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São Paulo, 01/12/2008
Não há dúvida que a impressionante explosão
produtiva do capitalismo, durante os "trinta anos de ouro"
que seguiram o fim da II Guerra Mundial, levou muita gente a acreditar
que realmente mais fazem pelos pobres os capitalistas que buscam
o seu lucro e desenvolvem a produção do que as esquerdas
que clamam pela justiça. E a tendência ficou mais
forte ainda quando ruiu a alternativa do socialismo autoritário:
ficou no tabuleiro apenas uma opção, o mal necessário,
o capitalismo.
Com a história reduzida a mecanismos econômicos,
e os valores resumidos ao realismo das vantagens individuais,
a humanidade consciente, ou com consciência, se sentiu acuada
a um fatalismo pragmático, ornando o seu cotidiano com
quinquilharias tecnológicas cada vez mais absurdas, enquanto
tenta reconstruir o seu horizonte de utopias viáveis.
A reconstrução hoje necessária é,
na realidade, muito ampla, e envolve a própria concepção
da civilização que queremos construir. E ainda que
os rumos, neste processo acelerado de mudança, sejam pouco
previsíveis, alguns parâmetros estão se tornando
bastante claros.
Um parâmetro central é dado pela explosão
tecnológica. Nos últimos vinte anos, acumulamos
mais conhecimentos técnicos do que durante toda a história
da humanidade. O ser humano maneja potentes agrotóxicos,
armas nucleares e bacteriológicas, sistemas sofisticados
de manipulação genética, frotas de pesca
industrial com tecnologia avançada de localização
de cardumes, processos de química fina que permitem fabricar
tanto medicamentos mais avançados como cocaina ou heroina
em fundos de quintal. Enquanto isto, a capacidade de governo do
homem evolui de maneira extremamente lenta. Assim, o resultado
desta sociedade que se transforma seguindo ritmos diferentes,
é que homem maneja hoje tecnologias incomparavelmente mais
avançadas do que a sua maturidade política. Isto
pode ser constatado através da destruição
da vida nos rios e nos mares, da erosão da camada de ozônio,
do aquecimento global, das chuvas ácidas, da erosão
dos solos, da expansão do consumo de drogas, o uso de sistemas
sofisticados de destruição à disposição
de qualquer candidato a terrorista. A verdade é que o ser
humano não poderá sobreviver sem formas mais avançadas
de organização social, capazes de ultrapassar este
caos articulado de interesses corporativos que nos acostumamos
a chamar de neo-liberalismo, e que maneja técnicas de impacto
universal e irreversível.
Outro parâmetro importante é a transformação
profunda nos espaços da reprodução social.
Grande parte da economia se internacionalizou, enquanto os instrumentos
de controle social permanecem nacionais. O resultado é,
por exemplo, que ninguém controla os cerca de 1 trilhão
de dólares que circulam diariamente no espaço financeiro
mundial. Como tampouco existe qualquer estrutura organizada de
poder capaz de organizar uma compensação efetiva
pelos cerca de 500 bilhões de dólares que são
transferidos anualmente dos paises pobres para os paises ricos.
Em outro nível, a sociedade se urbanizou, mas as decisões
continuam nas mãos do governo central, como no tempo em
que as nações eram constituidas por uma "Capital"
cercada de populações rurais dispersas. A urbanização
jogou os problemas para as cidades, que estão na linha
de frente das dificuldades mas no último escalão
da pirâmide do poder. O mundo político se tornou
um impressionante emaranhado de instituições que
têm de decidir sobre o que não conhecem e não
têm poder de decisão sobre as realidades que efetivamente
enfrentam. Hoje, é a própria concepção
da hierarquia de organização do poder político
que deve ser repensada, buscando devolver à sociedade as
rédeas sobre o seu desenvolvimento.
Neste ambiente de perda de governabilidade prosperam as megaestruturas
do nosso fim de século, as grandes empresas transnacionais,
inicialmente concentradas no setor produtivo, hoje dominando igualmente
os eixos dinâmicos dos serviços e das finanças.
Cerca de 500 a 600 empresas controlam um quarto da produção
mundial, dominam as áreas tecnologicamente dinâmicas,
e modelam o mundo segundo as exigências da competição.
Na estratégia da corporação, não há
muita oportunidade de se refletir sobre os interesses sociais
ou ambientais da humanidade. Com reengenharia, qualidade total,
ISO-9000, robótica, telemática, benchmarking, e
tantas outras palavras mágicas que prometem eficiência
e eficácia, o capitalismo "lean and mean", impelido
pelas próprias regras de eficiência, deixa pouco
espaço para refletir sobre valores. E é curioso
ver o papa da administração empresarial norte-americana,
Peter Drucker, em pleno colapso do comunismo, escrever um livro
intitulado "A Sociedade Pós-Capitalista", buscando
a construção de uma comunidade "baseada no
compromisso e na compaixão".
O resultado desta modernidade que tanto nos deslumbra com suas
inovações tecnológicas tem muito pouco de
compromisso ou de compaixão. Enquanto 800 milhões
de habitantes dos paises ricos ostentam uma renda per capita de
mais de vinte mil dólares, 3,2 bilhões de habitantes
do mundo sub-desenvolvido vivem com uma média de 350 dólares,
menos de 30 dólares por mês. Cerca de 150 milhões
de crianças hoje passam fome no mundo, cifra projetada
para 180 no ano 2000, enquanto cerca de 12 milhões simplesmente
morrem antes dos cinco anos. O analfabetismo atinge mais de 800
milhões de pessoas, e aumenta de cerca de 10 milhões
a cada ano que passa. O planeta ganha anualmente cerca de 90 milhões
de novos habitantes, sendo que cerca de 60 milhões já
nascem nas áreas mais miseráveis, condenados no
seu primeiro dia de vida. Não se conseguem os cinco centavos
de dólar por criança que custa o iodo que impedirá
o bócio, ou os dez centavos para a vitamina A que impedirá
a cegueira. Cerca de um milhão de crianças ficam
assim mutiladas para a vida inteira, por ano. Meio milhão
de mães morrem anualmente de parto, por não ter
acesso a serviços e informação médica
elementar: no conjunto dos paises desenvolvidos são apenas
5 mil. Uma Africa devastada chora as suas últimas árvores,
e vê os seus solos desprotegidos carregados pelos ventos
e pelas chuvas torrenciais, enquanto o Ocidente que a devastou
lhe recomenda cuidados ambientais. Mas temos cada dia melhores
computadores, video-cassetes, e discos laser.
Multiplicar os exemplos é desnecessário. O importante
é que o tempo em que a humanidade podia se apoiar em "mecanismos"
espontâneos, no "laisser faire, laisser passer",
sem se definir como civilização, está se
esgotando.
Uma primeira constatação óbvia, é
a de que o capitalismo constitui um excelente ambiente para dinamizar
a produção, mas não soube até hoje
criar mecanismos eficientes de distribuição. Na
realidade, a própria estrutura de poder gerada pelos privilégios
e pelo enriquecimento de minorias torna a distribuição
equilibrada inviável. E não é difícil
prever que um planeta que se torna cada dia mais pequeno pelo
progresso dos transportes e das comunicações, não
pode conviver com polarizações econômicas
cada vez mais dramáticas.
Por outro lado, constatamos neste fim de século que as
previsões de que haveria uma certa ética dos privilégios,
na medida que o enriquecimento dos ricos levaria a mais investimentos,
logo a mais empregos, mais produção, e em última
instância a mais prosperidade para todos, na linha do famoso
"trickling down", constitui simplesmente um erro teórico.A
partir de uma certa distância entre ricos e pobres, o mercado
se segmenta, e grande parte da população mundial
é simplesmente marginalizada do processo central de acumulação
liderado pelas empresas transnacionais. O fim da esperança
do "trickling down" significa que estruturalmente o
neo-liberalismo não responde aos desafios modernos, e que
é necessário buscar soluções novas.
Finalmente, é o próprio núcleo da teoria
do capitalismo, -- da busca de maximização dos interesses
individuais surgirá o melhor interesse social -- que se
vê simplesmente negado pelos fatos. E os complementos de
políticas sociais compensatórias por parte do Estado
são simplesmente insuficientes, nesta etapa de capitalismo
global, em particular nos paises que carregam o ônus negativo
das formas atuais de desenvolvimento, mas também nos próprios
paises desenvolvidos onde as pessoas se sentem cada vez mais cansadas
de viver no terror de desemprego, ou de se matar de trabalhar
por objetivos cuja relação com a qualidade de vida
é cada vez mais duvidosa.
Em outros termos, o que surge com força não é
a busca de uma maneira mais eficaz de fazer o mesmo, mas uma redefinição
da própria busca. Gradualmente, e em aproximações
inseguras, somos levados a procurar a reinserção,
na dinâmica da reprodução social, dos valores,
da ética, dos objetivos. E isto por sua vez nos leva necessáriamente
a repensar os atores sociais capazes de viabilizar as transformações,
e as estratégias de sua mobilização.
Este é um pouco o caminho que leva um economista, que passa
a entender que os problemas da sua área exigem soluções
que pertencem a um universo mais amplo, a encontrar-se de repente
na mesma plataforma de discussão de um educador, que busca
também respostas no econômico, no social, no político.
Porque o que se coloca na realidade neste fim de século,
é a questão do nosso futuro comum.
À Sombra desta Mangueira traz, talvez mais do que
outras obras de Paulo Freire, uma visão explícita
do mundo, da política, dos valores. A obra "tateia",
no melhor dos sentidos, construindo pontes e caminhos entre os
cheiros e sabores da infância, a educação
formadora e tranformadora, as dinâmicas tecnológicas
do mundo moderno, as injustiças e absurdos econômicos,
a busca das alternativas políticas, e os compromissos pessoais
que estas alternativas implicam, voltando à mangueira como
âncora da identidade que se reencontra e se recria.
A âncora aqui é essencial, pois nos traz, ainda aturdidos
pelo autêntico porre de inovações tecnológicas,
ao universo dos nossos objetivos reais, como seres humanos. Hipnotizados
pelos espelhinhos, percebemos crescentemente o capitalismo como
gerador de escassez: enquanto aumenta o volume de brinquedos tecnológicos
nas lojas, escasseam o rio limpo para nadar ou pescar, o quintal
com as suas árvores, o ar limpo, água limpa, a rua
para brincar ou passear, a fruta comida sem medo de química,
o tempo disponível, os espaços de socialização
informal. O capitalismo precisa substituir felicidades gratuitas
por felicidades que tenham de ser compradas.
A alternativa não é ser a favor ou contra a tecnologia,
como o quer Milton Friedmann, que declara que todos os que se
preocupam com meio ambiente e com o social têm uma coisa
em comum: são contra o progresso. Qualquer pessoa de bom
senso entende que é absurdo passarmos horas da nossa vida
no trânsito de São Paulo, por exemplo, respirando
ar poluido, um carro atrás do outro, gastando petróleo,
peças, asfalto, saúde e tempo, com uma média
horária de menos de 15 quilómetros por hora, o que
é mais lento do que as carroças do início
do século. O carro é ótimo, mas quando inserido
numa visão tecnológica direcionada para a qualidade
de vida, com prioridade para o transporte coletivo confortável
e barato, ruas arborizadas, reservando o transporte individual
para trajetos médios de fins de semana ou grandes compras.
A realidade é que o capitalismo não nos traz apenas
o produto, traz-nos formas de organização social
que destrói a nossa capacidade de utilizá-lo de
forma adequada. Assistimos impotentes à bestificação
de crianças e adultos frente à televisão,
ao fato de passarmos cada vez mais tempo trabalhando intensamente
para comprar mais coisas destinadas a economizar o nosso tempo.
Vemos simultâneamente o impressionante avanço do
potencial disponível, e somos incapazes de transformar
este potencial no que poderíamos chamar simplesmente de
uma vida melhor.
A vida melhor passa sim pelo acesso a coisas melhores, mas passa
também, e fundamentalmente, pelo relacionamento humano
que se gera. Não há muita dificuldade em se inverter
a frase do Sartre, e ver que a felicidade está nos outros.
Grande parte das divisões políticas mais ou menos
artificiais passam por esta crença, geralmente não
explícitada, de que o homem é naturalmente bom,
ou naturalmente mau. Hoje se sabe a que ponto contextos que jogam
um homem contra outro geram inferno, enquanto contextos que geram
solidariedade constroem ambientes onde as pessoas se sentem realizadas.
O reordenamento dos espaços da reprodução
social tem tudo a ver com este processo. Na expressão feliz
de Milton Santos, "o que globaliza separa; é o local
que permite a união".Este século e meio de
capitalismo desarticulou a comunidade, gerou uma autêntica
sociedade anônima, que só se relaciona através
de sistemas funcionais e de terminais eletrônicos. Como
reconstruir a solidariedade humana, objetivo radical no raciocínio
de Paulo Freire?
Todos estamos acostumados com a pancada na consciência quando
passamos por crianças de rua. E já criamos as nossas
defesas, de uma forma ou outra. Há tempos encontrei uma
senhora idosa pedindo esmola, e me deparei espantado com a semelhança
que tinha com a minha mãe. O choque foi profundo, mas pouco
depois me espantei comigo mesmo: o ser humano anônimo não
machuca? Na realidade, com a sociedade global, grandes distâncias
e grandes números, a solidariedade deixou de ser assunto
de coração, de sentimento que se gera naturalmente
frente à pessoa conhecida, e passou para o intelecto, a
razão que se satisfaz com racionalizações.
O que globaliza separa, e as soluções passam por
uma rearticulação profunda do tecido social.
No raciocínio de Paulo Freire, a racionalidade reclama
racionalmente o direito às suas raizes emocionais. É
a volta à sombra da mangueira, ao ser humano completo.
E com os cheiros e sabores da mangueira, um conceito muito mais
amplo do que esquerda e direita, e profundamente radical: o da
solidariedade humana.
Ladislau Dowbor, 59, é doutor em Ciências Econômicas pela Universidade de Varsóvia, professor titular da PUC de São Paulo e do Instituto Metodista de Ensino Superior, autor de "O Que é Poder Local?", Brasiliense 1994, e de numerosos trabalhos sobre planejamento econômico e social.
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