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Ladislau Dowbor
12 de setembro de 2016

Arun Sundararajan publica uma das melhores análises abrangentes da economia do compartilhamento, The Sharing Economy, livro tão essencial para entender as novas dinâmicas como por exemplo A sociedade de custo marginal zero de Jeremy Rifkin. A internet das coisas constitui em geral uma atividade comercial que aproveita a conectividade ampla das pessoas e agentes econômicos, com uma grande variedade de arquiteturas organizacionais. A grande vantagem aqui é que o autor sistematiza de forma muito legível o que são as atividades, os desafios econômicos, culturais e legais, os impactos no emprego, as formas de regulação. O fato de dar numerosos exemplos explicando como funcionam ajuda muito.

Sundararajan apresenta sumariamente as variedades desta nova forma de organização econômica: “Nossa pesquisa sugere amplas variações em diversas plataformas. Muitas se parecem com mercados que facilitam o empreendimento, enquanto outras se parecem mais como hierarquias que empregam contratantes. Junto com Airbnb, Etsy, e BlaBlaCar, plataformas de trabalho como Upwork e Thumbtack, plataformas de refeições sociais como VizEat e Eatwith, a plataforma de trocas de guias de tours  como Vayable (fundado pelo pioneiro da economia compartilhada Jamie Wong) são claramente mais do tipo “mercado”, plataformas de passageiros como Lyft e Uber estão em algum lugar no meio, enquanto plataformas  centradas em serviços ou trabalho como Luxe, Postmates e Universal Avenue se parecem mais com  hierarquias do que a média das plataformas de economia compartilhada.” (Sundararajan, 77)

A conectividade aqui é vital. Na economia do conhecimento podemos, por exemplo através da Wikipédia, transformar em enriquecimento social o capital parado de conhecimento que as pessoas têm na cabeça. No caso do sistema financeiro, esta mesma conectividade permite por meio de plataformas apropriadas desintermediar o crédito, pondo diretamente em contato quem tem dinheiro parado e quem dele precisa. Aqui também estamos falando de capital subutilizado, mas de bens materiais ou de trabalho de pessoas. É a internet das coisas.

O carro é um exemplo interessante. Os carros particulares são utilizados uma hora por dia na média, o que significa apenas 4% do seu potencial de transporte. Como ademais circulam com uma média de 1,3 passageiros, ainda que tenham espaço para 5, no total estamos utilizando algo como 1% da capacidade deste capital imobilizado durante horas seja parado no nosso local do trabalho, seja ocupando nossa garagem, seja entulhando as ruas, ou ainda simplesmente imobilizado no trânsito. Hoje temos edifícios residências na Suécia onde alguns carros na garagem fazem parte do condomínio, as pessoas pegam o que está disponível.

Em Paris já ha tempos funciona uma rede de veículos elétricos públicos, estacionados em diversas partes da cidade como foi feito inicialmente com bicicletas. O usuário recebe um aplicativo no seu celular indicando onde pode encontrar ou deixar o veículo, que fica em estacionamentos na rua onde há se conectam com aparelhos de recarga. Gera-se um uso mais intensivo, reduz-se o trânsito e a poluição. No caso do Airbnb, é igualmente óbvio o imenso desperdício de inúmeras residências vazias ou com espaço ocioso. O princípio é em geral o mesmo, são tantas coisas que temos, e que compramos para utilizar pouco ou até uma só vez, como mostra o sucesso das plataformas de empréstimos de ferramentas.

Mas as dinâmicas corporativas de prioridade ao dinheiro geram outros desafios. Em Berlim, por exemplo, foi proibida a locação por Airbnb. A razão é que inicialmente funcionou enquanto por exemplo um aposentado ou uma família que saia de férias disponibilizava o seu apartamento, ganhando um dinheiro extra. Mas grandes grupos imobiliários passaram a comprar prédios inteiros para aluguel a turistas, reduzindo a disponibilidade de residências para a população berlinense, elevando os aluguéis e causando uma crise. É o convívio caótico de lógicas diferentes.

No conjunto as iniciativas colaborativas surgem com muita força, pois as oportunidades e as vantagens econômicas para o conjunto da economia (e não só para os contratantes) são evidentes, por usar melhor riquezas já existentes. É só pensar em uma coisa tão simples como o software que localiza espaço de estacionamento no nosso celular, reduzindo o tempo que gastamos buscando vaga: bastou que alguém pensasse fazer uma plataforma adequada.

Alex Stephany, citado por Sundararajan, resume bem os argumentos ao citar as vantagens 1) da facilidade e desburocratização das trocas e pagamento; 2) da mobilização de recursos parados ou subutilizados; 3) da acessibilidade online com o poder da internet; 4) da aproximação comunitária pelos sistemas de trocas e iniciativas locais; 5) da redução da compulsão de “possuir”, substituída pela praticidade do “acesso”. (in Sundararajan, 30)

Mas estamos desenvolvendo práticas inovadoras em espaços já ocupados por gigantes econômicos, enfrentando um vazio jurídico que gera temores, e tensões naturais de transição ou de convívio. Frequentemente, como no caso do Uber, a força da plataforma é muito maior do que a dos contratantes,  o pagamento de impostos correspondentes ainda relativamente fluido,  e entre protestos e propostas está se desenhando um novo conjunto de regras de jogo. Simplesmente proibir os potenciais das articulações em rede não resolve.

A economia criativa, as redes de colaboração, a economia solidária, o princípio do compartilhar e outras iniciativas trazem sem dúvida vento fresco ao opressivo sistema corporativo que nos empurra em correrias incessantes para ter mais dinheiro para comprar mais coisas que teremos cada vez menos tempo ou paciência para apreciar. A mudança é bem vinda, e na minha convicção ela é inexorável, apesar da enorme ofensiva de travamento ou de cooptação por parte das corporações tradicionais. Mas há desafios no horizonte, pontos de tensão e debate: novas tecnologias geram novas relações de produção, e as regras do jogo do novo sistema ainda estão nas fraldas.