Adalberto Franklin. História Econômica de Imperatriz. Imperatriz: Ética Editora, 2008. ISBN 978-85-88172-26-5 – Prefácio de Ladislau Dowbor.

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Imperatriz do Maranhão, nome forte e poético. Há anos não lia uma monografia regional tão competente, escrita de forma tão clara e aprazível. Pegar um território, no caso o sul do Maranhão, e contar de maneira simples e cronológica o caso como o caso foi, pode parecer uma história de terras distantes e isoladas. Na realidade, todo o drama do desenvolvimento nacional ali se reflete, pouco conhecido porque sempre olhamos para as dinâmicas metropolitanas, no circuito superior, e não para o Brasil profundo. Com a atualidade do drama da Amazônia, este livro torna-se importante, pois mostra como se constrói o centro-periferia dentro do próprio Brasil. O livro está à venda no site / livraria virtual da Ética Editora: www.eticaeditora.com.br.


Ecos do Brasil profundo

Ladislau Dowbor
março de 2008

Há anos não lia uma monografia regional tão competente, escrita de forma tão clara e aprazível. Pegar um território, no caso a região de Imperatriz do Maranhão, e contar de maneira simples e cronológica o caso como o caso foi, pode parecer uma história de terras distantes e isoladas. Na realidade, todo o drama do desenvolvimento nacional alí se reflete, pouco conhecido porque sempre olhamos para as dinâmicas metropolitanas, no circuito superior, e não para o Brasil profundo.

Imperatriz, olhando no mapa, fica no fundo do Maranhão, distante da capital litorânea. Igual situação relativamente a Belém do Pará. Se olharmos a partir da capital do país, fica também no extremo interior, além de constituir rota de chegada de migrantes vindos do Nordeste a procura de oportunidades inexploradas. Assim, a região sempre foi, durante a sua história, o horizonte distante onde dinâmicas mais poderosas ligadas ao grande comércio e às capitais situadas no litoral iriam repercutir de maneira indireta, mas poderosa.

Estamos acostumados a olhar estas dinâmicas na visão de São Paulo, do Recife, de Belém, na sua vinculação com os interesses internacionais que moldaram em grande parte o nosso desenvolvimento. O ciclo do açucar, da mineração, do café, da borracha, do investimento internacional modeno, alí exerceram a sua influência mais poderosa. O circuito superior da economia iria se manifestar, por exemplo, nas mansões luxuosas da avenida Paulista, nos tempos dos barões do café. Hoje, grandes bancos ocupam a mesma avenida, ao ritmo do avanço da soja, do automóvel, da globalização. Olhar as mesmas dinâmicas do ponto de vista do circuito inferior, dos que não conduzem o processo mas a ele foram submetidos, é imensamente instrutivo. Como é olhar os nossos ciclos econômicos a partir de Imperatriz?       

Adalberto Franklin teve a sabedoria de reconstruir a história da região de Imperatriz não através de manifestações superficiais da história das “autoridades”, mas justamente através dos ciclos econômicos que alí repercutiam, estruturando o seu povoamento, as suas atividades produtivas, as suas infraestruturas, a sua cultura, moldando a pujante e desequilibrada cidade que hoje é, com os seus 230 mil habitantes e uma nova centralidade econômica. Nesta era da globalização, da internet que rompe qualquer isolamento, da conectividade que democratiza o conhecimento, do novo interesse por terra, água e recursos minerais que a região possui, Imperatriz inverte o seu papel, e pode assumir um protagonismo regional, onde antes era apenas eco de decisões distantes. O estudo do autor fecha nesta análise das oportunidades.

O livro cobre essencialmente um século e meio, de 1850 até os nossos dias. Nesta curva do Tocantins, Imperatriz se viu separada do litoral pelas irregularidades do rio a juzante. Abrir estradas para Belém, para São Luís ou para Goiás, só se justificaria se alí houvesse muito mais atividade econômica, e quando muito se abriram picadões para escoamento do gado. É a eterna dificuldade de um desenvolvimento que só se faz se houver interesse, enquanto o interesse só surge se já existirem as atividades.

Mas as poucas atividades ganadeiras geraram relações de produção: o cuidador era remunerado com uma em cada quatro cabeças que nascem, constituindo gradualmente o seu próprio rebanho, e tornando-se um novo criador autônomo, expandindo gradualmente a ocupação da terra. Com a explosão do interesse pela borracha, na virada do século, abre-se a primeira leva de migrantes à procura da sobrevivência, embrenhando-se nas matas, e alimentando a formação de uma classe de atravessadores comerciais que iriam influir decisivamente na forma desigual do desenvolvimento da região. Esta dinâmica se reforçaria com o ciclo da castanha, estabelecendo com firmeza a relação entre atividades nômades dos catadores, sempre miseráveis e presos oo sistema de endividamento, enquanto os atravessadores enriqueciam, ao dominar os circuitos comerciais e o controle das terras.

Esgotado o ciclo, morre a atividade, volta o isolamento, o que já foi caracterízado localmente como a “sibéria” maranhense. A retomada se dá com a abertura da Belém-Brasilia, cuja construção atraiu uma nova geração de migrantes. Se a abertura da região trouxe riqueza ou intensificou a sua extração, depende evidentemente do ponto de vista. As empresas que passaram a extrair madeira, os garimpeiros que vieram buscar ouro, as grandes mineradoras que hoje exploram Carajás, apontam evidentemente para a sua contribuição produtiva, nas mesma medida em que intensificam a extração.

A madeira foi liquidada, por simples destruição, e o conjunto de atividades de serrarias, movelaria e comércio murcharam, como tinham murchado outras atividades extrativas antes disto, por simples exploração destrutiva organizada por grandes grupos empresariais. O grosso da atividade madeireira, inclusive, deu-se sob forma de exportação de toras em bruto, reforçando atravessadores locais, mas sobretudo deixando serrarias abandonadas e uma vastidão de terra arrazada. Nestes espaços avançaria uma nova geração de criação de gado, já com grandes grupos empresasriais, expulsando agricultores, particularmente produtores de arroz, e intensificando a formação de uma periferia pobre em volta do núcleo urbano.

Uma nova leva de interesses internacionais e dos grandes grupos econômicos do Sudeste chega com a era dos militares, na linha do Projeto Grande Carajás, gerando um novo ciclo de produção, extração e destruição. A região toma consciência da imensidão das suas riquezas. Mas o horizonte de liquidação de florestas expandiu-se com as tecnologias mais poderosas e infraestruturas rodoviária e ferroviária, servindo agora à produção de carvão vegetal para alimentar a siderurgia. A base energética regional melhora radicalmente com Tucuruí, mas visando assegurar o abastecimento barato das usinas de alumínio. As próprias ferrovias, em vez de integrarem o território e organizar as complementariedades inter-regionais, tornam-se grandes canais de drenagem de riqueza.

Apontar apenas para os aspectos negativos não é suficiente: criaram-se sim infraestruturas de transportes, atividades comerciais, formou-se uma classe de trabalhadores, mas tudo numa superposição estranha de interesses de grandes grupos econômicos transnacionais, de bancos que os alimentam localmente, de atividades destrutivas das madeireiras que só extraem, de resquícios de banditismo mal disfarçado nos garimpos e na lei da bala dos Curiós de plantão e de caciques municipais. O uso do trabalho infantil e a invasão do eucalipto para servir as carvoarias que alimentam empresas que no mundo pregam o desenvolvimento sustentável e a responsabilidade social empresarial, mostra a que ponto as diversas dimensões encontram-se perversamente interligadas.

Neste processo, e na herança estrutural gravada no território, formou-se uma cidade que hoje busca não ser mais apenas o reflexo caótico de interesses externos, e que almeja escapar de uma estruturas de poder local que sempre pertenceu a quem os intermediou. De certa forma, trata-se de organizar uma transição, de uma cidade que era o “fundão”, a “sibéria”, para uma função hoje viável de catalizadora da economia regional. Com a sua base demográfica, com as suas universidades, a diversificação de atividades de serviços, e a sua situação central no cruzamento de eixos de transporte, hoje Imperatriz apresenta uma centralidade nova, e caso se dotar de um grupo dirigente capaz de negociar os interesses regionais, poderá encontrar um equilíbrio entre os interesses externos essencialmente extrativos, e as necessidades de desenvolvimento integrado e equilibrado exigido pela população.

Ao desenhar este painel dos desequilíbrios herdados, e ao apontar caminhos renovadores, Adalberto Franklin presta um grande serviço à região. Mais do que isto, ao organizar a compreensão do embate entre interesses extrativistas e as necessidades das próprias populações nas regiões de fronteira da nossa economia, traz instrumentos de análise e propostas de reequilibramento econômico, social e ambiental hoje indispensáveis em imensas regiões do país. Vista de cima, a simples expansão das atividades econômicas pode ser vista como positiva. Vista de baixo, da perspectiva de quem sofre o impacto, a imagem pode ser diferente, e já é tempo dos interesses de longo prazo do território serem levados em conta. Hoje Imperatriz já conta com um núcleo de pensadores, de políticos e empresários, capaz de transformar sua a função passiva de mediadora de interesses externos, para a de promotora e articuladora dos interesses da região.


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