|
São Paulo, 01/12/2008


|
1968 do Sonho ao Pesadelo
|
|
Transcrição de depoimento à Rádio Eldorado.
"O movimento de 68, ele ficou na memória de todo mundo. Nós tivemos uma reunião com o José Dirceu e com outras pessoas na USP há um ano, e a gente lembrava que parece que foi ontem. Marcou muito todas as pessoas que participaram pela intensidade de todo o processo político que vivemos naquela área. Eu acho que tem uma base internacional, que talvez seja insuficientemente conhecida. Na época, nós tínhamos, havia há pouco, a libertação da Argélia com uma guerra intensa, onde morreram mais de um milhão de pessoas; muita violência, muita tortura. A fase de libertação de Cuba, com a derrubada de uma ditadura violenta. E, ao mesmo tempo, de multiplicações de outras ditaduras em outras áreas. É a fase da guerra no Vietnã, que era cercada de um cinismo fantástico. Hoje a gente sabe a que ponto todas as justificativas para os bombardeios e tudo tinham sido montadas, digamos, em termos internacionais, e os americanos apareciam, cada vez mais, como um tipo de carrasco internacional de um povo fragilizado.
Na realidade, havia um tipo de condição em que a juventudade era jogada, digamos, numa alternativa entre União Soviética e Estados Unidos, e ninguém estava afim, realmente, da escolha. E muita dessa oposição da juventudade na época foi simplesmente classificada de movimento comunista, porque tudo que dizia ''não" a alguma coisa era comunista, injustamente. E as próprias pessoas, na medida em que constatavam o cinismo dos americanos numa série de áreas, de certa maneira automaticamente se jogavam para o outro lado e se identificavam com a União Soviética, que mal se conhecia e mal se sabia o que era o chamado comunismo realmente existente.
Havia coisas que reforçavam isso. É preciso lembrar do assassinato do Lumumba, no Congo, pela CIA; é preciso lembrar do apoio que o Ocidente dava ao regime racista da África do Sul; ao apoio que se dava a todas as ditaduras das ''economias de banana" da América Central; o apoio à própria ditadura no Brasil. Tudo isso mexia muito com as pessoas: havia um contexto de indignação na juventudade contra um cinismo político internacional que graçava de maneira generalizada. Esse é um ponto importante.
Acho que outro ponto importante, já na linha do Brasil, é a reação tardia ao Golpe de 64, que levou a uma modernização conservadora que não enfrentou, na realidade, nenhum dos grandes problemas da terra. Nós não resolvemos o problema dos salários; não resolvemos o plano da distribuição da terra; não resolvemos o problema da corrupção política e da violência, que continuam presentes, que continuam grassando.
Nesse sentido, eu acho que tanto a luta armada (que foi derrotada claramente); que era uma forma de luta contra a ditadura, era o caminho que restava; como a própria ditadura que conseguiu liquidar, ou prender, ou matar os opositores. Todos foram vencidos nesse processo. Porque nós não conseguimos enfrentar e resolver de maneira organizada os grandes problemas do Brasil (e que continuam sendo): a reforma agrária, o aumento de salário. Eu quero lembrar que 40% da renda no Brasil são salários; na França é 80%. Quer dizer, nós estamos na pré-história. A gente tem modernidade técnica e um imenso atraso em termo de civilização, em termo de dignidade. Continua a corrupção, continuam os desequilíbrios regionais e todos esses processos, praticamente, não se resolveram.
A herança pra hoje: eu acho que o que nos resta pela frente é que nós descobrimos que na política não há os chamados ''fast-tracks", aquele curto-circuito que vai permitir resolver grandes problemas estruturais. Todos nós, quando a gente olha essas pessoas que participaram em 68, estamos trabalhando na mudança cultural, na politização, na educação da população, na prioridade aos problemas sociais; muitos trabalhando em prefeituras, como Porto Alegre e tantos outras que estão renovando as propostas democráticas na linha da democracia participativa. Eu acho que a gente descobriu que os problemas e os ideais continuam os mesmos, mas os caminhos, sim, é que são diferentes."
|
Consulte outros depoimentos no especial do Estadão
|
|
|