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São Paulo, 01/12/2008


Reforma Agrária: Dados Básicos
Frente às informações contraditórias que
aparecem sobre o uso do solo rural, é importante ver com calma
os dados básicos e oficiais sobre o assunto, apresentados pelo
IBGE, e baseados nos censos agrícolas.
O Brasil, com os seus 8,5 milhões de quilómetros
quadrados de superfície, que representam 850 milhões de
hectares, tem 371 milhões de solos classificados em
potencialidade agrícola boa, boa a regular, regular a boa e
regular, totalizando 43,7% do território nacional. Deste
total, são efetivamente cultivados, somando-se lavoura
temporária e permanente, 52 milhões de hectares, em
1985. Mesmo considerando-se que hoje a área de lavoura
é um pouco maior, entre solo não utilizado ou
subutilizado estamos falando em centenas de milhões de
hectares.
Por outro lado, os dados do censo agrícola mostram que dos 376
milhões de hectares cobertos pelos 5,8 milhões de
estabelecimentos agrícolas do país, 3,1 milhões
de pequenos agricultores têm acesso a apenas 10 milhões
de hectares, 2,67% do total. No outro extremo, os 50 mil latifundios
que cobrem mais de 1.000ha detêm 165 milhões de
hectares, portanto 16 vezes mais. Na prática, 1% controlam dos
estabelecimentos controlam 44% do total, quase a metade do Brasil
rural.
É muito interessante confrontar estes dados com os dados de
área de lavoura: quanto maior o estabelecimento, maior
proporção da sua terra fica parada. Assim, os pequenos
agricultores lavram 65% dos seus estabelecimentos, os de 10 a 100 ha
lavram 28%, os de 100 a 1.000 ha lavram 13%, os de mais de 1.000 ha
lavram apenas 6,7%, e os de mais de 10 mil hectares lavram 2,31 % dos
seus estabelecimentos. O IBGE traz ainda a situação de
61 estabelecimentos de mais de 100 mil hectares, que utilizam para
lavoura apenas 0,14% do total, seis vezes menos de um porcento.
No conjunto, a realidade é que a maior parte das terras
agrícolas do país é utilizada como reserva de
valor, por grandes proprietários que preferem imobilizar
grandes áreas e esperar que se valorizem por efeito de
investimentos públicos e privados de terceiros, do que
desenvolver atividades produtivas. Está situação
é em geral mal disfarçadas pelo que se tem chamado
pudicamente de "pecuária extensiva".
É verdade que as grandes propriedades apresentam em geral uma
produtividade por hectare cultivado maior do que o pequeno
agricultor. No entanto, fazendo o cálculo, a partir dos dados
acima, de produtividade por hectare disponível, incluindo
portanto a subutilização do solo, descobrimos que a
produtividade dos grandes é absurdamente baixa, pois usam
produtivamente uma parte muito pequena dos estabelecimentos.
Manter esta situação quando milhões de
agricultores querem cultivar e são impedidos por falta de
terra, enquanto dezenas de milhões passam fome nas cidades,
mostra o grau de absurdo que pode atingir a ausência de
processos democráticos de decisão no interesse da
sociedade. E pela crescente tensão das cidades, temos de
concluir o óbvio: a reforma agrária não é
mais um problema rural, é um questão chave da
problemática urbana. Quem financia os prejuizos da
impressionante subutilização do solo agrícola
somos nós.
Ladislau DOWBOR, doutor em Ciências
Econômicas pela Universidade de Varsóvia, professor
titular da PUC-SP e do IMS, é autor de O que é Poder
Local?, Brasiliense.
Reforma agrária:
publicado em Sem terra – Jornal dos Trabalhadores Rurais –
Ano XIV, n. 144, março 1995
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