A tragédia entre palestinos e israelenses fica atravessada na garganta de todos nós. Há naturalmente os que resolvem o problema escolhendo o lado bom, por qualquer razão que seja. Na realidade, os dois povos têm direito a uma terra para viver, tanto um como outro. Há os que contabilizam os mortos, e apontam triunfalmente a violência do outro para justificar a violência do um. Neste plano, dado o tipo de controle da mídia mundial, o palestino aparece como terrorista, Israel como eterna vítima. Os dados, como ordem de grandeza, mostram Israel ganhando de dez a um. São dez pares de olho para cada par de olho. A que leva isto?

Do belo filme Paradise Now (Paraíso Agora) tirei uma lição que me parece hoje evidente: quando se reduz as pessoas ao desespero, reagem com desespero. E um zoom histórico nos leva à partilha e recortes territoriais absurdos no tratado de Versalhes em 1918, aos interesses da Anglo-Iranian de petróleo, ao golpe de Estado do Iran organizado por Eisenhower nos anos 1950, à instalação de caciques amigos em outros países, e ao eterno apoio dos Estados Unidos a toda e qualquer política israelense, criando uma gigantesca base militar pro-americana no coração da região, e liberando Israel da necessidade de negociar com os povos da região. Ter costas quentes tem sempre dois gumes. E nos Estados Unidos não se ganha uma eleição sem o apoio da Colônia.

A esta altura, sinto o leitor pensando: de que lado está este professor? Voltamos aos mocinhos e bandidos? Os índios nos Estados Unidos eram os maus, e a cavalaria aparecia para salvar as pobres mulheres e crianças ameaçadas? Os índios não tinham mulheres e crianças? Não entro nesta armadilha. Morei em Israel, apesar de não ser judeu, conheci a profundidade do racismo difundido pela direita fundamentalista que manda no país, mas nem por isto deixo de lembrar que grande parte do povo não se acha povo eleito acima dos outros, são simplesmente pessoas que querem viver. A armadilha real é a que foi criada pelos extremismos de direita, que tanto envolvem os Estados Unidos, como os grupos no poder em Israel, como os movimentos fundamentalistas islâmicos. Um insufla o outro, e o resto do mundo assiste passivo aos massacres. A violência do outro é comemorada, justifica a retaliação que estávamos segurando.

O livro de Kapeliouk tem um prefácio muito significativo: Nelson Mandela, ele mesmo descrito durante décadas como terrorista pela imprensa da África do Sul e pelas agências internacionais. Como era ser africano no seu próprio país, dominado por grupos racistas de direita? Houve bombas e atentados, sem dúvida, enquanto não se reequilibraram os direitos. Quando se reduz as pessoas ao desespero, reagem com desespero. Quando se retira as razões do terrorismo, o terrorismo cessa. Nelson Mandela, prêmio Nobel da Paz e uma das pessoas mais respeitáveis do século passado, escrevendo sobre Arafat? O que isso nos ensina?

A trágica luta de Arafat não se resolve evidentemente com a colagem de uma etiqueta que a imprensa mundial também colou nele. A etiqueta retira o caráter de pessoa, de ser humano, ao inimigo. Justifica o contra-terrorismo, justifica a tortura, justifica qualquer coisa.

Kapeliouk, colaborador do Le Monde, do Le Monde Diplomatique e do diário israelense Yedioth Aharonoth, escreveu um livro simpático ao personagem, construtor permanente de tentativas de acordos entre extremistas de todos os lados, com uma idéia permanente na cabeça: assegurar um território ao seu povo. E seguir a biografia de um dos principais – e mais permanentes – personagens da tragédia, permite uma visão privilegiada dos acontecimentos. Uma bela leitura, para quem quer mandar as simplificações às favas.