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Ladislau Dowbor
Dezembro de 2017

Há livros que não inventam grandes voos de teoria econômica, nem debatem se devemos ser ortodoxos ou heterodoxos, como é hoje como os economistas se classificam. Buscam de maneira prosaica o que funciona e em particular como se deu. Até porque nenhuma solução econômica é apenas econômica, os sucessos sempre foram construídos pela construção do espaço político para as soluções.

Ao analisar as economias dos Vikings, Lakey trabalha sobre os mecanismos existentes e não sobre um modelo. O título é divertido, porque os Vikings que aterrorizaram a Europa no fim do primeiro milênio, aventureiros dos mais ousados e violentos, dão hoje um exemplo impressionante de economia robusta, com paz social e pouca desigualdade. Em outros termos, dotaram-se de uma economia como a economia deveria ser: proporcionadora de elevada qualidade de vida. Aqui não há heróis solitários, na linha do lonesome cowboy norte-americano. As pessoas colaboram para viver melhor e isso significa todos viverem melhor, até os imigrantes. Uma economia robusta embasada na ampla inclusão social.

Naturalmente, ao ver descrita uma sociedade assim constituída, pensamos imediatamente, e com razão, que no Brasil pós-golpe estamos fazendo rigorosamente o contrário. Essa é a reação de Goerge Lakey, um americano que vive na Noruega, conhece bem os quatro países que analisa – Noruega, Suécia, Dinamarca e Islândia – e se espanta a que ponto o seu país de origem (EUA) se atola na crescente desigualdade, na competição de todos contra todos e na crescente desorganização política, ao praticar justamente o inverso do que ele hoje presencia nos países escandinavos. Afinal, o que funciona?

Francamente, o Viking Economics é uma belíssima leitura para não economistas, inclusive porque os economistas ou já sabem, ou já estão tão convencidos do contrário: que não vão querer saber. Digamos democraticamente que é um livro para todos e para curar qualquer um de falsos economicismos. O que funciona, afinal, é quando os esforços econômicos se orientam o mais diretamente possível para o bem-estar das famílias.

A facilidade com a qual viramos as costas para os exemplos positivos é impressionante, em particular se a realidade teima em não obedecer aos nossos preconceitos. A lógica seria de que grandes fortunas livres de impostos e empecilhos tenderiam a investir, gerando empregos, produtos e impostos. Na realidade, hoje, os afortunados fazem essencialmente aplicações financeiras, visitam paraísos fiscais e, ao reduzir a capacidade de compra da base da população, travam o principal motor da economia que é o consumo das famílias. Mas continuamos a imaginar desculpas, de que afinal se trata de países pequenos, de que a Noruega é próspera graças ao petróleo (a sua prosperidade e equilíbrio datam de bem antes), e que “são diferentes”. De cabo a rabo do livro, Lakey mostra que esses países não são diferentes e sim batalhadores por equilíbrios, progresso tecnológico e justiça social. E que tiveram de engolir muitos revezes na construção dos caminhos.

Gunnar Myrdal, um Nobel sueco de economia, traçou as grandes linhas:  “Acreditava que era possível definir uma economia igualitária que impediria a pobreza e seria produtiva ao mesmo tempo. A sua teoria encorajou o investimento nas pessoas como um recurso para o crescimento econômico, um pilar que veio a ser chamado de modelo nórdico”.  (68)

Todos os quatro países tiveram, por exemplo, recaídas para a direita, com governos liberais, redução de direitos e marés de especulação financeira. A reação veio com muitas lutas, reconquista do poder e estatização ou forte regulação dos bancos, no sentido das poupanças das famílias e impostos do governo servirem ao desenvolvimento dos respectivos países. Na Noruega, “a regulação voltou a funcionar. A lição para todo o setor financeiro foi claríssima (unmistakable): arrisquem o seu próprio dinheiro, não o dos outros. ” (31) Assim a Noruega se reergueu do colapso financeiro de 1991, pela mão de uma mulher forte e de bom senso, Gro Brundtland.

Com a crise de 2008, “a Dinamarca, Suécia e Noruega encontraram maior facilidade para se reequilibrar porque as suas democracias mais fortes asseguraram que os bancos sejam limpos, transparentes e confiáveis (accountable). Rejeitando a ideologia do livre mercado, haviam amplamente retornado ao que funciona. ” (34) Na Islândia, o governo privatizou plenamente a maioria do sistema bancário. O Wall Street Journal proclamou o país “a maior história de sucesso do mundo”.

Em outubro de 2008 o sistema implodiu, levando à quebra dos sistema financeiro bancário e governamental da Islândia. Os social-democratas retomaram o poder e o controle público do sistema financeiro. Recusaram as políticas de austeridade, optando pelo efeito multiplicador das políticas sociais: “O gasto do governo em saúde e educação tem um elevado efeito multiplicador, e, portanto, ajudaria a economia a se recuperar da quebra e ainda salvar vidas. ” (46)

A regulação dos recursos financeiros do país é evidentemente essencial, pois é dessa regulação que surge a possibilidade de orientar o dinheiro para onde será maís útil. O dinheiro em si, hoje, é apenas sinais magnéticos em computadores. Isso confere, a quem o detém, o poder de migrar para um paraíso fiscal, ampliar a bolha especulativa ou investir no que o país mais precisa: bens e serviços gerados pelas empresas, ou acesso ao consumo coletivo como saúde, educação e cultura gerados pelo sistema público. Neste sentido, o controle do recurso financeiro e a sua legitimidade são essenciais para o funcionamento de uma sociedade.

O livro é muito rico, em seu conjunto, porque analisa de forma descritiva e agradável de leitura como esses países enfrentaram os seus desafios concretos: dos bancos, dos impostos, do acesso universal à saúde, da imigração e assim por diante. É um elenco da chamada solucionática. Tomando a esmo, pontos interessantes, porque não se trata apenas de grandes opções ideológicas, mas de inúmeras medidas práticas que as concretizam:

“Os noruegueses parecem ter chegado ao consenso quanto a um mercado cuidadosamente regulado, pleno emprego, cuidados de saúde gratuítos e universais, educação superior gratuita, e um sistema de transporte público eficiente e barato. ” (72)

“O gabinete do governo sueco eleito em 2014 tem um número igual de homens e mulheres, um fato que não causa estranheza nos países nórdicos, já que a participação das mulheres na liderança se tornou tão comum” (190)

“Salários elevados, impostos elevados e serviços abundantes criam uma econômica produtiva e próspera” (92)

“Políticas de apoio às famílias e a educação vocacional de qualidade importam, ao lado do apoio à requalificação e mudança de carreira” (93)

“Pensaram que um pequeno mercado de ações podia ser útil mas precisa ser regulado para que os seus excessos não o destruam. O setor financeiro permaneceu pequeno, em grande parte de propriedade pública, e o restante com elevado nível de regulação. ” (72)

Uma ótima leitura, prática e teórica ao mesmo tempo, apontando caminhos. Ultrapassando as bobagens de que lá deu certo porque “são diferentes”, temos sim de nos inspirar no que funciona. Inclusive porque o inverso, concentração de renda, desigualdade, financeirização e semelhantes simplesmente não estão dando certo.