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São Paulo, 19/11/2008 Ladislau Dowbor Os novos potenciais da InformaçãoO uso racional e sistemático
de informação desempenha, curiosamente, um papel relativamente limitado nos
sistemas públicos de gestão. É o caso também das organizações da sociedade
civil, ainda que os avanços sejam mais significativos. O setor privado oscila
entre o empirismo mais completo, e segmentos empresariais onde cada atitude do
consumidor e cada resposta a uma iniciativa são cuidadosamente monitoradas e
analisadas. Em muitas empresas, inclusive, o trabalho com informação representa
um gasto muito mais elevado do que propriamente a produção. A qualidade da gestão da
informação tornou-se de certa maneira a pedra de toque que distingue o ativismo
dispersivo e ineficiente, de um esforço organizado de alocação racional de
recursos. Isto em si não é muito novo. Rotschild nos tempos de Napoleão devia a
sua imensa fortuna essencialmente à sua capacidade de organizar informação. No
entanto, todos sentimos que houve um salto de qualidade em termos da
importância relativa da informação, e outro salto qualitativo em termos de como
esta informação se organiza e se difunde. Estamos enfrentando, em termos
informacionais, um universo novo. Com o risco de repetir
o óbvio para pessoas familiarizadas com a área, devemos lembrar a dimensão da
revolução informativa que estamos vivendo. Todo o suporte da comunicação pode
em última instância se expressar com pontos e traços, com 0 e 1, com um polo
negativo e outro positivo, com uma intensidade maior e outra menor de luz e
assim por diante. Em outros termos, a letra “a”, o conceito “verdade”, o número
7, a cor verde de determinado tom ou o som “la” de determinado instrumento
podem corresponder a uma sequência de combinações de dois sinais. Isto
significa uma revolução lógica na base da nossa comunicação, através do sistema
binário. O segundo ponto desta revolução é que alterações entre positivo e
negativo, ou 0 e 1, podem ser representadas através de movimentos de eletrons,
ou de fotons: isto implica que o imenso poder e velocidade de movimentos de
nível atómico, funcionando na velocidade da luz, constituem o novo suporte
material do conhecimento. O conhecimento se tornou, para todos efeitos
práticos, quase que infinitamente flúido. O terceiro ponto da revolução em
curso é o sistema de satélites geo-estacionários que enfeixam o planeta,
colocando qualquer ponto do globo em contato direto com qualquer outro;
complementado com fibra óticas e antenas parabólicas, o sistema gera uma nova
sociedade mundial, através da chamada conectividade. Quando os egípcios
inventam o papiro, ou quando Gutenberg inventa a impressão, não estão
revolucionando o conhecimento, naturalmente, mas estão revolucionando a sua
base material, o seu suporte, tornando-o incomparavelmente mais acessível, mais
comunicável, passível de estocagem, de acumulação. Quando juntamos a forma
binária de expressão com o controle de movimentos de nível atômico e a
conectividade, estamos dando um passo na área de trabalho com conhecimento que
equivale à diferença entre o primeiro passo de uma criança e envio do homem à
lua. É importante ter clara a
profundidade da mudança qualitativa que ocorreu: é a base de registro, organização,
análise e comunicação do conhecimentos que está sendo sacudida por um
terremoto. O homo sapiens teve o
poder mental de inventar ferramentas para as suas mãos, a roda e o carro para
os seus pés, os medicamentos para o seu corpo. O que surge agora é uma
ferramenta para a sua inteligência, para a própria máquina de inventar. Parimos
uma montanha, e estamos hoje todos tateando para tentar dimensionar o novo
gigante, entender o seu potencial, avaliar o seu significado social,
conscientes de que conhecemos uma parte ínfima do que há por conhecer. O surgimento de uma
potente e nova tecnologia se choca com os diferentes ritmos da evolução social.
Enquanto o tempo tecnológico evolui com rapidez prodigiosa, o tempo cultural,
que é marcado pelo nosso ritmo cultural individual, enraizado em fenômenos
emocionais e sociais que ainda mal compreendemos, evolui de forma
incomparavelmente mais lento. Quem de nós não sabe da imensa facilidade de se
acessar qualquer informação de qualquer banco de dados no mundo? E no entanto,
continuamos a enfrentar filas de xerox, a carregar documentos debaixo do braço,
sentindo-nos seguros com o volume físico dos conhecimentos acumulados. Quem de
nós, se já atingiu a idade dita madura, não recorre de repente ao filho para
uma “mãozinha” neste processo frente ao qual nos sentimos de repente
desajeitados, moluscos hesitantes frente a uma tecla imprevisível? Não se trata de um
fenômeno individual, nem secundário. Se não levarmos em consideração o homem ou
a mulher realmentes existentes, e este novo tipo de disritmia que geram as
novas tecnologias, teremos propostas tecnocráticas que dominam as pessoas, e
terminam por não funcionar, em vez de soluções técnicas que as libertam e lhes
dão o gosto de novos espaços. A diferença entre os ritmos não se limita aos
tempos tecnológico e cultural. Quem já tentou implantar sistemas de informação
numa instituição, e modificá-la em
consequência, já constatou que a mudança institucional acumula as
resistências culturais das pessoas com lentidões próprias das instituições,
enroscadas nos seus carimbos, ilhas de saber e de poder, corporativismos. As
instituições evoluem de maneira muito mais lenta do que as pessoas, gerando
distância maior ainda entre as novas tecnologias e as suas aplicações práticas.
Em outro nível ainda se situa a área jurídica, que codifica as próprias
instituições, define as regras de jogo, e que acumula as lentidões anteriores
com as que são especificamente da sua área. O que faz o jurista, com os seus
manuais empoeirados, quando se trata não mais de codificar uma situação, e sim
de gerir de forma flexível a permanente mudança? O tempo assume assim,
nesta sociedade em curso de vertiginosa transformação, um papel essencial. E o
fato do tempo atingir de forma diferente as diversas instâncias sociais gera
instituições onde convivem épocas tecnológicas diferentes, frequentemente
estanques. O respeitável dono do carimbo e o jovem dono do computador cruzam os
olhares educadamente, cada um pensando no seu íntimo: “mas o que é isso, meu
Deus? “ Grande parte da força das novas
tecnologias resulta justamente do fato de, ao democratizarem e tornarem acessível a todos a informação sob
diversas formas adaptadas ao gosto de cada um,
construirem pontes culturais e institucionais entre os diversos tempos,
gerando um espaço integrado e comum,
aquilo que frequentemente tem sido chamado de uma cultura institucional. Quando
falamos de informática e de novas tecnologias da informação, não nos referimos
portanto à compra de um equipamente informático. Nos referimos a uma
transformação cultural. O impacto é mais
visível nas empresas, pela simples razão da competição obrigá-las a correr no
processo de modernização. A transmissão instantânea de informação formalizada
entre unidades empresariais e entre diversas estruturas funcionais está levando
ao fim de uma era baseada na segmentação de tarefas e nas hierarquias
verticais, gerando uma nova cultura mais horizontal e interativa: é a era da
reengenharia. Na área pública, os atrazos acumulados estão levando a
iniciativas pontuais de modernização, cuja multiplicação está gerando uma nova
filosofia de governo, no quadro do que se acordou de chamar de reinvenção do
governo. Na área das
organizações da sociedade civil, este amplo e diversificado universo que
evoluiu de uma espécie de legião de boa vontade humanista para o sistema
moderno e dinâmico de organização da sociedade civil que hoje conhecemos,
envolvendo centenas de milhões de pessoas, o desafio é imenso, e
particularmente importante, na medida em que ações pontuais e descentralizadas,
quando não dispersas, constituem freqüentemente a regra e não a exceção.
Trata-se, é importante lembra-lo, da forma de organização que mais rapidamente
cresce no mundo. Qualquer ONG ou organização de base comunitária hoje sente a
necessidade de se equipar rapidamente em sistemas de informação e de
comunicação, e se articula em rede com organizações semelhantes em qualquer
parte do mundo. Cada uma das tres
grandes áreas mencionadas, a empresarial, a estatal e a da sociedade civil
organizada, participa assim de um movimento amplo de transformações. O jargão e
a sopa de letrinhas surgem essencialmente, sem dúvida, em torno do universo
empresarial, com os seus CCQ, TQM, Kaizen, Kanban, just-in-time, ISO-9000, knowledge
organization e assim por diante, mas o movimento atinge o conjunto das
transformações institucionais deste fim de século. A rede de informação se torna o grande
denominador comum do conjunto. O impacto
organizacional é desigual no seu avanço, mas é geral. Informação que flui
permite que um trabalhador de chão de fábrica tenha boa visão de conjunto, o
que permite que o binômio autoridade-obediência seja gradualmente substituido
pelo da informação-responsabilidade, numa tendência geral à horizontalização
das instituições. O cidadão informado se torna de repente uma pessoa que pode
participar diretamente dos processos de transformação política e social,
fazendo os sistemas evoluir da democracia representativa para a democracia
participativa. O auto-conhecimento pelas comunidades abre espaço para a resolução
descentralizada de problemas e a organização de frentes de trabalho voluntário
de diversos tipos. Municípios do mundo inteiro participam de redes de
comunicação sobre quem resolve de que forma os problemas essenciais da
organização e gestão urbana. Os conceitos de participação, descentralização,
responsabilização, parcerias, redes, alguns até incômodos de se traduzir como
empowerment, advocacy, governance,
collaborative arrangements e outros, mostram a nossa evolução para novos
paradigmas institucionais, e para uma sociedade muito mais democrática,
participativa e interativa A revolução da
informação torna-se assim incompreensível se não a inserirmos no conjunto do
processo de transformação que está varrendo as nossas instituições e a nossa
cultura organizacional. Em boa parte, trata-se de um catalizador e dinamizador
desta transformação. Não se trata portanto de uma ilha técnológica a ser
implantada segundo uma fórmula técnica: trata-se de um processo profundo e
diferenciado de mudança organizacional. E o processo não é politicamente inocente. Toffler apresenta uma imagem simples e sugestiva do deslocamento do poder na história: evoluimos da época em que o poder pertencia a quem tinha as armas, para um época em que o poder está com quem tem o dinheiro, e estamos ingressando numa era em que o poder será apropriado por quem controla o conhecimento, a informação. A recente batalha pela privatização das telecomunicações, por exemplo, faz parte da guerra pelo controle dos postos de pedágio sobre a informação. Ao enfrentarmos problemas de organização e de gestão da informação, torna-se portanto essencial encontrar soluções institucionais que assegurem a democracia dos processos. Informação e gestão socialEm termos funcionais, as
mudanças que vimos brevemente acima se materializam na questão seguinte: como
aproveitar a conectividade instantânea de todos os atores do desenvolvimento
social, que as novas tecnologias permitem, para gerar uma nova racionalidade de
todos? Antes de tudo, é útil
qualificar os objetivos, pois é profundamente diferente organizar a informação
para nela colocar pedágios, ou para torná-la universalmente acessível; para
reforçar o poder de uma hierarquia, ou para gerar uma dinâmica participativa;
para excluir os desinformados, ou para assegurar a inclusão. A informação
racionalmente organizada consiste em iluminar de maneira privilegiada os eixos
de ação, e não em gerar uma infinidade de informações sobre tudo, afogando os
elementos significativos. Definir, ainda que sumariamente, as ações que
queremos desenvolver, facilita portanto a seletividade, e esta por sua vez
facilita as opções metodológicas. A publicação Finance and
Development, do Fundo Monetário Internacional, traz na capa da edição
distribuída em março 2001 a foto comovente de uma pobre criança, e uma pergunta
direta no título: How can we help the
poor? – como podemos ajudar os
pobres. Considerando quem formula a pergunta, várias respostas mal educadas
podem nos ocorrer. No entanto, o Relatório
sobre o Desenvolvimento Humano 2000/2001 do Banco Mundial traz outra criança na capa, e um título igualmente
sugestivo: Attacking Poverty, atacando a pobreza. O relatório da ONU
traz na capa uma mulher pobre – aliás até agora todos pretos – e o título Overcoming Human Poverty. Resumir
todos os nossos males à pobreza seria sem dúvida uma simplificação. No entanto,
o fato é que a tragédia planetária que enfrentamos encontra aí sem dúvida o seu
ponto fulcral. O Banco Mundial constata que 2,8 bilhões de pessoas vivem com
menos de 2 dólares por dia (120 reais por mês), e destas 1,2 bilhão vivem com
menos de 1 dólar por dia. Em termos práticos isto se traduz em 11 milhões de
crianças que morrem anualmente de causas ridículas, 1 bilhão de analfabetos,
outro tanto de desnutridos e assim por diante. Ao
colocarmos a pobreza como ponto fulcral do problema, e não como totalidade do
problema, buscamos definir o eixo prinicpal de incidência das ações, mas também
as ramificações. Grande parte dos problemas ambientais encontram as suas raízes
na pobreza. A guerra de 39 empresas farmacêuticas imensamente prósperas contra
o direito da África do Sul de produzir os seus medicamentos contra a Aids,
mostra simplesmente a contradição entre entre doenças caras e pacientes pobres:
não é rentável salvar vidas pobres. A destruição acelerada da vida nos mares por
algumas dezenas de gigantes da pesca industrial, afetando o acesso a proteínas
de algumas centenas de milhões de pessoas pobres que têm na pesca artesanal ou
simplesmente costeira o seu sustento profissional ou alimento, mostra que pobre
não tem voz, e que esta ausência de voz leva a uma destruição criminosa da
principal base de vida do planeta. A fragilidade da agricultura alimentar no
planeta – é importante lembrar que a metade da população mundial ainda vive
diretamente da agricultura – está diretamente ligada ao fato das redes
financeiras, comerciais, de transportes e de assistência técnica estarem
concentradas na agroindústria, resultado direto, entre outros, da maior
dificuldade de se organizar uma grande massa de pequenos produtores
relativamente dispersos. Assim
um conjunto de atividades ligadas ao “como ajudar os pobres” tecem uma rede
complexa que envolvem maior acesso à saúde e educação, ao crédito, às
tecnologias, à informação, ao espaço político, à cidadania. São atividades
diversificadas, mas que tem em comum a orientação geral de construir a inclusão
dos pobres. Décadas
de experiência com projetos e programas de desenvolvimento e de ajuda sob a
forma de “pára-quedas” construíram gradualmente a compreensão, que hoje se
encontra até nos relatórios oficiais do Banco Mundial, de que as políticas de
inclusão precisam ser orientadas e geridas pelos próprios excluídos. As
políticas de enfrentamento da pobreza ou são participativas ou não são. As
políticas sociais são necessariamente capilares. A saúde tem de chegar a cada
domicílio, a educação tem de chegar a cada criança. Não são sistemas que se
montam por decreto, com um modelo padrão que desrespeita a diversidade, as
opções e equilíbrios políticos e culturais de cada região, de cada município. Políticas
participativas, diversificadas e capilares exigem uma ampla descentralização
das decisões. Neste plano, atinge-se escala não criando maiores ministérios, ou
projetos maiores, mas buscando efeitos multiplicadores de um grande número de
pequenas iniciativas, muito afinadas com condições locais. Articular um grande
número de pequenas iniciativas diversificadas não aponta para grandes pirâmides
administrativas, públicas ou privadas: aponta para uma organização em rede. Ao
falar de sistemas de informação para enfrentar a pobreza, não estamos portanto
falando em bancos de dados, em centrais de informação, mas na geração de uma
ambiente rico em informação, permeando o conjunto das atividades descentralizadas,
onde as redes de informação cumprem o papel de permitir a autoregulação
informada das iniciativas. Da informação à rede de comunicaçãoCriar um ambiente rico
em informação implica trabalhar a própria organização da informação, e exige a
construção de um sistema ágil de comunicação. É importante lembrar, antes de
tudo, que a área social, e em particular a administração pública, estão mais
acostumadas a trabalhar reagindo às demandas que se apresentam como mais
prementes, do que no quadro de um planejamento que permita racionalizar os
esforços. Esta visão, e a compreensão da importância do planejamento, em geral ainda devem ser construídas. É freqüente também a
visão de que a informação é um produto que “sobe” na hierarquia de decisões,
permitindo que as esferas superiores na hierarquia tomem decisões informadas. É
com esta filosofia que trabalham ainda as nossas grandes instituições de
estatística, de informação, de seguimento de pesquisas. A compreensão de que a
informação é essencial para todo o universo que participa do processo, devendo
constituir um ambiente que permeia o conjunto de interações, ainda é
incipiente. Os atrasos neste plano tem uma conseqüência simples: sem informação
não há participação. A
informação é igualmente essencial para construir o referencial político da
população. Uma longa tradição de se pedir favores e a própria prática do
clientelismo político estão profundamente enraizadas na exclusão informativa.
Em vez de se organizar para batalhar os próprios objetivos, os excluídos pedem
individualmente favores de quem “conhece” os caminhos. O que temos de
enfrentar, portanto, ainda é freqüentemente uma incompreensão da própria
necessidade da informação. Um espaço de informação como o orçamento participativo,
ao multiplicar o número de pessoas que passam a entender quanto custa um
quilómetro de rua asfaltada, por exemplo, e ao fornecer um foro de discussão
pública, constrói a cidadania, reduz os espaços de corrupção, gera gradualmente
uma mudança de cultura política. A formação de uma rede de comunicação passa a potencializar os impactos da informação, ao permitir que cada comunidade conheça o que se faz em outras regiões, em outros municípios, em outros bairros, o avanço de um gerando idéias para o avanço de outro. É importante lembrar que, pelo próprio caráter disperso e pela escala normalmente pequena das iniciativas, sobretudo nas fases iniciais, tendem a ficar isoladas, inseguras, e desconhecidas por outras comunidades. É igualmente essencial levar em conta que fica normalmente difícil para pessoas que estão dinamizando uma importante mas pequena iniciativa em algum bairro ou município do interior, pensarem e organizarem a divulgação do que fazem. A lenta e fundamental construção do capital social pelo país afora, através de milhares de iniciativas dispersas, normalmente não adquire nenhuma visibilidade. Quem tem melhores condições de elaoborar e facilitar o funcionamento desta rede de comunicações e de divulgação são pessoas e instituições que profissionalmente estudam estas experiências. O que se apresenta como linha de trabalho, portanto, é um trabalho simultâneo de reforço da organização dos sistemas locais de informação, e de organização das redes que deverão valorizar esta informação e gerar efeitos multiplicadores. E a filosofia do trabalho, dentro de uma visão de informação compartilhada, consiste em gerar, sistematizar e circular a informação tendo como principal referencial a utilidade que este esforço representa para os próprios atores sociais que desenvolvem o trabalho. Em termos práticos, é
importante realçar que, de forma geral, os sistemas de informação de nível
local são extremamente rudimentares. Uma nova gestão assume e encontra gavetas
vazias. Raros municípios têm um centro de documentação, quase nenhum produz
indicadores sistemáticos de acompanhamento da gestão, poucos secretários
municipais trabalham com informação gerencial que lhes permitam tomar decisões
informadas. Poucas organizações comunitárias ou ONGs têm sistemas articulados
de informação. O
desafio consiste portanto em se gerar uma dinâmica que permita colocar em rede
o que já existe, construir gradualmente a navegabilidade neste universo, e
criar gradualmente por tabela a melhoria dos sistemas de elaboração de
informação de cada ator do processo. Um
eixo de trabalho que já avançou razoavelmente refere-se às redes de informação
sobre as experiências exitosas. Pode-se hoje capitalizar os excelentes
trabalhos desenvolvidos de maneira sustentada pelo Polis (Dicas Municipais),
pelo programa Gestão Pública e Cidadania da Fundação Getúlio Vargas e Fundação
Ford, pelo Cepam (Recem, censo de experiências municipais), pela Fundação
Abrinq (experiências exitosas relativas a políticas sociais para crianças, no
programa Prefeito Criança), e outras
iniciativas. O “anel” gestão local
http://www.web-brazil.com/gestãolocal
permite circular entre estes diversos bancos de dados, respeitando a lógica de
estruturação de cada um, mas facilitando a navegação. O
conceito que levou à criação da amazong.org é igualmente interessante. Há uma imensa
produção, no país todo, de pequenos relatórios e estudos sobre as mais variadas
experiências, sobre o impacto de diversas iniciativas, sobre novas formas de organização.
Estas contribuições são distribuídas entre grupos amigos, e não ganham alcance
nacional. As redes premitem evidentemente que este tipo de publicação ganhe
relevância nacional. A idéia básica é que qualquer Ong filhada à Abong, por
exemplo, ao produzir uma reflexão, coloque uma cópia na rede, com palavras
chave, resumo, data, local, contato para informações complementares, enfim, um
“protocolo” que permita que se possa navegar facilmente entre a massa de
documentos. Aproveita-se aqui a facilidade da rede localizar por exemplo
experiências de parcerias na gestão escolar em zona rural, ou qualquer outra
combinação de condições. Este tipo de bilioteca virtual, hoje com site
registrado mas ainda em fase de construção, poderá desempenhar um papel fundamental
de circulação de material científico e informativo de milhares de atores
sociais organizados em todo o país. Frente
à fagilidade das próprias bases existentes de informação, sugere-se ainda a
formação de um grupo de trabalho sobre os sistemas locais de informação,
recolhendo as experiências iniciais da Fundação Seade, do Ibge, do Siafem, do
IDH-municipal, para conceber um sistema básico de informações locais. Esta
se outras iniciativas podem ser consideradas. O essencial é que exista um
espaço estruturado e permanente de reflexão que permita a construção de um
sistema que, por definição, não pode constituir uma iniciativa unilateral, e
necessita de uma gestão aberta e democrática. Construir um projeto, entre
pessoas que se conhecem, e para responder a uma necessidade precisa, é
normalmente mais fácil do que construir um sistema articulado como uma rede de
informação, ambiente onde um universo diversificado de atores possa circular de
maneira simples e eficiente. As pessoas freqüentemente ainda têm uma visão
de um tipo de mega-banco de dados, com as complexidades da administração, os
custos elevados, e os eternos problemas de “quem controla”. Na realidade,
trata-se aqui de aproveitar as organizações comunitárias que já existem, as
Ongs que já funcionam, formando um sistema de vasos comunicantes que permita
que as informações já produzidas, os relatórios existentes, os dados sobre quem
pode ajudar ou informar sobre cada tema ou sobre cada experiência, circulem de
maneira ágil, melhorando a produtividade de todos. A gestão da rede de comunicaçãoOs arquitetos gostam freqüentemente de construir grandes edifícios. Aqui, trata-se de dinamizar um processo. Existem numerosas fontes de informação, redes de redes, bancos mais ou menos bem constituídos, pessoas ou organizações mais ou menos centrais pelas suas contribuições ao processo. O exército romano, quando acampava, distribuía os lugares das tendas, da cantina, das latrinas, mas esperava uma semana para traçar os caminhos. Os caminhos eram traçados depois de constatar quais os trajetos efetivamente demandados. De certa maneira, temos de respeitar as trilhas, e deixar que o próprio processo demostre quais sites serão mais ou menos consultados, que tipos de informações são mais significativas. De certa maneira, deve-se deixar o sistema buscar a sua auto-regulação, e não tentar impor importâncias artificiais. Por outro lado,
devemos constatar que, apesar de sabermos de numerosos sites que nos
interessam, raramente os acessamos. Para o conjunto de pessoas que atuam na
área do desenvolvimento social, o recurso escasso é o tempo. Encontramos
numerosos sites onde especialistas que desenvolvem sites mas nunca os utilizam,
abusam de imagens, cores e efeitos especiais para impressionar, gerando no
usuário a impressão de que o computador nunca vai acabar de carregar a imagem.
O que estamos sugerindo aqui, é que sem prejudicar as lógicas diferenciadas das
diversas instituições que produzem e utilizam informação, pode-se simplesmente
facilitar a navegação. Isto
passa pela constituição de um núcleo de organizadores, que acompanhe a visão de
conjunto, e introduza progressivamente um mínimo de compatibilização nas
soluções gráficas, nos protocolos de comunicação, nos conceitos de
classificação. De certa forma, e em nível mais modesto, trata-se de introduzir
a racionalidade discreta que o grupo gestor da Web, em Genebra, introduz nos
sitemas de navegação www. Nonosso
caso, este tipo de núcleo articulador
teria também de ajudar no trabalho de formação para o uso das redes. E nada
como a própria rede para realizar este tipo de curso, como já existem
experiências. É
natural e legítima a preocupação com eventuais “apropriações” de um esforço
deste tipo, por um ou outro grupo ou tendência política ou social. Aqui, nada como aproveitar a experiência: um
núcleo com representação suficientemente ampla pode perfeitamente assegurar a
confiabilidade necessária às suas funções, ao mesmo tempo que um pequeno grupo
de apoio técnico poderá assegurar a agilidade de respostas. De toda forma,
parece importante a formulação de uma “carta” de princípios da rede, de modo a
evitar futuras confusões. Adendo: Sistemas locais de informação[1]Não há soluções
universais na área da informação. É diferente o sistema a se adotar nas áreas
pública e privada, na pequena empresa ou na grande, no município ou no governo
federal, na instituição financeira ou na escola. O nosso trabalho tem sido
orientado fundamentalmente para a organização de um sistema integrado de
informações para uso público, aberto, gratuito, e centrado na chamada gestão
local. As notas que seguem, ainda que gerais, focam portanto em particular este
tipo de universo de informação. O sistema existente ao
nível dos municípios é caótico. De forma geral, a administração municipal não
dispõe de uma base organizada de informações para orientar a sua gestão, e a
população não tem acesso à informação necessária para avaliar o que está
acontecendo. Trabalhamos assim num universo opaco, onde os donos do poder
substituem gestão competente por uma vaga intuição, governando em função da
pressão maior e reagindo às emergências que surgem, enquanto o cidadão se sente
simplesmente perdido e impotente. E a ausência do cidadão informado leva aos
processos de corrupção naturais de todo organismo que trabalha sem
controle. Não faltam sem dúvida
formulários de informação a se preencher. Pedidos do Ibge, de instutuições de
pesquisa, das secretarias de finanças, dos poderes Estadual ou Federal surgem
constantemente, obrigando as administrações a interromper trabalhos para
preencher necessidades de informação de outras instâncias. O próprio sistema de
informação financeira, por exemplo, está organizado para responder às
necessidades do tribunal de contas, e não dá ao secretário municipal as
informações gerenciais básicas para tomar as decisões na sua área. Em termos
instituicionais, não há nenhuma articulação: o pedido de um prefeito ao
escritório do Ibge no seu município recebe sempre a lacônica informação de que
deve se dirigir ao Rio de Janeiro, onde fica a sede da instituição. As
universidades, empresas particulares e administrações municipais realizam
independentemente pesquisas que poderiam ser complementares, ou que
poderiam constituir um universo
permanente de informação acessível aos diversos usuários. As propostas que seguem
vão no sentido de ajudar uma administração municipal a criar uma base
permanente de informação. Devem ser vistas como um tipo de lista de “primeiros
passos” que exige extrema flexibilidade na sua aplicação. A seleção dos tópicos,
não exaustiva, obedece simplesmente à experiência do autor com o que tem dado e
o que não tem dado certo. 1 - Criação de um núcleo de
trabalho
A informação não é um
setor: é uma dimensão de qualquer atividade. A criação de um ambiente rico em informação,
que é o nosso objetivo, implica assim que o médico gere informação adequada
quando atende um paciente, que o registro de uma nova criança na escola
implique na imediata alteração das estatísticas municipais e assim por diante.
Este tipo de organização multipolar não surgirá espontâneamente, se não houver
um núcleo dinamizador inicial, diretamente vinculado ao gabinete do prefeito,
com pleno apoio político, e sem outra função senão a de gerar um sistema de
informação. Assim as informações já existentes, as idéias que numerosas pessoas
em diversos setores possam ter para melhorar as informações, os aportes
pontuais de consultores e outros poderão ser capitalizados e aplicados de forma
útil para o conjunto da instituição. 2 - Criação de uma rede de
apoio
Demora um pouco as
pessoas entenderem que não se espera que elas forneçam informação, e sim que se
organizem para que a informação esteja disponível para elas, para as outras
áreas de atividades e para a população em geral. Trata-se assim de trazer um
novo conceito de informação como flúido permanente que alimenta uma rede, e não
algo que se “produz” a pedidos. Torna-se assim importante identificar pontos
mais significativos de produção de informação,
e de identificar dentro de cada instituição uma pessoa que possa ser uma
contraparte ativa do processo. A tendência natural é a instituição procurada
nomear uma pessoa de confiança que tem mil outras coisas a fazer. É essencial
que seja uma pessoa que possa se dedicar à tarefa. 3 - Construção gradual e
visão de conjunto
Há uma forte tendência
para se imaginar um mega-sistema cheio de tentáculos. Na realidade, é essencial
entender que se trata de um edifício complexo que vai sendo construido de forma
modular, não se exigindo de antemão os impressionantes organogramas
frequentemente tão a gosto das empresas de consultoria. Por outro lado, a
compatilidade de todo o sistema exige que o núcleo organizador, à medida que
vão se constituindo os módulos, esteja trabalhando na visão de conjunto,
adequando gradualmente as metodologias. Assim a organização de segmentos, ou
módulos, vai interagindo progressivamente com a definição do universo mais
amplo de informação. É importante lembrar que hoje os hipertextos permitem
trabalhar flexivelmente com planilhas, bases de dados e informação em texto e
imagem sem que seja necessário fazer opções estreitas de antemão. 4 -
Priorizar os setores essenciais
Como toda atividade
gera indiretamente informações, é preciso evitar a tendência para trabalhar
imediatamente em todos os setores, o que pode abrir demasiado o leque e reduzir
o foco. Normalmente vale a pena seguir simplesmente o critério de
essencialidade da informação. Numa prefeitura, por exemplo, costumam ser
essenciais os dados relativos à informação gerencial financeira, recursos
humanos, e as principais atividades fins como educação e saúde. Trata-se de
chegar rapidamente a alguns módulos que funcionem efetivamente, e que permitam
visualizar a arquitetura do sistema e ir agregando módulos novos. 5 - Seletividade na informação
A produção de um grande
volume de dados pouco confiáveis e desorganizados faz desaparecer, por
afogamento, a informação significativa. Torna-se essencial, em consequência,
ser extremamente seletivo na informação a ser produzida em cada setor. Informação
é sempre muito mais uma questão de qualidade do que de quantidade. A tendência
geral é de se produzir amplos relatórios que ninguém lê, com dados que não são
confiáveis. A educação, por exemplo, pode ter a sua situação acompanhada com
alguns indicadores básicos como taxa de cobertura escolar por faixa de idade,
taxa de repetência, evasão escolar, evolução do custo unitário do aluno e
salário de professores. Uma boa forma de se assegurar a seletividade consiste
em organizar as informações em função da demanda efetiva que existe, e não em
função de tudo o que uma fonte de informações é capaz de produzir. Deve-se
produzir apenas o que as pessoas estão dispostas a consultar. 6 - Sistematização dos dados
Dados esporádicos não
constituem informação, não geram conhecimento. Podem eventualmente alertar para
uma situação que exija acompamento, mas não substituem o processo de
sistematização de dados. Para constituirem informação, os dados devem ser
produzidos de forma regular, numa frequência significativa, e com definição
técnica precisa dos conceitos de classificação. Trabalhando-se com poucos dados
e significativos, pode-se definir com muita precisão as poucas tabelas que
serão utilizadas. E a produção sistemática dos dados durante vários anos
permitirá um acompanhamento efetivo da situação. 7 - Assegurar comparabilidade dos dados
Para serem
significativos, os dados devem ser comparáveis. Isto implica por um lado a
comparabilidade no tempo: as definições dos conceitos e as metodologias de
cálculo devem ser mantidas durante o tempo suficiente para que se possa
constatar a evolução dos fenômenos. Por outro lado, os dados se tornam
significativos quando podemos compará-los com outros pontos de referência. Uma
taxa de repetência escolar de 0,68% nas escolas municipais de Santos se torna
significativa quando comparada com a taxa das escolas municipais de São Paulo
que é de 4,6%, sete vezes superior. Mas adquire também outro significado quando
constatamos na série histórica que a repetência mudou pouco durante os últimos
anos. 8 - Diferenciar os universos de informação
As situações podem
variar segundo as cidades, mas de forma geral é útil pensar o universo de
informação como um edifício de quatro andares. Num primeiro andar, está o que
se chama habitualmente de “centro de documentação”, que reune documentação
geral sobre a cidade e a região, estudos de consultoria, trabalhos geográficos
e históricos, enfim o acervo geral que permite que uma universidade, um grupo
de pesquisadores, um consultor empresarial ou um secretário municipal possam
encontrar bem ordenada a informação geral de apoio, ou “informação de
retaguarda” necessária para qualquer iniciativa. Um segundo “andar” de
informação é constituido pelo que designamos hoje de indicadores de qualidade
de vida, que mostram de forma simples e ordenada os resultados efetivos do
desenvolvimento do município: a sua taxa de mortalidade infantil, o sucesso ou
insucesso escolar, o tempo médio de espera pelo transporte coletivo, a
qualidade da água, a taxa de desemprego, o nível de criminalidade e assim por
diante. Um terceiro nível é constituido pelas chamadas informações gerenciais
que cada secretário ou chefe de departamento deveria ter para assegurar um
processo racional de tomada de decisão: o fato é que hoje a forma de
apresentação das contas não permite saber quanto custa construir uma escola,
nem quanto custará mantê-la ativa. Os resultados são escolas sem professores ou
sem bibliotecas, postos de saúde sem médicos, hospitais parados e outros
fenômenos que todos conhecemos. Finalmente, um quarto andar é constituido pelos
arquivos, que hoje, com as modernas tecnologias de arquivamento e pesquisa de
conteúdo podem constituir um precioso apoio para a tomada de decisão do
administrador ou para o controle do cidadão.
O ordenamento do universo de informaçõds pode seguir estes quatro grupos
, ou outros, mas é essencial que se diferenciem os universos de informação – o
que não impede a integração das análises – de forma a se assegurar a
flexibilidade e agilidade no uso. 9 - Assegurar a autonomia do sistema de
informação
A informação desempenha
hoje um papel político fundamental: não se deve ignorá-lo nem fingir que não se
percebe esta importância. O mais prático, em geral, é colocar a cabeça do
sistema de informação fora do espaço de tomada de decisão política. E assegurar
que no controle deste sistema participem atores sociais suficientemente
diversificados para que ninguém possa facilmente pôr os outros no bolso. A
Fundação Anchieta, por exemplo, constitui um sistema que escapa ao poder
imediato do Estado e aos interesses privados mais diretos, permitindo um grande
aporte cultural ao país, através da TV-Cultura. A cidade de Santos criou por
lei uma Fundação de Memória e Arquivo da cidade, que por ser fundação tem autonomia
de decisão, e por ser pública tem garantido o financiamento básico das suas
atividades. A Fundação é dirigida por doze pessoas, entre os quais os quatro
reitores das universidades da cidade, quatro representantes de instituições da
sociedade civil e quatro representantes da prefeitura. Este tipo de arquitetura
institucional não exclui, mas dificulta a manipulação, e deve permitir que não
apenas a prefeitura, mas todos na cidade saibam como está evoluindo a sua
administração. É a era da transparência. As soluções institucionais são essenciais para
que a longo prazo funcione o processo de enriquecimento informacional da
sociedade. 10 - Manter o sistema aberto
A questão do sigilo, do
segredo, do escondido tem permeado tradicionalmente o espaço informativo no
Brasil. E os sistemas de informação atuais permitem realmente uma transparência
que pode deixar preocupados a muitos. O Siafi, em Brasilia, permitiu ao senador
Suplicy detectar as imensas falcatruas praticadas na comissão do orçamento do
Congresso. O prefeito Cheida, em Londrina, colocou terminais dos computadores
da secretaria de finanças em locais públicos, fazendo a prefeitura trabalhar de
certa forma com janelas abertas. Como as tecnologias hoje permitem níveis de
acesso diversificados, o problema de segurança dos dados já não se coloca, ou
se coloca como pretexto. Mas é indiscutível que uma das frentes de luta mais
duras que se enfrenta ao montar os sistemas de informação é a resitência à
criação de um ambiente democrático e transparente. A rede, neste sentido, como
mostram a Internet e outros sistemas análogos, constitui um instrumento
poderoso de democratização. É melhor criar transparência do que sustentar
amplos corpos de fiscais e policiais de um sistema repressivo. 11 -
Os parceiros na informação
O organismo que monta
um sistema de informação tem de se lembrar que não é uma ilha. Em termos
metodológicos, pode montar parcerias com instituições como Ibge, Seade, Cepam,
Ibam, Dieese e tantas outras que trabalham especificamente com informação. Mas
pode manter parcerias também com as universidade regionais, que fazem por
exemplo estudos de caso a partir de manuais norte-americanos quando poderiam
estar pesquisando a sua própria realidade e ajudando a resolver problemas. A
própria montagem do sistema de informações pode se feita em parceria com
instituições científicas regionais. Organizando o acesso em rede às bibliotecas
universitárias, aos arquivos dos jornais locais e organizações internacionais
interessadas – e hoje são muitas – a prefeitura pode na realidade assegurar a
formação de um amplo ambiente rico de informações que beneficiará tanto a
qualidade de trabalho da administração, como o controle cidadão sobre as
atividades públicas, como ainda a produtividade de escolas, empresas e sindicatos.
Em outros termos, o sistema não busca ser uma ilha estanque e protegida, busca
pelo contrário ajudar a dinamizar uma rede interativa que inclui numerosas
instituições. Esta “arquitetura” institucional constitui um dos fatores mais
importantes de sucesso do trabalho. 12 - Organizar a comunicação
A tradição nesta área é
de que uma equipe junta penosamente uma série de informações que são entregues
por várias fontes de informação, e publica um folheto ou um livro. Depois do
lançamento e de algumas linhas no jornal local, a publicação desaparece nas
gavetas e na poeira dos arquivos. Aqui também é essencial organizar o acesso
público à informação. Uma forma consiste em fazer parcerias com jornais, TV,
rádios, instituições de ensino, redes de bancas. Outra forma é disponilizar a
informação em terminais de computador instalados em locais de fácil acesso. 13 -
Linguagem
A linguagem é
essencial. Volumes de estatística do Ibge são publicados numa forma que permite
que apenas especialistas familiarizados com o próprio Ibge possam consultá-los.
Num país onde metade da mão de obra tem até o quarto ano de estudo, não se pode
deixar de ver que a informação produzida deve ser apresentada de diversas
formas, para diversos níveis de leitura. Produzir a informação e não organizar
a sua legibilidade pelo maior número de pessoas e instituicões constitui
simplemente um desperdício de dinheiro. A separação entre quem produz a
informação e os divulgadores tem levado a que os dados primários sejam
incompreensíveis pelo público, e os dados jornalísticos divulgados em geral com
erros grosseiros. A informação constitui um processo que começa com o fato
gerador e termina com a população devidamente informada, e não pode ser
artificialmente segmentado. Da mesma forma como hoje, no tempo da gestão com
qualidade, as empresas reunem os especialistas do marketing com os economistas
que levantam os custos e os engenheiros que propõem soluções técnicas,
consultando inclusive o cliente para saber o que realmente necessita, assim
também não há razão para que os sistemas de informação não apliquem a qualidade
total aos seus produtos e não articulem os diversos personagens do processo. 14 - Resistências à mudança
A introdução de
sistemas modernos e integrados de informação mexe com as tradições, as formas
antigas de trabalho – não necessariamente ruins – mas que devem ser adaptadas,
com o latente sentimento de insegurança das pessoas, com quistos de poder
baseados no monopólio da informação, com o choque cultural do computador e
assim por diante. Estas resistências devem ser claramente colocadas na mesa,
discutidas como coisa natural e elemento essencial do processo de implantação do sistema. É importante lembrar
que não adianta estarmos convencidos de que o sistema que se implanta é
superior, melhor, mais honesto, mais produtivo. Grande parte das nossas
atitudes frente à inovação são pouco racionais, e muitas fazem parte do que já
abordamos mais acima, do fato que a velocidade tecnológica é muito maior do que
o nosso tempo cultural, e as resistências são inevitáveis. De toda forma, é
essencial lembrar que qualquer proposta, por ótima que seja, pode morrer pelas
razões mais ridículas, que por isso mesmo não podem ser consideradas
ridículas. 15 - Montagem da alimentação do sistema
É essencial lembrar que
o sistema que montamos constitui um processo permamente, uma forma de trabalho
– que elabora informação como subproduto
– do médico, do economista, da diretora de escola, do fiscal, do próprio
prefeito. É relativamente fácil montar um produto, um estudo sobre a taxa de
repetência na rede pública por exemplo. Mas assegurar a alimentação permanente
de um sistema em rede implica numa atitude de cooperação interinstitucional, e
um trabalho extremamente sério, por parte dos integrantes do “núcleo” articulador,
de montagem e aperfeiçoamento permanente do sistema. A informação final, como
na árvore fruteira, depende da qualidade das raízes. O que pode nos aparecer
como bons quadros estátisticos pode não ter valor nenhum se não se definiu
claramente rotinas de trabalho informativo no posto de saúde, na delegacia de
polícia, na escola. Trata-se assim de trabalhar a qualidade das fontes, a
alimentação do sistema. 16 - O ciclo da informação
A informação aparece
assim como um ciclo completo, e não apenas como um produto, uma publicação, um
folheto, um filme. Neste ciclo encontramos o fato gerador, o dado inicial, a
sistematização para obter informação organizada, a apresentação do resultado, a
sua difusão, o controle do interesse e da satisfação do usuário da informação,
o levantamento das críticas e recomendações de melhoria, e a devolução
organizada das críticas e sugestões aos diversos níveis do sistema. Conclusões
Os pontos acima
constituem apenas um elenco de idéias. Cada realidade é diferente, e segundo as
condições específicas poderão funcionar soluções as mais diversas. O importante
é entender o gigantesco potencial que os sistemas modernos de informação nos
abrem, já não apenas para melhorar a
produtividade de uma instituição, mas
para influir na forma como a sociedade de organiza, interage no cotidiano. As recomendações podem ser agrupadas em torno de
grandes capítulos: trata-se de definir o universo de informações que queremos
trabalhar; de pensar as soluções institucionais mais adequadas; de escolher os
suportes tanto de hardware como de software para gerar um sistema onde a
informação possa fluir; de gerar a cultura organizacional que permita que
diversas instituições e diversos níveis hierárquicos passem a navegar no mesmo
espaço de informação; de criar o sistema dinâmico de parcerias que assegure a
inserção local e a produtividade social do sistema. Uma atenção particular
deve ser dada aos já mencionados indicadores de qualidade de vida. Um indicador
simples, como o tempo de espera médio pelo ônibus numa cidade determinada,
constitui um instrumento poderoso de modernização institucional, quando bem
utilizado e divulgado. Para a secretaria de transportes do município, saber que
o cidadão espera em média 20 minutos pelo ônibus permite fixar metas internas,
por exemplo, de se baixar a espera pela metade numa gestão. Assim, definem-se
parâmetros de produtividade da administração pública. Para a população,
conhecer a evolução do indicador significa poder votar não pelo tamnho do
sorriso na televisão ou pelo número de crianças beijadas, e sim em função dos
resultados efetivos atingidos por diversas gestões, e materializados em
indicadores de mortalidade infantil, taxa de evasão escolar, indicadores de
criminalidade e assim por diante. Uma sociedade bem
informada é uma sociedade que pode passar a funcionar. Não é uma condição
suficiente, mas seguramente necessária. Pode tornar-se, na expressão tão
apropriada de Galbraith, uma “boa sociedade”. Ladislau Dowbor é doutor em Ciências Econômicas pela
Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, professor titular da
PUC de São Paulo e da Universidade Metodista de Sao Paulo, e consultor de
diversas agências das Nações Unidas. É autor de “A reprodução social”,
Vozes 1998, “O Mosaico Partido”, Vozes 2000, Tecnologias do Conhecimento: os
desafios da educação, Vozes 2001, e
de numerosos trabalhos sobre planejamento econômico e social. Foi Secretário de
Negócios Extraordinários da Prefeitura de São Paulo. Fone: (011) 3872-9877;
FAX: (011) 3871-2911; E-mail ladislau@dowbor.org e home page http://dowbor.org [1] Acrescentamos aqui, por julga-lo
útil para a reflexão sobre o conjunto, um texto que temos utilizado
freqüentemente como ponto de partida para a elaboração de sistemas locais de
informação. |
Copyleft - Ladislau Dowbor - http://www.dowbor.org![]() |