Um país chamado favela: resgatando a senzala

Renato Meirelles e Celso Athayde escreveram um livro pequeno, bonito, que tem precisamente este efeito: Um país chamado favela. “Antes de tudo, temos a impressão de que a favela, mais do que outros núcleos de moradia, é um lugar vivo, orgânico, que tem coração, que respira, composto pela síntese de suas gentes, suas histórias e suas culturas. A comunidade é esse lugar pensante que ocupa determinado território.” (152) Como é realmente a vida na favela? Para já, os residentes hoje preferem falar em comunidade, o que permite compreender justamente esta organicidade. Mas como a imagem que se divulga é a da grande mídia, cola a etiqueta geral de “tráfico, polícia, milícia.” (12)

Já era mais do que tempo de termos uma análise sistemática, econômica, social, cultural, de dentro da própria favela, sem a simplicidade do pesquisador de prancheta. Os autores apresentam de forma aberta no datafavela.com.br uma a visão integral, facilitando inclusive a apropriação do conhecimento pelas próprias comunidades, como um espelho para elas. Descobrimos que no fim de 2013 50% dos domicílios de favelas contavam com conexão à internet, e que 85% dos internautas das favelas já tinham conta no Facebook. “Consultados, os jovens foram claros em suas respostas . A internet é fundamental para quem pretende estudar, para quem quer se divertir, e também para aqueles que buscam uma vaga de emprego.”(94)

O aumento de renda é fundamental: “Se há um fator que define essas famílias é o ingresso relativamente recente no mercado de consumo. Nos últimos dez anos, muitas delas adquiriram o primeiro computador, o primeiro automóvel e o primeiro freezer. Não raro, pela primeira vez, conseguiram matricular um filho em curso universitário.” (87) Os bancos estão prestando atenção: “O cidadão do moro é considerado pelos bancos um bom pagador.”(75) Aliás, com os juros extorsivos dos crediários, “a favela, cada mais consciente, percebe que parte de seus recurso é drenada para círculos do grande capital”, e expande as empresas internas na própria favela: a Rocinha já tinha 6 mil empreendimentos em 2010, inclusive com inovações como o “empreendedorismo comunitário”. Segundo o Data Favela, 49% dos que trabalhadores têm carteira assinada.

O livro analisa em particular a “reprodução obsessiva desse estereótipo [de bandidos profissionais] que se deve, sobretudo, ao roteiro do noticiário policial espetacularizado. Na falta de conhecimento profundo sobre o assunto, apela-se ao modelo raso de representação, já impresso na memória coletiva.”(135). Reencontrar a vida do cotidiano da favela, descrita nas suas várias dimensões, humaniza a visão. Com os avanços nos diversos campos, já não reduz às soluções ao “remocionismo” que já esteve tão na moda. A periferia está fortalecendo a sua inserção na cidade. “No caso de parte da elite, a mentalidade vigente não aceita que a senzala vá para dentro da casa-grande.”(132) Uma bela leitura, inteligente, que nos leva bem além das simplificações.

RenatoMeirelles e Celso Athayde, Um país chamado favela: a maior pesquisa já feita sobre a favela brasileira – Editora Gente, São Paulo 2014