natural inspirador sendo cada vez mais condicionado pelo poder de compra, e em definitivo pela sua relação com as coisas mais do que com sua relação com os homens), ao ponto que o conteúdo destas finalidades últimas desaparece praticamente das preocupações das pessoas, que se concentram doravante de maneira exclusiva nas condições instrumentais de sua realização. É neste sentido que a concepção do homem e da sociedade ligada ao domínio da economia revela-se como profundamente redutora, e que a solução desta deriva só pode ser procurada recolocando a economia em situação subordinada. Afirmada brutalmente e sem discussão possível, em nome das exigências do progresso, a prioridade sistemática conferida às preocupações econômicas aparece assim como o produto de um autoritarismo particularmente primário, porque ignora a maior parte do que faz a riqueza e a diversidade da riqueza humana.

 

Perspectivas para sair do economismo

O problema evocado acima é tão profundo, tão onipresente na vida cotidiana, mas também tão crucial para o sentido de nossa vida a todos, que não se pode evidentemente esperar resolvê-lo graças a algumas fórmulas simples. Não pretendo de modo algum resolvê-lo, e gostaria apenas de concluir estas observações preliminares identificando alguns pontos de referência e algumas orientações pelas quais a reflexão coletiva poderia prosseguir.

Convém em primeiro lugar recolocar o problema em sua perspectiva temporal, para relativizá-lo de certa maneira. Havia insistido no início desta exposição sobre a necessidade, para compreender esse problema, de uma perspectiva de longa duração, tanto em relação ao passado quanto ao futuro. Gostaria agora de matizar essa exigência, afirmando que o que está em jogo aqui, são antes de tudo as perspectivas de progresso e de harmonia das nossas sociedades no futuro: na interpretação do passado, parece-me que não se pode superestimar a influência única das preocupações econômicas na história, ou em todo caso que não se pode transformá-la (não importa o que Marx tenha dito para a época específica que analisava) o motor exclusivo da história longa do conjunto das civilizações. Resta que no sistema globalizado que se desenha hoje, estas considerações econômicas aparecem como mais determinantes, e em qualquer caso como mais poderosas do que nunca, na perspectiva do futuro de todos nós e de um esforço de domínio sobre as condições materiais do progresso. O problema agravou-se provavelmente com a globalização, e percebe-se cada vez menos como desprender nosso futuro dessa ascendência totalitária da economia. Eis de fato porque não podemos ignorar a questão.

Segunda observação: sair do economicismo não significa negar a importância da economia, e menos ainda sua necessidade inelutável. Essa permanece e permanecerá essencial enquanto a escassez relativa dos recursos (natural ou provocada), e os conflitos que daí resultam, se opuserem à mera sobrevivência, e, na seqüência, à plena satisfação das necessidades e dos desejos legítimos de todos os homens, isto é provavelmente até o fim da historia.[7] Os problemas econômicos são com toda evidência cruciais para a viabilidade de nosso mundo; trata-se, repetimos, de re-situar estas preocupações econômicas no lugar que deve ser o delas, que é um lugar subordinado. Subordinado face ao conjunto dos questionamentos que resultam das especificidades da condição humana, de que o próprio homem não alcançou a plena compreensão.

Nesta perspectiva, sempre me pareceu útil distinguir duas categorias de escolhas nas estratégias propostas para o progresso dos indivíduos e das sociedades, pois que não dizem respeito aos mesmos critérios: a das escolhas políticas e éticas, de uma parte, que concernem as finalidades e os objetivos, e que assentam em verdade sobre juízos de valor; a das escolhas técnico-econômicas, de outra parte, que concernem os meios e os instrumentos de realização desses objetivos, e que dizem respeito ao saber especializado dos “especialistas”, engenheiros, economistas ou outros.[8] Contrariamente a uma crítica recorrente mas superficial “da politização” da vida em sociedade, são de fato as escolhas de valor que vêm primeiro, as escolhas técnicas e econômicas permanecem subordinadas.

De que deveria preocupar-se em prioridade uma sociedade que não mais fosse obcecada pela economia? Já o dissemos: do que se julga ser o mais essencial, segundo as diferentes culturas, nas finalidades da condição humana, ao mesmo tempo para os indivíduos, os diversos grupos sociais, e a sociedade em seu conjunto. Não há lista predeterminada desses temas, pois que cabe às próprias sociedades definir o que é importante para cada uma delas e para todas. Contudo a longa história dos homens e do seu pensamento deve poder nos ajudar hoje a identificar as ordens de valor e de prioridades, entre o material e o espiritual, entre o imanente e o transcendente, entre o individual e o coletivo, entre o interesse geral e os interesses particulares, entre o universal e o que é específico duma cultura.[9] Porém vê-se claramente que estas escolhas são próprias de um pensamento filosófico, ou antropológico, que concernem projetos humanos e sociais fundamentais (mesmo que esses tenham sido subvertidos pela história do capitalismo no decorrer dos séculos recentes), mas que não podem resultar unicamente dos ensinamentos autoritários da economia como querem que acreditemos hoje.

Nesta base, é possível indicar algumas orientações preliminares para uma saída ordenada e coerente do economicismo, na perspectiva do progresso para o mundo vindouro. Não dissimulo meu embaraço ao abordar esse assunto em conclusão. Em primeiro lugar porque tenho a impressão, ao evocar esses elementos de soluções, de estar enunciando banalidades tão evidentes que não merecem nem mesmo serem mencionadas: mas percebe-se claramente que estas banalidades permanecem amplamente ignoradas na prática. E também porque essas soluções exigem por definição, como acabamos de dizer, juízos de valor de ordem ética e política que não podem ser enunciados senão pelas coletividades concernidas, e não no quadro de um discurso qualquer pretensamente moralizador de uso universal.

Considerando tais reservas, começarei evocando três orientações que me parecem de chofre indispensáveis; parecerão, sem dúvida, paradoxais porque concernem a economia, mas é fácil compreender que condicionam todo o resto.

Uma orientação muito geral, inicialmente. A retórica do desenvolvimento nos anos recentes – no seio da maior parte das instâncias responsáveis, nacionais ou internacionais,  atribui um lugar central, e obrigatório, à formula do “desenvolvimento sustentável”. Ela destina tradicionalmente a este uma tripla dimensão; a dimensão econômica, a dimensão ecológica e a dimensão social. Para sair da dominação da economia, parece-me necessário qualificar essa formulação afirmando com muita nitidez a primazia da dimensão social (ou se quisermos “societária”, para sublinhar que não pode ser reduzida aos únicos “setores sociais”), porque o desenvolvimento concerne a totalidade da condição e do desabrochar dos homens e da sociedade dos homens, e não unicamente seus componentes econômicos.  Dito isso, pode-se imediatamente reafirmar a importância persistente, mesmo que subordinada, das dimensões econômicas e ecológicas. Pois está claro que o objetivo do desenvolvimento “societário” não será realizável se sua concepção não levar em conta as exigências econômicas e ecológicas de sua efetivação. O progresso do conjunto da sociedade permanecerá inacessível, em outros termos, se as estratégias de sua efetivação não compreenderem, entre seus meios, uma “economia do desenvolvimento” e uma “ecologia do desenvolvimento”. A primeira exigência de orientação é então de fato esta: é voltando para uma melhor distinção entre fins e meios que se poderá promover uma nova síntese da abordagem do desenvolvimento: essa deve estar centrada nas condições de desabrochamento da sociedade no seu conjunto – é a primazia da “dimensão social”- , mas esta só se tornará alcançável se seus promotores lhe derem uma dimensão econômica e uma dimensão ecológica.

 

Avancemos um pouco nessa reconsideração da economia: entre os componentes prioritários do desenvolvimento, dois dentre eles são manifestamente de natureza econômica. Antes de qualquer coisa, é preciso almejar a satisfação das necessidades essenciais de todos: não se pode obter desenvolvimento satisfatório se não se eliminam as situações de grande miséria. Porém essas permanecem maciças, e são tão mais escandalosas que os progressos tecnológicos deste mundo, que nunca foram tão rápidos e espetaculares do que no curso das décadas recentes, nos trazem aparentemente os meios de suprimi-las. Esta tarefa é, contudo, menos simples do que parece. Primeiro porque uma definição não controversa das necessidades essenciais é mais difícil de apontar do que se pensa à primeira vista, sobretudo se estendermos este domínio ao que fica além das exigências meramente fisiológicas de sobrevivência (por exemplo, o direito à educação, o direito de voto e a liberdade de imprensa; e, antes de tudo, o direito ao trabalho e a um emprego, e o direito à proteção social). E também porque os problemas da miséria não são em primeiro lugar tecnológicos, nem mesmo necessariamente ligados às quantidades disponíveis: resultam, antes de tudo, das relações entre os homens e das tentativas dos grupos sociais para se excluírem mutuamente dos benefícios do progresso.

Voltamos a encontrar essa exigência econômica para além da satisfação das necessidades essenciais: é para o conjunto das necessidades dos homens reconhecidas como legítimas, incluindo as necessidades ditas de “desabrochamento”, que importa assegurar, não uma maximização indiferenciada da produção dos bens e serviços – “mais” não é necessariamente “melhor” – , mas antes de tudo uma repartição aceitável dos frutos do progresso. Os termos “aceitável” e “legitimo” revestem aqui um sentido bastante preciso: estabelecem um laço com os valores, as preferências e as decisões da coletividade concernida, e esta deve portanto definir seus próprios critérios da justiça social. Mas é preciso também que a repartição escolhida permita a simples viabilidade da sociedade em questão; e muitas formas de repartição não são viáveis porque suscitam uma violência permanente, que proíbe praticamente toda outra forma de progresso social. Acrescentemos enfim, tanto para as urgências essenciais quanto para as de desabrochamento, que uma repartição dos frutos do progresso irá exigir, de maneira cada vez mais acentuada, uma orientação da pesquisa cientifica e tecnológica que leve em conta antes prioridades reais, graus de urgência social, dentre estas necessidades, do que a sua rentabilidade ou seu caráter prestigioso: será mais urgente voltar para lua ou encontrar o remédio para as grandes endemias?

Para além dessas três categorias “econômicas” que acabam de ser lembradas, as dificuldades de identificação do conteúdo do desenvolvimento crescem ainda mais. Pois em se admitindo o raciocínio proposto no conjunto desta exposição, penetra-se cada vez mais num domínio que depende de escolhas filosóficas de uma certa “concepção do homem e da sociedade”, e pois das finalidades últimas do homem e do que considera como seus valores essenciais.  Chocamo-nos a duas ordens de obstáculos. O do poder competente na matéria, em primeiro lugar: quem decide dessa concepção? Problema clássico, por certo, porém tornado mais grave ainda pela complexidade crescente dos componentes do desenvolvimento, que comporta o dos níveis de decisão os mais adequados  para responder a tal situação:  um número crescente de problemas de organização social não podem mais ser resolvidos a não ser em um nível que ultrapassa as instâncias tradicionais das coletividades locais ou da nação, e exigem, por exemplo, o nível europeu (a política comercial) ou o do conjunto do planeta (o aquecimento climático). Mas o segundo obstáculo é ainda mais temível: deixei o para o fim porque, está claro, não distingo a sua solução, e também porque acredito que seja esse o coração do desafio a respeito do progresso das coletividades humanas. Quais são as finalidades do homem, quais são as condições organizacionais necessárias à sua realização? Temos que confessar que não o sabemos, ou ao menos que não sabemos como entrar em acordo para responder a esta questão fundamental: toda a aventura humana consiste, em definitivo, em levar adiante a descoberta progressiva da resposta e a assegurar-se o domínio de sua efetivação.

Eis porque, contra todas as modas intelectuais que nos governam há três séculos, a questão do desenvolvimento não é em primeiro lugar um problema de “especialistas”, mas um problema de “cidadãos”, e, logo, um problema ético e político. Há aqui um imenso canteiro para abrir: não posso, claramente, fazê-lo aqui, e vou parar, com toda modéstia, no limiar desta exigência. Mas “abrir” é bem o termo adequado, porque nós nos mantivemos trancados numa concepção extraordinariamente reducionista das escolhas sociais, e precisamos agora abri-la a outras formas de técnicas e de economia, mas, sobretudo, a outros valores, outras finalidades, outros objetivos, outras relações humanas… E sem dúvida então a outras ideologias, outras experiências, outras civilizações, outras  concepções do Universo e do seu além.

Em nossos dias, o progresso e a viabilidade das coletividades têm este preço.

 

Referências

AMABLE, Bruno et PALOMBARINI, Stefano (2005), L’économie n’est pas une science morale, Raisons d’agir, Paris.

BRAUDEL, Fernand (1979), Civilisation matérielle, économie, capitalisme, XVème-XVIIIème siècles, 3 volumes, Armand Colin, Paris.

COMELIAU, Christian (2009), L’économie contre le développement ? Pour une éthique du développement mondialisé, préface de Stéphane HESSEL, l’Harmattan, Paris.

COMELIAU, Christian (2010), Sécurité alimentaire et sécurité énergétique ; choix politiques et choix économiques, Conférence d’introduction au colloque de Rio-de-Janeiro, 21-23 octobre 2009 (à paraître aux éditions de l’EHESS, Paris).

FUKUYAMA, Francis (1989), La fin de l’histoire et le dernier homme, trad. française, Champs Flammarion, Paris,1993.

KEYNES, John Maynard (2002), « Perspectives économiques pour nos petits enfants » (1928),  repris  dans La pauvreté dans l’abondance, Tel, Gallimard, Paris.

SAHLINS, Marshall (1972), Age de pierre, âge d’abondance. L’économie des sociétés primitives, trad. française, NRF-Gallimard, Paris, 1976.

SEN, Amartya (2004), L’économie est une science morale, la Découverte, Paris.

 



[1] . Economista, professor honorário no Institut Universitaire d´Études de Développement em Genebra. Ultima obra publicada: L´Économie contre le développement? Pour une éthique du développement mondialisté,  L’Harmattan, Paris, 2009. A tradução do presente texto é de Fernando Kolleritz.

[2] . O estudo o mais célebre que tenha adotado esta perspectiva é provavelmente a do antropólogo americano Marshall Sahlins (1972).

[3]. Braudel, 1979.

[4]. Braudel, 1979, vol I, p. 11.

[5] . Propus uma interpretação mais aprofundada deste fenômeno em meu último livro (Comeliau, 2009). Insisto aí, todavia, sobre uma distinção que não tenho espaço para detalhar aqui, entre a economia em geral e a economia mercantil: a instituição do mercado acentua consideravelmente o domínio das preocupações aqui evocadas, mas estas não lhe são próprias.

[6]. É o título, como se sabe, dum artigo célebre de Francis Fukuyama, publicado em 1989.

[7] . É interessante, porém bastante perturbador, lembrar que em 1928, nas suas Perspectivas econômicas para nossos netos, Lord Keynes – considerado hoje como um dos economistas dos mais importantes do século XX, quiçá o mais importante – escrevia: “Se afastarmos a eventualidade de uma grande guerra e de um crescimento importante da população, o problema econômico poderá ser resolvido ou pelo menos em vias de resolução, daqui cem anos. Vale dizer que o problema econômico não é – se nos voltarmos para o futuro – o problema permanente da espécie humana”.

[8] . Expus recentemente essa distinção na introdução de um colóquio no Brasil, cujo texto deve ser publicado proximamente na França (Comeliau, previsto para 2010).

[9] . Esses temas são desenvolvidos em Comeliau, 2009.

GDE Error: Requested URL is invalid