Rose Marie Muraro. Os Avanços Tecnológicos e o Futuro da Humanidade . Petrópolis: Vozes, 2009 (355 p.). Prefácio de Ladislau Dowbor.

Rose Muraro fez um exercício muito interessante: analisar os nossos desafios civilizatórios partindo da evolução das técnicas. É um livro duro, contém fortes denúncias, e pode pecar em diversas passagens por excessos. É escrito por uma cientista, que está visivelmente cansada de ver a ciência, que tanto pode servir a humanidade, ser voltada contra ela, e gerar tensões cada vez mais insuportáveis. Serve sem dúvida de alerta, e alertas sempre incomodam um pouco. Belíssima leitura.


Tecnologia a serviço da vida

Ladislau Dowbor

Vivemos este estranho paradoxo: temos cada vez mais tecnologias, o que em princípio é bom, pois poder fazer mais com menos esforço faz sentido. No entanto, nos sentimos cada vez mais ameaçados. Os mesmos avanços técnicos que nos permitem colocar um satélite na lua e produzir carros com robôs, geram destruição ambiental, exclusão econômica e sistemas eletrônicos de invasão de privacidade cada vez mais angustiantes.

Será a tecnologia a culpada? Milhões de pesquisadores no mundo buscam formas mais eficientes de atingirmos os nossos fins, e esta competências demonstrada por tantos cientistas constitui sem dúvida um fator de progresso. O problema, naturalmente, esta nesta simples expressão: os nossos fins. São os fins de quem? Extrair mais rapidamente o petróleo do subsolo é bom? O petróleo se acumulou durante uma centena de milhões de anos, e o teremos esgotado em menos de 200. Isto é eficiente? Hoje grandes empresas agroexportadoras puxam imensos volumes de água dos lençóis freáticos, coisa que as modernas bombas permitem, o que aumenta a produção de alimentos, o que é bom. Mas os aquíferos de todo o planeta estão secando, gerando previsões sinistras sobre a “bolha alimentar”. O problema não está nas tecnologias, mas em quema delas se apropria.

Na realidade, o poder das tecnologias modernas exige muito mais responsabilidade de quem as usa. Gerou-se uma disritmia, entre o vertiginoso avanço das técnicas e a nossa lenta evolução no plano das formas civilizadas de convívio econômico e social. Em outros termos, o poder das técnicas avança muito mais rapidamente do que nossa capacidade de colocá-las a serviço de um desenvolvimento que tenha pés e cabeça. E se não as orientamos segundo as exigências de um convívio civilizado, estas mesmas técnicas se voltam contra nós. Conhecermos produtos químicos que permitem controlar pragas na agricultura pode ser bom, mas o seu uso irresponsável está envenando o solo, os aquíferos, os rios e as costas, e contaminando todos os seres vivos. A convergência de interesses da indústria automobilística, das empresas que controlam o petróleo e do conjunto de empresas que formam esta “galáxia” econômica (concessionárias, fábricas de pneus, empreiteiras intressadas nas estradas etc.) gera um mega poder descontrolado. Como além disso a mídia vive da publicidade que estas galáxias pagam, as dimensões reais dos problemas não aparecem.

Rose Muraro fez um exercício muito interessante: analisar os nossos desafíos civilizatórios partindo da evolução das técnicas. É um livro duro, contém fortes denúncias, e pode pecar em diversas passagens por excessos. É escrito por uma cientista, que está visivelmente cansada de ver a ciência, que tanto pode servir a humanidade, ser voltada contra ela, e gerar tensões cada vez mais insuportáveis. Serve sem dúvida de alerta, e alertas sempre incomodam um pouco.  

Este incômodo é bemvindo. Hoje estamos todos assustados porque houve mais uma crise financeira. Governos do planeta se reunem, mobilizam-se trilhões de dólares, porque os banqueiros estão em crise. A abertura de visão que nos traz Rose Muraro é simples: então estão morrendo, a cada ano, dez milhões de crianças por não terem acesso a coisas tão simples como água limpa e alimento, e isto não é crise? Já morreram 25 milhões de pessoas de AIDS, e não é crise? Os laboratórios farmacêuticos continuam a gastar mais em publicidade do que em pesquisa, e travam a produção dos medicamentos em nome de patentes surrealistas, inclusive sobre organismos vivos. O aquecimento global está ameaçando a sobrevivência da espécie, mas não se pode tocar nos interesses que regem as energias não renováveis? Estamos liquidando a vida nos mares através da sobrepesca, mas o importante é a liberdadas corporações se apropriarem dos bens comuns da natureza?

Grandes corporações internacionais que enchem as nossas revistas com publicidade sobre responsabilidade social empresarial, empurram deliberadamente o desmatamento da Amazônia, para vender mais madeira, mais gado e mais soja. O mesmo acontece na Indonésia, na África e inúmeras outras regiões. Radical não é a Rose Muraro, radicais são as empresas e instituições que promovem este tipo de crescimento irresponsável e destrutivo.

Não é o espectro do comunismo que ronda o planeta, é o imenso saco cheio de uma população cansada de ver japoneses extinguirem as baleias em nome da pesquisa científica, de ver as nossas crianças bombardeadas por incessantes mensagens publicitárias destinadas a transformá-las em consumidoras obsessivas, de ver o endeusamento de tecnologias de ponta que tiram o emprego de milhões, sem que se organize a sua transição profissional. Afinal, o objetivo são as tecnologias ou são as pessoas? E as pessoas esão começando a ficar conscientes, a ficar irritadas com o faz-de-conta generalizado que as cerca. Isto não é brinquedo, é a nossa vida, é a vida dos nossos filhos.

A crise financeira está claramente contribuindo para esta tomada de consciência. Quando constatamos que um gigante financeiro como a Lehman Brothers emprestou 31 vezes mais dinheiro que o que tinha, acobertava os desequilíbrios com dupla contabilidade, e fugia dos impostos por meio de paraisos fiscais, nós que temos acesso aos estudos econômicos e que não acreditamos em fadas, não ficamos muito supresos. Mas o que há de novo, é que milhões de pessoas estão se dando conta, no mundo inteiro, do grau de atividades fraudulentas que se faz no mundo financeiro em geral, desde gigantes planetários como a AIG até empresas brasileiras que inventaram de ganhar dinheiro fácil por meios especulativos, esquecendo as suas funções produtivas. A crise está sendo um poderoso conscientizador.

Reconstruir os caminhos da humanidade a partir das tecnologias é muito instrutivo. Antes da escrita, quando só existia a fala, tudo era conversa, e o tempo era o imediato. Com a escrita, esta tecnologia radical em seus tempos, o seer humano passou a trabalhar a memória de longo prazo, os conhecimentos acumulados, a pensar sozinho frente a uma reflexão escrita. Depois houve Gutenberg, depois a imagem, o computador, a conectividade planetária da internet. Como muda a dinâmica social com estas transformações?

Este vai e vem entre as tecnologias e a reorganização permanente da sociedade é o fio condutor do trabalho de Rose, e constitui a sua grande riqueza. E a constante nas análises, é a forma como minorias no poder se apropriam das técnicas, e deformam o seu uso. A força do capital-dinheiro leva em geral a que avanços na física se transformem em armas, que avanços na informática se transformem em mecanismos planetários de especulação financeira, q que os avanços na química fina se transformem em agrotóxicos, a que avanços na biologia levem à monopolização de sementes e assim por diante.

Sabemos que estes poderes existem. O mundo do grande capital não é apenas a teatralidade das reuniões de Davos. São as discretas quando não secretas reuniões como os Bilderberg Meetings, a Trilateral Commission, o Council on foreign Affairs e semelhantes, que reunem os gigantes da finança, da indústria e da política, numa linha conservadora, com presenças de famílias conservadoras como os Rockefellers, J.P. Morgan e outras acostumadas a ter o poder sem exercê-lo formalmente, e portanto sem precisar prestar contas.

Todos receamos nos envolver em visões conspiratórias, mas andamos desconfiados. Como dizem os hispánicos, yo no creo em bruxas; pero que las hay, las hay!  Na visão do autor deste prefácio, e depois da rica leitura deste livro, fica a convicção de que há seguramente uma parte significativa de articulações entre os grandes grupos, que inclusive aproveitam o fato das suas atividades se darem no plano mundial, onde não há governo. Mas o mecanismo principal da deformação planetária que sofremos, é que estes grupos convergem naturalmente, sem precisar de conspiração, pelo simples fato da articulação estruturada dos seus interesses. Hoje, segundo as Nações Unidas, 435 famílias controlam uma riqueza maior do que a arenda da metade mais pobre da população mundial. São tão produtivas assim?

A crise financeira coloca na pauta uma questão chave que perpassa todo o trabalho de Rose Muraro: temos de resgatar o controle democrático dos processos econômicos, e reorientar os nossos recursos, humanos, financeiros, tecnológicos, em função dos grandes dramas da desigualdade e da destruição ambiental que nos assolam. A democracia política que vivemos foi um grande avanço. Mas o controle da política através da concentração de poder econômico está simplesmente ameaçando a própria democracia. Está na hora de pensarmos na democracia econômica e nas novas regras do jogo correspondentes.

Download: http://dowbor.org/wp-content/uploads/2012/06/09RoseMuraroPrefacio.doc