São Paulo, 29/08/2008

 
O QUE É PODER LOCAL

 

"As pessoas não podem ser reduzidas a uma única dimensão como criaturas económicas...Estamos redescobrindo essa verdade essencial, que as pessoas devem estar no centro de todo o desenvolvimento."

Nações Unidas, Relatório sobre o Desenvolvimento Humano 1990, iii

Sumário

O poder local

Novos caminhos e propostas

Os desequilíbrios herdados

Mercado, planejamento e outros

Os paradigmas perdidos

O enfoque da subutilização de recursos

Urbanização e o Estado descentralizado

Organizar a participação

O "terceiro eixo": a democracia local

Recomendações de leitura

Vantagens e desvantagens

Sobre o autor

 

O Poder local

Visitei recentemente um conjunto habitacional onde a organização do espaço foi definida pelos seus habitantes, que quiseram otimizar as suas condições de vida, e não por uma empreiteira que iria maximizar os lucros sobre o terreno e a construção. Os diversos prédios do conjunto são interligados em diversos andares, que permitem fácil comunicação interna. As outras atividades que respondem a necessidades diárias estão dispersas no espaço do conjunto: o mercadinho, a farmácia, a lavanderia e outros, compondo o chamado espaço "de a pé", que permite ao homem e àmulher trabalharem sem se verem submetidos ao suplício diário quanto ao horário da criança na escola, da compra esquecida. E como o espaço externo dos prédios é comum, há ampla possibilidade de esportes, de bancos de jardim, de convívio social efetivo.

O que queremos sugerir, é que quando uma comunidade de famílias decide organizar as suas condições de vida de forma humana, isto é possível. Não hánenhuma lei que defina que para levar a criança para a escola seja obrigatório correr ou estacionar em fila dupla.

A realidade é que somos condicionados, desde nossa infância, a acreditar que as formas de organização do nosso cotidiano pertencem naturalmente a uma misteriosa esfera superior, o "Estado", ou aos poderosos interesses da especulação imobiliária.

Em todo caso, acabamos convencidos de que a única opção que temos é de nos inserirmos da forma mais vantajosa possível no mundo tal como existe, definido por outros. A própria forma de definir o mundo que nos cerca seria coisa de terceiros.

Por outro lado, aceitamos que a modernização económica e social seja feita àcusta do indivíduo, como se o conforto de um rio limpo, de ruas arborizadas (talvez até com frutas), ou simplesmente transitáveis, fosse incompatível com o desenvolvimento. Pensamos nisto como em coisas do passado. Na realidade, tanto as novas tecnologias que surgem como as formas modernas de gestão do nosso "espaço de vida" tornam isto mais possível do que nunca. A modernização não implica necessariamente corrermos cada vez mais rápido atrás de resultados que não queremos.

O problema central, portanto, é o da recuperação do controle do cidadão, no seu bairro, na sua comunidade, sobre as formas do seu desenvolvimento, sobre a criação das dinâmicas concretas que levam a que a nossa vida seja agradável ou não. Mais uma vez, não há nenhuma lei que determine que devamos nos matar todos de trabalho para criar um mundo que não queremos. Já é tempo que nos tornemos exigentes.

Para quem anda em São Paulo, a coisa é evidente: temos quatro milhões de automóveis, que não andam. Temos apenas oito mil ônibus, e que andam 15 quilómetros por hora, porque não há espaço nas ruas. Temos apenas 40 quilómetros de Metrô, para 10 mil quilómetros de ruas, porque as opções básicas são pelo carro. Assim não há espaço nem nos ônibus nem nas ruas. E temos cinco milhões de pessoas que diariamente vão ao trabalho ou àescola a pé. Em outros termos, conseguimos nos paralizar, de certa forma, por excesso de meios de transporte. E a deformação tende a se reforçar, pois quanto pior a circulação, mais o transporte individual aparece como indispensável, e mais carros entram nas ruas.

Este cruzamento, entre os avanços tecnológicos e as formas de crescimento económico por um lado, e as nossas necessidades como seres humanos, está no centro do debate.

A nossa passividade tem sido alimentada e realimentada em duas fontes. A primeira é o liberalismo, que nos ensina que devemos evitar de nos intrometer na construção do mundo que nos cerca, porque existe uma "mão invisível", o mercado, que asseguraria que chegaremos automáticamente ao "melhor dos mundos". O que nos explicam, na impossibilidade de negar os absurdos, é que os outros caminhos são piores.

A segunda, é a da visão "estatizante", que nos assegura que o planejamento central porá ordem em nossas vidas, simplificação que já foi desmentida pelos fatos.

Em resposta aos absurdos crescentes que encontramos na favela, no latifundio e na fumaça das cidades congestionadas, surge com grande força, nas últimas décadas, uma tendência das pessoas se organizarem para tomar em mãos, senão os destinos da nação, pelo menos o destino do espaço que as cerca. E esta tendência se desenvolve hoje também nos paises do Leste, onde a simples privatização está demonstrando os seus limites.

Este "espaço local", no Brasil, é o município, unidade básica de organização social, mas é também o bairro, o quarteirão em que vivemos. Como é que se procede a esta racionalização do nosso espaço de vida? Como é que o cidadão recupera uma dimensão essencial da sua cidadania?

Este pequeno livro vem trazer para o comum dos mortais, para a organização comunitária, para o prefeito, para o vereador, uma série de idéias sobre como criar num município uma capacidade de auto-transformação económica e social. Èo que aqui chamamos, de forma ampla, de "poder local".

A questão do poder local está rapidamente emergindo para se tornar uma das questões fundamentais da nossa organização como sociedade. Referido como "local authority" em inglés, "communautés locales" em francés, ou ainda como "espaço local", o poder local está no centro do conjunto de transformações que envolvem a descentralização, a desburocratização e a participação, bem como as chamadas novas "tecnologias urbanas".

No caso dos paises subdesenvolvidos, a questão se reveste de particular importância na medida em que o reforço do poder local permite, ainda que não assegure, criar equilibrios mais democráticos frente ao poder absurdamente centralizado nas mãos das elites.

Os desequilíbrios herdados

Por trás da questão da organização do nosso espaço de vida, está o problema básico da nossa sobrevivência econômica. Muitos não têm visão da gravidade da situação que enfrentamos neste fim de século.

Os paises capitalistas desenvolvidos têm a riqueza que sabemos, e os próprios paises socialistas, hoje em plena transformação, possuem amplas infraestruturas económicas e sociais, além de um nível muito elevado da cultura técnica, que lhes devem permitir uma nova dinâmica nesta década dos 1990. Mas o que ocorre com o mundo subdesenvolvido, o Terceiro Mundo ao qual pertencemos? Alguns dados precisam ser lembrados.

Em 1990 éramos pouco mais de 5 bilhões de habitantes no planeta. Destes, cerca de 1,2 bilhões vivem em países desenvolvidos, inluindo os paises do Leste europeu. O restante, 3,8 bilhões, incluindo a China hoje com 1,1 bilhões, vivem em países pobres. São três quartos da população mundial. A população dos países ricos aumenta atualmente de cerca de 7 milhões de habitantes por ano. A dos países pobres, 80 milhões. Nestes próximos anos, o Terceiro mundo representará quatro quintos da população do planeta. O grande problema que enfrentamos, neste fim de século, é o problema da pobreza, o problema do desenvolvimento.

Uma análise fria deste mundo subdesenvolvido revela cerca de 1,1 bilhões de pessoas vivendo em estado de miséria, abaixo de 370 dólares por ano (cerca de meio salário mínimo). Um número semelhante vive em estado de subnutrição. Entre 10 e 12 milhões de crianças com menos de cinco anos morrem de fome anualmente. A UNICEF estima que passaremos de 150 milhões de crianças esfomeadas em 1990 para 180 milhões no ano 2.000, segundo as tendências atuais. Segundo a UNESCO, os analfabetos ultrapassam 1 bilhão de pessoas, e o seu número aumenta de cerca de 7 milhões por ano. De forma geral, um pouco mais de dois bilhões de pessoas vivem em estado de pobreza.

Todas estas cifras são crescentes e se encontram nos relatórios nada extremistas da FAO, UNICEF, Organização Mundial da Saúde e no Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial 1990, do Banco Mundial, que ostenta um título sintético: "Pobreza", bem como no "Relatório sobre o Desenvolvimento Humano 1992" das Nações Unidas.

Este último constitui um balanço do nosso conhecimento sobre a situação social no mundo, e resume a situação de forma dramática: "Ainda há mais de um bilhão de pessoas em estado de pobreza absoluta, quase 900 milhões de adultos não sabem ler nem escrever, 1,75 bilhões de pessoas não têm acesso a agua potável segura, cerca de 100 milhões estão completamente sem casa, cerca de 800 milhões passam os seus dias com fome, 150 milhões de crianças de menos de cinco anos (um em cada tres) estão desnutridas e 14 milhões de crianças morrem anualmente antes dos seu quinto aniversário. Em muitos paises da Africa e da América Latina, os anos 1980 presenciaram estagnação ou até inversão em realizações humanas".

As raízes desta situação catastrófica são mais políticas do que econômicas. O mundo produz atualmente mais de 4.000 dólares de bens e serviços por pessoa e por ano, o que significa que, com uma repartição um pouco mais justa, poder-se-ia assegurar uma vida digna e normal para toda a população do planeta, sem miséria, sem fome, e sem as manifestações de violência que resultam da opressão.

No próprio Brasil, onde a produção anual por habitante é da ordem de 2.000 dólares, uma repartição mais justa permitiria assegurar um nível de vida confortável para a totalidade da população. A realidade é que a metade do produto social é consumida por 10% das famílias mais ricas do país. O topo da pirâmide social, representando 1% dos mais ricos do país e cerca de 1,5 milhões de pessoas, obtém uma renda de cerca de 17% do total, enquanto a metade mais pobre do país não chega aos 13%. Isto significa que 1,5 milhões de ricos podem consumir mais do que os 75 milhões de pobres do país.

As cifras preliminares do IBGE, referentes aos últimos anos mostram que esta situação está se agravando. Apesar de sermos um dos países mais bem dotados para a agricultura do mundo, temos cerca de metade da população desnutrida. Somente Haiti, Bolívia e Honduras têm uma mortalidade infantil mais elevada que a nossa. Cerca de 60% da nossa mão-de-obra são analfabetos ou semiletrados. O essencial do aparelho produtivo industrial está concentrado em três ou quatro cidades, o êxodo rural desestrutura a população camponesa e transforma as cidades em aglomerados cada vez menos controláveis.

Os efeitos práticos são as 370.000 crianças que morrem anualmente no Brasil de causas ridículas, são cerca de 500.000 meninas prostituidas - hoje são anunciadas nos jornais como qualquer produto -, é a vida absurda dos próprios ricos, escondidos atrás de grades e guaritas, imaginando sequestros em cada esquina, criando condomínios irreais protegidos por cães de guarda e sistemas eletrônicos futuristas, como se o objetivo da nossa vida fosse a guerra.

Enquanto no campo social iam se avolumando problemas tão dramáticos, as grandes iniciativas do governo se concentravam em programas tão absurdos como o projeto nuclear, a transamazônica, a ferrovia do aço, a "maior hidroelétrica do mundo" - Itaipú- e outros projetos que passam longe das necessidades efetivas da população. A impressionante leviandade com a qual sucessivos governos contrataram a dívida externa nos condena hoja a pagarmos em juros o que poderíamos estar investindo em desenvolvimento.

Não queremos aqui discutir os projetos, nem a dívida externa, e sim os próprios mecanismos de decisão que nos levam a opções sistematicamente erradas. Como recuperar o controle sobre este processo? Como se chega a este grau de distorsão das decisões sobre o uso dos recursos?

A idéia que aqui desenvolvemos é simples: quando as decisões se tomam muito longe do cidadão, correspondem muito pouco às suas necessidades. Assim, a dramática centralização do poder político e económico que caracteriza a nossa forma de organização como sociedade, leva em última instância, a um divórcio profundo entre as nossas necessidades e o conteúdo das decisões sobre o desenvolvimento econômico e social.

A centralização do poder está diretamente vinculada àconcentração de renda, pois apenas com imenso poder central tanto ao nível do Estado como ao nível empresarial, é possível que 1% da população se aproprie de um produto social maior do que os 75 milhões de pobres.

Por sua vez, a concentração do poder económico tende a esvaziar os espaços formais de decisão, e constatamos a multiplicação de leis que favorecem a sociedade, mas que simplesmente não se aplicam, pois o poder real se desloca para fôros informais. Tipicamente, e os exemplos são inúmeros, a constituição fixa a taxa de juros em nível máximo de 12% reais ao ano, mas os bancos tem poder para praticarem as taxas que desejam.

O problema do poder local que aqui estudamos envolve portanto a questão básica de como a sociedade decide o seu destino, constrói a sua transformação, e, para dizê-lo de forma resumida, se democratiza.

Os paradigmas perdidos

Com as profundas transformações no Leste europeu, tivemos todos a impressão de uma "vitória" liberal, para dizê-lo de forma simples. Na realidade, quando vemos as estatísticas do capítulo anterior sobre o drama social e económico que se avoluma nos paises em desenvolvimento, torna-se evidente que o modêlo liberal enfrenta hoje enormes problemas e oferece poucas soluções.

Além disso, o chamado Ocidente já não pode acusar qualquer movimento que busque justiça social e transformações mais profundas de querer instalar os "soviets", e de certa forma, com o desaparecimento do espantalho comunista, o liberalismo se vêfrente àfrente com os próprios dramas que criou. Os 12 milhões de crianças que morrem de fome anualmente não constituem herança socialista.

Por outro lado, esquecemos frequentemente a que ponto os próprios paises capitalistas estão hoje distantes da proposta liberal. Os liberais nos dizem - "é a culpa do Estado". E propõem-nos a solução mágica, reduzir o Estado, privatizar. Acontece que uma olhada na evolução da presença económica do Estado nos paises desenvolvidos nos mostra dados surpreendentes:

Participação da despesa governamental no PNB ou no PIB (%)

Ano

França

Alemanha

Japão

Suécia

Inglaterra

EUA

1880

15

10

11

06

10

08

1929

19

31

19

08

24

10

1960

35

32

18

31

32

28

1985

52

47

33

65

48

37

Fonte: Banco Mundial - Relatório sobre o Des. Mundial 1988

Os dados são do Banco Mundial, certamente insuspeito de "estatismo". Constatamos que o peso do Estado nestas economias maduras atinge valores que beiram ou ultrapassam a metade do produto, e que a aceleração recente do processo é forte, apesar de toda a ideologia da privatização e "desregulação". Na Suécia, exemplo de sociedade avançada, constatamos que o peso do Estado atinge os dois terços da economia.

Para amarrarmos bem o assunto, vamos dar outro exemplo, também da Suécia, e baseado em estudo recente e oficial: o país tem uma população ativa de 4,8 milhões de pessoas. Destes, 1,2 milhões trabalham nas administrações municipais e regionais, ou seja, uma pessoa em cada quatro é funcionário local. O governo central tem quatro vezes menos, cerca de 300 mil funcionários. Assim a Suécia tem um funcionário para cada 7 habitantes, enquanto o Brasil tem um para cada 50. Mas a estrutura sueca é essencialmente local, e estreitamente controlada pela população, mais do que pela burocracia central.

A conclusão é evidente: quanto se discute o Estado, não se trata essencialmente de um problema de dimensão, argumento que repousa em má informação ou má-fé. Ao vermos crianças brigando com giz numa escola, poderíamos concluir que se deve proibir o giz, ou reduzir o número de escolas, mas não teria muito sentido. Da mesma forma somos diariamente submetidos ao martelamento de propostas de se "privatizar" e "enxugar" o Estado, quando o que devemos enfrentar é o problema de como o Estado se organiza, quem o controla, e sobretudo a quem serve. Seja êle grande ou pequeno.

Na realidade, estas soluções simplificadoras já não respondem àrealidade complexa e dinâmica de uma sociedade moderna: segundo as áreas e setores, os mecanismos deverão ser diferentes, ou articulados de diversas formas.

Urbanização e a importância do Estado descentralizado

O processo de urbanização em nível mundial é extremamente forte. Em 1965 tinha atingido 34% da população, e 47% em 1988. No mesmo período o número de cidades de mais de 500.000 habitantes pasou de 217 para 435.

Esta dinâmica é particularmente importante nos paises em desenvolvimento: enquanto em 1965 havia 104 cidades de mais de 500.000 habitantes nos paises da OCDE e 110 nos paises em desenvolvimento, cifras da mesma ordem de grandeza, em 1985 estas cifras passaram respectivamente para 152 e 278. A população urbana cresceu de 0,7% ao ano no período 1980-88 nos paises da OCDE, enquanto atingia 6,9% ao ano no conjunto das economias em desenvolvimento.

Em outros termos, a população urbana dos paises em desenvolvimento estará quase dobrando nesta década. No caso brasileiro, passamos de 50% de população urbana em 1965, para 75% em 1988. Em 1980 cerca de 52% da população urbana vivia em cidades de mais de 500.000 habitantes, e a pressão continua forte: o crescimento da população urbana era de 3,6% ao ano no período 1980-88, quase o dobro da taxa de crescimento geral da população.

Temos uma tendência natural para subestimar a importância dos processos graduais, e pouco espetaculares. Assim, como os processos demográficos são muito lentos, às vezes nos escapam as mudanças qualitativas profundas que implicam para a sociedade.

Uma implicação central é a seguinte: há décadas atrás a nossa sociedade se caracterizava por uma capital e algumas cidades mais, cercadas por uma população camponesa dispersa que constituia a ampla maioria. Era natural, nestas condições, que o Estado com as suas funções burocráticas se identificasse com a "capital", e que todas as decisões significativas fossem tomadas no "centro" do país.

Hoje a esmagadora maioria da população, mesmo quando trabalha na agricultura, vive em áreas urbanas, em vilas e cidades. A realidade simples que hoje se descobre, é que os 80 ou 90% das ações que concernem as nossas necessidades do dia a dia, como a construção e gestão das escolas, a organização das redes comerciais e financeiras, a criação das infraestruturas de saúde, a preservação do meio ambiente, a política cultural e tantas outras, podem ser resolvidas localmente, e não necessitam de intervenção de instâncias centrais de governo, que tendem a burocratizar o processo.

Inclusive, com a constituição de uma complexa pirámide de vilas, cidades e grandes centros, que constituem um "tecido" articulado de interesses, muitas ações que pela sua abrangência extrapolam o município, são geridas com maior competência por uma articulação dos municípios interessados do que pela intervenção do Governo central.

O Estado centralizado que temos constitui portanto uma sobrevivência de outra época, quando no nivel local não existia a capacidade de ação organizada. Hoje, este mesmo Estado constitui essencialmente um fator de atrazo. De certa forma, temos um Estado do século XIX para uma realidade de fim de século XX.

O "terceiro eixo": a democracia local

Estamos acostumados a que a intervenção do cidadão sobre a transformação social se dêatravés de dois eixos fundamentais: o eixo político-partidário e o eixo sindical-trabalhista.

O primeiro tem como instrumento central a eleição de representantes, e como palco de luta o parlamento e as estruturas executivas do Governo. O segundo, utiliza o instrumento que constitui a negociação empresarial e a greve, e tem como palco a empresa, visando a apropriação mais equilibrada do produto social.

Penetrou muito pouco ainda na nossa consciência a importância de um terceiro eixo que surge com força, que tem como instrumento a organização comunitária, e como espaço de ação o bairro, o município, o chamado "espaço local", ou "espaço de vida".

De certa forma, o cidadão que vive num bairro que não lhe agrada, pensa em mudar de bairro, ou de cidade, mas não pensa muito na sua possibilidade e direito de intervir sobre o seu espaço de vida, de participar na criação de uma qualidade de vida melhor para si e para a sua familia.

Na Suécia, o cidadão participa em média de 4 organizações comunitárias. Na Venezuela, surgiu com força o movimento de "vecinos". Na Colômbia generalizou-se a organização comunitária nas "veredas". Os exemplos se encontram por toda parte, numa verdadeira explosão de organizações que se caracterizam pela gestão participativa do espaço local.

Um bom exemplo do que significa em termos práticos esta evolução é o programa de "bolsões residenciais" que a prefeita Luiza Erundina introduziu em São Paulo. O programa envolve o fechamento de várias ruas de um "bolsão" constituido por algumas centenas de residencias. Com isto se evita o trânsito de passagem, dos carros que atravessam velozmente zonas residenciais para cortar caminho, mantendo-se apenas algumas entradas para efeitos de trânsito local e serviços. O efeito desta medida aparentemente banal é profundo.

Primeiro, porque a população se junta para discutir a organização do espaço onde vive. Para evitar prejuizo a interesses minoritários, as decisões necessitam de 70% de aprovação para serem válidas. Com a eliminação de trânsito de passagem, melhora a segurânça, pois um carro estranho chama a atenção. Por outro lado, as crianças redescobrem a bicicleta, sem que seja necessário construir ciclovias nem parques de diversões. As crianças voltam a brincar na rua. Os idosos passam a exigir o banquinho na calçada, aparece a rêde de volei que atravessa rua e assim por diante. A mãe descobre que não precisa ficar com a criança pendurada na sua saia, volta a imperar o "vábrincar lá fora".

Este tipo de alteração da cultura urbana pode parecer secundário para quem vive em cidades pequenas, mas numa metrópole como São Paulo é uma das poucas formas do idoso, da criança e outros recuperarem o direito ao espaço social, ainda que haja fortes reclamações por parte de quem utiliza a rua apenas para andar mais rápido.

Um efeito indireto interessante é a modificação da atuação do técnico: os serviços da prefeitura intervêm para mostrar aos habitantes locais os limites das suas propostas: é preciso viabilizar a passagem do caminhão do lixo, algumas soluções de fechamento parcial são melhores do que outras do ponto de vista do trânsito externo e assim por diante. Em outros termos, a comunidade decide, e o técnico reencontra a sua função real que é de se colocar a serviço de uma instância política, ajudando a encontrar soluções adequadas e não impondo um "planejamento" técnico a uma população passiva.

Os resultados a médio prazo são importantes: depois das primeiras reuniões estimuladas pela administração municipal, a própria existência de um espaço de gestão dos vizinhos leva a que estes continuem a se reunir em torno a outros problemas, como a praça, a arborização e outros.

Èverdade que o ceticismo quanto àimportância estratégica dos mecanismos participativos no nível local ainda é grande. Ècomum a visão de que a organização comunitária que luta por uma casa de saúde ou pela canalização de um córrego, desaparece apenas tenha obtido a sua reivindicação.

Esta visão está evoluindo gradualmente para a compreensão de que as comunidades estão simplesmente aprendendo a participar da organização do seu espaço de vida, e de que o processo está mudando profundamente a forma como nos organizamos como sociedade.

Èbom dizer que também em torno da ideologia do poder local formou-se uma concepção simplificadora, de solução universal na linha das tecnologias alternativas, do pequeno, do comunitário. Dar a devida importância ao espaço local e àparticipação não significa que este mecanismo possa assegurar o conjunto dos equilíbrios necessários ao nosso desenvolvimento.

Mas no conjunto este "terceiro eixo" está abrindo um espaço político profundamente renovador na nossa concepção de democracia. Na realidade, o que se constata é uma evolução da democracia representativa, exercida a cada quatro anos, para uma democracia participativa e permanente.

Vantagens e desvantagens

A descentralização que o poder local permite tem igualmente uma dimensão administrativa extremamente concreta, a dimensão da simples racionalidade no uso dos recursos disponíveis, e da economia dos nossos esforços.

A nossa tradição nos leva a privilegiar as economias de escala. Quando pensamos em empresas que de certa forma simbolizam para nós o desenvolvimento moderno, vemos escalas de produção muito elevadas, como é o caso de empresas automobilísticas ou de eletrodomésticos, o gigantismo da IBM ou dos grandes bancos. Èa confiabilidade do gigante. E realmente, não se pode produzir carros baratos em fundo de quintal.

O que em geral desconhecemos, é o custo do gigantismo, que os economistas chamam de "deseconomias de escala", e que resultam em grande parte dos crescentes custos administrativos àmedida que uma empresa ou uma administração se tornam maiores.

Por outro lado, como o gigantismo das empresas as leva em geral a produzir em massa, de forma muito padronizada, perde-se na produção de grande escala a flexibilidade de resposta ao que é realmente necessário para os diferentes individuos ou grupos que compõem a sociedade.

Colocada como alternativa, a escolha tem pouco sentido: o que tem sentido, é entender o que deve ser feito em grande escala, e como deve ser controlado, e o que deve ser feito em pequena escala. O que deve ser centralizado e o que deve ser descentralizado, de forma que o conjunto das nossas atividades responda efetivamente ao que queremos.

A nececessidade de descentralizar e de democratizar a nossa sociedade resulta dos problemas que temos de enfrentar. Se o objetivo principal fosse - como no caso dos governos militares - maximizar a produção de automóveis e dar uma aparência externa de país desenvolvido, é provável que realmente poderíamos manter um sistema centralizado. Mas o nosso problema não é produzir mais automóveis e construir mais transamazônicas.

O nosso problema, como vimos, é o da dramática polarização entre ricos e pobres, e a necessidade de gerir os milhares de pequenos projetos de desenvolvimento que devem ser promovidos nos cinco mil municípios do país. E isto nos obriga a medidas muito concretas e pragmáticas.

Neste plano, é indiscutível que aproximar o poder de decisão e de controle das pessoas que arcarão com o benefício ou o prejuizo, e que estão portanto diretamente interessadas nos resultados, constitui simplesmente boa política administrativa.

Vimos acima a transformação demográfica profunda que atravessa o país, com o êxodo rural e a intensa urbanização. Vimos igualmente a dramática concentração de renda que acompanha este processo, formando minorias ricas e poderosas, e generalizando a pobreza.

A articulação destes dois processos--urbanização e concentração de renda--constitui o pano de fundo sobre o qual devemos procurar as nossas alternativas de desenvolvimento.

No campo, permanecem os fatores de empobrecimento da população. O Brasil tem mais de 400 milhões de hectares de boa terra agrícola, e lavra menos de 60 milhões, mantendo a esmagadora maioria das terras agrícolas como reserva de valor, totalmente improdutivas ou com uso simbólico através da criação extensiva de gado. O relatório das Nações Unidas sobre o desenvolvimento humano, dando um exemplo das aberrações da concentração de renda na América Latina lembra que no Brasil "os 2% de maiores proprietários de terras controlam 60% da terra arável, enquanto 70% de familias rurais estão sem terra ou quase sem terra".

O êxodo rural explode nos centros urbanos, e se manifesta em particular nas novas periferias, que crescem com ritmo extremamente elevado - taxas superiores a 10% são frequentes - sem que as administrações locais tenham possibilidade de lhes garantir saneamento, escolas e outras infraestruturas. Èbom lembrar a potência deste movimento: São Paulo (na área municipal apenas) cresce anualmente de cerca de 200.000 habitantes, e necessitaria construir 40.000 casas anuais só para acompanhar o crescimento da população, sem falar no déficit acumulado de um milhão de residências.

Esta urbanização violenta e caótica, associada a uma grande miséria que resulta da concentração de renda, coloca a administração municipal na linha de frente da nova geração de problemas económicos e sociais que se avolumam nos paises em desenvolvimento.

Esta pressão explode nos municípios, enquanto os escalões superiores continuam com a sua dramática inoperância, e os mecanismos de financiamento seguem ritmos e burocracias completamente absurdos. Aprofunda-se assim a contradição entre os problemas que temos de enfrentar, e a estrutura centralizada de Estado que herdamos. O município está na linha de frente dos problemas, e em último lugar na hierarquia de decisões do Estado.

A realidade é que estamos, nos paises em desenvolvimento, dando os primeiros passos nesta área essencial do desenvolvimento local.

Na Venezuela, por exemplo, é em 1989 que pela primeira vez passaram a ser eleitos os prefeitos municipais. A parte do orçamento destinada aos poderes locais atinge 19,4% na Venezuela, 12,3% na república Dominicana, 5% na Costa Rica, 6,4% no Paraguay, 5,8% no Perú, 4,2% no Panamá. No Brasil, é com a constituição de 1988 que começamos timidamente a dar alguns passos, mas continuamos com níveis de financiamento aos municípios característicos de pais pobre, da ordem de 10 ou 12%.

Nos paises desenvolvidos a proporção muda radicalmente, atingindo 66% dos gastos públicos no Japão, 55% na Suécia, 42% nos Estados Unidos, 50% na Dinamarca, para dar alguns exemplos.

De forma geral, a ordem de grandeza é que os municípios dos paises desenvolvidos controlam cerca de metade dos recursos públicos nos paises desenvolvidos, enquanto nos países subdesenvolvidos esta cifra situa-se em torno dos 10%.

Enquanto nos paises desenvolvidos crescentemente o cidadão resolve os assuntos no próprio município, nos paises pobres os responsáveis do município adotam o sistema de peregrinagem, viajando até a capital para cada autorização de financiamento, com todas as deformações no uso dos recursos que isto significa.

Os municípios estão presos em arcabouços jurídicos que tornam a sua administração um verdadeiro pesadelo. A pretexto de existirem menos técnicos a nível local, imagina-se que os recursos não serão bem aplicados se a sua transferência não for cercada de uma selva de leis e regulamentos. A verdade é que quanto mais centralizada a decisão, mais técnicos existem, porém menor é o controle por parte da população.

A administração local se vêportanto esmagada entre as necessidades explosivas que surgem no município, e a inoperância das outras instâncias, e faz um trabalho de contenção de pressões sem os meios correspondentes.

Esta situação se agrava rapidamente pelo tipo de intervenções que a sociedade exige. Vimos que os dois eixos de enfrentamento da pobreza e das suas manifestações situam-se na linha da articulação cidade/campo, por um lado, e na resposta aos problemas das novas periferias por outro. Estes dois eixos de ação exigem milhares de pequenas iniciativas de melhoria, tanto de racionalização da pequena e média agricultura e dos "cinturões verdes" das cidades, como de infraestruturas e serviços sociais nas periferias urbanas.

Estes milhares de pequenos projetos exigem uma esforço capilar de organização e controle que são viáveis apenas com a participação das comunidades interessadas. Em outros termos, há uma contradição crescente entre as formas centralizadas que temos de elaborar, implementar e controlar os projetos, e o fato das necessidades mais prementes do desenvolvimento exigirem um grande número de ações de lógica local.

Em consequência, a própria racionalidade económica e administrativa exige que as ações se apoiem nos mecanismos locais e participativos. Ècaracterístico neste sentido que a conferência das Nações Unidas sobre os municípios e o meio ambiente, de 1990, tivesse chegado àconclusão que as políticas ambientais somente serão efetivamente implementadas quando as populações interessadas, município por município, decidam defender a sua qualidade de vida.

A racionalidade das ações de desenvolvimento exige assim cada vez mais que se imponha aos projetos o controle no nível do ponto de impacto, através da comunidade organizada, e não mais apenas no nível das instituições financiadoras centrais.

Por outro lado, o município está despontando como um grande agente de justiça social. Èa nivel local que se pode realmente identificar com clareza as principais ações redistributivas. Estas ações dependem vitalmente de soluções locais e de momentos políticos, e as propostas demasiado globais simplesmente não funcionam, na medida em que enfrentam interesses dominantes organizados, e complexidades políticas que inviabilizam os projetos.

Enfim e sobretudo, o município permite uma democratização das decisões, na medida em que o cidadão pode intervir com muito mais clareza e facilidade em assuntos da sua própria vizinhança, e dos quais tem conhecimento direto, sem a mediação de grandes estruturas políticas.

Com o volume de problemas que se apresenta, o poder local já não pode mais ser visto, portanto, como um nível de decisão que se limita àconstrução de praças, recolhimento de lixo e outras atividades de cosmética urbana. Trata-se de um eixo estratégico de transformação da forma como tomamos as decisões que concernem o nosso desenvolvimento económico e social.

A preocupação com o perigo da política local ser muito "bairrista", de visão estreita, não se justifica. Experiências recentes como a da "frente dos prefeitos", ou da Associação dos Secretários Municipais de Finanças, ou ainda dos consórcios inter-municipais, mostram que há um imenso campo de trabalho na coordenação inter-municipal, que permite políticas amplas e coordenadas, mas respondendo diretamente aos anseios da população.

Na realidade é o conjunto do processo de tomada de decisão que precisa ser democratizado, aproximado da população, com uma revisão profunda da hierarquia de competências. Precisamos de um intenso esforço de abertura de espaços, de autonomia local, de renovação tecnológica, jurídica e social.

Buscar novos caminhos e propostas

O espaço local está em plena transformação. Surge com a informática uma nova geração de inovações no plano das técnicas de gestão municipal. Pela primeira vez torna-se relativamente barato ter e manter cadastros atualizados. As fotos de satélite nos permitem realizar seguimentos mais sofisticados por exemplo na área ambiental. O custo de terminais de computador, que tem caido vertiginosamente, permite sistemas de informação ao cidadão nos próprios bairros e uma nova transparência administrativa, com tudo o que isto pode representar em termos de democratização.

Na área da limpeza pública está igualmente despontando uma nova geração de tecnologias, com participação do cidadão na separação do lixo, e as diversas formas de reciclagem que isto permite: compostagem, produção de energia, reaproveitamento de diversos produtos.

A própria forma de enfocar as finanças municipais está evoluindo, levando a novos sistemas jurídicos orientados para uma política ativa de redistribuição de renda. Grandes cidades têm implantado uma tributação progressiva sobre imóveis, e penalizam o uso especulativo do solo urbano. Quito avançou significativamente no financiamento da limpeza urbana ao colocar simplesmente uma porcentagem sobre os recibos de energia elétrica: como as casas mais ricas, com mais equipamentos, usam mais energia, a taxa torna-se progressiva, e a cobrança atinge quase todos os usuários, o que não é o caso em geral dos cadastros de imóveis.

Constatamos igualmente uma nova geração de soluções e propostas na área dos problemas ambientais urbanos, particularmente das grandes cidades. Realizam-se hoje experiências interessantes de arborização urbana, a cidade de México implantou experiência significativa de redução do transporte automobilístico individual.

Há inovações na área de transportes, de tratamento de esgotos, de segurança municipal, e numerosos outros setores. E constata-se igualmente uma expansão das próprias atribuições das administrações municipais, como é o caso do apoio àpequena e média empresa, articulação cidade/campo com a promoção dos "cinturões verdes" em torno dos centros urbanos.

Em outros termos, o espaço local é um espaço em plena revalorização, e em plena transformação. E devemos dotar-nos dos instrumentos correspondentes.

Mercado, planejamento e outros

A valorização recente do poder local não pode ser vista de forma isolada: trata-se de uma transformação lenta e profunda do conjunto dos mecanismos que o mundo "realmente existente" utiliza para organizar o seu desenvolvimento. Não se pode entender a nova dimensão do poder local sem entender esta transformação mais ampla.

Sem dúvida o grande debate ainda se dá em torno das alternativas privatização/estatização, com os seus respectivos mecanismos de regulação que são o mercado e o planejamento central. Mas a rapidez das transformações sociais, os avanços tecnológicos e a complexidade crescente das nossas sociedades estão impondo formas mais flexíveis e diversificadas de gerirmos o nosso desenvolvimento. Os mecanismos de regulação económica e social se diversificam, e se articulam de formas diversas.

Antes de tudo, vamos fazer um pouco as pazes com o conceito tão amplo, geral e polivalente de "mercado".

No caso do mercado, é preciso ultrapassar a atitude ideológica de ser a favor ou contra, e passar a entender o seu impacto diferenciado em diversos setores e sub-setores, além de entender as suas funções relativamente a outros mecanismos de regulação. O mercado no sentido original hoje funciona em segmentos limitados da economia.

Vejamos por exemplo o caso da Souza Cruz e dos produtores de fumo: a empresa detém 85% do mercado, e constitui sem dúvida um monopólio, mas incentiva fortemente a manutenção de um ambiente de mercado entre os seus fornecedores de fumo, para manter custos baixos. Reproduz-se a assim a competição entre os pequenos, e o mercado não "desaparece", mas se desloca para um bolsão de atividades económicas. A visão simplificadora do capitalismo monopolista torna-se assim insuficiente, como é insuficiente a teoria do meio-termo, da "concorrência monopolística": não se trata de um meio termo, mas de uma articulação de mecanismos diferentes e mais complexos.

Surge com força uma série de atividades modernas e de ponta onde a tecnologia permite a produção flexível, com séries curtas e facilmente adaptadas às flutuações de mercado. Aqui, o mercado está recuperando espaço. Èo caso da mecânica, por exemplo, onde as máquinas informatizadas permitem responder a necessidades individualizadas sem aumentar significativamente os custos.

Em torno das grandes multinacionais produtoras de bens de consumo final, forma-se o "mercado induzido", em que o mercado é moldado através de gigantescas campanhas publicitárias, sendo mais interessante para estas empresas adaptar o consumidor ao produto já lançado em outros países, do que responder a necessidades e níveis de renda diferenciados.

Na área dos bens de capital - produção de máquinas e equipamento pesado - trata-se de "mercado administrado" (managed market). Ninguém vai produzir por exemplo mais ou menos turbinas de grande porte segundo flutuações de mercado. Abrir "mercado" nesta área se faz em geral através de pressões políticas de empreiteiras, de acordos inter-empresariais, e de processos de concertação. Estamos longe de Adam Smith.

Nos paises em desenvolvimento, o segmento "nobre" das atividades industriais e de serviços produz para o "mercado solvente", ou seja, os ricos. Como os dois terços das populações destes paises vivem em estado de miséria, e não encontram resposta às suas necessidades no setor formal - nem todo mundo pode comprar video-cassete, ou manter uma criança com dieta Nestlé, por exemplo, - desenvolve-se de forma muito dinámica o "mercado informal", que hoje representa frequentemente até 30% ou 40% das atividades produtivas.

Na área internacional, hoje cerca de 35 a 40% do comércio se dá entre matrizes e filiais ou entre filiais de uma mesma empresa, portanto com preços administrativos. Que tipo de mercado é este?

En consequência, já não se pode falar de mercado como de uma coisa só. Èsumamente útil, hoje, analizarmos com frieza o que é realmente o "mercado" que conhecemos, diferenciando o "mercado" de mão de obra, o de capitais etc., para redimensionarmos o papel deste mecanismo de regulação, e afinarmos a nossa análise.

Por outro lado, o planejamento central, apesar das declarações liberais, não foi para o congelador. Todos hoje constatamos a necessidade do planejamento central, mas não como mecanismo universal. Os grandes eixos de infraestruturas, ligados àpolítica energética, de telecomunicações, de transportes, de controle de águas, por exemplo, implicam visão de conjunto, enormes investimentos, e têm de obedecer às necessidades de desenvolvimento equilibrado e de longo prazo de cada país, quando não de um conjunto de paises. Deixar o desenvolvimento destes setores a uma regulação de mercado tem pouco sentido. Os maiores fluxos de investimentos hoje, como o programa de infraestruturas para os anos 1990 na Comunidade Europeia, com centenas de bilhões de dólares, são regulados por planejamento central. O que aparece sim como absurdo, hoje, é a tentativa do planejamento central querer definir quantas camisas de que cores deverão fazer milhares de confeccões: esta é claramente uma área de regulação por mercado.

Na própria área industrial, as grandes opções tecnológicas do Japão na área da micro-eletrónica, por exemplo, ou da Suécia na área da mecánica de precisão, resultam de decisões políticas e de estratégia económica dos governos, baseadas em projeções de longo prazo, e não há nenhuma desregulação àvista nesta área. O Japão, aliás, constitui um exemplo impressionante de articulação de mecanismos de mercado com sólido planejamento de políticas econômicas de longo prazo.

Esta necessidade do planejamento foi redescoberta e se desenvolve hoje de maneira generalizada no setor privado, através das redes e do planejamento inter-empresarial, mecanismos que permitem harmonizar as relações entre unidades de produção, permitindo que as inevitáveis complementariedades de um processo econômico moderno sejam organizadas de maneira flexível e pelos próprios interessados, e assegurando ao mesmo tempo a estabilidade que uma produção com profunda divisão social do trabalho exige. Em termos práticos, isto significa que hoje as grandes empresas trabalham em espaço "organizado": grandes empresas automobilísticas, por exemplo, simplesmente montam produtos que são produzidospor outras empresas segundo contratos plurianuais, frequentemente em regime de subcontratação da totalidade da produção, com condições comerciais e técnicas pré-definidas, utilizando técnicas sofisticadas de planejamento inter-setorial.

As "corporações" coordenam assim amplos espaços económicos segundo as suas necessidades de longo prazo, e administram as suas "pirâmides" produtivas, que hoje as Nações Unidas qualificam de "galaxias" económicas. Estas "galáxias", articuladas através de uma série de mecanismos de dependência, que transferem produtos entre matriz e filial ou entre filiais segundo preços administrativos, e que realizam frequentemente um produto superior ao valor do PIB da maior parte dos paises, continuam a se referir ao "mercado", mas trata-se na verdade de formas novas de organização.

Michael Gerlach, da Universidade da California, num estudo comparado das empresas do Japão e dos Estados Unidos, mostra como a tendência do capitalismo real vai no sentido da formação de um sistema complexo de relações horizontais entre empresas e segmentos empresariais, as "redes inter-empresariais", onde unidades formalmente independentes fazem parte de um tecido econômico complexo, articuladas através de acordos tecnológicos, de propriedade cruzada de ações, troca de funcionários de alto escalão, financiamentos conjuntos e outros mecanismos. Assim, o contexto da empresa deslocou-se "do mundo anônimo da mão invisível para as esferas concretas do planejamento e da coordenação". Estamos longe, aqui, tanto da teoria clássica dos monopólios, como do liberalismo econômico.

Uma imensa área de atividades escapa aos mecanismos de mercado e constitui hoje um instrumento essencial de política económica dos governos: a política de renda, ainda chamada de política de conjuntura ou política de curto prazo. A sua importância hoje absolutamente fundamental resulta da necessidade de se buscar os equilíbrios macro-económicos da economia, num mundo em que os mecanismos financeiros ganharam vida própria. O fato é que o mercado pode assegurar a coerência da produção em numerosas áreas, mas constitui reconhecidamente um mecanismo muito deficiente de redistribuição.

Englobamos aqui particularmente a política salarial, a política de preços, a política orçamentária, a política de crédito e a política cambial. Estes diversos mecanismos, para o manejo dos quais muitos governos estão hoje se dotando de poderosos instrumentos de intervenção, têm em comum o fato de agirem sobre o nível de remuneração dos fatores, segundo os diferentes grupos de agentes econômicos, ainda que não assumam formalmente esta função. Estes mecanismos de política de renda podem evidentemente tanto ser utilizados com efeitos redistributivos, para socorrer a população de baixa renda, como se tornarem instrumentos de reprodução de privilégios econômicos.

Èuma política de renda definida que leva a que, no Brasil, fazer intermediação financeira seja muito mais remunerador do que por exemplo produzir feijão. Ao financiar subsídios para alguns setores às custas de emissão monetária e através da inflação, promove-se simplesmente a transferência da renda de uma parte da sociedade para outra.

A transparência dos mecanismos monetários e dos instrumentos financeiros sendo quase nula para o grande público, geram-se assim gigantescas transfrências de recursos da população mais pobre para a população mais rica, ou de paises pobres para paises ricos, originando uma ampla "mais-valia social": o trabalhador que vêo seu salário diminuido por mecanismos como a inflação, sofre uma segunda exploração que é diferente no seu mecanismo da mais-valia empresarial extraida na empresa, mas nem por isso menos poderosa, e nunca sabe quem lhe tirou dinheiro do bolso.

Um outro conjunto de mecanismos engatinha, mas é essencial: trata-se do sistema de concertação internacional. Há uns quinze anos Samir Amin publicou vários trabalhos sobre uma contradição maior deste fim de século: a economia se internacionalizou, enquanto os mecanismos de política económica continuam sendo nacionais. As Nações Unidas têm o pêso que tem a boa vontade, o Gatt tem presença simbólica, o FMI transformou-se em simples instrumento de pressão sobre os paises pobres, o Banco Mundial não consegue cortar o seu cordão umbilical norte-americano. O resultado é que o mundo vive uma explosão de reuniões internacionais de presidentes, de ministros de finanças, de ministros da energia etc., buscando acertos temporários para compensar a fragilidade dos mecanismos de concertação internacional.

Todos se preocupam hoje sobre esta dimensão mundial do nosso desenvolvimento. Nas Nações Unidas, este problema de "governabilidade mundial" é estudado como "international governance", capacidade necessária para enfrentar os "mecanismos nacionais tradicionais e obsoletos de regulação". A realidade é que, frente a mundialização da economia, continuamos ainda sem os correspondentes instrumentos de gestão.

Assim, o controle de fato dos processos econômicos internacionais fica nas mãos das empresas transnacionais, que tiram proveito das diferenças económicas, jurídicas e políticas entre países, e hoje controlam os mecanismos concretos de ordenamento dos fluxos internacionais, através das suas rêdes mundiais de serviços financeiros, comerciais e de comunicação.

A verdade é que ninguém - e muito menos o mercado - controla o caos internacional que progressivamente se instala, e do qual a dívida externa, a concentração de renda, o comércio da droga, a produção e comercialização de armas e a destruição do meio ambiente global constituem apenas alguns exemplos.

Èfrente a estas transformações que o instrumento básico do poder local, a participação comunitária, adquire uma importância de primeiro plano, não como panacéia, mas como mecanismo complementar de outras transformações concomitantes.

Trata-se da descentralização, do planejamento municipal, dos diversos sistemas de participação das comunidades nas decisões do espaço de vida do cidadão, e que dão corpo ao chamado "poder local".

A participação comunitária constitui hoje claramente o mecanismo mais racional de regulação das principais atividades da área social, da urbanização, da pequena e média produção, além de constituir um "lastro" indispensável para o equilíbrio do conjunto das atividades no nível macro-económico.

Curiosamente, a fraqueza deste mecanismo é comum aos paises socialistas e capitalistas sub-desenvolvidos. Os países capitalistas desenvolvidos, e particularmente os paises escandinavos, têm muito a nos ensinar sobre o peso da organização comunitária, como forma de assegurar que as atividades económicas e sociais respondam em última instância às nossas necessidades. Afinal, para que é que trabalhamos?

Os mecanismos de participação comunitária têm sido vistos tradicionalmente como operantes na área social, e as administrações locais como encarregadas de cuidar do lixo e das praças. Hoje esta visão tende a se abrir para incluir o conjunto das áreas que têm impacto sobre o espaço de vida do cidadão.

Temos que rever em particular, sob esta perspectiva, as atividades da pequena e média empresa, bem como do setor informal, que desempenham um papel fundamental como contrapeso das atividades das grandes corporações; a organização dos sistemas participativos da população, para que o cidadão possa efetivamente exercar a sua cidadania e influir sobre as suas condições concretas de vida no espaço local; a criação de uma nova cultura urbana que permita àpopulação viver e não apenas se proteger e sobreviver.

O que propomos aqui, de certa maneira, é que se deixe um pouco de lado as duas "árvores de natal" ideológicas, cada uma com as suas luzinhas, uma propondo a paz social e a racionalidade no quadro do planejamento central, outra imaginando que as dificuldades se resolverão pela mágica da mão invisível. Uma sociedade organizada, e os processos produtivos modernos não podem mais prescindir desta organização, envolve uma cooperação articulada dos mecanismos de mercado, de planejamento central, de política de renda, de redes inter-empresariais, de participação comunitária e de concertação internacional. Não existe mais uma única solução simplificadora.

Estamos na era das transformações tecnológicas profundas, da "aldéia global", que outros chamam de "espaço-nave terra", para acentuar o nosso destino comum e interdependência. É a era dos processos económicos e sociais articulados, da diversificação e complexidade globais que exigem participação consciente e contribuição organizada de todos. Não são coisas que se resolvem com a "mão invisível" de Adam Smith, ou com um núcleo tecnocrático de planejamento, o "Gosplan" universal. Resolvem-se com a articulação de diversos mecanismos, e com muito pragmatismo na busca de soluções.

O enfoque de sub-utilização de fatores

Em termos realistas, o fato de estarmos deixando de lado os discursos ideológicos, e passando a trabalhar com mecanismos flexíveis e diversificados de gestão, abre espaço para que os administradores municipais, as organizações comunitárias e outros atores do poder local passem a buscar as formas práticas mais adequadas de responder às suas necessidades, sem medo de inovar, de organizar parcerias, de mexer nas hierarquias tradicionais de decisão.

Ninguém vai pedir desculpas a um município que se deixou invadir por uma monocultura qualquer, permitiu que as terras fossem esgotadas ou utilizadas apenas pela pecuária extensiva, o agricultor transformado em trabalhador temporário, a cidade tensionada por um cinturão de boias frias, deixando o muncípio empobrecido e desarticulado; perguntarão apenas por que ele não teve capacidade de defender os seus interesses, de promover a sua racionalidade global.

Defender os interesses do município é promover o desenvolvimento equilibrado, com uma base económica variada, uma situação social mais justa. Trata-se de promover uma visão de longo prazo, entendendo-se que o município, o bairro, ou ainda um vale numa área rural, será o lugar de vida dos filhos, dos netos, a quem é preciso deixar algo melhor.

Èóbvio, entretanto, que se trata de dinamizar o que já existe, e não de inventar uma visão futura idealizada, desgarrada da realidade. Trata-se, antes de tudo,de ter os pés no chão, de conhecer profundamente a dinâmica existente para então intervir.

No Brasil, voltando ao exemplo da terra, dos 850 milhões de hectares que compreendem o território nacional, temos cerca de 370 milhões de hectares de boa terra pronta para o cultivo. Segundo o último censo agrícola, utilizamos cerca de 60 milhões de hectares na lavoura, em torno de 15%. Enquanto isso, no país temos dezenas de milhões de trabalhadores desempregados ou subempregados. O resultado é que temos milhões de subnutridos, num dos países mais bem dotados em recursos naturais e humanos.

Esta situação, ao nível do país, resulta de um acúmulo de subutilização de recursos em milhares de municípios. E cabe a cada município analisar como se manifesta concretamente esta deformação no seu território, tanto no caso do solo como em outros numerosos casos de subutilização ou de má utilização dos recursos disponíveis.

Em termos práticos, a pergunta que se deve fazer em cada município é a seguinte: quais são os recursos disponíveis e como estão sendo utilizados?

Um bom exemplo é o do solo urbano: São Paulo, uma das quatro maiores metrópoles do mundo, tem 25% do seu solo vazio, aguardando valorização por esforço alheio, obrigando as pessoas a viver em bairros muito distantes ou em cortiços no centro, reduzindo a racionalidade do uso do recurso mais escasso da cidade.

A subutilização de terras rurais resulta também, em grande parte, de simples especulação. O Brasil ainda é um dos poucos países no mundo onde se utiliza a terra como reserva de valor. Em outros termos, em vez do empresário procurar desenvolver a produção, imobiliza a terra, na espera de que atividades de investimentos do Estado ou de outros empresários venham valorizar o seu imóvel. Como tem mêdo de perder a sua terra para alguém que efetivamente a faça produzir, exerce uma permanente vigilância sobre os possíveis "posseiros". Cria-se assim uma casta de proprietários que nem produzem, nem deixam produzir, e criam um "peso" de imobilismo que paralisa o município.

Outro recurso geralmente subutilizado é a água. Mais uma vez, há um conhecimento insuficiente deste recurso. Um estudo aprofundado dos recursos hídricos pode apresentar um imenso potencial subutilizado em termos de acesso a água potável, promoção de irrigação, desenvolvimento de piscicultura e recuperação de terras por drenagem de várzeas. O desenvolvimento de infra-estruturas para o cinturão verde das cidades, com horticultura intensiva em pequenas propriedades, permite absorver o desemprego ou assegurar a atividade da mão-de-obra subutilizada durante certos períodos do ano, sobretudo no caso de municípios com forte proporção de monocultura, bem como promover a ação produtiva dos idosos através da jardinagem produtiva.

A água é um recurso social e o seu uso racional no município deve ser planejado: devem ser estudadas as diversas fontes, confrontadas com os diversos usos. Lembremos que uma boa utilização de água potável constitui muitas vezes a forma mais rápida e mais barata de eliminar as principais doenças, e que o ordenamento racional do uso da água pode dinamizar fortemente tanto a agricultura como a indústria. A falta de controle do uso da água, por outro lado, leva em geral a problemas ambientais dificilmente reversíveis, e a problemas dramáticos da qualidade de vida.

Um outro recurso, geralmente pouco estudado e subutilizado, é o material de construção. Trata-se de material pesado, e o não aproveitamento de recursos locais significa custos de transporte elevados de produtos de outras regiões. Èpreciso realizar o balanço de materiais de construção e conhecer a fundo os recursos locais: pedra, argila, madeira, fibras, etc. Esse conhecimento permitirá ao município, por sua vez, adotar uma política tecnológica de construção frente às empreiteiras, privilegiando as empresas dispostas a utilizar materiais de construção locais, reduzindo os custos.

O uso racional dos recursos não pode aguardar apenas a "mão invisível". Os recursos naturais, em particular, são não renováveis, ou renováveis a longo prazo (caso das florestas) ou ainda com custos elevadíssimos (caso da água poluída ou da terra esgotada). A destruição da fauna ou dos recursos pesqueiros é também em geral definitiva, e hoje um sem número de municípios vêuma base importante de produção da sua riqueza simplesmente destruida.

Isso resulta dos mecanismos de mercado nessa área da economia. Numerosas empresas pesqueiras, por exemplo, praticam a sobrepesca, ou seja, a pesca excessiva que não permite a reprodução do peixe e acaba destruindo os recursos. As empresas deslocam-se então para outras regiões, continuando a destruição. Essas empresas se justificam de forma simples: se não recorrerem a essa prática, outras o farão, levando assim o lucro. Desta forma, a concorrência nestes casos leva a uma destruição da base de reprodução de riqueza da população, o capital natural.

Coloca-se assim o problema mais amplo, de se ultrapassar a opção absurda entre a subutilização dos recursos, ou o seu uso predatório. No Japão é proibida a pesca, para as grandes empresas, no litoral onde existem municípios com comunidades de pescadores: os barcos de pesca industrial devem buscar o peixe em alto mar, ou firmar contratos no exterior. Isto foi obtido por meio de organização dos municípios e das comunidades.

A área dos recursos naturais exige assim um controle efetivo da comunidade ameaçada, não só para protegê-los, como para assegurar a sua exploração racional.

Isso, por sua vez, exige uma transformação do equilíbrio de decisão política, entre as empresas que exploram os recursos e a comunidade: trata-se de democratizar a decisão econômica do município. O Brasil é, neste sentido, um país característicamente subdesenvolvido, e as empresas privadas ou estatais consideram que não têm satisfação a dar às comunidades onde se instalam, enquanto as prefeituras se limitam a asfaltar ruas e ornamentar praças.

O resultado é o nível impressionante que atingiu no Brasil o esgotamento de solos, a destruição de florestas - com as perturbações de chuvas e de desertificação que resultam - a poluição do litoral de norte a sul do país, o desaparecimento da fauna, do recurso pesqueiro, a poluição dos rios e do ar, dinâmica cujo impacto sentirá a próxima geração, mas de maneira irreversível se não intensificarmos as providências hoje.

Para tornar os recursos naturais produtivos, é necessário mobilizar os recursos humanos.

Cada município dispõe de uma determinada força de trabalho. No Brasil, por exemplo, temos em l990 cerca de 150 milhões de habitantes. Desses, cerca de 85 milhões, entre 16 e 64 anos, estão em idade de trabalhar. Cerca de 60 milhões trabalham ou estão dispostos a trabalhar, o que constitui a população economicamente ativa, a PEA. A diferença entre a população em idade de trabalhar e a população disposta a trabalhar - cerca de 25 milhões de pessoas - resulta, em boa parte, da falta de emprego interessante e remunerador.

Se acrescentarmos a esta cifra os milhões de desempregados e subempregados que fazem parte da população ativa, os setores "tampão" do emprego como domésticas, etc., bem como os setores que apresentam baixa produtividade por falta de formação, organização e equipamento minimamente adequados, teremos uma idéia da imensa subutilização do nosso principal recurso: a força de trabalho. Temos dezenas de milhões de pessoas subutilizadas ou simplesmente não utilizadas para efeitos de desenvolvimento econômico.

A subutilização da mão-de-obra constitui seguramente um dos principais problemas que enfrentamos, e a sua raiz se encontra em situações concretas a nível local.

O cruzamento dos dados de subutilização dos recursos humanos com os dados de subutilização de recursos naturais - terra, materiais de construção ou outros - aponta, freqüentemente, para soluções práticas que podem ser colocadas para discussão da comunidade, visando a promoção do desenvolvimento do conjunto dos recursos.

Eliminar o analfabetismo, universalizar o ensino formal, melhorar a formação dos professores, adequar o ensino profissional àdinâmica econômica local, envolver as empresas e os meios de comunicação de massa na elevação do nível de formação da mão-de-obra, tudo isso exige visão de conjunto e um ordenamento de ações de longo, médio e curto prazo, o que não pode evidentemente ser deixado para a "mão invisível", já que o mercado e a "livre iniciativa" são, reconhecidamente, inoperantes nos investimentos sociais de longo prazo. Quanto a esperar que o governo central tome a iniciativa, trata-se de uma atitude que nunca tirou ninguém do atoleiro.

De forma geral, o município no Brasil caracteriza-se pela convivência de setores adiantados e setores muito atrasados. Isto resulta do progresso tecnológico de tipo "vertical" que faz avançar muito alguns setores e deixa outros estagnados, levando àconstituição de ilhas tecnológicas que não conseguem dinamizar o conjunto de tecido econômico da região. Freqüentemente, inclusive, estas "ilhas" têm mais vinculações com a área internacional ou com as metrópoles do país do que propriamente com a economia local. Este tipo de desenvolvimento resulta, obviamente, na subutilização dos recursos humanos.

A monocultura ou excessiva especialização do município - que acaba dependendo de um só ou de alguns produtos apenas - leva a necessidades muito elevadas de mão-de-obra no período do plantio ou da safra, e a um vazio durante o resto do ano. Isso dá origem ao nomadismo rural e àformação de periferias miseráveis e instáveis em torno dos centros urbanos.

O sub-emprego, a monocultura - com a geração do sub-emprego sazonal - e o fato dos setores modernos não respoderem senão de forma muito parcial às necessidades da parte pobre da população, levam por sua vez ao desenvolvimento do setor informal. O Relatório sobre o Desenvolvimento Humano 1990 das Nações Unidas faz o seguinte balanço: "Os anos 1980 viram um rápido aumento do emprego no setor informal. Na Africa, o setor informal acomodou cerca de 75% dos jovens que entraram na força de trabalho entre 1980 e 1985, e o setor formal apenas 6%. Na América Latina entre 1980 e 1987, o setor informal absorveu 56% dos novos trabalhadores. Os governos durante longo tempo ignoraram o setor informal, mas isto está começando a mudar. Começa-se a entender que o setor informal necessita apoio político e económico ativo. Afinal, está absorvendo a maior parte dos novos trabalhadores, particularmente de mulheres, jovens e pobres".

Um grande exemplo de dinamização e bom uso do setor informal é a experiência de Villa El Salvador, no Perú, onde um município-dormitório se apropriou de uma zona vazia destinada a uma área industrial - e para onde a indústria não foi - e desenvolveu atividades produtivas em pequena escala. A experiência hoje tornou-se exemplo internacional de auto-resolução de problemas. A iniciativa foi estritamente local, ninguém esperou verbas do governo central, e a força surgiu das organizações comunitárias.

A harmonização interna, no espaço do município, entre atividades industriais, agrícolas e de diversos serviços, a elevação do nível tecnológico do conjunto, visando tanto a plena utilização dos recursos humanos como a homogeneidade tecnológica, exigem evidentemente um espaço de participação ampla nas decisões e uma ruptura com formas centralizadas em que algumas famílias ou algumas empresas ordenam o espaço municipal em função dos seus interesses ou de interesses externos, e de um ou dois produtos.

Descentralização e democratização são neste sentido inseparáveis, e as forças políticas retrógradas terão de adaptar-se, abrindo espaço para formas modernas de desenvolvimento.

Poucas pessoas mantêm hoje a ilusão de que o mercado constituiria um regulador eficaz da distribuição de renda. O salário hoje depende menos da capacidade individual do profissional, do que do circuito econômico ao qual pertence. E a remuneração nos diversos circuitos econômicos depende essencialmente da posição estratégica ocupada pelo setor na cadeia técnica de um produto ou de um serviço - veja-se a capacidade de obter salários por parte dos mecânicos de aviação - e da capacidade de organização sindical.

O planejamento econômico centralizado tampouco constitui um instrumento regulador significativo neste campo: os níveis salariais e o acesso das diversas parcelas da população ao produto social dependem menos de um plano e da sua decisão técnica sobre a melhor estrutura de remuneração, do que dos equilíbrios políticos que determinam a política de renda do Estado.

Isso não impede que, em termos gerais, a política de recursos humanos, a sua modernização, melhor utilização, melhor formação e nível mais justo de remuneração devam constituir um eixo essencial de preocupação do planejamento local.

A forte estrutura dos movimentos locais participativos, ao lado de outras estruturas tradicionais como os sindicatos, é indispensável para que as forças populares constituam um "contrapeso" democrático ao poder organizado dos privilegiados.

Os recursos naturais e os recursos humanos dependem para o seu desenvolvimento do desenvolvimento paralelo das infra-estruturas sociais, do investimento no homem.

Trata-se, sem dúvida, de uma área de intervenção particularmente adequada aos mecanismos locais de regulação. Èo município que pode, melhor do que grandes empresas privadas ou o planejamento central, assegurar que cada comunidade, cada bairro, tenham o seu posto de saúde, a sua escola, o seu cinema, os seus meios de transporte e segurança adequados. Nada como o habitante de um bairro para saber onde há lama quando chove, onde o atendimento médico éinsuficiente, e não há técnico nem computador que substitua este conhecimento.

O debate das comunidades de vários bairros, confrontando as suas necessidades, tem dado melhores resultados do que a avaliação de projetos por instituições financeiras distantes - sejam estatais ou privadas - ou a submissão da dinâmica àvoracidade das empreiteiras, que têm tanto mais facilidade de intervir sobre as decisões quanto estas são mais centralizadas.

Nada impede um município de tomar em suas mãos a dinamização das próprias atividades produtivas. Èimportante notar que a intensidade e as formas de funcionamento do aparelho produtivo e das infra-estruturas econômicas dependem em grande parte de mecanismos de mercado, dos preços de fatores e dos preços de venda ao consumidor. Mas a própria criação e estruturação do aparelho produtivo e das infra-estruturas dependem em grande parte de uma intervenção consciente e de planejamento, envolvendo uma visão de longo prazo e a harmonização das decisões dos agentes econômicos, privados ou não, que o mercado por si só não pode assegurar.

O município tem que ter esta capacidade de estudar os "nichos" industriais mais viáveis e promover - através de infraestruturas, créditos, isenções, promoção etc. - os investimentos complementares que asseguram a melhor integração entre agricultura, indústria e serviços, e a melhor integração entre as empresas existentes.

Hoje já não é possível ter uma atitude passiva frente àestruturação do aparelho produtivo do município, pois os chamados mecanismos de mercado não asseguram suficentemente as complementariedades locais. Um município passivo pode se tornar uma simples periferia de uma grande empresa, produzindo matéria-prima para uma transformação cujos frutos não retornam ao município, e levando a uma desvalorização progressiva tanto dos recursos naturais como humanos.

O aparelho produtivo, tanto agrícola como industrial, necessita para o seu funcionamento de um conjunto de infra-estruturas econômicas que tampouco se constitui espontaneamente, por influência da "mão invisível": trata-se da rede de estradas e outras infra-estruturas de transporte e armazenagem; da rede de telecomunicações, permitindo a circulação da informação; da rede energética, permitindo a produção e distribuição da energia; da rede de canalização de água e esgotos.

Um município bem dotado em infra-estruturas assegura que novos empreendimentos e as empresas existentes encontrarão uma série de condições básicas para funcionar de maneira mais eficiente.

As infra-estruturas econômicas constituem uma área privilegiada do ação municipal. Trata-se de investimentos públicos, através dos quais a comunidade financia melhores condições de funcionamento para a empresa. Èfundamental, portanto, que esses investimentos sejam organizados de forma que as diversas redes se complementem e permitam o crescimento harmonioso da cidade e das atividades rurais.

Èimportante lembrar que, ainda que a construção das redes de infra-estruturas econômicos possa depender de administrações supra-municipais ou de autarquias, como no caso da energia ou das telecomunicações, a lógica integradora do conjunto das redes depende da influência da prefeitura e da participação comunitária sobre as formas de sua estruturação local. Além disso, numerosos municípios estão retomando em suas mãos por exemplo os serviços de telecomunicações, ou a gestão da água, com resultados poositivos tanto em termos de qualidade dos serviços como de custos.

Por outro lado, como a criação das infra-estruturas valoriza as propriedades onde são introduzidas ou melhoradas, o seu planejamento e frequentemente a realização permitem ampla participação das comunidades organizadas.

O planejamento municipal tem de assegurar o equilíbrio das redes de infra-estruturas comerciais, de forma que cada bairro, cada comunidade do município, tenham um acesso fácil aos produtos básicos. A organização das feiras livres, a criação de circuitos diretos de contato produtor-consumidor, a própria defesa do consumidor, cada vez mais esmagado pela força da grande empresa comercial, definem uma ampla área de intervenção reguladora municipal.

A monopolização e especulação sobre produtos básicos constitui uma praga de quase todos os países capitalistas ou socialistas. Nos países capitalistas subdesenvolvidos, o problema é simplesmente mais grave, com o impressionante nível de monopolização comercial que atingem os produtos de consumo diário.

De forma geral, e hoje em qualquer parte do mundo, utilizam-se no nível municipal dois mecanismos de abastecimento complementares às rêdes comerciais privadas: o abastecimento de produtos básicos para as faixas de baixa renda, através de diversos mecanismos, como complementação alimentar na escola, abastecimento por tipo de residência e outros. Já não se discute a necessidade desta interferência, e sim as diversas formas de "targetting", ou seja, de orientação deste tipo de abastecimento para assegurar que o apoio chegue efetivamente aos que dele necessitam. As classes dirigentes não sendo particularmente escrupolosas com este problema, criou-se nesta área a "indústria da fome", em que os ricos terminam por embolsar os fundos da ajuda alimentar. Daía necessidade de descentralizar estes processos, e melhor do que nomear mais fiscais é assegurar o controle pelos próprios interessados.

Outro mecanismo de uso generalizado são os "sacolões" e outras formas de assegurar o contato direto entre os produtores de alimentos e os consumidores. Estes sistemas, necessariamente de âmbito municipal para não criar superestruturas burocráticas (por exemplo as "sociedades nacionais" de abastecimento na Argélia), não só asseguram alimentos mais baratos para a população de baixa renda, como obrigam as redes comerciais privadas a se manterem dentro de um patamar razoável de prêços. Finalmente, tendem a exercer um certo controle sobre a intermediação comercial excessiva, dos chamados "atravessadores".

O município precisa criar a sua "identidade comercial" e deixar de ser simplesmente um ponto de cruzamento de interesses federais, estaduais e de grandes grupos privados. No Brasil este problema é particularmente agudo, na medida em que freqüentemente a monopolização, no nível de circulação, é mais elevada - somos o país dos intermediários - do que no nível da própria produção.

Outra área essencial que deve ser avaliada é a da intermediação financeira. O Brasil herdou do regime militar uma gigantesca máquina financeira, extremamente centralizada, permitindo um elevado grau de monopolização do acesso aos recursos financeiros.

O funcionamento de milhares de agências - hoje um município com menos de 50.000 habitantes freqüentemente tem entre 10 e 15 agências bancárias - constitui um custo para a sociedade. Os bancos financiam esses custos e os seus lucros através dos juros elevados, que têm de ser pagos pelas empresas. Estas por sua vez incluem os custos financeiros no custo de produção, aumentando os preços de venda, e é finalmente o consumidor quem paga, no preço mais elevado do produto, os custos e lucros da intermediação, cada agência construída, cada minuto de publicidade, os computadores instalados, ainda que não seja cliente de nenhum banco.

O sistema de intermediação financeira cobra assim um tipo de imposto privado, já que o consumidor paga os seus custos de funcionamento, quer o utilize ou não. Esta é a razão por que em muitos países, mesmo capitalistas, o sistema financeiro é estritamente controlado . Sendo financiado pela sociedade, deve responder às necessidades sociais.

O funcionamento do banco sendo um custo para o bolso de cada um de nós, devemos exigir que os custos da intermediação financeira tenham contrapartida na sua contribuição efetiva para o desenvolvimento.

No Brasil, o controle local sobre os recursos financeiros levantados no município e depositados nos bancos é muito limitado. As agências, pertencentes em geral a grandes grupos de São Paulo, obedecem àlógica econômica desses grupos e se orientam para as atividades mais lucrativas, ainda que isto signifique desviar recursos do município mais pobre para o mais rico, ou alimentar a especulação. Èbom lembrar que nos Estados Unidos, onde os bancos são dominantemente locais, os cidadãos de um município sabem reclamar se o banco desvia o uso das suas poupanças para outras regiões do país.

No Brasil, a própria orientação setorial do uso dos recursos obedece ao interesse dos grandes grupos de São Paulo, ou às orientações globais do governo federal. O município fica, nestas condições, com capacidade limitada de determinar a orientação dos recursos financeiros segundo as prioridades reais sentidas ao nível local: prioridade àagricultura alimentar ou a agroindústria, aos investimentos sociais ou infra-estruturas econômicas, e assim por diante.

A virtual inexistência, no Brasil, do sistema local de intermediação financeira, e a excessiva centralização promovida nos últimos 25 anos, levam a que haja financiamento para grandes empreendimentos - os chamados projetos faraônicos - enquanto fica dramaticamente subfinanciada a pequena e média empresa, tanto industrial, como a agrícola e de serviços. Isso, por sua vez, reforça o profundo desequilíbrio do país entre setores modernos e setores atrazados, um dificultando a dinâmica do outro.

Este setor exige, portanto, uma articulação de vários níveis de intervenção: financiamento dos grandes empreendimentos econômicos através de organismos financeiros estatais, em função de prioridades definidas pelo planejamento central; financiamento de grandes investimentos empresariais através do reinvestimento e do mercado de ações, captando recursos que o público conscientemente deseja aplicar na atividade empresarial; financiamento dos pequenos e médios empreendimentos econômicos através de controle local e comunitário, ao nível do banco municipal; e controle do volume geral de financiamentos através da política de conjuntura do Estado, que influi sobre a taxa geral de juros e políticas de crédito em nível nacional.

A necessidade desses vários níveis de regulação dos mecanismos financeiros resulta dos vários tipos de atividades econômicas que necessitam de financiamento. Não se coloca, portanto, a idéia de uma municipalização generalizada da atividade de intermediação financeira. Mas não podemos deixar de constatar que o nível de financiamento local e comunitário simplesmente não existe no mapa financeiro do Brasil, e torna-se indispensável, para a própria racionalidade das atividades econômicas, criar e desenvolver esta área de atividade.

Não há dúvida que hoje as prefeituras tem grandes necessidades de intervenção nesta área: é uma área que está madura para alterações profundas. O tema tem voltado repetidamente àtona, com os "bancos municipais", "caixas econômicas municipais" e outras propostas. O atraso na sua materialização resulta, sem dúvida, da força dos grandes grupos econômicos privados e multinacionais, que têm a ganhar com a centralização financeira. Para que se tenha uma idéia da importância do assunto, basta mencionar que temos hoje um dos sistemas de intermediação financeira mais caros do mundo, que nos custa entre 50 e 60 bilhões de dólares por ano.

Èverdade que no Brasil ainda é um espaço muito "fechado", e os que lidam com a administração local hesitam a tomar iniciativas. Mas a descentralização não existe sem recursos locais. E estes são muito mais do que simplesmente os recursos do orçamento da prefeitura. Trata-se aqui de mais uma frente de luta pela descentralização e pela modernização da gestão financeira do país em geral.

Ainda que as soluções sejam relativamente complexas, o problema que enfrentamos é simples: trata-se de assegurar o uso de recursos que permita maximizar o desenvolvimento. O desenvolvimento deve ser entendido no sentido moderno, incluindo não só o aumento da produção como o equilíbrio social no acesso aos benefícios, e a preservação dos recursos não renováveis. De pouco adianta construir usinas e mansões de luxo, que têm de ser guardadas por esquadrões da morte e jagunços, fazendo o país regredir àIdade Média. E não podemos viver às custas das gerações futuras.

Voltamos a insistir: uma administração municipal que se contente em tapar buracos de rua e ornamentar as praças não necessita de poder local nem de descentralização ou planejamento, e as propostas que aqui desenvolvemos são para uma visão mais ambiciosa, comprometida com o bem-estar da população, e com uma visão política de médio e longo prazo.

Organizar a participação

A participação da comunidade implica uma transformação da cultura administrativa, e um processo sistemático e trabalhoso.

Em outros termos, a capacidade de descentralização se desenvolve progressivamente, e as exigências devem corresponder àcapacidade real de execução. A inutilidade dos planos complexos elaborados por empresas de consultoria, que as administrações utilizam para buscar recursos, mas não para ordenar as suas atividades, é neste sentido característica.

O poder local, como sistema organizado de consensos da sociedade civil num espaço limitado, implica, portanto, alterações no sistema de organização da informação, reforço da capacidade administrativa, e um amplo trabalho de formação tanto na comunidade como na própria máquina administrativa. Trata-se, portanto, de um esforço do municipio sobre si mesmo.

Antes de tudo, é preciso dizer que não há modelo para a organização da participação comunitária. Essa será diferente segundo o município seja dominantemente urbano ou rural, industrial ou agrícola, relativamente isolado ou situado perto de um grande centro. Será diferente também segundo os equilíbrios políticos locais e o nível de conscientização já atingidos pela população.

Èimportante igualmente deixarmos claro que é falso o dilema que muitos se colocam, de que o apoio das administrações locais aos movimentos comunitários constituiria uma forma de cooptá-los: neste plano, não funcionam nem o espontaneismo total, nem o autoritarismo. Èpreciso que se jogue simplesmente com as cartas na mesa, a administração trazendo as suas propostas como poder constituido, a comunidade negociando os seus interesses com clareza. E não há fórmula predeterminada.

O que iremos delinear aqui são, portanto, pontos de referência para uma ação organizativa. Esta deve se adaptar àrealidade local e responder a um profundo conhecimento da dinâmica política do município.

Voltemos ao ponto chave: somos um país com 60 milhões de subnutridos, 52% da população auferem menos de dois salários mínimos, cerca de dois terços da nossa mão-de-obra são analfabetos ou semi-analfabetos. Por trás das formas organizativas delinea-se, portanto, um grande objetivo: reinserir de forma digna, no desenvolvimento econômico e político, a população esmagada pelos modelos econômicos elitistas. Não há modernização possível sem este objetivo, e se trata, grosso modo, de dois terços da nossa população, e não de "bolsões" de pobreza, como têm sido caracterizados.

Durante anos, os mesmos interesses que criaram os nossos desequilíbrios organizaram a centralização das decisões, reforçaram a concentração de renda, criaram as grandes estatais destinadas a fornecer ao setor privado produtos a prêço inferior ao custo, e hoje pregam a privatização, como se a participação ou não do Estado fosse o essencial do problema, e não as deformações que as elites nele introduziram. O essencial do problema é a democratização das decisões, para que possam corresponder às necessidades da população, e isto implica uma profunda descentralização.

Os que mantêm a centralização não são apenas os interesses privados. São também os membros da tecnocracia pública que se apoiam no argumento de que a administração local não tem as "capacidades técnicas" de gerir os seus interesses. Na realidade, os últimos vinte anos trouxeram duas revoluções profundas na sociedade brasileira, que são a urbanização e a participação da mulher nas atividades económicas e sociais.

A urbanização conforme vimos levou àformação de milhares de centros médios e grandes no país, que dispõem perfeitamente da capacidade técnica de assegurarem a gestão local, e que têm a vantagem de conhecerem a situação: já não estamos na idade do interior de população dominantemente rural e dispersa. E a participação da mulher abre rápidamente espaço para uma preocupação maior com a dimensão humana do nosso desenvolvimento, favorecendo o ultrapassamento das visões estritamente econômicas.

A verdade é que o que tem impacto social tem de ter controle social. Atividades que transformam as condições de vida da comunidade têm de ser consideradas de maneira ampla, recolocando-se a economia no lugar que é o seu - atividade meio - e restituindo-se a prioridade àqualidade de vida que é o nosso objetivo real.

Assim, a humanização do nosso desenvolvimento econômico e social, e a gradual civilização das nossas classes dirigentes passam pela participação popular nas decisões econômicas. Esta, por sua vez, exige um sistema de informação efetiva do cidadão e instrumentos práticos de sua participação nas decisões.

A criação de instrumentos participativos ao nível municipal enfrenta no Brasil dificuldades particulares: o próprio desenvolvimento caótico da atividade empresarial criou um nomadismo econômico que é dos mais altos do mundo. Constatamos no último censo que cerca de 40% dos domicílios brasileiros são habitados por pessoas que neles residem há menos de dois anos. Esta rotatividade domiciliar prejudica, evidentemente, a criação de uma consciência comunitária e reforça a indiferença pelo que acontece com a rua, o bairro, o município. Èpreciso romper este círculo vicioso.

Um instrumento chave desta participação é o planejamento descentralizado: propostas ordenadas e submetidas àcomunidade significam a possibilidade dos indivíduos se pronunciarem antes das decisões serem tomadas, em vez de se limitarem a protestar diante de fatos já consumados. Isto sim significa respeito àliberdade individual, e não a livre decisão de uma empresa instalar uma fábrica de celulose nos subúrbios de Porto Alegre, de uma empresa rural monopolizar as terras de um município e transformá-lo em plantação ou em reserva de terras ociosas, de conglomerados desmatarem a Amazonia.

Um avanço significativo da participação pode se dar através do meios científicos e educacionais. De forma geral, pode-se pensar num centro de estudos municipais ou equivalente, que permita mobilizar as capacidades científicas locais em torno da resolução dos problemas básicos enfrentados pelo município e pela região.

Este nível de organização permite desenvolver pesquisa de fundo: estudos demográficos, estudos da posse e uso do solo, estudos da própria história do município, criando gradualmente um núcleo capaz de conhecer o município e os seus problemas mais significativos, e transmitir estes conhecimentos às forças políticas locais.

Este trabalho pode ser capitalizado através de diversas iniciativas. Por um lado, pode-se dar assistência às escolas primárias e secundárias, de forma que os alunos possam trabalhar e realizar pesquisas sobre a realidade concreta do próprio município. Èperfeitamente viável, por exemplo, introduzir no segundo grau uma matéria específica sobre o desenvolvimento do município, para que os futuros cidadãos adquiram uma outra visão que não a dos discursos oficiais. Um centro de estudos municipais poderia, entre outros, elaborar material didático sobre o município.

Por outro lado, pode-se promover uma reorientação parcial dos eventuais estudos universitários, incluindo no currículo das diversas faculdades ampla pesquisa da realidade local. Isto permite formar gente interessada na realidade do seu município, reduzindo a tendência para a emigração de quadros dinâmicos, na medida em que uma pesquisa voltada para o estudo do potencial econômico concreto do município faz aparecer oportunidades de intervenção e transformação, rompendo o clima de imobilismo que freqüentemente prevalece em municípios do interior.

Trata-se, sem dúvida, de um investimento de longo prazo, mas que não deve ser subestimado: a formação de uma geração de jovens, conhecedores do potencial da sua região e do seu município, pode constituir uma alavanca poderosa para a transformação local.

Pode igualmente ter um efeito significativo a integração da informação produzida pelas autarquias do Estado: o IBGE local, as empresas de telefone e de energia, as delegações ministeriais como a de agricultura e outras, produzem informações significativas sobre a região e o município. Estas informações são geralmente utilizadas para preparar publicações e estudos de âmbito nacional, e não estão sendo suficientemente utilizadas para promover a compreensão dos problemas locais de desenvolvimento pela própria comunidade.

Um outro nível de organização da participação se baseia numa correta divisão espacial do município. Èpreciso ordenar o espaço municipal de acordo com a sua lógica demográfica, condições de vida, elos comunitários. Neste sentido, é necessário repensar a divisão por bairros e por zonas rurais, de forma a organizar a participação segundo o sentimento real de identidade local da população. Bairros específicos têm problemas específicos: há os que não têm asfalto, os que são carentes de água, e assim por diante. Este nível organizacional permite a participação em torno dos problemas de urbanização, de infra-estrutura social e outros que têm intensa vinculação ao local de moradia.

Èimportante criar instrumentos de representação por bairro e assegurar um espaço de reunião e debate que permita discutir a atribuição de verbas, definir as prioridades, debater as próprias formas de participação nas decisões. Particular cuidado deve ser dado àrepresentação das áreas rurais, já que há uma tendência geral para exagerar o peso do setor urbano.

Uma das dificuldades encontradas no trabalho com os comitês do bairro é a exagerada localização das reivindicações: busca-se a praça, o asfalto, o esgoto, a iluminação, mas sem visão dos investimentos mais amplos e das necessidades de mais longo prazo do município como um todo.

Trata-se, sem dúvida, de um problema de maturidade política: somos um país sem cultura participativa e a transformação do nível de consciência é lenta.

Um outro nível de participação é o dos corpos organizados no município: os sindicatos, as representações profissionais, as associações. De uma forma ou de outra, trata-se de grupos de pressão que já têm tradição participativa ou reivindicatória. Trata-se de ordenar gradualmente esta participação, criando canais regulares de expressão e consulta sobre problemas relevantes do município.

Èpreciso levar em conta que a participação pode se dar de forma setorial: os médicos e enfermeiros do município, por exemplo, podem organizar uma campanha de esclarecimento sanitário, e constituir, através dos postos de saúde descentralizados, um canal relativamente permanente de informação aos cidadãos sobre determinadas opções da área sanitária.

Os diversos organismos de participação municipal podem ser coordenados através de um tipo de conselho de desenvolvimento municipal, que reuniria os grupos organizados representativos. O corpo de vereadores, por sua excessiva vinculação político-corporativa, dificilmente consegue preencher esta função de um organismo amplo destinado a buscar consensos sobre as orientações de médio e longo prazo do município.

A tendência em tais tipos de organismos é, naturalmente, de um grupo político buscar hegemonia. Èdifícil evitar a tendência, mas é fundamental buscar sempre uma representação ampla, que permita cruzamento de interesses e dêaos participantes a dimensão social dos problemas que o município tem de enfrentar.

A tradição do cacique ou do coronel, hoje vestindo gravata e dotado de poderosos apoios de grupos financeiros, é simplesmente uma realidade. A idéia de manter a economia centralizada para evitar o reforço do caciquismo, entretanto, ignora em geral um dado básico: as principais forças econômicas locais são justamente as que têm poderosas ramificações em direção aos centros econômicos do país e ao exterior. Em outros termos, os chamados caciques são justamente os que mantêm o município subordinado às políticas centralizadoras tanto do Estado como dos grandes grupos privados nacionais e multinacionais.

Em conseqüência, a atribuição de maiores recursos ao município e a organização da participação da comunidade nas decisões sobre as formas de sua utilização, constituem a melhor política para limitar tanto o poder centralizador dos grandes grupos econômicos, como a força dos caciques e coronéis, e para adequar o desenvolvimento às necessidades da população.

Vimos acima algumas possibilidades de organização de uma participação sistemática: o centro de estudos municipais, os comitês de bairro, as associações de áreas profissionais, a possibilidade da formação de um conselho de desenvolvimento municipal. A organização da participação, entretanto, num país que não tem tradições de política participativa, exige muita flexibilidade e o aproveitamento de todas as oportunidades de mobilização.

Um exemplo é a experiência da discussão pública dos orçamentos municipais hoje regularmente utilizada em numerosos municípios do país. Outro exemplo é o dos conselhos técnicos que têm sido criados para a gestão urbana. Pela sua importância, vamos ver em detalhe o funcionamento do "Conselho de Tarifas" na cidade de São Paulo. O Conselho foi formado com todos os " atores" que de uma forma ou outra intervêm na área: a prefeitura, as empresas particulares de transportes urbanos, a companhia municipal de transportes, os representantes dos trabalhadores da área, e as instituições de pesquisa que detêm conhecimento técnico da área.

O funcionamento deste Conselho trouxe uma nova filosofia de trabalho: em vez de se deixar o mercado regular o problema dos transportes urbanos, ou de que sejam técnicos da área pública que impôem um plano global, são os diversos atores que elaboram sucessivos consensos àmedida que evolui a situação. O processo é mais lento, sem dúvida, mas quando se chega a uma decisão é uma decisão que envolve efetivamente quem decide na área, coisa que não acontece com "planos" de origem técnica, que dormem na paz nas gavetas.

Esta forma de trabalho, e os bons resultados apresentados, demonstram a que ponto a sociedade carece de sistemas organizados de elaboração de consensos, deixando que se polarizem posições em torno a problemas frequentemente irreais.

Podem ser organizadas, de forma semelhante, reuniões para debates por bairro, ou debates mais amplos sobre as opções mais significativas do município. A consulta àcomunidade - sob forma inclusive de pequenos plebiscitos - é utilizada em muitos países como forma de assegurar decisões mais racionais e também de provocar a discussão e conscientização da população.

Em outros termos, há uma gama de intrumentos que podem ser utilizados, visando a formação de uma cultura de planejamento e de participação: é uma forma lenta, sem dúvida, mas profunda, de assegurarmos a utilidade social dos recursos, e a autoridade do cidadão sobre a atividade econômica que, afinal das contas, é o resultado do esforço de todos.

Não há dúvida de que o clima político do país, neste fim de s&eacu