Os desafios do ensino superior se deslocam profundamente, tanto pela centralidade do conhecimento no conjunto das atividades humanas, como pelas transformações tecnológicas que desmaterializaram o conhecimento e o tornam universalmente acessível, no quadro de uma conectividade generalizada. Em Aprendizagem no ensino superior no século XXI, organizado pelos professores Luciano Junqueira e Roberto Padula, 16 artigos analisam esses desafios.

Confira abaixo o capítulo de Ladislau Dowbor, “Construção interativa do conhecimento em rede” (p.49-66) ou leia em word:  http://dowbor.org/blog/wp-content/uploads/2013/03/17-Educa%C3%A7%C3%A3o-2-Luciano.doc


Construção interativa de conhecimento em rede

Ladislau Dowbor
6 de agosto de 2017

Resumo: Em poucos países não está em curso uma reforma educacional. Todos procuram novos rumos. Até a Finlândia, com o seu grau de excelência alcançado, fala da educação como processo evolutivo. Precisamos mais do que evolução. A matéria prima da educação é o conhecimento, que hoje não é mais um verniz de cultura e sim o principal fator de produção, eixo central da economia. Em vez de ensino no sentido de transmissão e assimilação de conteúdos básicos, precisamos evoluir para um processo de construção interativa de conhecimento em rede. O conhecimento hoje dispensa base material, e com a conectividade planetária podemos ter acesso gratuito generalizado ao conhecimento acumulado da humanidade. Navegar neste oceano, priorizar metodologias, aprender a colaborar, cruzar disciplinas, inserir a própria educação e gestão de conhecimento como objeto de ensino e de discussão, tudo isso são pontos de referência para uma educação que na realidade tem de aprender a vencer as próprias resistências à mudança.

Palavras chave: educação, tecnologia, sociedade de aprendizagem, pedagogia

Abstract: In most countries some kind of education reform is under way. We are all looking for new directions. Even Finland, with its impressive achievements, considers education as an evolutionary process. The basic material education works with is knowledge, which nowadays is not some kind of varnish of basic information anymore, but the main factor of production, at the heart of economic activity. Instead of teaching viewed as transmission and assimilation of basic content, we need to evolve towards interactive networks of a knowledge construction process. Knowledge itself does not need material support anymore, and with planetary connectivity we can ensure free access to the impressive and growing mass of accumulated science and culture. The new points of reference consist in learning how to navigate in this ocean, in prioritizing methodology, in learning how to collaborate, how to cross the divide between subject matters, and even inserting education and knowledge management as an object of teaching and discussion. Most of all, we have to learn how to overcome resistance to change.

Key words: education, technology, learning society, pedagogy

Um universo em reconstrução

Temos de ir além da mudança vista apenas como melhoria das técnicas de ensino na sala de aula. A própria função da educação no processo mais amplo de transformações sociais, econômicas e culturais está se deslocando rapidamente. No presente artigo, o que queremos sugerir é a mudança do referencial, do próprio sentido do que estamos tentando fazer. Na linha de um estudo anterior publicado pela Vozes, Tecnologias do Conhecimento, buscaremos aqui esta mudança de contexto, e as possíveis implicações para o universo da educação.

O primeiro ponto, naturalmente, é a transformação radical do peso do conhecimento como fator de produção. O trabalhador hoje vale muito menos pela sua capacidade física de carregar pesos ou de manejar a enxada, do que pela sua capacidade de manejar máquinas, e crescentemente de concebê-las e racionalizar o seu uso. A grande transformação que observamos no decorrer do último século não se deve particularmente ao capitalismo, e sim ao fato que antigamente o homem dependia da sua força física ou à do seu boi, enquanto agora o produtor médio usa fontes de energia em que a sua força é multiplicada, como ordem de grandeza, por mais de 200. Assim, a capacidade de organizar de maneira inteligente o uso das diversas fontes de energia tornou-se muito mais importante do que cansar os seus músculos. Muita gente no mundo ainda depende da sua força física para sobreviver, sem dúvida, mas não é para isso que estamos orientando a educação. O futuro trabalhador que educamos hoje ganhará o seu pão menos com o suor do seu rosto, e mais com a agilidade do seu cérebro.  Estamos entrando na sociedade do conhecimento, e de maneira acelerada.

Isso fica evidente quando consideramos um telefone celular, para dar um exemplo, em que o valor é muito menos o trabalho físico e a matéria prima: a quase totalidade do que pagamos vem da tecnologia, do design e outros insumos imateriais incorporados. Hoje qualquer pequeno produtor agrícola está precisando de técnicas de inseminação artificial, de análise do solo e dos seus corretivos, de conhecimento de combate biológico às pragas, e mais ainda, precisa da compreensão de como funcionam os circuitos comerciais e financeiros e que tipos de impactos os defensivos agrícolas podem ter sobre os lençóis freático. Até a tradicional pesca costeira de pequena escala, que ocupa cerca de 300 milhões de pessoas no mundo, precisa de melhor compreensão dos impactos da sobrepesca e de como assegurar não mais o seu sustento pescando o máximo possível, mas a sustentabilidade dos recursos pesqueiros regionais. Em outros termos, o conhecimento não representa uma substituição dos processos produtivos concretos para a economia imaterial, mas uma dimensão radicalmente maior do conhecimento como componente dos processos produtivos. O conhecimento tornou-se, neste sentido, o principal fator de produção, elemento central da produção de riqueza.

E a matéria prima e razão de ser da educação, naturalmente, é o conhecimento. Já não somos um “setor” que assegura um pequeno verniz de conhecimentos básicos necessários para uma vida civilizada, e sim uma dimensão de todos os setores de atividade, sejam eles indústria, agricultura, serviços financeiros ou saúde e segurança. E neste sentido temos de analisar também a própria educação, as suas novas demandas e as suas novas ferramentas tecnologicas. A educação, muito além da sala de aula, tem a ver com a elevação geral do nível de conhecimento científico-tecnológico da sociedade, e a própria compreensão de como a sociedade tem de avançar nas suas formas de funcionamento. Nas transformações extremamente aceleradas das sociedades modernas, a educação passa a estar de certa maneira no centro do furacão. Em todo caso, não é mais um verniz de conhecimentos necessários à inserção social, ou a transferência de uma dose de conhecimentos básicos que assegurem a empregabilidade individual. Trata-se de assegurar que os jovens adquiram ferramentas para o mundo realmente existente.

As tecnologias de informação e comunicação, TICs, desempenham neste processo um papel essencial, à altura das novas demandas. Antes de tudo, é preciso constatar que a maior parte dos conhecimentos necessários à inserção profissional e social das pessoas que formamos está disponível online, com acesso aberto, gratuito, em diferentes idiomas e com diversos meios – escrita, animações gráficas, documentários com as mais variadas combinações. Estamos na era multimeios, muito além de anotações no caderno da fala do professor. Com a democratização do acesso à internet, enfrentamos esta espantosa realidade de que a quase totalidade do conhecimento consolidado pela humanidade está acessível online a partir de uma aparelhinho que cabe no nosso bolso, e cujos custos estão caindo radicalmente. Não é o conhecimento que faz falta, e sim a aprendizagem da navegação, de como encontrar o que se precisa no dilúvio informacional, e de como cruzar conhecimentos de forma útil, possivelmente inovadora. Montaigne resumia isto, já no século XVI, dizendo que precisamos de cabeças bem feitas, não bem cheias.

O imenso universo de conhecimentos hoje encontra-se disponível gratuitamente e instantaneamente. O conhecimento construído e incessantemente ampliado pela humanidade banha o nosso planeta, por meio dos sinais eletrônicos, imateriais, e que viajam para todos efeitos na velocidade da luz. Por que a gratuidade, ou quase gratuidade? Pela simples razão de que se trata de uma economia imaterial. Quando compro um livro, estou pagando mais caro por um livro mais gordo, simplesmente porque o que pago não é a qualidade das ideias que estão no livro, e sim o suporte material e o trabalho de impressão e distribuição. Tanto assim que pago o mesmo preço por um livro de 300 páginas, seja ele genial ou idiota. Não estou pagando o conteúdo do livro, e sim a sua dimensão material. Quando os conhecimentos, sejam eles pinturas, documentários, músicas ou histórias, prescindem do suporte material, podendo ser apropriados sem custos adicionais em qualquer parte do planeta, o próprio conceito de biblioteca ou de escola como construção física muda de sentido. Na linha do excelente resumo de Jeremy Rifkin, no seu A sociedade de custo marginal zero, mais pessoas que leiam o livro ou vejam a figura ou escutem uma história não vão gerar custos adicionais. O principal fator de produção, o conhecimento, não reduz o seu estoque quando utilizado, pelo contrário, se multiplica.

Por mais que o mundo corporativo tente travar as transformações, através de patentes, copyrights, royalties e outras formas de pedágio, a realidade é que a generalização do acesso ao conhecimento aberto (open access) é o caminho.  Tecnicamente, é natural e correto assegurar a remuneração de quem fez o trabalho de pesquisa e de inovação, mas trancar este conhecimento durante décadas – como por exemplo faz o mundo do indústria farmacêutica – passou a constituir um entrave ao desenvolvimento econômico e social. Faz parte da economia de pedágio. Um texto de 1813 de Thomas Jefferson, é neste sentido muito eloquente: “Se há uma coisa que a natureza fez que é menos suscetível que todas as outras de propriedade exclusiva, esta coisa é a ação do poder de pensamento que chamamos de ideia….Que as ideias devam se expandir livremente de uma pessoa para outra, por todo o globo, para a instrução moral e mútua do homem, e o avanço de sua condição, parece ter sido particularmente e com benevolência desenhado pela natureza, quando ela as tornou, como o fogo, passíveis de expansão por todo o espaço, sem reduzir a sua densidade em nenhum ponto, e como o ar no qual respiramos, nos movemos e existimos fisicamente, incapazes de confinamento, ou de apropriação exclusiva. Invenções não podem, por natureza, ser objeto de propriedade.” O mundo está mudando de maneira acelerada. Joseph Stiglitz e Bruce Greenwald trabalham com a visão de uma sociedade de aprendizagem (learning society). É neste contexto que devemos repensar os marcos de referência da educação.

Não há como definir claramente um novo modelo para este gigante que envolve cerca de um quarto da população mundial. Mas sim podemos elencar pontos de referência para as transformações em curso. O que hoje qualificamos de Quarta Revolução Industrial, é bem melhor qualificada, no meu entender, como sociedade do conhecimento, pois não é mais a indústria que está no centro, e sim uma nova forma de organização econômica, social e cultural centrada no conhecimento. 

O conhecimento como bem comum

O conceito chave aqui é commons, que aqui traduzimos como bens comuns: “Commons se tornou uma palavra de referência para informação digital, que estava sendo trancafiada (enclosed), transformada em commodity e patenteada de maneira abusiva (overpatented). Seja qual for a denominação utilizada, bens comuns ligados ao “digital,” “eletrônico,” “informação,”, “virtual,”, “comunicação,”, “intelectual,” “internet,” ou ouros, todos estes conceitos se referem a um novo território compartilhado de informação global distribuída” (4) A orientação básica deste novo território é o seu imenso potencial de apropriação generalizada: “Quanto mais pessoas compartilharem conhecimento útil, maior será o bem comum. Considerar o conhecimento como bem comum, portanto, sugere que o eixo unificador de todos os recursos comuns encontra-se no seu uso compartilhado, gerido por grupos de várias dimensões e interesses.”(Ostrom, pp. 4 e 5)

Além da empregabilidade

A tendência recente da visão neoliberal da educação tem sido de que a educação tem de ser paga pelo indivíduo, na linha de que constitui um investimento pessoal que será reembolsado pela inserção mais lucrativa no mercado de trabalho. A educação assim se transforma, em particular no ensino superior, na aquisição de habilidades comercializáveis (marketable skills). Isso tem se traduzido na eliminação de matérias de cultura geral, de ciências sociais, cultura, arte e semelhantes. Em particular fica de forma a compreensão de que os avanços sociais dependem não só da produtividade individual, mas sim da capacidade de organização social, o que envolve uma visão cidadã e uma compreensão das dinâmicas de uma sociedade democrática. Basta ver para isso o progresso conjunto das dinâmicas econômicas e da maturidade democrática nos países escandinavos. A transformação da educação em mercadoria, com os seus impactos em termos de aprofundamento de desigualdades e perda de produtividade sistêmica constitui sem dúvida uma regressão. (Busch)

Reforçar a dimensão pública

A dimensão pública é essencial, pois a educação como mercado leva naturalmente à luta pelos melhores alunos, pelas famílias mais ricas, aprofundando a desigualdade de oportunidades e as divisões sociais. No seu blog, Sahlberg traz aliás os resultados de um estudo da OCDE: “As evidências dos países da OCDE indicam que as políticas educacionais baseadas em mecanismos de mercado não constituem a melhor maneira de melhorar o desempenho educacional de um país. Conclusões semelhantes foram encontradas nas pesquisas nos EUA, no Chile, na Austrália e na Suécia onde as soluções baseadas em mercado foram experimentadas em reformas escolares em grande escala.” (Sahlberg, The Myth) Stiglitz e Greenwald reforçam isso no estudo básico Creating a Learning Society: “O governo tem uma responsabilidade de criar uma sociedade de aprendizado. Se entendemos o que é essa responsabilidade, e como melhor pode ser implementada, temos de entender porque é que os mercados por si só não funcionam, e como a inovação ocorre efetivamente na nossa sociedade.” (Stiglitz, p.21) Na realidade é o caráter universal e gratuito de educação pública que assegurar uma redução das desigualdades e o melhor equilíbrio de chances à partida.

A pedagogia da era do custo marginal zero

Segundo Jeremy Rifkin, “preparar os estudantes para uma era em que os mercados capitalistas jogam um papel secundário relativamente aos bens públicos colaborativos (Collaborative Commons) está abrindo caminho para repensar o próprio processo educativo. A pedagogia da aprendizagem está vivendo uma revisão radical. É o caso também da forma como a educação se financia e se produz. O fenômeno de custo marginal quase nulo penetrou profundamente no tecido da educação superior nos últimos anos com cursos abertos online tornando o custo marginal de se conseguir certificados universitários para quase zero para milhões de estudantes.” O autor considera que os professores estão evoluindo de lecionadores para facilitadores, pois transmitir conhecimento está se tornando menos importante do que criar habilidades de leitura crítica, com pensamento holístico, priorizando capacidade de pesquisa mais do que a memorização. (Rifkin, 109)

A importância do clima de liberdade e de respeito

Cada escola tem um clima, um tipo de tensão interna no conjunto dos relacionamentos. “Primeiro, escreve Sahlberg, os professores e estudantes precisam ensinar e aprender num ambiente que lhes permita dar o melhor de si. Quando os professores têm mais controle sobre o desenho do currículo, métodos de ensino, avaliação dos estudantes, ficam mais inspirados a ensinar do que quando são pressionados a preencher programas prescritos, e precisam se submeter a testes externos padronizados. Da mesma forma, quando os estudantes são encorajados a encontrar os seus próprios caminhos sem medo de falhar, a maioria irá estudar e aprender mais do que quando são empurrados a alcançar os mesmos padrões sob pressão de testes regulares.” (Sahlberg, 131) Na realidade, trata-se tanto do clima de liberdade que a escola precisa ter frente às pressões externas, aos controles ideológicos, às demandas exageradas de excelência em resultados quantificados.

Ensinar  honestamente os desafios e os rumos

A humanidade está à procura de rumos e de sentidos. Fazer de conta que esses problemas são para adultos, de preferência líderes corporativos e políticos, e que não devem ser abordados em sala de aula por seu caráter de tensão, não faz sentido. Temos uma grande necessidade de não tratar crianças como infantis, como quando se evitava de falar de sexo. Temos rumos, como a Agenda 2030 com os seus 17 objetivos e 169 metas, temos os acordos de Paris para enfrentar a crise climática – que recairá em cheio sobre esta geração que hoje formamos – temos documentos de ética como Laudato Sí do papa Francisco, a Declaração Universal dos Direitos da Humanidade e outros raros mas poderosos instrumentos que permitem que a nova geração entre na vida com uma razoável compreensão dos desafios, ameaças e oportunidades. (ONU, ODS)

Articulação dos espaços de construção de conhecimento

Hoje o jovem enfrenta um dilúvio de informações, no que tem sido inclusive estudado como “sobrecarga sensorial”. As famílias assistem em média cerca de 4 horas de televisão por dia. Os jovens dividem este espaço com mensagens nos computadores. Nas empresas, frente ao desajuste da formação escolar e à evolução das tecnologias, cada vez mais se recorre a cursos complementares de requalificação. Frente às múltiplas fontes de informação, a escola precisa evoluir no sentido de se tornar o espaço onde os diversos espaços e fontes possam ser discutidos, articulados, assimilados de maneira crítica, apropriados como conhecimento. Trata-se aqui de uma escola um pouco menos “lecionadora” e muito mais articuladora de informação e conhecimento, espaço onde do caos informativo possa emergir a compreensão. (Dowbor, Tecnologias, 2013)

A transição para a era digital

O conhecimento acumulado da humanidade está disponível online, gratuitamente na crescente maioria dos casos, envolvendo o planeta com sinais magnéticos que permitem o acesso instantâneo em qualquer parte, e seguramente por qualquer pessoa ou classe social no futuro próximo. O conhecimento prescinde de base material. Os alunos hoje se perguntam porque anotar no caderno o que o professor ensina, se está disponível na ponta do dedo no Google outra plataforma, a qualquer hora que precisar, e bem organizado. Grande parte dos professores ainda tem dificuldade em se situar nesse novo universo. As nossas teses e dissertações, que exigiram dos estudantes por vezes anos de trabalho, desaparecem nas bibliotecas. Ninguém ensina aos alunos como organizar a sua biblioteca e memoria científico-cultural por meio de sites ou de blogs. Ainda estamos na era do livro escolar que se joga fora com entusiasmo no dia seguinte da prova. Sequer os professores têm sistemas informatizados de bibliografia, rotinas de atualização científica online. (dowbor.org)

O protagonismo jovem

Acho mais importante pensarmos no fato que o sistema de pedágio atualmente adotado pelas grandes corporações da produção jornalística e cultural é que está levando ao surgimento de formas alternativas de organização. O drama mesmo, é que no sistema atual de financiamento publicitário de grandes corporações econômicas, ou de financiamento estatal destinado ao oligopólio da comunicação, sobra muito pouco para apoiar uma explosão de criatividade, sobre tudo no mundo jovem, que quer se manifestar, e vai inventar novas formas de organização e acesso. Com a possibilidade técnica de hoje jovens criarem jornalismo, filmes, cultura de modo geral não mais de forma apenas receptiva, mas como protagonistas abre-se um enorme potencial de aproveitar a criatividade represada pela enfoque geral de educação, cultura e ciência como processo passivo de armazenamento. (Pable Capilé e Bruno Torturra)

Reformar o papel da mídia

Não à toa a Unesco, com papel centrado na educação, publica uma excelente e sintética análise da concentração do controle da mídia no mundo, com a erosão da democracia que isto implica: uma sociedade desinformada ou manipulada fica desorientada. Como pode o jovem se orientar na hiato entre os feitos gloriosos ensinados sobre a história pátria, e a caótica e deformada realidade que encontra a cada dia, mas fora da escola, no universo cartelizado e controlado por interesses corporativos. Hoje 97% dos domicílios têm televisão, onde se martelam incessantemente mensagens ideológicas. Não à toa encontramos no documento da Unesco esta citação: ”O semanário britânico The Economist, por exemplo, tem chamado a mídia local brasileira de “mini-Berlusconis’”(p.13) A absurda solução buscada no Brasil, para evitar a leitura crítica da realidade, foi de proibir o uso nas escolas do que chamam de “política”. E no entanto, decodificar as leituras contraditórias do mundo é vital para que o jovem sinta que a escola tem utilidade, que contribui para a sua inserção inteligente no mundo. (Unesco, 2017)

Desintermediar a produção científica acadêmica

A universidade de Harvard solicita aos professores que não publiquem em revistas científicas que exigem pagamento dos leitores. A luta por livre acesso à produção científica está se intensificando. Robert Darnton, diretor da Biblioteca de Harvard, afirma em entrevista para o Guardian: “Espero que outras universidades tomem medidas semelhantes. Enfrentamos todos o mesmo paradoxo. Nos fazemos as pesquisas, escrevemos os artigos, avaliamos os artigos de outros pesquisadores, servimos em conselhos editoriais, tudo isso de graça…e então compramos de volta o resultado do nosso labor a preços escandalosos. O sistema é absurdo, e inflige terrível dano às bibliotecas. Um ano de assinatura do The Journal of Comparative Neurology nos custa o mesmo que 300 monografias. Simplesmente não podemos continuara a pagar os valores crescentes das subscrições. No longo prazo, a resposta será a publicação em regime de acesso aberto (open access), mas precisamos de um esforço concertado para atingir esse objetivo.” Nós ainda estamos na antiga fórmula da Capes em que para ser reconhecido o pesquisador precisa publicar em revistas AAA e se possível inernacionais. O processo interativo em rede de construção do conhecimento precisa de outra arquitetura organizacional. Na Grã-Bretanha Jimmy Wales, criador da Wikipedia, está construindo para o governo um sistema de acesso aberto online a toda a produção científica que tenha algum recurso público.(Guardian)

Repensar as bibliotecas das escolas e universidades

A biblioteca escolar ou universitária vista apenas como depósito de livros está perdendo sentido, visão desenvolvida no livro de Elinor Ostrom e Charlotte Hesse. Por uma lado, gastar rios de dinheiro com publicações periódicas caríssimas não faz muito sentido, na medida em que os autores mais significativos estão passando a publicar online em regime de acesso aberto. Continua sendo, sem dúvida, assegurar o acesso a livros importantes, os chamados long readers¸ livros que não se desatualizam, e serão utilizados por gerações de alunos. Mas a tendência mais importante está sendo no serviço bibliotecário que vai além da classificação e controle de circulação de volumes, para assegurar de presencial ou a distância apoio técnico de pesquisa online do acervo científico e cultural do planeta. Neste sentido a biblioteca se torna um nodo de conexão interuniversitária e interinstitucional, assegurando maior agilidade e precisão de pesquisa de acervos científicos.  (Ostrom)

Contatos com a realidade e elaboração teórica

Os dois principais espaços de construção de conhecimento são o sistema educacional e o espaço de trabalho. Não tem sentido o sistema atual em que um jovem atinge 18 anos apenas estudando em livros como é a realidade e quais são os instrumentos de conhecimento, para cair de repente despreparado no universo profissional realmente existente. É elementar organizar, por exemplo no ensino médio, visitas regulares a diversas instituições como um hospital, uma organização não governamental, uma fábrica de autopeças, uma repartição municipal, uma universidade. Razão a mais para fazê-lo no nível superior de ensino. A cidade de Portland, por exemplo, no estado de Oregon nos Estados Unidos, faz dessa articulação entre redes de ensino e as instituições onde os conhecimentos são aplicados uma atividade regular, com trabalhos de campo, análise e elaboração de projetos. Na universidade, inclusive, os TCCs constituem projetos elaborados para instituições públicas e privadas da cidade. A elevação do nível científico tecnológico é vista como um processo sinérgico que envolve o conjunto das instituições. Busca-se uma arquitetura organizacional que facilite e dinamize esse enriquecimento. (Stiglitz, p. 50)

A construção de parcerias

Todo o sistema de ensino precisa ser visto no contexto de uma sociedade em rede, buscando a colaboração e interação na construção e circulação do conhecimento. Isto facilita em particular a inserção comunitária, e o aproveitamento dos avanços em diferentes centros de pesquisa. As escolas secundárias, em particular, e as universidades e faculdades regionais têm tudo a ganhar com parcerias com secretarias municipais, empresas locais, centros de pesquisa na região, autarquias, de forma que os estudos por parte dos alunos tenham vinculação com as necessidades da região. A facilidade de contatos permite hoje escolas numa região fazerem intercâmbio de professores, atividades extracurriculares diversas que equilibrem o conhecimento teórico ensinado e as suas aplicações em instituições que o utilizam. (Martino)

Educação continuada

Os conhecimentos adquiridos hoje são cada vez mais sujeitos à obsolescência, pelo próprio ritmo de introdução de novas tecnologias, transformação das profissões, tanto com mudanças nos procedimentos e equipamentos, como com o desaparecimento de profissões em geral. Hoje, por exemplo, é natural uma pessoa já com bom tempo de emprego precisar de uma requalificação, ou de complementos de formação. Neste sentido seria importante as instituições de ensino, em particular as faculdades e centros de formação profissional como ETECs, FATECs e semelhantes, assegurarem que ex-alunos voltem para complementos de formação. O aluno deixa aqui de ser uma pessoa que transitou por um curso, e passa a participar de uma rede de ex-alunos que teriam sempre vagas onde já tinham estudado, podendo consultar online os professores, as bibliotecas. Voltamos aqui à imagem de uma escola mais articuladora do conhecimento numa região, numa cidade, do que propriamente lecionadora e fornecedora de diplomas.

Trabalho por problemas mais do que por disciplinas

O foco geral de ensino de conhecimentos básicos, divididos em disciplinas, está sendo complementado por um enfoque de trabalho por problemas, cuja solução pede capacidades de cruzar diversos tipos de conhecimentos, busca de conhecimentos complementares, uso de diversos instrumentos de pesquisa online e assim por diante. Adquirem-se assim as capacidades fundamentais de cruzar os diversos conhecimentos adquiridos, de articular diversas áreas, na busca de soluções. Este procedimento, já amplamente utilizado em escolas mais avançadas, estimula muito os alunos, desafia a sua criatividade, e permite desenvolver a inteligência operacional. (Sahlberg,  Finnish)

O ensino da economia

Hoje qualquer atividade envolve uso de recursos financeiros. Não entender com funcionam os juros compostos, as tarifas no uso do cartão, os mecanismos do endividamento, as formas de se buscar construir o patrimônio familiar é simplesmente absurdo. Não à toa surgem por toda parte empresas de aconselhamento financeiro. Ninguém entende sequer a diferença entre a dívida pública e o endividamento privado. Isto permite hoje os absurdos de juros de 100 por cento sobre compras a prazo, ou mais de 400 por cento sobre rotativo no cartão. Em 2017 61 milhões de adultos, mais de 40 por cento, estão “negativados”, têm o chamado “nome sujo”. Estudar Dona Joaquina mas não ter nenhuma aula sobre como funciona o dinheiro é absurdo, faz parte da desconexão da educação com os conhecimentos necessários à inserção na vida adulta.

A matemática é uma ferramenta

Para mim é uma evidência sugerir que uma parte dos estudos de matemática seja dada conjuntamente pelo professor de geografia e o de matemática, ajudando a medir espaço, distâncias. Outra parte associando matemática e história, aprendendo a medir o tempo. Outra ainda com português, mostrando como se pode aplicar matemática à análise estatística de texto. Ou discutir na aula de ciências sociais o uso de estatística descritiva para medir o crescimento demográfico, taxas de urbanização etc. Na formulação de Devlin, “a matemática escolar parece ensinar as pessoas a enfrentar testes de matemática escolar, mas não lhes ensina como resolver problemas reais da vida que envolvem matemática.”(Devlin, p.188)

O sistema de suporte institucional

Hoje as superestruturas administrativas desenvolveram sem dúvida capacidades de controle, de avaliação de desempenho escolar, de classificação das instituições, mas criaram muito pouca capacidade de suporte institucional, tanto em termos de modernização das bibliotecas para a era digital, como de fornecimento de materiais de ensino sob forma de documentários, entrevistas online, sistemas de requalificação de professores e assim por diante. Entre o professor sobrecarregado e preso no ritmo de um currículo fechado que tem de ensinar, e uma diretoria assoberbada com problemas administrativos, sobre muito pouco tempo para uma didática criativa. Ensinar um pouco menos, mas investir mais tempo em organizar como ensinamos é fundamental.

Rever o sistema de contratação de manuais escolares

Sabemos que a edição, e impressão e distribuição de centenas de milhões de manuais escolares para alunos e estudantes de todo o país tornou-se uma grande indústria, controlada por meia dúzia de editoras basicamente em São Paulo. Impressos no Sudeste, estes livros são enviados para todo o Brasil, com grandes custos de transporte e excessiva padronização, além de frequentes erros. O correto é o ministério não fazer a compra de livros, mas adquirir diretamente dos autores os direitos sobre a obra, o que permite a distribuição online, e a consequente facilidade de corretas e atualizações, além de deixar os Estados e municípios maiores assegurarem localmente a eventual impressão. Isso permitiria igualmente fazer uma variação de materiais em função de diferenças regionais. Experiências de professores que recebem um sabático para elaborar junto com alunos manuais mais adequados aos seus interesses têm dado ótimos resultados. A indústria do manual escolar pode se transformar em instrumento pedagógico.

Blogs de professores

De forma geral o nosso sistema educacional está sofrendo imensa lentidão na necessária transição da era analógica  para a era digital. Poucos professores disponibilizam as suas pesquisas e trabalhos online, os manuais estão disponíveis apenas em papel, as bibliografias pouco acessíveis. A experiência do blog http://dowbor.org em mais de 20 anos de funcionamento, mostra que um professor pode organizar e disponibilizar uma biblioteca científica virtual que torna transparente a sua carreira de educador. Para o professor, a facilidade de acesso a trabalhos lidos e anotados ao longo dos anos significa ter uma memória da sua própria evolução, sem precisar procurar em pastas e gavetas um artigo perdido. Há um imenso ganho de produtividade com técnicas simples. Além disso, esta biblioteca virtual que melhora a sua produtividade torna-se ao mesmo tempo um instrumento de trabalho para quem realiza pesquisas. O professor passa a existir no imenso universo de construção interativa do conhecimento. Cada um de nós é uma biblioteca interativa. (Dowbor, 2017)

***

Um universo da complexidade e amplitude como é o da educação não parará de funcionar de uma maneira para obedecer a outra lógica. A centralidade do conhecimento em todas as atividades modernas, a gratuidade do acesso, a conectividade instantânea e gratuita entre as mais diversas instituições – sejam elas escolas, universidades, empresas, movimentos sociais ou vizinhanças – permitindo articulações em rede, tudo isso muda a base sobre a qual o universo educacional está assentado. Por pressão ideológica dos meios comerciais, a tendência é transformar tudo em negócio, privatizando o sistema, endividando os alunos, extirpando qualquer reflexão sobre como funciona o próprio sistema, fazendo avaliação de qualidade como se faz com qualquer produto comercial.

Em termos práticos, isto não está dando certo. Aprofunda as desigualdades, e fragiliza a própria dinâmica de liberdade e dignidade associada à construção de conhecimento. Onde funciona, a educação está tomando o caminho da universalização do ensino público e gratuito, considerando uma juventude bem formada como um investimento da sociedade no seu próprio futuro, e não um bom ou mau negócio em termos de resultados individuais. Basta ver como funciona nos países mais avançados em termos de resultados. E mesmo nos Estados Unidos, quando vemos as instituições universitárias de primeira linha, são fundações sem fins lucrativos. A educação não produz enlatados, a não ser quando se trata dos grupos cotados em bolsa e que transformaram a universidade em indústria de diplomas e de cobrança de dívidas.

 

Bibliografia

Busch, Lawrence – Knowledge for sale: the neoliberal takeover of higher education – MIT Press, 2017

Capilé, Pable, e Bruno Torurra – III Fórum da Mídia Livre – 2012 – http://dowbor.org/2013/09/ladislau-dowbor-redes-culturais-desafio-a-velha-industria-da-cultura-setembro-20136p.html/

Devlin, Keith – The Math Instinct – Thunder’s Mouth Press, New York, 2005 http://dowbor.org/2005/05/the-math-instinct-o-instinto-matematico-em-portugues-o-gene-matematico-editora-record.html

Dowbor, Ladislau – Da propriedade intelectual à economia do conhecimento – 2009 – http://dowbor.org/2009/11/da-propriedade-intelectual-a-economia-do-conhecimento-outubro.html/

Dowbor, Ladislau – Ciência Livre: vale a pena o professor criar o seu blog –  2017 – http://dowbor.org/2013/11/ladislau-dowbor-ciencia-livre-vale-a-pena-um-professor-criar-o-seu-blog-novembro-2013-4p.html/

Dowbor, Ladislau – Tecnologias do conhecimento: os desafios da educação – Ed. Vozes, Petrópolis, 2013 – Disponível online em http://dowbor.org/principais-livros/

Economist – Time to fix patents: ideas fuel the economy. Today’s patent systems are a rotten way of rewarding them – The Economist, 08.08.2015 – http://dowbor.org/2015/08/14927.html/

Guardian – Harvard University says it can’t afford to pay publisher’s prices – 2012 – http://dowbor.org/2012/05/a-luta-pela-desintermediacao-da-ciencia-e-do-conhecimento-primavera-dos-cientistas.html/ ; ver também a iniciativa com Jimmy Wales em https://www.theguardian.com/technology/2012/may/01/wikipedia-research-jimmy-wales-online

Larivière V, Haustein S, Mongeon P (2015) The Oligopoly of Academic Publishers in the Digital Era. PLoS ONE 10(6): e0127502. doi:10.1371/journal.pone.0127502 http://dowbor.org/blog/wp-content/uploads/2016/02/journal.pone_.01275021.pdf

Martino, Mariluci Alves – A importância das parcerias na educação profissional – São Paulo, Centro Paula Souza, 2011

Ostrom, Elinor e Charlotte Hess – Understanding knowledge as a commons – Cambridge, MIT Press, Cambridge, 2007

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