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Joris Luyendijk – Swimming with sharks : my journey into the world of the bankers – Guardian Books, London, 2015 ISBN 978-1-78335-064-3

Ladislau Dowbor
03.12.2016

 

O livro do Luyendijk realiza uma façanha impressionante. Consegue que você – sim você – entenda como funciona o sistema financeiro. O autor foi convidado pelo Guardian para escrever um livro que as pessoas possam ler e entender sem sofrimento. A vantagem de Luyendijk é que não entendia do assunto, e alerta logo no início o leitor de que vai proceder passo a passo na construção da pesquisa: você o acompanha, de capítulo em capítulo, conforme vai construindo o conhecimento que ele próprio ganha. Francamente, é um passeio. E como você, como tantos outros infelizes, está atolado neste sistema, por uma vez vale a pena. Desta vez, vai ser um investimento que rende de verdade. A partir da análise de como funciona o segundo centro financeiro do planeta, a City de Londres, Luyendijk desvenda as regras do jogo.

Primeiro ponto, a zona é geral. Não se espante, pois estão respondendo por fraudes monumentais o Deutsche Bank, HSBC, Barclays e qualquer um dos grandes que você consiga imaginar. E 7 anos depois da falência da Lehman Brothers, estamos na mesma, esperando a próxima. A lógica é simples: “O fato é que os megabancos e instituições financeiras enormes operam globalmente, dizem os políticos desta escola, enquanto a política e as regras do jogo são organizadas no nível nacional ou no melhor dos casos em continentes ou blocos. As instituições financeiras podem jogar países ou blocos de países uns contra os outros, e o fazem, sem vergonha nenhuma (shamelessly).” 258 Ou seja, regulação dispersa e fragmentada em cerca de 200 países e respectivos bancos centrais, enquanto os gigantes financeiros navegam no planeta. É a era do vale tudo.

Segundo, esta alta finança tem tudo a ver com você, pois queira ou não, você maneja um cartão de crédito, está pagando as prestações de uma casa ou de uma compra comercial, tem dinheiro aplicado, ou simplesmente não entende como um banco pode cobrar 633,21% no rotativo do cartão (caso do Santander no Brasil). Milhões de americanos estão indignados com o fato de serem taxados sobre uma segunda conta aberta nos seus nomes pela Wells Fargo, outro gigante. “No caso dos escândalos Libor e FX, traders nos grandes bancos e casas de corretagem manipulava, taxas cruciais de juros e de câmbio para ganhos pessoais durante anos e anos.”(234) A importância disto? “O mundo da finança não é alguma terra distante que possa ser ignorada com segurança. Se o dinheiro é para a sociedade o que o sangue é para o corpo, então o setor financeiro é o coração.” 261

A ética no processo? “Na City, você não pergunta se uma proposta é moralmente certa ou errada. Você examina o grau de ‘risco de reputação’. Usando brechas no código fiscal para ajudar grandes corporações e famílias ricas na evasão fiscal é “otimização tributária”, por meio de “estruturas fiscalmente eficientes”. Advogados financeiros e reguladores que aceitam qualquer coisa que você proponha são “business-friendly”, casos de fraude comprovada ou abuso passam a se chamar ‘mis-selling’, e explorar inconsistências entre os sistemas reguladores de dois países constitui ‘regulatory arbitrage’”.106 Nas sucessivas entrevistas, os homens das finanças preferiam dizer que não são imorais, apenas amorais. ‘Bem vindo ao mundo da finança globalizada”, escreve o autor. (109)

Os economistas não deveriam estar explicando como este sistema funciona? “Levei meses para me dar conta da arquitetura e da cultura dos bancos de investimento, e o que me surpreendeu foi o quão pouco os economistas ajudam – o próprio segmento de expertos que você imaginaria que poderiam trazer luz para o mundo da alta finança. No entanto, economistas não fazer trabalho de campo.” (45) O livro do Luyendijk tem esta força: entrar nas instituições, conversar, entrevistar, checar, inserir-se neste mundo, ouvir queixas bêbadas e indignações morais. Se lê como filme, você entra neste mundo. E finalmente você entende porque os clientes são chamados, internamente, de muppets.

Uma visão interessante apresentada é que essas instituições são “grandes demais para saber o que está acontecendo” (too big to know what’s going on): “Em muitos bancos, os escritórios de frente, do meio e de retaguarda obedecem a sistemas diferentes em diferentes países…os leitores ficariam chocados em saber a desgraça que são (just how crap) os sistemas de tecnologia da informação em muitos bancos bem como nas corporações e ministérios de governo”. (141) Na realidade, os gigantes corporativos financeiros deixam muito pouco a desejar à burocracia estatal. Pior, nem mesmo os sistemas internos legalmente exigidos (os departamentos de “compliance”) entendem o que acontece. (132) Apresentamos este caos interno e perda de racionalidade ao apresentar as pesquisas de Lumsdaine e outros no artigo Governança Corporativa (http://dowbor.org/2016/09/ladislau-dowbor-o-caotico-poder-dos-gigantes-financeiros-novembro-2015-16p.html/ )

Esta proximidade com os sistemas burocráticos do Estado não são apenas semelhanças. O autor trabalha a captura do poder: “No decorrer das últimas décadas, os partidos políticos mainstream bem como os reguladores passaram a se identificar com o setor financeiro e a sua gente. O termo aqui é ‘captura’, uma forma de comportamento de manada cognitiva…a captura é mais sútil e já não requer a transferência de fundos, pois o político, o acadêmico ou o regulador começaram a acreditar que o mundo funciona do modo que os banqueiros dizem que funciona”.(257) Estamos aqui no universo que conhecemos bem: “Na América, na França e no Reino Unido, a lei permite que bancos e banqueiros comprem poder político – processo conhecido em outro exemplos de linguagem obscurecida como “doações de campanhas” em vez de “corrupção”.(256)

Medidas? “Isto requer leis melhores e não seria difícil ver quais quatro mudanças essas leis devem realizar. Antes de tudo, os bancos precisam ser divididos em unidades menores de forma que deixem de ser grandes demais ou complexos de mais para quebrar, e isto significa que já não poderiam mais nos chantagear. Os bancos não deveriam ter sob o mesmo teto atividades que geram conflitos de interesses, como trading, gestão de patrimônio e negociação, atividades de banco de correntistas, e atividades de banco de investimento de maior risco. Em terceiro lugar os bancos não deveriam ser autorizados a construir, vender ou ser proprietários de produtos financeiros excessivamente complexos, de forma que os clientes possam compreender o que estão comprando e os investidores possam entender a contabilidade dos bancos. Finalmente, os bônus mas também as críticas deveriam cair sobre as mesmas cabeças, ou seja, ninguém deveria ter mais razão de ficar acordado a noite se preocupando com os riscos para o capital do banco ou a sua reputação, do que os banqueiros que que tomam estes riscos.”(254)

Isto, conclui o autor, “não é rocket science,  e poderia se esperar de todos os principais partidos políticos em todas as democracias do ocidente que busquem a visão de um sistema financeiro estável e produtivo.”(254)

Ler um livro tão explícito e divertido sobre como somos depenados, seria inútil se na realidade não houvesse a impressionante competência do Joris de fazer o seu trabalho: jornalismo investigativo. E não esperem este tipo de clareza e de qualidade de escrita por parte de um economista.