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Dom Paulo: humanismo e coragem

Ladislau Dowbor
14 de dezembro de 2016

Há homens que se distinguem pela coerência e pelo humanismo. E ambos se testam em momentos quando as pressões são fortes, e seria mais fácil fechar os olhos. Os meus caminhos se cruzaram com Dom Paulo em três circunstâncias, e sobre elas gostaria de deixar aqui o meu depoimento.

Em 1970, fui preso por uma equipe da Operação Bandeirantes. Como integrante de um grupo de luta armada contra a ditadura, tive direito ao tratamento completo durante várias semanas. Deixem me dizer que considero plenamente legítimo participar de um movimento mesmo armado, quando se trata de se opor a uma ditadura militar, que não tem outra legitimidade senão a força das armas. E francamente, éramos poucos e frágeis frente ao poderio militar. Mas há coisas, como os próprios assassinatos e tortura, que não se aceitam.  É significativo que hoje os responsáveis das violências na época mentem e se escondem, enquanto os que atuaram na luta pela redemocratização do país reivindicam com clareza e dignidade a sua participação.

Depois de várias semanas, fui transferido para o DOPS, sendo interrogado por diversas equipes que vinham a São Paulo. Um dia tirado da cela para encontrar uma visita familiar. Me levaram para uma salinha, e vi entrar o meu cunhado, que morava no Canadá, casado com a minha irmã. Pudemos conversar alguns minutos, em duas cadeiras frente a frente, com um membro da repressão de cada lado, quatro cadeiras coladas. Advertiram que não podíamos trocar nenhuma palavra que não fosse em português. Trocamos algumas frases, ele viu o sangue que escorria pelo meu tornozelo, pois eu estava de chinelo, e vieram-lhe lágrimas aos olhos. Logo depois foi levado embora, e eu voltei para a minha cela.

Levou tempo para eu, depois de libertado, juntar as peças. Através de contatos que desconheço, Dom Paulo veio a saber da minha prisão, até então não declarada, pois como preso clandestino podiam me eliminar sem se responsabilizar. Através do núncio apostólico do Canadá, entraram em contato com a minha irmã, e conseguiram que o meu cunhado viesse me ver. Tive depois o relato da confusão que se gerou no próprio aparato repressivo, pois do momento que uma pessoa de fora tinha tido um contato formal comigo, a minha prisão ficava oficializada, dificultando a minha eliminação.

E vim a entender também o interesse dos policiais em permitir o contato: achavam que eu controlava o dinheiro do meu grupo político, e que eu iria passar os dados para o meu cunhado, onde a absurda conversa com dois policiais, um de cada lado, colados na nossa curta conversa. Na realidade, estou convencido que hoje estou vivo graças a este discreto e arriscado trabalho em rede que se constituiu, buscando salvar pessoas das mais variadas formas, trabalho muitas vezes anônimo, cada um contribuindo da forma que podia. Mas visto hoje, está claro que a atividade da igreja e de Dom Paulo em particular para salvar pessoas era uma caminhada arriscada no fio da navalha, no limite das imprevisíveis reações do sistema repressivo.

Uma segunda ocasião em que pude ficar grato a Dom Paulo, foi com a minha entrada PUC de São Paulo, como professor. A PUC se tornara um abrigo para muitos professores perseguidos por serem de cabeça um pouco mais aberta, ou porque não toleravam a ditadura instalada. Inúmeros foram expulsos das suas universidades, em particular da USP, sob pretexto de serem subversivos, comunistas ou terroristas, no jargão da época. A realidade é que a PUC foi a instituição, por decisão de Dom Paulo, que acolheu estes professores, apesar de todas as pressões dos militares.

O resultado é que fui aceito de braços abertos, em 1981, já após a anistia, ao voltar do exílio, numa universidade onde trabalhavam Paul Singer, Florestan Fernandes, Francisco de Oliveira, Paulo Freire e muitos outros grandes nomes que tanto contribuíram para manter viva uma ciência contestadora dos rumos que o país tomou durante a ditadura. É bom lembrar que Paulo Freire fora preso por alfabetizar os pobres de Pernambuco, o que dá uma medida do absurdo a que chegava a ditadura. É bom lembrar ainda que todas estas pessoas, aqui qualificadas de terroristas, quando exiladas foram recrutadas por universidades de primeira linha inclusive nos Estados Unidos.

No meu caso, eu que já tinha quatro diplomas universitários recebidos na Suíça e na Polônia, e que tinha sido consultor do Secretário Geral das Nações Unidas, fui impedido de trabalhar em universidades oficiais pois o Ministério da Educação se recusou a reconhecer os meus diplomas, por pressão do então SNI. Formalmente, no Brasil, eu era um secundarista. Levei sete anos para em 1988 ter o meu diploma revalidado. A PUC foi a única instituição a me contratar em 1981 sem que eu pudesse formalmente apresentar as minhas qualificações acadêmicas. Pediram a Paul Singer que lesse a minha tese de doutorado, e o seu parecer científico favorável foi o suficiente. Na realidade, o aporte de Dom Paulo nesta área, é que um conjunto de professores que mantinham a chama acesa da contestação puderam manter a liberdade de dizer o que pensam, e transmitir outro tipo de conhecimentos que eram proibidos tanto em outras universidades como na mídia.

Uma terceira ocasião em que pude cruzar, não diretamente, mas pelo impacto das suas iniciativas, com Dom Paulo, foi no meu trabalho para a agência da Unicef, em uma série de missões no Panamá, na África do Sul recém libertada, na Guatemala, Nicarágua e outros países. Neste caso me tornei propagador de uma das iniciativas mais importantes que se constituiu para a proteção da infância, a Pastoral da Criança, hoje um gigante que envolve centenas de milhares de pessoas, e se tornou responsável por grande parte da queda da mortalidade infantil tanto no Brasil como em uma série de países da América Latina e da África. Foi ajudando a implementar políticas para proteção de infância de risco em diversas regiões, que me dei conta a que ponto as políticas sociais têm a ganhar quando as políticas públicas não substituem as de organizações da sociedade civil, mas aproveitam a sua capilaridade e inserção social para se tornarem mais produtivas.

Destas atividades iria resultar, em grande parte, a minha visão hoje da importância das políticas participativas para o desenvolvimento. Como economista que sou, ver os impressionantes avanços que se conseguiu com a Pastoral, mas também com outras iniciativas como o movimento Um Milhão de Cisternas no Nordeste através da ASA (Articulação do Semi-Árido), e de inúmeras organizações em que as comunidades tomam de certa forma em suas mãos o seu próprio desenvolvimento, é um ensinamento permanente.

Na realidade, mesmo nas condições mais difíceis, é vital a presença de pessoas que não se dobram, mantêm a dignidade, asseguram a sua solidariedade ainda que enfrentando os riscos. Eu, francamente, acho que Dom Paulo foi uma pessoa feliz.