Você já pensou para que serve um economista? Aqui, em poucas páginas, uma reflexão sobre o seu papel. Não é artigo para economistas apenas, pois se trata dos recursos de todos nós, do nosso trabalho, do nosso futuro. A análise econômica precisa parar de se esconder atrás de equações, de pretensos sofisticados embates entre ortodoxos e heterodoxos, de falsas neutralidades ideológicas sob pretensão de serem “técnicas”. É preciso resgatar o foco, que são as questões essenciais da desigualdade, da destruição ambiental e do capital improdutivo. E a informação econômica tem de gerar análises adequadas e com linguagem clara para que a população entenda o que acontece com os seus recursos. É tempo de nos atualizarmos e de resgatar, como economistas, a nossa utilidade social.

Este artigo foi publicado na edição de dezembro da revista Economistas do COFECON (p.13-18), disponível no seguinte link: http://www.youblisher.com/p/2014319-RETOMADA-DO-DESENVOLVIMENTO/fbclid=IwAR1_pqxoVBOUdhvqAms2H5Fo0g8wEUK5wfQlzmXrGXU-V6O_3w4xbCIa1BQ

Segue a íntegra abaixo:

O papel do economista

Ladislau Dowbor

16 de agosto de 2018
revista Economistas – COFECON – (out. a dez, 2018)


Inscrição numa parede da Universidade de Lisboa, encontrada numa visita com o ex-ministro de planejamento de Portugal Mario Murteira, que tirou essa foto.

Como economistas, precisamos de um choque de modéstia. Temos tido imensas dificuldades não só de prever os acontecimentos, mas inclusive de explicar o que já aconteceu. Podemos atribuir essas fragilidades a defeitos pessoais, mas seria mais realista entender que, frente às profundas transformações da economia, as nossas ferramentas de análise estão desatualizadas. Com o gigantismo corporativo que deforma radicalmente os mecanismos de mercado, a dominação financeira que drena as atividades produtivas, a globalização que torna as políticas de âmbito nacional pouco operacionais, a explosão das novas tecnologias que nos fazem evoluir para a economia imaterial, a centralidade do conhecimento como principal fator de produção, e a própria apropriação das políticas públicas por interesses corporativos, evoluímos nas últimas décadas para um mundo estruturalmente diferente. A realidade mudou, e as regras que acreditávamos regê-la já não funcionam, ou funcionam em setores residuais.

Peter Drucker, num dos seus últimos escritos, trouxe uma visão simples, mas estratégica: “Não haverá empresa saudável numa sociedade doente”. Deixava claro, assim, que não se trata apenas de assegurar os resultados na unidade empresarial, e sim de promover o progresso social para o conjunto. Com isso, ele invertia a tão cômoda simplificação das oligarquias de que se estiverem ganhando muito dinheiro, tudo irá melhorar, inclusive pelo patético “trickling down”. Em outras palavras: as migalhas que caem da mesa restaurariam os equilíbrios necessários. Essa visão é central para o papel de tantos economistas, justificados nas suas funções ao contribuirem para a maximização dos lucros ou dividendos corporativos. Os chamados ortodoxos simplesmente tapam os olhos diante dos impactos sistêmicos para a sociedade. É tão cômodo ganhar muito dinheiro justificando quem dele se apropria, com o pretexto de exercer apenas uma função técnica, portanto acima dos embates sociais. Nada mais ideológico do essa pretensa objetividade.

Francamente, eu acho muito desperdício de tempo e esforços entrar no jogo de disputas teóricas em que se maneja Hayek ou Friedman de um lado, Keynes, Kalecki e Minsky de outro, inclusive porque dá aos defensores dos privilegios e dos privilegiados uma legitimidade que eles pouco merecem. Parece que estamos todos no nobre e elevado patamar dos debates científicos, permitindo que sejam ignorados os dramas humanos que assolam o mundo, escondida a tragédia tão óbvia de 6 milhões crianças que morrem de fome por ano ou porque não têm acesso à água limpa, quando 1% dos mais ricos detém mais patrimônio do que os 99% seguintes; quando 8 famílias detêm mais riqueza do que a metade mais pobre da humanidade. O nosso papel, na minha visão, não é de acompanhar os ridículos comentários de consultores sobre se os mercados estão mais ou menos nervosos; mas sim direcionar a discussão e a luz para os desafios econômicos, sociais e ambientais que precisam ser enfrentados. E esses desafios, pela dimensão, gravidade e novo contexto em que se apresentam, vão necessitar de uma visão muito mais direta e incisiva. A economia hoje é mais política do que nunca.

Os nossos desafios são, por desgraça, bastante claros. Em proveito de uma minoria, adotamos formas de crescimento econômico que literalmente destroem o nosso meio ambiente; enquanto os recursos necessários para mudar os rumos giram alegremente em paraísos fiscais e enriquecem especuladores. Isso não funciona. O desafio maior é voltar a tornar os nossos recursos úteis para o desenvolvimento sustentável que necessitamos. Só os atolados nas ideologias corporativas podem ignorar a catástrofe em câmara lenta que se aprofunda. Não é pessimismo nem catastrofismo. Como bem diz Ignacy Sachs, um pessimista é um otimista bem informado.

No plano ambiental, a dimensão dos desafios é óbvia. Somos hoje 7,5 bilhões de habitantes, 80 milhões a mais a cada ano – e todos querendo consumir mais. Consumimos hoje cerca de 30% a mais do que a capacidade de reposição ou recuperação da natureza. Isso não funciona. Hoje temos todas as estatísticas necessárias, sobre o aquecimento global e os seus impactos, sobre a contaminação e crescente escassez de água segura, sobre a poluição e acidificação dos oceanos, a liquidação da biodiversidade, a destruição da cobertura florestal, a erosão do solo agrícola, o desaparecimento dos insetos polinizadores e assim por diante. Os dados estão todos aí. O que nós precisamos é de economistas que olhem muito além do PIB, quanto mais do simples lucro empresarial.

No plano social, a desigualdade atingiu níveis absolutamente obscenos em termos éticos, explosivos em termos políticos, e absurdos em termos econômicos.

A desigualdade é o mal maior. Em termos éticos, é indefensável. Manter amplas esferas da população na miséria, quando temos tantos recursos, é vergonhoso. O fato de ter voltado a aumentar a mortalidade infantil num país que tem a riqueza que temos é absurdo. Estamos num país que produz, em termos de bens e serviços, 11 mil reais por mês por família de 4 pessoas, o que permitiria a todos viverem de maneira digna e confortável. A questão é que 5% das famílias do país tem mais patrimônio do que os 95% restantes, e 6 famílias têm mais riqueza do que 100 milhões de brasileiros na base da população. Essas poucas famílias produziram tudo isso? Nem os pobres merecem a pobreza a que estão reduzidos, nem os ricos merecem o volume de riqueza de que se apropriam. Reduzir radicalmente a desigualdade não é questão de esquerda ou de direita, é questão de decência humana, e de inteligência política. A economia tem de parar de virar as costas para a ética.  

É também questão de inteligência social. Nenhuma sociedade pode funcionar adequadamente com um nível tão profundo de desigualdade. Somos um país onde se comete 64 mil assassinatos por ano; onde a polícia mata 14 pessoas por dia; onde se aprisiona, sem provas de qualquer crime, um ex-presidente da República para conter as pressões da sociedade por uma vida mais decente para todos. Não estamos mais na Idade Média, na era da escravidão, na era feudal. Hoje a massa de pobres no Brasil e no mundo é constituída por pessoas conscientes e, justificadamente revoltadas de não poderem comprar um remédio para o filho doente, de não poderem assegurar um hospital decente para a esposa dar à luz em segurança, garantir uma escola adequada para os filhos porque sabem que o futuro deles dependerá dos conhecimentos adquiridos.

A paz social, o ambiente construtivo, e uma política equilibrada não poderão funcionar no quadro de tanta desigualdade e de tanta pobreza. Alguém precisará informar às oligarquias de que estamos no século XXI. E os pobres já estão informados de que os recursos existem, de que não é por falta de recursos que sofrem, mas sim pela sua concentração em mãos incompetentes. Não há democracia política que funcione sem uma base de democracia econômica. A economia tem de voltar a ser o que realmente é ou deveria ser, uma ciência social.

E a desigualdade não funciona, evidentemente, em termos econômicos. Um bilionário que aplica 1 bilhão de reais em algum papel financeiro com modesto rendimento de 5% ao ano, estará ganhando 137 mil reais ao dia. Como não conseguirá gastar tanto a cada dia, o grosso do ganho é automáticamente reaplicado, gerando o chamado snowball effect, efeito bola de neve. Sem precisar produzir nada, esse bilionário terá em poucos anos as fantásticas fortumas que hoje alimentam o tal do 1%. O grande dinheiro apenas marginalmente resulta em investimento produtivo, pois as aplicações financeiras rendem mais e exigem menos esforço. É o que tenho caracterizado com A Era do Capital Improdutivo. Gera poderosos rentistas que desviam recursos financeiros da produção, atolam em dívidas as famílias, as empresas e o Estado, e também se apropriam da política, fechando o círculo. O parasita consome o corpo que o alimenta: alguém tem de pagar os 137 mil ao dia sobre cada bilião. Killing the Host, matando o hospedeiro, é o título sintético e explícito de uma análise em profundidade publicada por Michael Hudson, que aliás qualifica adequadamente o que aqui chamamos dignamente de economia ortodoxa, como sendo junk economics. A economia tem de olhar de frente a deformação sistêmica gerada pela financeirização.

O bom senso em economia implica que voltemos a pensar o uso dos recursos em função dos objetivos finais, que consistem em melhorar de forma generalizada o bem-estar das famílias, sem prejudicar o meio ambiente e a sobrevivência das gerações futuras. É o chamado desenvolvimento sustentável, e aqui temos a Agenda 2030, o bom senso organizado e explicitado em 17 grandes objetivos, incluindo as metas e os indicadores correspondentes. Sabemos o que deve ser feito, os passos que devem ser dados, as decisões que devem ser tomadas. O desafio está na construção dos equilíbrios políticos que permitam que os rumos sejam corrigidos. A economia precisa assumir e tornar clara a sua dimensão política.

Podemos, como economistas, não ter a força para transformar diretamente a política, mas isso não significa que sejamos impotentes. Podemos sim generalizar, com linguagem simples e didática, a compreensão das deformações por parte de uma massa muito mais ampla de agentes econômicos e sociais. Basta explicitar o imenso sistema de agiotagem que se instalou no país, com juros absurdos que oneram quem produz e remuneram quem apenas cobra pedágio sobre o esforço dos outros. A compreensão dos mecanismos econômicos pode ser uma arma poderosa de mudança de rumos. A economia tem de sair do jargão pseudo-científico e se tornar um vetor de apropriação da realidade pela cidadania em geral. A economia precisa parar de se esconder atrás de complexidades.

Temos de colocar o PIB, essa conta mágica e enganadora, no seu devido lugar. A descapitalização dos países que aumentam o seu PIB às custas das suas reservas de recursos naturais, simplesmente não aparece na conta: em nenhuma instituição se aceitaria uma contabilidade que esquecesse a variação de estoques. Um desastre ambiental, como o da BP no Golfo do México, aumentou o PIB americano pelos custos gerados. Os pedágios sobre o acesso às tecnologias e conhecimento, sob forma de patentes, copyrights e royalties, em geral aparecem como aumentando o PIB, quando geram artificialmente escassez e reduzem o efeito multiplicador das inovações. Soluções colaborativas com a da Pastoral da Criança, ao reduzir doenças e gastos correspondentes, diminuem o PIB. Aliás, o PIB aumenta quando se gasta com hospitais e remédios. A agilidade das comunicações com meios eletrônicos reduz o PIB, pela redução de atividades onerosas como o correio levado de casa em casa. Temos de aumentar o PIB ou a produtividade?

A privatização de parques e praias, ao dificultar o acesso ao lazer gratuito, aumenta o PIB. E tão importante se tornou a cifra como prova de sucesso que a Grã-Bretanha acrescentou a prostitução e o comércio de drogas às suas contas nacionais. E o tempo que perdemos diariamente pelas péssimas condições de transporte coletivo não aparece como custo, pelo contrário, os custos dos engarrafamentos aumentam o PIB: o tempo perdido pelas pessoas não é calculado como valor. A economia tem de voltar a fazer as contas, ou seja, contabilizar os nossos progressos e os nossos custos em função dos objetivos sociais. As metodologias alternativas são abundantes, e funcionais. Que conta é essa que só mede a intensidade do uso da máquina econômica, esquecenco a avaliação do que se produz, para quem e com que impactos ambientais. A economia precisa adequar as contas às necessidades da sociedade.   

E se nos colocássemos efetivamente a serviço do bem-estar da sociedade, em vez de reagirmos aos acessos de nervosismo dos “mercados”? O bem-estar das famílias depende sem dúvida do acesso à renda, e essa deve ser distribuída de maneira mais equilibrada. Mas não é suficiente: depende também, e crescentemente, do acesso ao consumo coletivo, o chamado salário indireto. O canadense, por exemplo, pode ter um salário inferior ao do americano, mas tem acesso universal e gratuito à educação, serviços de saúde, espaços públicos de lazer e semelhantes, sem precisar colocar a mão no bolso. A conta é clara: os americanos, gastando cerca de 9.400 dólares por ano em saúde, pagam cerca de três vezes mais do que a média da OCDE, com resultados muito inferiores. A conta da saúde no Canadá é de 3.400 dólares por pessoa. O acesso público, universal e gratuito aos serviços de consumo coletivo é muito mais produtivo, em termos de custo benefício, do que a indústria da doença ou do diploma. Aumenta o bem-estar, reduz a desigualdade ao nivelar as oportunidades, e torna a sociedade muito mais governável. Algumas coisas não podem faltar a ninguém. Ter mais serviços públicos de consumo coletivo constitui bom senso econômico: não é gasto, é investimento na sociedade e resulta não aumento da produtividade sistêmica.

E o bem-estar depende evidentemente também de mais proteção do meio ambiente, e de mais infraestruturas de transporte, energia, água e telecomunicações. Tudo isso envolve sólidos sistemas de administração pública. Até quando vamos tolerar a demagogia do impostômetro e dos patos? A economia deve assumir a análise institucional em profundidade, apontando para as melhores soluções em termos de equilíbrio entre a empresa, o Estado e as organizações da sociedade civil. A economia deve recorrer muito mais às análises comparadas, aprendendo com as soluções práticas que já deram evidentes resultados em outros países. A economia precisa ser menos ideológica e mais pragmática.

Precisamos igualmente descer do alto das nossas complexidades econométricas, que servem, como honrosas exceções, de biombo para um charlatanismo barato. Precisamos de cifras incompreensíveis? Em junho de 2018, o Brasil ostenta 63,3 milhões adultos “negativados”,  colocados na lista negra do crédito. Em dezembro de 2017 eram 58,3 milhões: ou seja, em 18 meses aumentamos em 5 milhões o número de adultos negativados. Tal número aponta claramente para o escândalo dos juros. Números desse tipo, com comparações internacionais e no tempo, são simples e compreensíveis. Não são aqui necessárias equações complexas, e sim a apresentação dos números e análise direta das causas. A quantificação é ótima, quando serve para avaliar e divulgar as situações concretas que enfrentamos, em vez de encobrí-las com complexidades. Temos de divulgar dados como serviço prestado à população e não como medalha de ostentação de sofisticação matemática.

Enfim, temos de parar de falar e escrever para nós mesmos. Estamos na era do digital, e podemos colocar a nossa compreensão da realidade a serviço do conjunto da população. Não haverá democracia com uma comunidade desinformada: teremos insegurança, divisões e conflitos. Hoje inúmeros cientistas divulgam os resultados das suas pesquisas online gratuitamente. Grandes instituições de pesquisa como o MIT americano, e hoje inúmeras universidades, disponibilizam online e gratuitamente os resultados das suas pesquisas. Colocados em espaços abertos, os estudos se submetem a avaliações e críticas da comunidade científica, sem precisar de double blind peer review que permite muito corporativismo de “escolas” de economia. A batalha pela relevância, simplicidade, legibilidade e acesso aberto à informação econômica é essencial.

Afinal, para quê economistas?

Ladislau Dowbor é economista, professor de pós-graduação da PUC-SP, e consultor de várias agências das Nações Unidas. Os seus trabalhos são disponibilizados gratuitamente (regime Creative Commons), em http://dowbor.org