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São Paulo, 19/11/2008 Ladislau Dowbor A formação científica é apenas parcialmente
um processo técnico. Conjugam-se e se articulam raízes emocionais,
história vivida, meio social e também instrumentos
técnicos e visões teóricas. A ênfase do presente
artigo será portanto na "mistura" dos diversos níveis.
Sugere-se ao leitor uma leitura crítica: nada mais perigoso do que
um economista falando de si mesmo, com a imensa propensão que temos,
porque uma nuvem de hipóteses sempre nos circula na cabeça,
de pensar que o ocorrido já nos era previsto. Esta capacidade de
previsão a posteriori não ocorre, é preciso dizê-lo,
somente entre economistas. IníciosNasci na França, em 1941, de pais poloneses, numa casa jogos
na fronteira espanhola. É provavelmente difícil um brasileiro
imaginar o que era nascer na Europa em 1941, no meio de um conflito que
ceifou 80 milhões de pessoas. Nascia-se onde se podia. Como a Espanha
era de moralidade elevada, as pessoas ricas iam jogar e se divertir na
França, e assim o regime franquista semeou os Pireneus de casinos.
Os meus pais, que tinham participado da I Guerra Mundial, e na Segunda
já não se entusiasmavam com os hinos patrióticos,
fugiram dos alemães pelo sul da Polônia, e foram parar na
França, e continuaram fugindo para o sul à medida que os
alemães avançavam. Assim fui nascer nos Pireneus, numa casa
de jogos. Tudo tem as suas razões. Nascer no estrangeiro é importante, porque já se nasce
fora do lugar. Ou seja, a criança já é obrigada a
tomar consciência de como é, pois as crianças, que
reagem agudamente a qualquer diferença, de roupa, sotaque ou cultura,
têm com uma criança estrangeira um prato cheio. Assim, desde
os primeiros anos, vão se confrontando culturas: nada é realmente
espontâneo, natural, óbvio, pois cada coisa é vista
de uma forma em casa, e de outra forma na rua. Em casa era pai e mãe,
a Polônia, a religião, os valores. Na rua e na escola, outra
cultura, outros valores. Não havia um sistema "natural"
de valores, e sim a possibilidade de diversas valorizações
para cada coisa. Desde pequeno, a necessidade da escolha. A guerra é outro fator. Todo europeu é marcado por ela.
Marcado em particular pela profunda convicção de que qualquer
homem, rico ou pobre, educado ou não, em determinadas circunstâncias
vira herói, e em outras vira bicho. De ver as aberrações
de que o ser humano é capaz em certas circunstâncias, perde-se
a visão do "homem bom" e do "homem mau" como
determinantes do comportamento. Segundo o ditado, o homem é as suas
circunstâncias. Mais importante do que glorificar o bom ou perseguir
o mau, é pensar nas circunstâncias, no contexto que constrói
ou destrói as relações sociais. Em 1951 chegamos ao Brasil, pois meu pai, um engenheiro metalúrgico,
tinha conseguido um contrato com a Belgo-Mineira, em João Monlevade.
Ficamos alí na Vila dos Engenheiros, e era um choque para mim, o
primeiro choque no Brasil, de ver um universo tão profundamente
dividido entre os de cima e os de baixo, entre a Vila dos Engenheiros e
a Vila Tanque, onde viviam os trabalhadores. A grande impressão
de quem chega da Europa, realmente, é de que a divisão em
Casa Grande e Senzala continua intacta, por mais tecnologia
moderna que se introduza. De certa forma, sedimenta-se outra idéia,
que se tornaria consciente mais tarde, de que modernidade é uma
forma digna de relações humanas, e não abundância
de máquina ou automóvel. Meu pai nunca gostou do autoritarismo dos luxemburgueses. Expôs-me
um dia um plano simples de melhoria da produtividade da laminação,
corrigindo um erro estrutural grotesco da fábrica. Perguntei-lhe
o que acharam na diretoria: olhou-me espantado, pois nunca iria comunicá-lo
à diretoria, não era do seu interesse. Marcou-me muito a
atitude, pois me parecia óbvio que uma pessoa que vê uma forma
de melhorar algo tomaria providências para fazê-lo. Na visão
do meu pai, obviamente, a fábrica era "eles", o outro
lado da cerca, outro mundo. Assim um engenheiro numa empresa estava ao
mesmo tempo dentro e fora, cumpria a sua obrigação e recebia
o seu salário. Cada lado cumpria apenas a sua obrigação.
Um dia solidarizou-se com um trabalhador contra um engenheiro alemão.
Pouco tempo depois procurava emprego em São Paulo. A fábrica
também dividia o mundo em "nós" e "eles".
Minha mãe era médica. Enquanto o meu pai abria espaço
em São Paulo, ficamos em Belo Horizonte, onde estudei no Colégio
Loyola, morando na Gameleira. Em plena Afonso Pena, uma mendiga, com um
bebê evidentemente subnutrido nos braços, veio lhe pedir esmola.
Minha mãe viu a criança, armou um escândalo, não
arredou o pé enquanto não chamaram médico, ambulância,
o diabo. Eu, com 11 anos, puxava a minha mãe pelo braço,
morrendo de vergonha. Mas ela era assim, não tolerava o intolerável,
e não tinha nenhum medo de escândalo. Certas coisas simplesmente
não se aceitam. Ainda hoje, vinte anos após a sua morte,
sinto como que uma herança da sua solidez. É preciso dizer
que já para se formar médica nos anos vinte, uma mulher tinha
de ser um bocado mulher. A sua solidez não foi suficiente para se adaptar, ou a sua capacidade
de se indignar seria demasiada para o cotidiano do Brasil. Com a morte
de Stalin, decidiu voltar para a Polônia, preparando o retorno da
familia. O retorno não aconteceria. Efeito indireto da guerra, enquanto
o segmento brasileiro da família engrenava na realidade local, ela
foi sendo reabsorvida pela familia na Polônia. Como o meu pai trabalhava
em empresas do interior, eu e meu irmão, ambos adolescentes e já
instalados em São Paulo, passamos a viver a ampla liberdade da vida
nas pensões da cidade, gozando intensamente as esquinas, os bares,
os jogos de futebol nas várzeas, toda uma dimensão de vida
e uma riqueza de convívio que compensavam amplamente a perda da
vida familiar organizada. Era a riqueza cultural brasileira digerindo rapidamente
as heranças européias, como tinha feito com tantas gerações
de imigrantes. As emoções andam por caminhos desconhecidos. Apaixonei-me
desesperadamente por uma moça judia, de origem polonesa como eu.
O pai, ao descobrir que a filha andava com um goi, mandou-a sumariamente
para Israel, para que conhecesse rapazes circuncizados. A Europa e os seus
ódios continuavam ativos no Brasil, e nos colhiam, a mim e à
Pauline, com toda força. O pai tinha perdido a familia na Polônia,
e não perdoava que a filha não herdasse os seus ódios.
Trabalhei um ano inteiro, era 1963, tentando juntar dinheiro para encontrá-la
em Israel, numa época em que viajar para a Europa era um acontecimento.
Como meu pai trabalhava na Açonorte, em Pernambuco, fui trabalhar
no Recife, onde me tornei repórter do Diário da Noite e do
Jornal do Comércio. Escrevia bem, e com pouco tempo o jornal me nomeou para acompanhar o
setor dos usineiros. Quando me apresentei para colher material, a associação
dos usineiros ofereceu-me em dinheiro o dobro do que eu ganhava no jornal.
Explicaram que era normal, o jornal tinha me feito um favor, e os jornalistas
que cobriam a área recebiam esta ajuda. Recusei a ajuda, e o chefe
de redação comentava rindo que um dia na imprensa brasileira
ainda haveria espaço para este tipo de recusas. Na realidade, não
era apenas a corrupção institucionalizada que me chocava.
O impacto da miséria do Recife era violento, e o fervilhar de idéias
do governo de Miguel Arraes gerara na cidade uma nova dinâmica cultural.
Como repórter, apesar da pouca idade, encontrava Paulo Freire, Celso
Furtado, Gilberto Freire, Ariano Suassuna e outros personagens que, de
diversas formas, alimentavam reflexões sobre a realidade nordestina
e brasileira. Encontrei no Movimento de Cultura Popular gente da minha
idade, muito mais politizada, se dedicando intensamente a transformações
sociais. Girara o caleidoscópio na minha cabeça, apareceu
um conjunto de novos pontos de referência, meu gosto pela filosofia
e pela linguística foi substituido pelo da economia. Queria entender
as coisas, os porquês, os mecanismos, e já estava convencido
que nas dinâmicas econômicas estariam as raízes dos
problemas sociais. Uma noite o meu pai, que morava junto da Açonorte, veio ao Recife
e me convidou para jantar. Fomos comer uma lagosta. Na porta do restaurante
uma criança visivelmente passando fome. Jantei para não chatear
o meu pai, mas o dilema ético tornou-se cristalino na minha cabeça:
uma pessoa que janta uma lagosta e deixa uma criança com fome só
tem dois caminhos, ou muda os seus valores e acha normal o consumo de luxo
frente à fome de uma criança, ou passa a tentar a mudar a
situação que gera estes absurdos. Com o tempo viria a conhecer
complexas montagens teóricas que tentam mostrar que a pessoa que
consome dinamiza a economia, passes de mágica que permitem transformar
o egoismo em altruismo e passa um pano quente na consciência. Mas
na época não conhecia as teorias, e a juventude tem a hipocrisia
social pouco desenvolvida. Pouco depois deste evento li um livro simples e bom, que demostrava
que a caridade de uma moeda na rua é boa, mas melhor é gerar
organizações que apoiem os pobres, e melhor ainda criar instituições
justas que impeçam a pobreza de surgir. São diferentes níveis
de caridade. Para mim, o "norte" ético estava definido,
sem nenhuma leitura de Marx, por simples raízes católicas
e valores herdadas da minha mãe: a pobreza é o escândalo
maior, e as medidas individuais não bastam. FaculdadeEm fins de 1963 viajei para Israel. Com 230 dólares, no vôo
da Tap que oferecia desconto para jornalistas, cheguei a Lisboa, seguí
de carona até Nápoles, de onde um velho e tradicional barco
fazia a rota para Haifa. O navio era repleto de judeus que iam visitar
a sua nova pátria, e as noites ressoavam a cantos hebráicos.
Com mais dois dias de carona estava em Eilat, no golfo de Akaba, com Pauline.
A vida não é novela. Como dois cegos tateávamos à
procura um do outro, pois ambos havíamos amadurecido, um ano de
adolescente é uma eternidade, eram duas novas pessoas que tinham
de reconstruir a sua relação. Em um ano de separação
Pauline não havia recebido uma carta minha que não tivesse
sido aberta antes, o pai mandara lhe retirar o passaporte para que não
pudesse sair do país. Ela não podia sair, e eu não
podia ficar porque era turista, não-judeu, com visto de tres meses.
Aprendíamos a dura realidade: a sociedade está organizada
em torno a documentos, não em torno a pessoas. Através de amigos, numa rede de solidariedade clandestina que
existia na época, fomos trabalhar numa plantação à
beira do mar Morto, em Neot-Hakikar. Trabalhando com excelentes agrônomos,
aprendí a cultivar tomates, tâmaras e outros produtos, a fazer
irrigação por gotejamento e outras tecnologias incipientes
na época. No calor terrível da região, que fica quase
400 metros abaixo do nível do mar, ninguém pedia documentos,
e pagavam bem. Alí ouvimos no rádio o relato do golpe de
Estado de 1964, que veio reforçar a indignação, a
vontade de mudanças. Aprendí hebráico, e me emocionava viver a bíblia
ao vivo, lendo os trechos correspondentes ao visitar Ein Gedi, Beer Sheva
e tantos outros lugares da região. Sempre gostei de linguas. Aprendí
o polonês em casa, depois o francês, o português, e o
inglês que me veio com muita facilidade já na escola, mais
tarde aprenderia o espanhol, o italiano e o russo. O hebráico bíblico
me chegou por uma situação absurda. Com Pauline tentávamos
casar, não que dêssemos tanta importância ao ato, mas
para que ela pudesse ter direito ao passaporte brasileiro e sair do país.
Para evitar misturas inconvenientes, Israel não permite casamentos
que não sejam religiosos, nem entre religiões diferentes.
O resultado prático é que ela passou a tomar aulas de catecismo,
e eu passei a frequentar um rabino numa escola religiosa, e a nossa visão
ingênua era de que nos casaríamos na religião que saisse
primeiro. Tentamos ainda nos converter ambos ao islamismo, mas não
tínhamos contatos nesta área. Paralelamente batíamos consulados e embaixadas tentando descobrir
alguém que colocasse um visto no documento provisório que
Pauline havia recebido. Finalmente uma admirável consulesa da Dinamarca,
emocionada pela nossa situação, deu um visto de tres meses
em condições bastante irregulares. Com isto pudemos obter
um visto para a Italia. Pauline criara ódio por Israel, pelo controle
permanente que alí sofrera, e queria desesperadamente sair, se sentir
livre, dona de sí. Trocando de taxis, na melhor tradição
de filmes de James Bond, embarcamos em Haifa. Não há dúvida que tudo isso tem uma certa dimensão
de novela. Com certo distanciamento, é muito impressionante ver
como uma pessoa pode ser destituida dos seus direitos, simplesmente porque
não tem os documentos apropriados. Como pessoas que sofreram perseguição
podem se tornar implacáveis perseguidores, como vítimas de
racismo podem passar a viver do racismo. Ao ver como judeus europeus discriminam
em Israel os judeus de origem africana - aliás brancos como êles
mas chamados de "pretos" - ou como inculcam às suas crianças
uma visão racista dos árabes, fui gradualmente entendendo
a que ponto as raízes emocionais e irracionais da política
são poderosas. E ficou clara para mim uma verdade sociológica:
direitos não organizados não se materializam, não
existem, ainda que sejam essencias. Com mais seis meses, a familia decidiu dar-se por vencida, mandaram
um passaporte para Pauline, que se tornou livre, podia viajar, atravessar
uma fronteira. Instalamo-nos em Lausanne, na Suiça. Saíamos
do Mar Morto para o Lac Léman, com cisnes educados e graciosos,
e uma universidade que aceitava alunos com a naturalidade do direito adquirido,
formando bons banqueiros, na melhor tradição de Walras e
Pareto. Uma boa escola neoclássica, com muita história, direito,
matemática, teoria. Não sei o que é mais rico: a cultura
que se aprende num novo país, ou os estudos. De toda forma, hoje
entendo que conhecer diversos países é absolutamente fundamental
mesmo para que o próprio estudo teórico tenha vivências
nas quais possa se grefar e se desenvolver. Aprendí, me diplomei em economia política. Começava
a entender as coisas, e quanto mais entendia as coisas mais me dava raiva.
São coisas simples. O tratado de Versalhes, por exemplo, finalizando
a I Guerra Mundial, dividia o Oriente Médio em povos com capacidade
política, e outros com necessidade de tutelagem pela Inglaterra
e outras potências. As reservas conhecidas de petróleo coincidiam
rigorosamente com os povos a serem tutelados. Uma história do Vaticano
liquidou qualquer ilusão sobre a santidade das santidades, e assim
por diante. Mas o curso que mais me estimulou foi do Piaget, que convidou
para o seu último semestre letivo matemáticos, biólogos,
economistas e outros para discutir metodologias científicas. Fui
dos felizes convidados, em parte graças a Pauline que estudava com
ele, em Genebra. Era impressionante ver o paralelo entre os procedimentos
de Marx numa área, e os de Piaget em outra. Em vez de medir a inteligência
com testes quantitativos, na linha do QI norteamericano, Piaget se concentrara
no processo evolutivo da inteligência. Em vez de considerá-la
como estoque acumulado, entendeu que resultava de um processo dialético
de interação entre o indivíduo e o mundo que o cerca.
Em vez de conceber uma evolução linear, mostrava como acúmulos
pontuais levavam a mudanças qualitativas, a saltos de inteligência
que delimitavam fases. Era fascinante, pois Piaget fazia a ponte com as
diversas áreas científicas. Foi um momento privilegiado,
que costurou os meus estudos de economia com o universo científico
mais amplo. Aprendí a importância do método. Lia Marx, os livros novos que saíam da editora Maspéro,
fervia a indignação de todos com a guerra do Vietnã.
Não que a guerra fosse pior que as outras, mas a gigantesca dose
de hipocrisia descarada dos americanos decuplicava a indignação.
De certa forma, a dimensão das mentiras varreu do mapa a credibilidade
americana, e inclusive a compreensão das facetas positivas do país.
Os americanos tinham o seu demônio, Moscou, nos teríamos o
nosso, os americanos. Tornamo-nos assim de certa maneira comunistas, não
por querer, ou sequer entender bem o que se passava nestes países,
mas pelo fato que a polarização ideológica empurrava
quem não estivesse de um lado para o outro. Se havia tantas mentiras,
e eram evidentes no caso do Vietnã, o que haveria de verdadeiro
no caso das denúncias contra o comunismo? Um pouco de leitura de
história apontava para o apoio que os governos americanos sempre
deram às ditaduras sangrentas de Batista, Somoza, Papa Doc e tantas
outras. Arvorar-se em defensor da liberdade e dos direitos humanos, francamente...
Acho que a dimensão ética sempre foi subestimada. Boa
parte desta juventude que se agitava na Europa, como nos outros continentes,
recebia dos seus pais grande quantidade de eletrodomésticos e uma
herança moral abaixo do nível do mar. Os pais achavam que
tinham se sacrificado, que os filhos se queixavam de boca cheia, mas a
parte mais generosa desta juventude queria outra coisa. Estava em Paris quando a França parou, em maio de 1968. Era muito
impressionante ver o povo na rua, os bairros se organizando para gerir
os seus interesses de forma direta, De Gaulle indo para Estrasburgo para
discutir o eventual apoio do exército alemão. Isto se cruzava
com as manifestações nos Estados Unidos, o sentimento geral
de falência moral do sistema. De repente, ficava transparente esta
mistura de força e fragilidade que enfrentávamos. Sabíamos, de certa forma, onde estava o mal, mas não onde
estava o bem. Por polarização natural, apoiávamos
o comunismo, mas era por um nivelamento artificial do anti-americanismo.
Cuba foi, neste sentido, um imenso polo de atração, experiência
transparente, finalmente uma ética na política, um objetivo
social claramente definido. Não era, como tanto acreditaram os órgãos
de segurança do Brasil, questão de propaganda comunista.
Tratava-se da única opção decente a se apoiar, frente
às injustiças, corrupção e bandidagem política
dos regimes sulamericanos. Injustiças, corrupção e
bandidagem política que, aliás, continuam em boa parte intactas.
Tempo de lutaUm grupo de estudantes e professores brasileiros reunía-se em
Paris. Eu, que financiava os meus estudos trabalhando nos trens noturnos
internacionais, aproveitava as escala em Paris para participar das reuniões.
A opção luta armada não me parecia apresentar mistérios,
estava no ar, todos conheciam bem a resistência vietnamita, a revolução
cubana, a guerrilha de Angola, de Moçambique, de Bissau...Fazia
parte das opções. Pessoalmente, não me julgava capaz
de definir grande coisa, pela própria insuficiência de cultura
política, e quando as pessoas com quem convivia em Paris, com outro
nível de experiência, me chamaram, fiz as malas e fui. Com dois meses estava preso. Era terrorista e comunista. Descobrí
que era procurado pela polícia política desde o golpe: eu
estudara russo no instituto Brasil-Urss no Recife, prova suficiente de
subversão. Não adiantou mostrar que na mesma época
eu estudava inglês no Instituto Roosevelt, e italiano no Circolo
Italiano, por simples gosto de idiomas. Com algum tempo de pau-de-arara,
choques elétricos e uma costela deslocada, dei-me por satisfeito.
Inventei que recebia mensagens terroristas no viaduto Santa Efigênia,
em pequeno esconderijo na mureta. Joguei-me por cima do corrimão,
mas a corda que me tinham passado nos braços enganchou nas ferragens,
e fiquei pendurado. Mais choque elétrico. No terceiro andar do então
Deic, passavam figuras folclóricas. Na minha cela, um jovem que
tinha dado dois tiros no dono de um automóvel, não entendia
como uma pessoa que tem um 38 enconstado na cabeça não obedece.
O indignado era ele. Na cela ao lado, uma mocinha jóvem. De vez
em quando aparecia um policial, mandava ela se encostar nas grades, apalpavam
e judiavam. Alguns justificavam: é uma puta. Eram as forças
da ordem. No momento da minha prisão, em tres minutos tinham repartido
entre eles o meu relógio, dinheiro e sapatos. Com uma semana estava solto, era antes do AI-5, os outros órgãos
não tinham sabido da prisão, e o delegado recebera dos meus
companheiros de luta uma sólida grana. Eram as forças da
ordem. Desta vez fui à luta para valer. De certa forma, as próprias
torturas justificavam a nossa luta armada, como os policiais e os militares
justificariam a tortura com o fato de estarmos armados. Nos processos de
polarização, o culpado é sempre o outro. A luta era dramaticamente desigual. Não que se tratasse de pequenos
grupos de estudantes, como já foi apresentado. Na época chegaram
a estar mais de dez mil pessoas nas prisões, e dez mil pessoas dispostas
a arriscar a vida por um ideal é imenso. Nos anos seguintes, mais
nos defendíamos, pois a própria repressão nos obrigava
a buscar recursos, salvar gente que estava morrendo nos interrogatórios,
proteger redes de solidariedade. E toda a máquina de comunicação
estava naturalmente nas mãos da repressão e dos grandes grupos
econômicos que a apoiavam. Sobretudo, o novo modelo gerara uma nova classe média que teve
acesso à universidade, à casa própria, ao mercado
de capitais recém criado. Era o milagre. Entre o momento do golpe
e o surgimento da luta armada, passaram-se quatro anos, o tempo da indignação
se transformar em ação popular minimamente organizada. Com
quatro anos, o movimento concentrador de riqueza dera nova lógica
ao sistema, e gerara um crescimento temporário, mas forte, que reduziu
radicalmene a base política do movimento. O resto seria lenta e
heróica resistência. Cheguei a ser dirigente, o que não
era grande mérito, pois à medida que companheiros caíam
outros tinham de assumir. Nunca achei que foi inútil. Alguns anos mais tarde fui procurado
em Paris por um grupo de jovens brasileiros que me disseram como foi importante
para eles, nestes anos de chumbo, saber que tinha gente que lutava e morria
mas não baixava a cabeça. Um jornalista me perguntou um dia
se estava arrependido, pois "não dera certo", não
havíamos tomado o poder. Acho que o problema não é
de objetivos, de lutar pelo poder, e sim de causas, que levam a uma recusa.
Franz Fanon caracterizou bem o que chamou de "homem revoltado".
Certas coisas simplesmente não se aceitam, é uma questão
de dignidade e não de resultados. Preso uma segunda vez, fui trocado pelo embaixador alemão, e
numa madrugada de junho de 1970 desembarcava no grupo de 40 prisioneiros
políticos no aeroporto de Dar El Beida em Argel. Saí como
me tiraram da prisão, sem sapatos, sem documentos, com queimaduras
de choque elétrico que seriam filmadas por inúmeras emissoras
do planeta. No mesmo dia, desembarcara o rei Fayçal da Arábia
Saudita, em visita oficial. O jornal da terra, El Moudjahid, ostentava
na primeira página os dois títulos, dos 40 prisioneiros brasileiros
e do rei. O povo, sendo povo, resumiu a questão: eram Ali Babá
e os quarenta ladrões. Fomos recebidos com imenso carinho espontâneo da população,
recém saída de anos de luta contra o ocupante francês.
Não pagávamos taxi, recebiam-nos as famílias. Raras
eram as que não tinham tido mortos ou torturados. A tecnologia do
pau-de-arara e do choque elétrico combinados nascera alí.
Sentiam-se plenamente identificados. O homem é as suas circunstâncias.
Os representantes da frente de libertação de Angola nos explicavam
as suas formas de luta, os vietcongues nos explicavam as suas técnicas,
o movimento palestino nos explicava os seus dramas, o Black Panther dos
Estados Unidos queria saber do movimento negro no Brasil, o Makatini discutia
conosco das formas de arrancar Mandela da prisão. A vontade de mudança
aparecia como generalizada. A necessidade de mudança era também bastante óbvia.
O que faziam os Portugueses, país mais pobre da Europa, tentando
controlar países dez vezes o seu tamanho em outros continentes?
O que faziam os americanos no Vietnã? Como podiam as organizações
internacionais e os países ricos sustentar de cara limpa ditaduras
as mais sangrentas, conquanto fossem "amigas"? Como justificar,
em pleno final do milênio, o tráfico de armas, apresentando
a capacidade de destruir seres humanos como "business"?"
Como podia o partido único em Cuba ser apresentado como ditadura
enquanto o partido único do México era democracia, sem falar
de dezenas de outras ditaduras apoiadas pelos países ricos? Com
que direito empresas multinacionais financiavam golpes de Estado? Havia,
é claro, uma maravilhosa justificativa para tudo, que era o perigo
comunista. Uma coisa ficava clara para mim: uma barbaridade não pode justificar
outra, o próprio conceito de que os fins justivicam os meios, tão
usado nos países comunistas, era uma barbaridade. Dom Sigaud no
Brasil justificava a tortura dizendo que "não se arrancam informações
com docinhos". A ditadura impunha uma constituição sem
consulta e um jurista saía-se com esta pérola: "a revolução
cria a sua própria legalidade". A CIA financiava as suas operações
com cocaina e heroina e explicava que era necessário ter fundos
secretos. A realidade, é que os meios corrompem os fins, ou os transformam.
No centro dos nossos dilemas, agora refugiados na Argélia, era
a consciência aguda e indignação frente à lógica
das coisas, e nossa limitada capacidade de mudá-las. Ao mesmo tempo,
entendíamos que a imensa massa de pessoas que lutavam pelo progresso
social, da qual fazíamos parte, constituia um aporte decisivo para
os avanços. Não era vã a morte de Martin Luther King,
de Marighela, de Lumumba, de Allende, de Amilcar Cabral, de Ghandi e tantos
outros: era esta parte da humanidade com capacidade de se indignar que
havia levado às vezes até a recúos temporários,
mas no conjunto havia permitido avanços históricos como o
fim da escravidão, progresso social para os negros nos Estados Unidos,
o fim das colônias, a presença das mulheres, a organização
dos trabalhadores. O que se fechava para nós como caminho, não
era a luta e os seus objetivos, e sim a visão de que o progresso
social se consegue com atalhos, tipos de "fast tracks" que permitiriam
ter ganhos políticos sem os correspondentes alicerces na cultura
social e política das populações. Estávamos entrando em 1972. Em reunião ampla da "pesada"
em Santiago, propús a dissolução da organização,
e a nossa reorganização visando um novo tipo de contribuição,
mais ampla, de luta pelo fim da ditadura. As forças se equilibraram
mas a proposta ficou derrotada. Ficou patente para mim a que ponto muitos
votaram mais com a emoção do que com a razão, e sobretudo
colocando na balança o peso do sentimento de culpa por estar protegido
no exterior enquanto outros morriam no Brasil. Não condeno, pois
ninguém é razão pura. Mas foi importante para a minha
formação a compreensão de que um grupo político
- e mais tarde veria que é também o caso com grupos religiosos
ou até científicos - pode criar um tipo de realidade virtual,
falando um vocabulário distinto, e perder o contato com as coisas.
A luta continuava. Pauline, que viera me encontrar na Argélia,
foi enviada ao Recife, tentando salvar companheiros ameaçados. Morreu
junto com eles. Entrou na luta quando eu dela saía, e já
estávamos distantes. Não por sentimentos, mas pela própria
loucura e tensão dos tempos. PolôniaEu era em boa parte polonês, mas não tinha nascido na Polônia
e nem a conhecia. A atração era grande, e sempre achei importante
fazer as pazes com o passado, conhecer as raízes. Depois de anos
de clandestinidade e de desenraizamento social, sentia uma potente necessidade
de normalidade, de ver a realidade pelo prisma do cidadão comum.
E havia a imensa curiosidade sobre a organização política
e econômica, sobre o socialismo realmente existente. Do lado da normalidade, fui reconstruindo o meu mundo. Estava de novo
com a minha mãe, que encontrei velhinha na Polônia, viva e
contestadora como sempre. Ela achava patológica a histeria consumista
dos países ricos, e dizia que o comunismo era ótimo porque
protegia a Polônia do progresso econômico. As autoridades sorriam
confusas. Encontrei também o meu irmão, o Mario, que voltara
para fazer a politécnica, casou com uma polonesa e acabou ficando.
Casei com a Fátima, filha de também refugiado Paulo Freire,
tão perdida no espaço como eu com os seus sucessivos exílios,
mas com uma capacidade impressionante de colocar os pés no chão.
Encontrara a minha âncora. Como falava a lingua, não houve dificuldades. A Polônia
me deu um passaporte, conquanto não fosse para uso subversivo. E
me deu uma bolsa, que eu complementaria com ensino de linguas em diversos
institutos. O caleidoscópio virara outra vez, mais uma vez estava
estudando, tentando entender os processos sociais, reconstruir a minha
visão do mundo. Em Lausanne havia estudado na visão neo-clássica.
Agora, na linha de Oskar Lange, Kalecki e outros, veria a outra metade
da laranja. Fiz o curso superior de planificação nacional, que reunia
poloneses, africanos e outros para discutir sistemas de organização
econômica. Discutia-se muito as condições específicas
do desenvolvimento com oferta ilimitada de mão de obra, as opções
por tecnologias de ponta ou alternativas, as experiências da Polônia,
da India, dos países árabes e outros. O eixo teórico
era fornecido pelos trabalhos de Kalecki. Como já tinha estudado
a visão neo-clássica, me impressionou o fato das visões
serem mais complementares do que contraditórias. É diferente
regular a conjuntura e o curto prazo de uma economia madura, e estruturar
as opções de longo prazo de uma economia em construção.
Relia os clássicos, ví que Adam Smith é muito mais
progressista do que a caricatura simplificada que dele fez o liberalismo,
como Marx é muito mais prudente sobre as alternativas do que o comunismo
proclamava. Não era nada na linha do "na prática a teoria
não funciona". Esta solene bobagem, alías, foi bem clarificada
pelo planificador Pawel Sulmicki: "Não há nada mais
prático que uma boa teoria". A releitura, que muitos faziam
na época, fazia parte do confuso sentimento que os próprios
fundamentos teóricos haviam ficado um tanto escorregadios. Todos
buscavam reformulações, apesar do establishment acadêmico
limitar firmemente tudo que pudesse mexer nos paradigmas. Era como no tempo
do poder cristão: podia-se trazer idéias, conquanto fossem
aristotélicas. Espantei-me da riqueza da biblioteca da Escola Central de Planejamento
e Estatística de Varsóvia, onde estudava. Encontrei todos
os trabalhos de Celso Furtado, Caio Prado Júnior, Roberto Simonsen
e tantos outros, além de obras antigas como a de Antonil. Anos mais
tarde encontraria Orlando Valverde na Puc de São Paulo, e comentei
com êle o gosto que tive de ler as suas obras em Varsóvia.
Comovido, virou para a esposa: "Olha, lá êles lêm
obras brasileiras. E quando as nossas universidades terão esta abertura?"
Decidi trabalhar sistematicamente a história econômica do
Brasil, conhecer os fatos. Resultou deste trabalho a minha tese de doutorado, A formação
do capitalismo dependente no Brasil. Trata-se de um trabalho essencialmente
metodológico, um reordenamento dos fatos pesquisados e análisados
pelos clássicos, mas no quadro do referencial teórico das
teorias de Samir Amin, Christian Palloix, André Gunder Frank e dos
autores latinoamericanos ligados à teoria da dependência.
A tese foi mais tarde publicada na Polônia, na França, em
Portugal e no Brasil. Visto hoje, o seu valor reside essencialmente em
fugir das grandes simplificações que apresentam o Brasil
ora como pobre vítima passiva do imperialismo, ora como gigante
independente. A interação complexa das economias subdesenvolvidas
com as economias dominantes é o problema teórico central,
que hoje aliás volta com toda atualidade frente à globalização
que vivemos. Certos problemas pareciam não sair do meu pé. A embaixada
do Brasil deixou a Fátima sem passaporte, e sem documentos não
podia sair da Polônia, sequer para visitar a família em Genebra,
onde o Paulo Freire trabalhava no Conselho Mundial das Igrejas. Ao mesmo
tempo informaram o governo polonês que ela não era refugiada,
e que iam dar-lhe o passaporte, era só esperar os trâmites.
Depois de dois anos e meio de trâmites sem passaporte, o governo
polonês se convenceu que na prática Fátima era refugiada
política, e com base no nosso casamento e no filho polonês,
Alexandre, que nasceu em Varsóvia, lhe deu a cidadânia polonesa.
Eramos cidadãos outra vez. E eu, como doutor em economia, já
não era subversivo: tinha idéias avançadas. Os tres anos na Polônia tinham sido riquíssimos. Tanto
pelos estudos teóricos e da história econômica do Brasil
que me permitiram, como pelo conhecimento prático do gigantesco
encalacramente burocrático que era esta versão do socialismo.
Ao mesmo tempo, descobrira inúmeras soluções extremamente
interessantes. As cooperativas de serviços, onde se colocava à
disposição de pequenos agricultores formas extremamente descentralizadas
e flexíveis de crédito, assistência técnica,
comercialização primária, capacidade de estocagem
e máquinário alugado, eram funcionais porque geridas pelos
próprios camponeses, e constituiam um fator impressionante de produtividade,
que contradizia todas as versões das economias de escala. Em compensação,
a estatização da agricultura era um desastre. Quando nasceu o nosso filho, recebemos a visita de uma enfermeira em
casa, para ajudar nos primeiros dias os pais de primeira viagem: quantos
gastos ulteriores com doenças não se poupam com esta medida
simples. Cada bairro tem centros de saúde preventiva, separados
dos lugares onde vão pessoas doentes. Isto permite detectar precocemente
os mais variados problemas. Para evitar a excessiva urbanização,
generalizaram a instalação de centros culturais e científicos
nas cidadezinhas do interior, no que se chamou de "deruralização
do campo": reduziu-se o êxodo rural, equilibrando a ocupação
espacial do país. Ficou claro para mim que existem inúmeras
alternativas funcionais tanto ao burocratismo centralizado como à
selvageria liberal: o essencial era pensar as condições institucionais
capazes de abrigá-las. Constatei também a que ponto o poder
tecnocrático de administradores de empresas estatais podia ser tão
amplo quanto o poder tecnocrático de empresas privadas: a propriedade
dos meios de produção podia já não ser o elemento
essencial. Foi igualmente importante acompanhar o debate pela mudança da
constituição, que permitiu em 1973 a fusão numerosos
municípios para torná-los maiores. Aparentemente secundária
e administrativa, a medida mudou radicalmente as relações
de força ao descentralizar a política. Onde antes um micro-município
(gmina) tinha que recorrer ao ministério correspondente para
qualquer compra de uma ambulância ou contratação de
um policial, agora municípios passariam a resolver os seus problemas
localmente. Assim decisões que eram setorizadas e burocratizadas
passaram a ser resolvidas com maior participação dos cidadãos
interessados, e de forma integrada, com muito mais flexibilidade e eficiência.
No plano teórico, entendera uma coisa importante: Marx apontava
para a socialização dos meios de produção como
forma de transformar as relações políticas, de permitir
uma sociedade sem divisões em classes. Tratava-se assim de uma transformação
de relações de produção (infraestrutura) que
permitiria uma transformação política (superestrutura)
no sentido de uma sociedade democrática e com Estado menos opressor,
pois não teria de assegurar o poder de uma classe sobre outra. As
sociedades do socialismo dito realmente existente, a começar
pela União Soviética, haviam procedido às transformações
econômicas, mas não às transformações
políticas correspondentes. Os soviets (em russo significa
conselho) nunca sairam do papel. Socializar a economia sem democratizar
a política é um contrasenso. Seria um capitalismo de Estado,
com uma mudança das formas de chegar aos privilégios, não
dos privilégios. De toda forma, começava a ficar claro para mim que o problema
não se colocava em termos de alternativas comunismo/capitalismo,
privatização/estatização, Estado mínimo/Estado
máximo, e sim de busca de articulações capazes de
assegurar tanto o dinamismo econômico como os avanços sociais.
Nenhum regime, na realidade, estava respondendo a este prosáico
e imenso desafio, que continua a dominar a nossa atualidade de fim de século.
Rumo ao SulEm 1975, com a derubada do fascismo em Portugal, buscavam quadros para
reformular o ensino da economia, desesperadamente atrazado. Atendí
a um convite da Universidade de Coimbra. Além da economia do desenvolvimento,
ensinaria finanças públicas na Faculdade de Direito. O último
titular da cátedra tinha sido um senhor Francisco Salazar. Sucedí-lhe
da melhor maneira que pude. Fiz dois grandes amigos, ambos ministros da economia em períodos
do novo regime: Mario Murteira e Francisco Pereira de Moura. Com as amplas
discussões sobre o processo de estatização então
empreendido, sobre a busca de alternativas de gestão, ficou-me a
convicção de que o tempo das soluções simples
havia passado. Havíamos constatado isto no final do governo de Allende:
de que adianta socializar a propriedade das empresas, se de qualquer maneira
elas devem entrar na lógica da interdependência internacional?
O conceito tão importante da socialização dos meios
de produção precisava ser repensado. Com pouco mais de um ano, os rumos em Portugal estavam definidos. A
opção principal era se integrar na União Européia
(então Mercado Comum), e esta opção iria determinar
o resto. O primo pobre não estaria evidentemente ditando regras.
Os portugueses brincavam: vamos ter casas tipo maison, com janelas
tipo fenêtre. Foi eleito Mario Soares, o homem com suficiente
credibilidade na esquerda para aplicar um programa de centro-direita, mas
o essencial estava ditado nas relações externas, e outro
teria provavelmente seguido o mesmo caminho. Já nesta época
ficava claro a que ponto a forma de inserção na economia
global era mais significativa do que as opções propriamente
internas. E as opções internas, de um país escolher
o "seu" modelo, tornavam-se cada vez mais limitadas. Na Argélia havíamos sido todos refugiados, guerrilheiros
de diversas partes do mundo. Com o fim do colonialismo português,
os amigos do tempo da Argélia eram agora ministros, embaixadores.
Uma pessoa amiga e politicamente confiável, com um doutorado em
planejamento e estatística, era bemvinda nos novos países
independentes. Visitei o ministro de planejamento de Angola, em Luanda,
mas acabei aceitando o convite de Vasco Cabral, da Guiné-Bissau.
Perguntei-lhe quanto ia ganhar, pois como refugiados andávamos com
uma mão na frente e outra atrás. Disse-me que ganharia mais
do que êle, o que era uma forma de dizer que seria muito pouco. Mas
fomos com gosto. Seriam quatro anos de África, descobrindo outras
culturas, outros valores, uma riqueza de relações humanas
que não havíamos conhecido ainda. Tornei-me coordenador técnico do ministério do planejamento.
Vasco Cabral, então ministro do planejamento e hoje vice-presidente,
me dava todo apoio, com o qual eu não sabia bem o que fazer. Ví-me
de repente obrigado a tirar da cabeça todos os modelos matemáticos
macro-econômicos que tinha aprendido durante anos, e a buscar propostas
que pudessem funcionar. Quando o Banco Mundial veio com propostas para
a política educacional, recomendei que fossem rejeitadas. O ministro
disse que não tinha problema, mas eu teria que elaborar uma justificativa
convincente pois milhares de crianças iam ficar sem escolas. Eu,
com ideologia numa mão, e modelos técnicos na outra, encontrava-me
pouco equipado para a economia realmente existente. Foram quatro anos apaixonantes, e cada coisa que dava certo trazia uma
imensa felicidade, de ver algo concreto funcionando. Coordenei a elaboração
técnica do primeiro plano nacional de desenvolvimento, aprendendo
a cruzar sistemas de crédito com políticas regionais, a articular
políticas setoriais, a levar em conta as resistências políticas,
os interesses ou vaidades pessoais, uma série de elementos sem os
quais nenhuma proposta existe, por mais fundamentada que seja em termos
técnicos. A economia é o sangue de uma sociedade, e tudo
nela influi. Não há matemática que substitua aqui
o bom senso, uma cultura ampla e de múltiplas facetas, a capacidade
de entender, de ouvir, de sempre aprender. E sobretudo a capacidade de
gostar, de se interessar. Eu falava muitas linguas, tinha um bom doutorado técnico, bons
relacionamentos políticos, ainda que só na esquerda, e não
tinha medo de enfrentar regiões de grande pobreza. Abdulrahim Farah,
sub-secretário geral da ONU, a quem eu ajudara a elaborar alguns
relatórios para Kurt Waldheim, convidou-me para ocupar em Nova Iorque
o posto de economista do gabinete do Secretário Geral, substituindo
o economista inglés James Ilett que se aposentava. Vasco pediu-me
para ficar, e fiquei. Teria possivelmente me tornado um bom burocrata de
nível elevado, mas teria seguramente esterilizado o gosto pelo meu
trabalho. Chegamos a um compromisso, pois Vasco me colocou na direção
do programa de planejamento da ONU em Bissau. Fiquei fazendo a mesma coisa,
só que com salário internacional. Visitando Farah em Nova
Iorque, na sede das Nações Unidas, ele me apresentou aos
amigos: esta é a pessoa que recusou vir trabalhar conosco porque
tinha um compromisso em Bissau. Os sorrisos respeitosos deixavam claro
que me achavam um caso curioso. No fim de quatro anos tinha perdido boa parte do fígado com hepatite,
boa parte da audição com cloroquina para combater os ataques
de malária, e vários amigos com o golpe de Estado. Considerei
que dera a minha parte e aceitei um outro posto em Nova Iorque, de assessoria
na área de problemas políticos especiais, que na realidade
tratavam de paises de pobreza crítica. Estávamos em 1980,
e Reagan tinha acabado de assumir, nomeando uma fanática de cultura
limitada, Jane Kirkpatrick, representante americana junto às Nações
Unidas. Desembarquei no aeroporto John Kennedy, com passaporte da ONU e
o convite formal de Kurt Waldheim para assumir o meu posto. Não
me deixaram entrar. Fiquei tres dias no saguão reservado do aeroporto,
uma imensa sala onde ficam casos indeterminados. Tampouco me deixaram conversar
com a ONU, ou embarcar de volta para Portugal de onde estava vindo. O então
embaixador do Brasil junto à Onu, hoje respondendo por tráfico
de dólares, passara uma ficha ampla para Jane Kirkpatrick, dizendo
nem mais nem menos que eu era um assassino, que os meus diplomas eram falsificados,
além de todo o folclore montado nos relatórios do então
SNI. No fim de tres dias autorizaram o meu embarque para Europa. Na saída,
pude ver a Fátima, que já mudara para Nova Iorque em função
do novo posto e acabara de ter o nosso segundo filho, André. Pudemos
trocar algumas palavras, e passei para ela num saquinho plástico,
entre dois guardas, a parte que me cabia elaborar do relatório de
Kurt Waldheim para a Assembléia Geral deste ano, e que ela entregou
ao subsecretário geral no dia seguinte. Dias depois, por telefone
e já na Europa, Gordon Goundrey, canadense e secretário geral
adjunto, me explicava: não estamos entendendo nada, Kirkpatrick
está ameaçando a todos, estão dizendo que vão
cortar os fundos, expulsar os subversivos. Lamentamos... Seguí o conselho de Paulo Freire, que me disse que já
era tempo de voltar ao Brasil. Fátima embarcou de Nova Iorque, eu
da Europa, e passamos a morar em São Paulo, no apartamento do Paulo
junto à Puc. Moví um processo administrativo às Nações
Unidas, ganhei, constataram que as acusações eram falsas,
e me reincorporaram. Por telefone, o mesmo Gordon Goundrey me informava
que a condição informal era que eu não pedisse para
trabalhar nos Estados Unidos. Agradecí e fui trabalhar na Puc de
São Paulo. O caleidoscópio girava outra vez. A voltaAcho que a volta não foi fácil para ninguém. Claro,
havia as flores na volta, mas não é disso que vive o homem.
Todo o caminho tem de ser reconstruido, passo a passo, num meio e numa
cultura para a qual somos um pouco estranhos. Olhava para a imensidão
de São Paulo, e pensava na imensidão do que tinha de reaprender.
A nova geração de economistas brasileiros não me conhecia,
e tampouco eu conhecia eles. O Ministério da Educação,
por recomendação do SNI, levaria sete anos para autorizar
a USP a reconhecer o meu diploma. Ninguém reconheceu os anos que
Fátima estudou no instituto de Piaget em Genebra, na Universidade
de Varsóvia e em Coimbra: teve que começar no primeiro ano,
perdoaram apenas o vestibular. A Puc me recebeu bem. Carmen Junqueira, com o atrevimento das baixinhas,
abriu-me caminho. Paul Singer fez o parecer sobre a minha tese, a comissão
geral de pós-graduação aprovou o parecer, e fui aprovado
como professor, sem esperar nenhum ministério. Eu, preocupado, olhava
as poucas certezas teóricas que me haviam sobrado, e me perguntava
o que iria ensinar. Entrei no programa de pós-graduação
em administração, e pouco depois fiz o concurso para o departamento
de economia. Fui me entrosando, fazendo amigos. Descobri uma complementaridade
impressionante entre o conhecimento de situação internacional
que eu adquirira, e a desesperadora carência deste tipo de informação
entre os alunos. Dividia os meus cursos em exposições deles
e exposições minhas. Ensinava a utilizar os relatórios
internacionais, desenvolvimento econômico comparado, a economia das
multinacionais. Os meus alunos me ensinavam que no Brasil "ou você
faz parte do rolo compressor, ou faz parte da estrada"; que no mercado
de capitais "ou você é de dentro e ganha muito dinheiro,
ou é de fora e é depenado"; que "no Brasil vender
a prazo é muito simples: o consumidor não entende nada de
matemática financeira" e assim por diante. Pela segunda vez,
o Brasil me reabsorvia e digeria na sua riqueza cultural, humor, ironia
e desespero. Na Suiça, você luta desesperadamente para se
entrosar; no Brasil, para não ser deglutido. Um dos que me ajudaram logo no início foi Caio Graco, da Brasiliense.
Eu me dera bem com o seu pai, Caio Prado Júnior, em Paris. Os militares
sempre foram grandes fazedores de amigos. Editou o meu livro sobre a história
econômica do Brasil, e em seguida um livro teórico que eu
escrevera em Portugal e que tinha interessado muito Samir Amin, que o utilizava
nos seus cursos: Introdução teórica à crise:
salários e lucros na divisão internacional de trabalho. Marx abordara o capitalismo do seu tempo tomando como unidade de análise
a nação, no caso a Inglaterra. Para os países em desenvolvimento,
esta visão deformava a análise, pois predominavam na formação
das estruturas econômicas e das relações de produção
as determinações externas. De certa forma, dominadas pelas
economias desenvolvidas, as economias pobres eram mundializadas antes do
tempo. Analisar estas economias aplicando os esquemas de repodução
do capital à nação, para depois acrescentar
as trocas externas, constituiria um erro teórico. Procedí
portanto, a partir de várias formas de apresentação
dos esquemas de reprodução do capital, a recalcular como
seriam as equações se fossem incluidas as trocas internacionais
nos próprios esquemas. A lógica tornou-se evidente: o Brasil,
por exemplo, poderia manter a escravidão em pleno final do século
XIX e os trabalhadores na extrema miséria pois precisava deles como
produtores, não como consumidores, na medida em que o ciclo de comercialização
se dava através de troca com produtos ingleses. Assim não
era necessário inventar nenhum modo de produção colonial
ou outro para explicar o que era simplesmente um subsistema diferente de
acumulação capitalista, cuja lógica não se
esgotava no nível nacional. De certa forma, era uma continuação
da minha tese de doutorado, permitindo-me avançar em certos problemas
teóricos que tinham ficado mais claros. O livro não suscitou grande entusiasmo. O Caio Graco, frente
a este trabalho relativamente complexo, me disse que se eu não conseguisse
dizer o que tinha a dizer em 50 páginas, era melhor esquecer. Estava
então lançando a coleção Primeiros Passos,
que teria tanto sucesso. Aceitei o desafio, e fui traduzindo ao português
o que havia escrito no chamado economês. Descobri que não
havia grandes dramas. Dizer que o Brasil tem um coeficiente de Gini de
zero vírgula alguma coisa pode ser dito de forma simples: os 10%
das famílias mais ricas do país absorvem mais de 50% da renda
do país, o que o torna o país mais injusto do mundo na avaliação
do nada subversivo Banco Mundial. Descobri que as análises econômicas
não precisam ser complicadas. Ou melhor, têm de ser complicadas
quando se trata de justificar o injustificável, mascarar a realidade.
Um país onde 1% de proprietários detém metade do solo
agrícola, cultivando menos de 5%, não exige grandes teorias
para mostrar que a causa de tanta fome num país de tantos recursos
naturais se deve simplesmente à grande fortuna dos especuladores
fundiários. Escreví a Formação do Terceiro
Mundo, que foi incluido na coleção Tudo é História
da Brasiliense, e tornou-se um livro de leitura generalizada no Brasil,
apesar do tema relativamente árido. Descobria que não basta
estudar: é preciso comunicar, e aprender a comunicar. Recentemente
um aluno da Puc me disse que gostava do que eu escrevia. Quis saber a razão,
esperando algum comentário teórico. Me disse simplesmente:
"É que eu entendo..." A massa de coisas que havia aprendido na África, fazendo economia
aplicada, ou realmente existente, me ficara rodando na cabeça. Decidí
escrever Guiné-Bissau: a busca da independência econômica,
livro com diversas fragilidades teóricas, mas que trazia uma experiência
em primeira mão. É um destes livro que terminam sendo mais
importantes para o autor do que para o leitor, ainda que circule bastante
nos chamados países africanos de expressão oficial portuguesa.
O livro me permitiu explicar coisas práticas que raras vezes
vão para o papel. Exemplo: a empresa holandesa HVA tem para vender
o equipamento de uma grande usina de produção de açucar.
Envia para Bissau uma equipe técnica, que produz rapidamente tres
grossos volumes demonstrando que o país precisa exatamente de uma
usina de açucar deste porte, ainda seja absurdamente sobre-dimensionada.
Informam ao ministro de agricultura que a HVA tem suficiente músculo
no governo holandês para obter o financiamento da fábrica
sob forma de ajuda internacional, conquanto que o governo lhe peça
formalmente a usina. Com o pedido na mão, a HVA pressiona membros
"amigos" do governo holandês, segundo mecanismo que nos
é familiar, e a Holanda termina por conceder uma ajuda de x milhões
à Guiné-Bissau, não para fazer o que lhe parecer mais
necessário, naturalmente, mas para comprar o equipamento holandês.
Isso se chama "ajuda vinculada". A Guiné ganha um monstro
desajustado que pesará permanentemente nas contas públicas
pelo déficit gerado. O dinheiro nunca sai da Holanda porque é
simplesmente transferido para a HVA. A HVA fica com o lucro da operação.
O governo holandês ganha votos ao publicizar a sua generosa ajuda
aos países pobres. Pagam o povo holandês que contribuiu com
impostos, e o povo da Guiné que terá que ssustentar mais
um elefante branco. E a empresa, naturalmente, continuará a cantar
loas aos mecanismos de mercado, e a dizer que os males vêm do Estado.
A Guiné-bissau poderia recusar: mas é difícil recusar
um presente que gerará empregos, sobretudo quando grupos internos
clamam, por interesse próprio, que é interessante. Dá
para apresentar cálculos de custo-benefício em comício
político? No caso, a operação foi suspendida porque
o Ministério de Relações Exteriores da Holanda mandou
investigar e, apoiado por Vasco Cabral, abortou a operação.
Mas dezenas de outras funcionaram, algumas com intermediários brasileiros,
desarticulando a economia. Como no caso de outros países pobres,
compra-se o que os ricos estão dispostos a financiar, e não
o que o país precisa. A dependência gera dependência,
a pobreza gera pobreza. Animado pelo sucesso da Formação do Terceiro Mundo,
lancei-me na definição de alguns conceitos básicos
de economia, no pequeno livro O que é capital? que saiu na
coleção Primeiros Passos. O livro foi bem sucedido, sendo
inclusive vendido nas bancas de jornal numa co-edição especial
com a Editora Abril. Mas até hoje não me sinto confortável
com o livro, que na realide me forçou, no processo de sistematização,
a entender deficiências na minha própria compreensão
dos processos. Recentemente, folheando arquivos, descobri uma antiga resenha
do livro publicada na Isto é: era assinado pela Zélia, ela
mesmo. Isto só fez aumentar a minha desconfiança. De toda
forma, tal como O que é mais valia? de Paulo Sandroni, trata-se
de um útil caminho de entrada para compreender alguns conceitos
básicos. Nicarágua, NicaraguitaEm 1986, o governo da Nicarágua me convidou a assumir um projeto
das Nações Unidas, semelhante ao que tinha dirigido na Guiné-Bissau,
só que mais amplo, de apoio à estruturação
de mecanismos de planejamento e regulação econômica.
Voltava assim às Nações Unidas, mas num contexto que
me agradava. Fizemos as malas. Além do Alexandre já adolescente,
iam o André, o Bruno e a Sofia. Com exceção do Alexandre
um pouco mais moreno, todos desesperadamente loiros. Quem já visitou a Nicarágua sabe o que é um choque
cultural. Povo alegre, corajoso, arrojado, bagunçado, surrealista.
Não há adjetivo que não se adapte. Enquanto esperava
uma mala perdida no aeroporto, um menino conversava comigo sobre o Brasil,
cheio de curiosidades. Tudo o que eu dizia o deixava espantado: "Ála..."
exclamava. Levei poucos dias para entender que se tratava não de
expressão religiosa mas de uma abreviação do comentário
favorito dos nicas sobre qualquer coisa surpreeendente: "A la gran
puta..." E era um país cheio de surpresas. A Secetaria de Planificación y Presupuesto era vinculada à
presidência, e me concentrei no que um assessor em planificação
faz de mais útil: organizar informação e formar gente.
Ambos deixam resultados permanentes, pois melhoram a capacidade própria
de decisão dos quadros locais. Tive que mergulhar fundo na informática,
que não era do meu tempo. É um sentimento estranho sentir-se
analfabeto quando se está perto dos cinquenta anos. Espantava-me
com o potencial das novas ferramentas, que para um economista seriam o
que uma Ferrari é para outros. Poder trabalhar, estocar, articular,
cruzar das mais variadas formas e quase instantaneamente qualquer informação
já era, nesta época do XT, um fenômeno cuja dimensão
revolucionária era clara. Tornava-se mais claro para mim o prodigioso
aceleramento da história que estava se generalizando. Foram dois anos úteis e inúteis. Vibrava com a eletrificação
de uma região isolada, para ver no dia seguinte as instalações
destruidas pela Contra que operava a partir de Honduras, com homens
equipados nos últimos gadgets militares como marcianos, recebendo
dos sofisticadíssimos aviões de observação
de grande altitude dos norte-americanos indicações detalhadas
sobre cada objetivo, e protegidos nos seus acampamentos do outro lado da
fronteira. Estas bases eram aliás hipermercados militares, com tudo
que é equipamento, bordéis, lazer, e evidentemente os salários,
que depois se saberia que eram financiados com tráfico de drogas,
como no Vietnã. A democracia do mais forte é sempre mais
democrática. Recebí a visita de um grupo de humanistas norte-americanos, que
estavam indignados que, com as imensas necessidades do país e a
miséria do povo, o governo nicaraguense estava recusando a sua ajuda
médica. Os americanos são realmente fantásticos. Bombardeiam,
matam e ferem, e sem seguida mandam esparadrapo e medicamentos. E se exasperam
quando os feridos os olham irritados. Duas facetas do mêsmo país.
Na realidade, era um jogo de sombras, um tipo de Adeus minha concubina.
Os americanos formalmente não existiam, diziam que o governo nicaraguense
tinha de reclamar com os contras, essencialmente velhos assassinos
de Somoza. O governo respondia que não queria conversar com os palhaços,
mas como o dono do circo, no caso o governo americano. Ninguém conversava.
Neste contexto, o esforço de desenvolvimento econômico se
tornava folclórico, pois a própria poupança que o
país conseguisse penosamente reunir ia embora no esforço
militar. E uma economia é absolutamente indefensável quando
alguns milhares de profissionais armados com explosivos e meios de comunicação
os mais modernos podiam destruir o que quisessem quando quisessem, e se
refugiar do outro lado da fronteira. E se o exército os perseguisse,
seria um prato cheio para os americanos: os nicaraguenses estariam invadindo
um outro país. Havia alternativas, como o sistema de desenvolvimento totalmente descentralizado
e extremamente participativo que foi instaurado na região de Estelí.
O Banco Nacional de Desarrollo, por exemplo, em vez de conceder créditos
através de distantes burocracias em consulta com a capital, criou
conselhos municipais de crédito, onde pequenos e grandes proprietários,
diversos atores sociais, decidiam da otimização dos recursos.
Se um agricultor recebesse dinheiro pra comprar gado e em vez disso especulasse
com divisas, na reunião seguinte alguém colocaria a pergunta:
onde está o gado, não o ví no campo? O conhecimento
direto das situações constitui um elemento poderoso de gestão
simples e flexível. Mais tarde constataria que na China, um setor
público relativamente amplo é gerido também de forma
muito descentralizada, pelos municípios, o que permite controle
direto dos cidadãos. Mas no conjunto, os dirigentes sandinistas acreditavam que eram donos
do poder, e faziam de cima o que seria bom para o povo. O povo lá
em baixo, naturalmente. Não se pode generalizar, e uma série
de líderes trabalhavam no sentido de uma democratização
efetiva. Um Jaime Wheelock, na agricultura, para dar um exemplo negativo,
acreditava que agricultura só existe de mil hectares para cima,
e que os camponeses tinham mais é que obedecer. Na realidade, não
havia espaço político sequer para a definição
de uma estratégia coerente de desenvolvimento. A pressão
constante da guerra reforçava a centralização das
decisões, desarticulando o sistema. O que permitia aos inimigos
declarar que o sistema não funciona. A questão das condições políticas e institucionais
do desenvolvimento econômico tornara-se o centro das minhas preocupações.
As economias de mercado vizinhas, por exemplo, como Honduras ou Guatemala,
eram e continuam sendo um caos. Na Nicaragua o Estado geria salões
de beleza, porque haviam sido de Somoza e os bens de Somoza haviam sido
estatizados. Um sistema é mais socialista porque salões de
beleza estão na mão do Estado? Entendia cada vez mais que
as simplificações ideológicas não funcionavam,
e que os subsistemas que compõem a economia haviam se diferenciado
demais para se poder aplicar políticas lineares não diferenciadas.
Acabara o tempo em que a sociedade era dividida em proletariado, camponeses
e burguesia, os problemas eram de âmbito nacional, e tudo se resumia
na luta de classes. Era preciso buscar outros modelos. Antes de sair de Manágua, visitei uma pessoa muito amiga, represente
das Nações Unidas na Nicarágua, um holandês
humanista e muito culto, hoje falecido. Enquanto conversávamos,
folheava um desses belíssimos livros americanos de turismo, cheio
de fotos de lagos e montanhas. Mostrei-lhe uma foto de página inteira,
pequenos barcos com suas velas brancas no meio de um lago, na margem crianças
andando pacíficamente de bicicleta, a inevitável igrejinha
ao fundo. Nós na Nicarágua contabilizávamos diariamente
os mortos, os doentes, os dramas políticos. Ambos chegamos à
mesma reflexão, pela força do contraste: como é que
pessoas vivendo neste ambiente nos Estados Unidos poderiam entender, ou
imaginar, o que é o subdesenvolvimento? GeraçõesFui visitar o meu pai, no Maranhão. Em 1964, quando eu estava
em Israel, cansou das hierarquias desconfiadas do mundo empresarial, mandou
um diretor-presidente publicamente à merda, com a indenização
comprou um barquinho, e ficou dois anos viajando pelos rios da Amazônia.
Tinha 64 anos e descobrira um novo mundo. Comprou uma casinha na beira
do Tocantins, numa vila de 30 casas, sem eletricidade, telefone nem autoridade.
Chegava-se pela água. Descobriu que as pessoas morriam de qualquer
coisa, acionou as seus velhos amigos da Europa, recebeu medicamentos, conseguiu
uma autorização de prático de medicina, e passou a
tratar os vizinhos. Com pouco tempo tinha mais de mil familias cadastradas.
Engenheiro é engenheiro. Parou de morrer gente na região.
A cada seis meses as crianças recebiam um vermífugo polivalente:
para que análise, dizia, aqui todo mundo tem verme... Entusiasmou-se, facilitou o caminho para empresas interessadas em investir
na região. Com pouco tempo chegou a tropa para desarmar os camponeses,
levar espingardas, facões. Os camponeses já sabiam, logo
viriam expulsá-los. Um vizinho matou um sargento, fugiu e nunca
mais apareceu. Os soldados voltaram, pegaram a filha, judiaram e mataram.
O essencial era mostrar quem era a autoridade. Meu pai passou anos tentando
convencer a mãe a denunciar o crime, mas ela dizia simplesmente
que não podia arriscar os outros filhos. O velhinho comprou material,
mapeou a região, delimitou as posses, foram em massa registrar em
cartório, salvando as roças. Meu pai virou guru de vez, ainda
que guru de um fim de mundo. Uma noite me chamaram para uma reunião da comunidade local. Uma
freirinha franzina explicava a bíblia. Um dos poucos alfabetizados
leu a parte onde José, no Egito, se mostrou tão bom administrador:
quando os camponeses perderam a safra, e pediram grãos ao Faraó,
José abriu os graneiros, mas em troca do gado dos camponeses; no
segundo ano de má safra, fez o mesmo em troca das terras, e no terceiro
ano em troca dos próprios camponeses. Estou seguramente errando
a ordem ou o conteúdo das trocas, mas o essencial é o seguinte:
os camponeses perderam tudo, o Faraó ficou mais rico, e o José
virou um grande político. Com sua voz mansa, a freira explicava
que a bíblia era um espelho, e que neste espelho do passado tínhamos
de aprender a ler o presente. Os camponeses da vila não se fizeram
de rogados: um por um começaram a falar como tinham sido expulsos
das suas terras, como fazendeiros tinham queimado as suas roças.
No dia seguinte, descendo pelo rio Tocantins, no silêncio e tranquilidade
da madrugada - já tinha se esgotado o meu tempo e precisava voltar
para São Paulo - fiquei pensando comigo mesmo: isto não sai
nos jornais, e no entanto, milhares de pessoas no país fazem este
trabalho de formiga, ensinando direitos humanos, dignidade, gerando um
fundo de consciência onde amanhã poderão brotar mudanças
mais profundas. Fiquei impressionado com meu pai. Primeiro, porque ele sempre tivera
posições relativamente quadradas em termos políticos,
e apoiara o golpe militar porque acreditava que iria acabar com a corrupção.
Claramente, dera agora uma profunda guinada política: vivendo com
pobres, tinha descoberto como era o mundo visto por baixo. Já sabia
um pouco desta guinada, pois ele escrevera lindas cartas para minha mãe,
na Polônia, explicando a sua nova compreensão das coisas.
Acho uma grande coisa um homem de mais de 60 anos de idade rever profundamente
os seus valores, reconstruir a sua visão do mundo. E isto mostra
a que ponto as nossas posições políticas, que podem
nos parecer tão óbvias e racionais, são influenciadas
pela forma como estamos inseridos no mundo. Me impressionou também a capacidade de, nesta idade, mandar às
favas os confortos e honrarias de senhor engenheiro, para reconstruir uma
vida útil a partir do zero, vida nova que duraria quase trinta anos.
Na cidade, seria um aposentado sentado na sala de espera. No Maranhão,
não conseguia sequer gastar a sua magra aposentadoria, trabalhava,
ajudava, vivia. E não era sacrifício nenhum: vivia à
beira de um rio maravilhoso, pescava quando queria, na frente da sua casa
não passavam carros barulhentos e pessoas irritadas, passavam colhereiros.
Tomei consciência, mais do que nunca, da idiotice da nossa correria
desesperada para comprar coisas inúteis, enquanto desperadiçamos
o único recurso não renovável: o tempo. Morreu com 92 anos, viveu a vida com sobremesa e tudo, ainda que fosse
sem geladeira nem televisão. No último ano de vida, mudou
para Imperatriz, estava muito fraco. Bom contador de histórias,
sentava num banquinho frente à casa, e lia nas mãos das moças
o seu destino. Não há mulher que resista a que se lhe leia
o futuro. E não há homem sério, nem mesmo em idade
avançada. Foi-se o velhinho, fora-se a minha mãe, na Polônia, alguns
anos antes. Terei levado quase cinquenta anos para descobrir a que ponto
as nossas raízes são profundas. Não é preciso
ser oriental nem acreditar na reincarnação para entender
a força da continuidade da vida. PrefeituraMal desembarcara da Nicarágua, fui convidado pela nova prefeita
Luiza Erundina para assumir as relações externas da prefeitura,
e depois a Secretaria de Negócios Extraordinários. A impressão
dominante é a seguinte: uma gigantesca máquina burocrática,
de 100 mil funcionários, herdada basicamente dos tempos da ditadura,
e voltada para gerir privilégios e corrupção. De repente,
uma mulher indiscutivelmente digna, honesta e batalhadora, tenta inverter
o sentido da máquina, e fazê-la servir a cidade. Um desafio
e tanto. Para mim, foram quatro anos de aprendizagem sistemática
de como se articulam os dramas dos transportes, do lixo, da água,
da habitação, da saúde, da educação
e outros num espaço como São Paulo. Porque a gente trabalha,
mas sobretudo aprende. São Paulo conta hoje 30 assassinatos por dia, um milhão
de pessoas vivendo em favelas, mais de dois milhões em cortiços,
poluição generalizada das águas que um dia nos serão
indispensáveis, 12 mil toneladas de lixo por dia depositadas ao
Deus-dará, sem que ninguém se preocupe com o futuro das filtrações
nos lencóis freáticos. São 4 milhões de automóveis,
uma cidade que conseguiu se paralizar...por excesso de meios de transporte.
O metró, solução de longo prazo evidente para cidades
deste porte, ostenta os seus ridículos 40 quilómetros. É
também uma gigantesca bacia, de 30 por 50 quilómetros, com
dois terços impermeabilizados, porque ninguém pensou em assegurar
a suficiente permeabilidade do solo, como o fazem outras cidades do mundo.
Dez milhões de pessoas olham passivamente todo verão as enchentes
quase permanentes, sentadas pacientemente nos carros parados, carros que
aliás são construidos para poder andar a mais de 150 quilómetros
por hora. O maior centro econômico da América Latina, gerido
pelo eterno triângulo de empreiteiras, especuladores imobiliários
e políticos corruptos, num negócio milionário que
permite financiar amplamente as campanhas políticas que reproduzem
o sistema. O discurso, naturalmente, é cheio de democracia e progresso.
As pessoas mal se davam conta da importância das relações
internacionais para uma cidade. Shanghai, onde estive para discutir estratégias
de grandes metrópoles, tinha em 1992 cerca de 140 técnicos
no seu departamento de relações internacionais. As cidades
de Osaka no Japão, de Toronto no Canadá, para mencionar algumas,
têm intensas atividades internacionais. Não é uma coisa
secundária que envolve troca de "chave da cidade" e outros
agrados diplomáticos. É no relacionamento direto entre cidades
concretas que se tece o sistema de trocas de nível horizontal que
caracteriza a gradual evolução do mundo dos sistemas verticais
de pirâmides autoritárias para o sistema de redes horizontais
interativas. Porque existem tecnologias novas que revolucionaram as comunicações,
e porque o mundo deixou de ser caracterizado por populações
rurais dispersas, para se tornar urbano. Hoje qualquer prefeito de cidade
relativamente importante tem equipes técnicas que viajam para diversas
partes do mundo para ver quem está resolvendo de que maneira problemas
de poluição, de criminalidade, de transporte, de organização
da saúde e assim por diante. Os desafios são semelhantes,
e é preciso aprender a aprender com os outros, em vez de reinventar
a roda. É da profunda desinformação brasileira sobre
políticas municipais modernas que resultam visões de que
transporte se resolve abrindo túneis e construindo viadutos para
automóveis particulares, ou de que a criminalidade se reduz comprando
mais armas e viaturas. O potencial deste enfoque de cooperação
internacional descentralizada foi resumido no artigo Autonomia local
e relações internacionais, que circulou amplamente na
América Latina, em particular através da revista Nueva Sociedad.
De certa forma, trata-se de reconstruir as implicações,
em termos de gestão de políticas econômicas e sociais,
das revoluções tecnológica e demográfica que
estão mudando o planeta. E nesta reconstrução, fiquei
cada vez mais convencido, o município, o poder local, têm
um papel fundamental. Resultou destas reflexões um pequeno livro
que escreví junto com um grupo de técnicos do Cepam, chamado
Introdução ao Planejamento Municipal, editado também
pela Brasiliense. À medida que evoluía o meu trabalho na
prefeitura, fui escrevendo trabalho pequenos, simplesmente porque o tempo
era pouco. No fim da gestão, retomei a Introdução
do Planejamento Municipal, simplifiquei, reformulei, e o resultado
foi publicado sob o título de O que é poder local?,
na coleção Primeiros Passos. Ia amadurecendo a minha visão do papel estratégico da
política e das instituições situadas no nível
onde a população pode ter um controle efetivo dos processos.
Trata-se evidentemente de uma possibilidade, e não de garantia.
Mas os longos anos que passara ajudando a montar sistemas centrais de planejamento
e de regulação econômicos em diversos países,
me fizeram entender a que ponto as estruturas centrais de governo, se não
há uma "âncora" de poderes locais solidamente organizados,
para pressionar por resultados e exigir adequação com as
suas necessidades, passam a ser dominadas por um absurdo carnaval de pressões
de empreiteiras, grupos organizados de corrupção, cirandas
de banqueiros, subsídios de usineiros e outras manifestações
que conhecemos bastante. De certa forma, o governo central não se
equilibra de dentro, precisa ter um contrapeso e um controlador externo.
Em outros termos, o conceito de divisão de poder entre executivo,
legislativo e judiciário já não é suficiente:
precisamos de um lastro político de sociedade civil organizada,
em torno dos espaços locais, que é onde finalmente a população
mora e pode constatar se há ou não progresso real em termos
de qualidade de vida. Numa missão que realizei na Costa Rica, para
as Nações Unidas, constatei que os municípios alí
decidem sobre o uso de apenas 5% dos recursos públicos. Analisando
o sistema de gestão da Suécia, constatei que esta proporção
é de 72%. Em outros termos, a Suécia não se caracteriza
por ter menos Estado, e sim por seu Estado funcionar essencialmente na
base, com controle direto da própria população. E
como as necessidades básicas da população são
de nível local, como a escola, o médico para a família,
a condução, o pão e o leite, a segurança e
assim por diante, tratava-se de pôr a pirâmide de pé,
porque entre nós ela se equilibra precariamente na ponta. A experiência de gestão progressista em São Paulo
me fez ver de maneira muito mais clara o gigantesco potencial das formas
descentralizadas de administração pública. Mudanças
desta profundidade não se realizam, é claro, em quatro anos
e numa prefeitura apenas. Hoje no Brasil este processo progride sistematicamente,
em particular no Rio Grande do Sul, ainda que o tradicional triângulo
empreiteiras-especuladores imobiliários-políticos fisiológicos
predomine amplamente. O surgimento de sólidas alternativas, e que
dão certo, às políticas tradicionais leva em geral
a dreita a se unir para bloquear as experiências. Mas isto faz parte
do jogo. E é importante notar como através do paciente trabalho
de numerosas pessoas, particularmente na área do Partido dos Trabalhadores
e do PSB, está gradualmente emergindo uma visão de gestão
social profundamente renovadora. Hoje, já são centenas de
experiências dete tipo em curso no país, apesar da centralização
ainda amplamente dominante. Áreas de pesquisa em desenvolvimentoNão cabe aqui, e o espaço não permite, reproduzir
propostas teóricas que se encontram em numerosos textos, publicados
e em elaboração. Mas como se trata de traçar um pefil
científico, vale a pena dar uma visão da lógica do
conjunto. Trata-se de uma busca sistemática de caminhos. Na realidade,
as nossas premissas de análise estão sendo transformadas,
criando um contexto por um lado extremamente rico de renovação
teórica, e gerando por outro lado grande insegurança. Como
escrevia Dante na Divina Comédia: "La diritta via era
smarrita", o caminho reto havia desaparecido. Nos últimos anos, tive mais tempo para pesquisa. Sistematizei
o ponto de partida, que são os grandes eixos de mudança em
curso. Estas mudanças, refletidas em particular na revolução
tecnológica, na globalização, na dramática
polarização mundial entre ricos e pobres, na urbanização
generalizada do planeta, e na transformação das relações
e organização do trabalho, nos colocam novos desafios. Cada uma destas tendências traz imbutida uma contradição
central. As tecnologias avançam rapidamente enquanto as instituições
correspondentes avançam lentamente, e esta mistura é explosiva,
pois não conseguimos manejar de forma responsável as tecnologias
de impacto planetário de que dispomos. A economia se globaliza enquanto
os sistemas de governo permanecem sendo de âmbito nacional, gerando
uma perda geral de governabilidade. A distância entre pobres e ricos
aumenta dramaticamente, enquanto os planeta encolhe e a urbanização
junta os polos extremos da sociedade, levando a convívios contraditórios
cada vez menos sustentáveis. A urbanização deslocou
o espaço de gestão do nosso cotidiano para a esfera local,
enquanto os sistemas de governo continuam na lógica centralizada
da primeira metade do século. Finalmente, o mesmo sistema que promove
a modernidade técnica gera a exclusão social, transformando
o mundo numa imensa maioria de espectadores passivos que estão se
cansando de se maravilhar com as novas tecnologias surgidas, enquanto se
perde de vista a solução dos problemas mais elementares.
A conclusão que tiramos desta visão de conjunto, ou destes
cinco eixos contraditórios, é que a humanidade precisa urgentemente
de puxar as redeas sobre o seu desenvolvimento, e dotar-se dos instrumentos
institucionais capazes de efetivamente capitalizar os avanços científicos
para um desenvolvimento humano. Repetir os dogmas liberal e estatista no
enfoque tradicional não nos ajuda muito. Os objetivos gerais são hoje claros. Precisamos de um desenvolvimento
socialmente justo, economicamente viável e ambientalemente sustentável.
Dividir estes objetivos entre o Estado que executa politicas sociais, as
empresas que produzem, e as organizações não governamentais
ou comunitárias que batalham objetivos ambientais e o esparadrapo
social para minimizar as tragédias, cada um puxando para o seu lado,
nos traz à mente aquele desenho dos burros que tentam cada um alcançar
o seu monte de capim, puxando em sentidos contrários em vez de comer
juntos cada monte. A diferença é que aqui os burros seriam
tres. Podemos, naturalemente, e segundo as nossas posições
ideológicas, ter cada um uma opinião diferente sobre qual
dos burros é o culpado. Mas isso não alteraria o resultado
final. Há um cansaço geral quanto às "arvores de
natal" ideológicas, que nos prometem de um lado, com estatização
e planejamento, a tranquilidade social, e de outro, com privatização
e mão invisível, a prosperidade. A primeira nos deu um gigantesco
encalacramento burocrático, a segunda nos levou à mais dramática
acumulação de injustiças sociais que a humanidade
já conheceu e a um sentimento permanente de insegurança.
Aqui não há vencidos nem vitoriosos. Por enquanto, a vencida
é a própria humanidade. Trata-se de buscar um pragmatismo
democrático que nos permita efetivamente enfrentar os problemas. Partindo desta plataforma de análise das mudanças, fui
desenvolvendo pesquisas em várias áreas concretas de atividade
econômica e social. De certa forma, trata-se de reconstruir as implicações
das mudanças em diversas áreas científicas, testando
assim a própria análise das mudanças que serviu de
ponto de partida. Um eixo de pesquisa é o da educação, onde fui penetrando
por estímulo de Paulo Freire, e de Fátima, que hoje trabalha
com orientação pedagógica. Depois de uma primeira
incursão com o prefácio a um trabalho de Martin Carnoy sobre
o Estado e a Educação, publicado pela Cortez, tentei fazer
uma ponte entre economia e educação no livro Aspectos
Econômicos da Educação, publicado pela Ática.
O caminho foi se enriquecendo, levando ao estudo Espaços do Conhecimento,
publicado por Miguel Chaia no São Paulo em Perspectiva, com versão
expandida publicada em coletânea organizada por Lúcia Bruno,
na editora Atlas. A proposta, de forma geral, é de que necessitamos
articular os diversos espaços que trabalham com conhecimento, integrando
desde televisão até educação comunitária
e redes informáticas num novo paradigma educacional. Isto por sua
vez exige uma renovação profunda do contexto institucional
da educação. Manoel Moran, Myrtes Alonso, Arnoldo Hoyos,
Marcos Masetto, Ubiratã D'Ambrósio e outros são companheiros
desta viagem, que já não pode se limitar a educadores. Outro eixo de pesquisa resultou dos meus trabalhos no quadro da Unicef,
que já datam de alguns anos, cruzados com as ríquissimas
experiências da equipe de David Capistrano na prefeitura de Santos.
Trata-se básicamente de avaliar o imenso potencial que a integração
das políticas no nível local permite. Numa reunião
de organizações que lidam com a criança de risco em
Santa Catarina, foi apresentado o relatório do Ministério
Público sobre como estavam conseguindo multar empresas que utilizavam
trabalho infantil, e assegurar que contratassem apenas adultos. Em seguida,
a secretaria do trabalho informava como estava conseguindo tirar crianças
da rua dando-lhes emprego. Cada instituição obtém
a sua satisfação burocrática, e a criança fica
presa neste ping-pong institucional que a coloca na mão dos traficantes
de droga, das empresa de prostituicão infantil, dos carvoeiros e
outros. Santos reconstruiu as políticas relativas à criança
a partir da criança, num enfoque organizado por resultados,
recebendo inclusive um convite especial para apresentar a experiência
na conferência mundial de Istanbul. Esta tendência está
abrindo espaços em diversas partes do mundo, gerando o chamado movimento
dos prefeitos amigos das crianças (Child Friendly City Initiative)
articulado por Ximena de la Barra da Unicef, e refletida no programa Prefeito-criança
da Fundação Abrinq no Brasil. Trata-se simplesmente de
prefeitos que decidiram não esperar as "grandes políticas"
e as primeiras damas, para tomar medidas práticas que assegurem
que toda criança terá sapato no pé, frequentará
a escola e assim por diante. Um dos elementos importantes desta orientação,
é que permite reunir atores sociais das mais diversas tendências
políticas, reconstruindo gradualmente espaços de solidariedade
social. Resultaram deste trabalho o artigo Políticas Municipais
para a Criança, publicado em diversas linguas pelas Nações
Unidas, Urban Children in Distress: practical guidelines for local action
e diversos estudos, inclusive sobre a experiência santista. Um outro eixo de pesquisa está centrado no impacto diferenciado
da globalização. No quadro do programa de pós-graduação
em Economia Política da Puc, organizamos com Otávio Ianni,
Renato Ortiz, Leon Pomer, e a ajuda de Paulo Rezende das Ciências
Sociais, um tipo de espaço livre de discussão interdisciplinar,
que se reune na primeira sexta feira de cada més, sem cachê
nem ordem do dia, na melhor tradição do livre fluxo de idéias,
com participação inclusive de pessoas das mais variadas instituições.
Um primeiro produto é um livro, Desafios da Globalização,
no prelo na editora Vozes, que analisa como a globalização
está revolucionando os paradigmas do Direito, da Política,
da Economia, da Segurança, das Políticas Sociais e assim
por diante, em textos curtos que buscam mais as intuições
que as pessoas têm da evolução dos diversos setores
do que propriamente análises detalhadas. A minha própria
visão é de que o conceito globalização
é demasiado amplo, pois as mudanças são muito mais
diversificadas. Esta visão está resumida no artigo Da
globalização ao poder local: a nova hierarquia dos espaços,
publicado na revista da pós-graduação em economia
da Puc. Junto com Silvio Cacciabava e outros da equipe do Pólis, em ligação
com a Cut e os seus cursos de formação, e a rede de pesquisadores
da Unitrabalho que surgiu em grande parte por iniciativa da Puc, foi-se
desenvolvendo uma linha de pesquisa sobre as tendências do trabalho.
O ponto de partida era o chamado jobless growth que as Nações
Unidas definem como um desemprego que já não resulta da crise,
mas do próprio crescimento econômico. Resultaram disso, entre
outros, o artigo Políticas Municipais de Emprego, publicado
na revista Pólis, bem como uma série de reuniões com
prefeitos, Sebrae, sindicatos e outros, buscando como poderiam ser desenvolvidas
políticas ativas de emprego a partir do poder local. Basicamente,
a idéia é que de a divisão técnica e vertical
em setores primário, secundário e terciário tornou-se
hoje demasiado ampla, e precisa ser complementada por uma análise
da estratificação horizontal de subsistemas diferenciados.
O magnata da soja trabalha a terra, a General Motors trabalha com máquinas,
o banqueiro trabalha com informação, mas os tres lidam com
uma articulação sofisticada de máquinas, computadores
e outros elementos que lhes asseguram presença no setor de ponta
da economia, fazem parte do mesmo universo sócio-econômico.
O emprego no setor de ponta emprega no conjunto pouca gente, apesar de
abrigar as experiências mais interessantes/preocupantes de reengenharia,
qualidade total e assim por diante. Abaixo deste setor está a área
que os americanos chamam de precarious jobs, empregos precários,
onde as atividades são terceirizadas, a mão de obra intercambiável,
o salários baixos, e uma série de direitos em rápido
recúo. Mais abaixo, temos o setor informal, que se generaliza porque
as pessoas teimam em sobreviver, ainda que formalmente não haja
lugar para elas. E finalmente, uma massa cada vez mais significativa de
pessoas no mundo opta pelo trabalho ilegal, que inclui desde o roubo de
automóveis em São Paulo (420 carros por dia), até
a produção de coca na Colômbia, o contrabando e pirataria
em outros cantos e assim por diante, numa progressiva deterioração
social que desarticula a sociedade por baixo, enquanto batemos palmas para
a reengenharia minoritária no topo. Aparece assim com força a desarticulação do mundo
do trabalho, e o surgimento de novas contradições. Ao mesmo
tempo, aparecem as imensas oportunidades: num país como o Brasil,
com milhões de casas por construir, população por
alimentar, infraestruturas básicas ainda não criadas, há
um imenso horizonte de trabalho por fazer, mas não há emprego.
O problema portanto não é falta de trabalho, mas de capacidade
de organização social capaz de canalizar as mãos ociosas
para as frentes de trabalho. Os municípios têm um imenso potencial
para o seu desenvolvimento, e exigindo poucos recursos de investimento.
Um último eixo de pesquisa está centrado nas formas de
gestão descentralizada, que inclúi desde sistemas atualizados
de organização da informação municipal - a
situação atual dos municípios é de forma geral
trágica em termos de organização de informação
gerencial - até estudos de desenvolvimento municipal comparado,
formas de organização da participação da sociedade
civil na gestão municipal e assim por diante. É natural que
esta área tenha conhecido um desenvolvimento científico explosivo,
pois o planeta está se urbanizando, e com isto a sociedade, atomizada
inicialmente pelo desenvolvimento capitalista, está reconstruindo
as suas dimensões sociais em outro nível. O trabalho desenvolvido
nesta área está bem resumido no estudo Descentralização
e Governabilidade, que tem sido publicado, xerocado e divulgado das
mais diversas formas, pois constitúi uma útil sistematização
das reorientações da própria forma de gestão
da sociedade a partir dos espaços locais. Tenho desenvolvido trabalhos
nesta linha junto com diversas administrações municipais,
instituições como Ibam do Rio, Enap em Brasilia, Cepam e
Seade em São Paulo, e as Escolas de Governo de diversos Estados. Não tenho dúvidas de que estas diversas linhas de pesquisa
constituem mais pontos de interrogação do que respostas.
Mas estou convencido de que hoje realmente não é o tempo
de certezas, e sim de questionamentos, abertura, tolerância, comprensão.
É vital também a abertura de canais de comunicação
entre as diversas ciências sociais, entre as diversas instituições,
entre os diversos atores sociais organizados. Para dizê-lo de forma
marxista, as infraestruturas estão se transformando num ritmo prodigioso.
Nós nas superestruturas é que estamos ficando atrazados.
Nota bibliográficaOs artigos mais significativos e mencionados no texto podem ser encontrados
na home-page http//dowbor.org, na biblioteca
da Pós-Graduação da Puc, ou nos programas de pós-graduação
de Economia Política e de Administração da Puc.
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Copyleft - Ladislau Dowbor - http://www.dowbor.org![]() |