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Hudson, Michael – Killing the Host: how financial parasites and debt destroy the global economy –  Islet, Baskerville, 2015 – www.michael-hudson.com

O livro de Michael Hudson, Killing the Host (matando o hospedeiro), constitui uma análise de primeira linha sobre os sistemas financeiros dos Estados Unidos e de outros países, e com um enfoque que fica claro desde o próprio subtítulo: Como parasitas financeiros e a dívida destroem a economia global. Somando-se aos estudos recentes de Ellen Brown, de Epstein e Montecino, bem como de Joseph Stiglitz, esta pesquisa nos permite entender esta estranha arquitetura que o capitalismo financeiro gerou no nível planetário. E como Hudson analisa os formatos de enraizamento e apropriação do poder que os sistemas financeiros adotam nos diversos países, começamos entender este animal estranho em que o global não está “lá fora”, mas dentro das dinâmicas nacionais. E não há como não ficar impressionado com a semelhança do modelo financeiro imposto à sociedade americana com os nossos próprios dramas.

“Ao que os críticos dos gastos do governo querem realmente se opor, é o financiamento público, a partir do orçamento geral, inclusive com os impostos progressivos pagos pelas classes mais ricas, da Seguridade Social, do Medicare e outros programas sociais. A hipocrisia torna-se aparente quando Wall Street tece loas à geração da dívida quando os governos criam moeda para salvar bancos.” (p.187) Aqui no Brasil, naturalmente, não é para salvar os bancos, mas para alimentá-los, mas o processo é o mesmo. No Brasil por meio da absurda taxa de juros sobre a dívida pública, lá por meio do Quantitative Easing (QE); aqui atacando a previdência, ali desmontando o Obamacare.

Os impactos para a sociedade são igualmente paralelos: “A classe média está sendo esmagada enquanto os mercados estão encolhendo. O resultado é a austeridade pós-2008. O pagamento das dívidas está sendo extraído à força (squeezed out) por meio das dívidas imobiliárias, dos empréstimos para estudantes e dívidas do cartão de crédito. Os salários reais e os ‘mercados’ estagnam porque os consumidores ficam com pouco para gastar depois de pagarem uma mais ampla proporção da sua renda no serviço da dívida.” (p.186) Quais são os volumes de recursos? Como ordem de grandeza, ainda que contribuindo com menos de 10% do valor agregado da economia, “em meados de 2013 a parte do sistema bancário nos lucros corporativos tinha atingido 42%.”(p.194) A participação em mais de 40% dos lucros enquanto contribui menos de 10% de valor que extrai dá uma ideia do domínio financeiro sobre o conjunto dos processos produtivos, mas sobretudo explicita o fato do sistema financeiro drenar, e não financiar, a economia.

A série pesquisada nos EUA desde 1947 mostra que, naquele ano, a parte dos bancos nos lucros corporativos era de 11%.[1] Ao aumento radical da participação dos banqueiros nos lucros corporativos corresponde a redução dos salários no bolo econômico, mas também a dificuldade das empresas da economia real. O sistema se transformou num gigantesco aspirador de recursos para o topo da pirâmide. O que acontece não é o trickling down tão proclamado, mas um caudaloso trickling up. Hudson coloca com toda clareza o travamento da economia pelas diversas formas de endividamento: “Pagar as dívidas imobiliárias, empréstimos estudantis, dívidas no cartão de crédito, dívidas empresariais, dívidas de governos estaduais, locais e federal, tudo isto transfere renda e cada vez mais propriedade para banqueiros e donos de títulos (bond holders). Esta “deflação por endividamento” (debt deflation) trava o crescimento econômico ao encolher os gastos em bens e serviços e, em consequência, em novos investimentos em capital e emprego.”(p.266)

Aparece aqui com força o endividamento como mecanismo complementar, mas essencial, de apropriação da mais valia proveniente dos produtores. “A demanda dos consumidores se deteriora na medida em que a renda é desviada para o serviço da dívida.” (p.266) O assalariado pode até conseguir um aumento, mas se os juros sobem mais, a sua capacidade aquisitiva real irá diminuir.

Como foi possível se instalar silenciosamente esta gigantesca forma de exploração? No estilo direto de Hudson: “Somos trazidos de volta ao fato que na natureza biológica os parasitas produzem uma enzima que seda a percepção do hospedeiro de que está sendo dominado por um “carona” (free luncher). Nas economias financeirizadas atuais a enzima consiste em péssima ciência econômica (junk economics).” Em termos de junk economics, basta lembrar o fantástico conto da dona de casa que economistas sérios (no sentido de reputados sérios) proclamam. Transferem dinheiro das políticas sociais, que serviria à população, para aumentar o pagamento das dívidas, que serve aos banqueiros. Aumentam o déficit e se dizem, com seriedade e óculos de economistas, que se trata do que uma boa dona de casa faria.[2] Deixemos aqui de lado o insulto que isto representa para as donas de casa.

O eixo geral do estudo de Hudson vai no sentido do resgate do controle do sistema financeiro. No caso dos Estados Unidos, “somente um governo suficientemente forte para taxar e regular Wall Street pode controlar a atual captura de poder financeiro e rentista.” (p.267). Em 1999 nos Estados Unidos revogaram a lei Glass-Steagall que regulava o sistema financeiro. No Brasil, no mesmo ano, foi revogado o artigo 192º que regulava o sistema financeiro nacional. Resultado: a liberdade dos bancos de cobrarem o que querem no Brasil faz com que a lógica financeira absorva, numa dinâmica deformada especulativa, qualquer subsídio, isenção, transferência ou outro privilégio concedido às empresas produtivas.

É impressionante o paralelo entre as tentativas do governo brasileiro tentar subsidiar setores produtivos em dificuldades, e iniciativas semelhantes nos EUA: “O novo dinheiro fácil não foi “investido na economia” financiando serviços públicos ou investindo em infraestruturas públicas. Não foi dado a donos de casas ou usado para aliviar a dívida. Em vez disso, o Federal Reserve forneceu crédito aos bancos de Wall Street a taxas de juro próximas de zero no quadro do Quantitative Easing (QE). A desculpa era que os bancos iriam emprestar este dinheiro para reativar a economia. O crédito bancário foi apresentado como mais eficiente que o gasto dos burocratas do governo – como se todo gasto público fosse simplesmente uma perda. Esta lógica enganosa provou ser completamente falsa, e de fato, uma inversão deliberada quanto a onde o crédito bancário realmente vai e em que será gasto.” (p.263)

Estamos falando aqui de 4 trilhões de dólares nos Estados Unidos, e de 1 trilhão de euros na Europa, a título de subsídios, “para ajudar a camada no topo da pirâmide econômica, não para reduzir ou cancelar (write down) dívidas ou reativar a economia real por meio de gastos públicos. Este enorme ato de criação de moeda podia ter permitido aos devedores se liberarem da dívida para que possam recomeçar a gastar para manter o fluxo circular de produção e consumo se movendo. Em vez disto, os governos deixaram a economia atolada em dívidas, criando moeda apenas para dá-la às instituições financeiras.” (p.178)

O impacto esclarecedor do livro de Hudson é, em grande parte, ligado ao fato de ele ter trabalhado na área – nenhum desses mecanismos é ensinado nas universidades – e, em particular, por ele ter se debruçado sobre o conjunto dos subsistemas de apropriação de excedente social. Títulos de dívida pública, ações, patentes, seguros, especulação imobiliária, oligopólios, apropriação de recursos naturais, sistemas de atravessadores comerciais, evasão fiscal e os mais diversos sistemas para-legais ou ilegais envolvendo o sistema financeiro realmente existente contribuem, todos, para a formação de uma classe rentista cujos interesses são profundamente divorciados do progresso real das populações e da sustentabilidade. Nem os planos privados de saúde escapam. Uma belíssima leitura, para dizer e explicar verdades que não necessitam de equações, bastando números e bom senso.

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[1] Hudson, p. 194. Ver Richard Eskow, The ‘bankization’ of America – Common Dreams, August 16, 2013, http://www.commondreams.org/views/2013/08/16/bankization-america

[2] Uma impressionante síntese do junk economics pode ser encontrada na página 177 e seguintes, “how junk economics paved the way for 2008.” Ver também M. Hudson, J is for Junk Economics,  Islet, 2017