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Estamos acostumados a ver muita coisa sobre o sistema educacional na Finlândia, como algo muito diferente. Neste pequeno livro, a vantagem é que não se trata de mais um estudo de alguém que visitou, mas de um relatório por parte de um protagonista que ajudou a construir o sistema, e continua ativo nos novos desafios.

Em todo caso os resultados aí estão, a excelência no PISA e outras avaliações, mas provocam frequentemente a reação de que se trata de um país diferente, de uma cultura diferente, de um tamanho diferente e assim por diante. Ou seja, seria uma exceção. Não é o caso. A realidade é que somos todos diferentes em muitos aspectos, e muito iguais em outros. E o argumento do tamanho, Sahlberg o refuta de maneira simples: nos EUA, por exemplo, os Estados são em grande parte responsáveis pelo sistema educacional adotado, e são de dimensões perfeitamente comparáveis com os 5,5 milhões de habitantes da Finlândia.

Copiar o que os outros fazem nem sempre dá bons resultados, mas não aprender com os outros é perder o principal vetor de transformação das nossas sociedades. Ou seja, o que precisamos é entender o que funcionou lá, por que razões e em que condições, de forma que possamos pensar de maneira criativa o que se aplica e o que não se aplica ao nosso caso. Como o livro de Sahlberg traz o contexto das transformações, e não um receituário, responde exatamente ao que queremos.

A impressão mais forte que fica do livro, e da experiência educacional finlandesa, é a importância da equidade. Ou seja, o sistema sendo público e igualmente acessível a todos, o clima gerado é o de construção colaborativa de conhecimento, em vez da guerra de todos contra todos, a eterna ilusão de “vencer” como se o convívio fosse uma batalha contra os outros, em vez de ser um processo conjunto de criação.

A dimensão pública é essencial, pois a educação como mercado leva naturalmente à luta pelos melhores alunos, pelas famílias mais ricas, aprofundando a desigualdade de oportunidades e as divisões sociais. No seu blog, Sahlberg traz aliás os resultados de um estudo da OCDE: “As evidências dos países da OCDE indicam que as políticas educacionais baseadas em mecanismos de mercado não constituem a melhor maneira de melhorar o desempenho educacional de um país. Conclusões semelhantes foram encontradas nas pesquisas nos EUA, no Chile, na Austrália e na Suécia onde as soluções baseadas em mercado foram experimentadas em reformas escolares em grande escala.” http://pasisahlberg.com/the-myth-of-education-marketplace/

Em todo o livro, os jovens aparecem como centrais, como pessoas e não como educandos apenas, como máquina de aprender cuja eficiência devemos mensurar a todo instante. Comentando as reformas hoje dominantes e baseadas numa estreita visão de resultados, o Global Education Reform Movement (GERM), constata-se que “as práticas que promoveu nas escolas têm tido em geral os efeitos opostos. País por país, o movimento padrão tem estreitado os currículos, fragilizado o ambiente, rebaixado as aspirações, elevado a ansiedade, e travado o sucesso tanto entre estudantes como entre os professores.”(205, Ken Robinson)

Segundo Sahlberg, “o caminho finlandês de mudança educacional deveria encorajar os que descobriram que o caminho da competição, da escolha, de prestação de contas baseadas em testes, e de salários baseados em desempenho levam a um beco sem saída….O caminho finlandês é centrado em responder às necessidades de cada criança com arranjos flexíveis e caminhos de aprendizagem diferenciados. A sabedoria da educação finlandêsa é simples: a tarefa do professor é a de ajudar os estudantes a fazer o melhor.” (204)

A autonomia dos professores é essencial ao modelo. “Os professores e os alunos precisam ensinar e aprender num ambiente que os empodera para fazer o melhor. Quando os professores têm maior controle sobre o desenho curricular, os métodos de ensino e a avaliação dos alunos, ficam mais inspirados a ensinar do que quando são pressionados para entregar programas prescritos e precisam se submeter a testes externos padronizadas que determinam o progresso. De forma semelhante, quando os estudantes são encorajados a encontrar os seus próprios caminhos de aprendizagem sem medo de falhar, a maioria irá estudar e aprender mais do que quando são empurrados para alcançar os mesmos padrões sob pressão de teste permanentes.”(132)

Naturalmente, o contexto mais amplo é essencial. Todos os professores, mesmo no primeiro grau, precisam ter o mestrado como requisito. Os salários são do mesmo nível que os de outros profissionais, pois se acredita que desempenham um função essencial. A gestão do sistema é descentralizada, permitindo adaptações às condições diferenciadas. No geral, curiosamente, os finlandeses acham que a atividade de formar jovens é tão importante como construir casas ou advogar.

Em outros termos, a Finlândia decidiu que a construção de uma sociedade densa em conhecimento constitui um pilar básico do desenvolvimento do país, mais do que a capacidade de produzir automóveis e de aumentar o PIB no curto prazo. Na leitura, constata-se a que ponto a redução das desigualdades, a equidade no acesso, a convergência das políticas educacionais com as de ciência e tecnologia, e a própria cultura, geram uma dinâmica de construção interativa e colaborativa de construção do conhecimento. Em termos sociais, o objetivo não é fomentar a batalha para ser dos poucos que poderão viajar na primeira classe.