Autor: Patrick Viveret

Universidade de Brasilia, Brasilia, 2006, 221 p., 85-230-0832-2,

É interessante notar a coincidência no tempo: o livro de Patrick Viveret aparece no nosso mercado na mesma semana que o livro de Jean Gadrey, Os novos indicadores de riqueza, este último publicado pelo Senac (veja resenha neste site). Fazem claramente parte da mesma corrente: Viveret, filósofo, mais conceitual; Gadrey, economista, mais debruçado sobre as novas técnicas que surgem.

A problemática também é comum: para ilustrá-la, veja-se por exemplo um comentário recente da revista do FMI: “O mundo em desenvolvimento teve reduções significativas de mortalidade infantil nos últimos 50 anos. Estes ganhos se devem essencialmente à melhor nutrição, intervenções de saúde pública ligadas à água e ao saneamento, e avanços médicos tais como o uso de vacinas e antibióticos”. (IMF, Finance and Development, September 2006, p. 9). Os grandes avanços constatados nesta área resultam essencialmente de intervenções preventivas, de baixo custo, como acesso aos cuidados primários de saúde, alimentação equilibrada, água limpa, vacinas. Com exceção talvez dos antibióticos, nada que envolve grandes inovações tecnológicas, grandes investimentos, equipamentos hospitalares caros.

Transformado em cálculo econômico, na linha da metodologia tradicional de avaliação do Produto Interno Bruto (PIB), este tipo de medicina preventiva é péssimo: evitar doenças de forma barata não aumenta o Pib. Se temos muitos doentes, intervenções hospitalares, compra de muitos medicamentos, aí sim aumenta o Pib, que é calculado sobre o valor comercial dos produtos vendidos. Para uma empresa privada de prestação de serviços de saúde, privá-la de doentes significa, afinal, privá-la de clientes.

Isto significa simplesmente que em grande parte de como avaliamos o sucesso dos nossos esforços econômicos, contabilizamos o valor dos meios despendidos, e chamamos isto de “produto”. Quando na realidade, o produto que nos interessa não é gastar mais com medicamentos e hospitais, e sim não ficarmos doentes. Em outros termos, guiámo-nos pelos meios, e não pelos fins. Estamos calculando o valor comercial de bens e serviços (output), e não os resultados em termos de qualidade de vida (outcome).

O absurdo desta forma de contabilidade é cada vez mais patente, e estende-se a outras áreas. Liquidar a vida nos mares (o chamado overfishing, ou sobrepesca) aparece como aumento do Pib, que só contabiliza o que se extrai, e não contabiliza a descapitalização planetária que resulta. Cortamos as nossas florestas, destruimos a camada orgânica do solo, nada disto é contabilizado, a não ser como valor positivo no produto vendido, sem desconto dos custos ambientais.

Viveret apresenta como paradoxo o caso simbólico do naufrágio do petroleiro Erika, que gerou imensos esforços de despoluição, contribuindo para o Pib. Uma praia limpa não contribui para o Pib, inclusive porque o lazer gratuito é considerado sem valor em termos econômicos, enquanto uma praia poluída gera grandes contratos, e portanto preciosos pontos percentuais no Pib, que o político vai explorar devidamente como sucesso da sua gestão.

Como podemos avançar, se a nossa bússola, que orienta e avalia para onde vamos, aponta para uma direção errada? Hoje o bom-senso começa a ocupar algum espaço, com o IDH das Nações Unidas, os indicadores de vida Calvert-Henderson, a própria mudança de orientação do Banco Mundial, que antes contabilizava a exploração de petróleo como produto, e hoje a contabiliza como descapitalização.

Contabilizar gastos e custos é bom para as empresas, que trabalham com meios. Para nós, que queremos a prosaica qualidade de vida, interessam os fins, e a economia tem de dar esta volta nas metodologias. Vale a pena acompanhar, é uma virada em profundidade da própria forma como concebemos a economia e a ciência econômica.