O morador da maior metrópole do país, São Paulo, gasta em média duas horas e quarenta minutos preso no vai-e-vem do trânsito da cidade. Neste tempo todo, ele não trabalha e consequentemente não produz, e ainda, perde horas do dia que poderiam ser gastas com descanso, lazer ou no convívio familiar. A raiz do problema do trânsito na capital paulistana é que a mobilidade urbana da cidade foi centrada no carro e não no transporte público.(L. Dowbor)

 

 

Políticas articuladas para cidades inteligentes

 Suzana Camargo – 17/04/2013 às 11:13

 O morador da maior metrópole do país, São Paulo, gasta em média duas horas e quarenta minutos preso no vai-e-vem do trânsito da cidade. Neste tempo todo, ele não trabalha e consequentemente não produz, e ainda, perde horas do dia que poderiam ser gastas com descanso, lazer ou no convívio familiar. A raiz do problema do trânsito na capital paulistana é que a mobilidade urbana da cidade foi centrada no carro e não no transporte público.

Para o economista Ladislau Dowbor, professor de pós-graduação da PUC e doutor em Ciências Econômicas pela Escola de Estatística e Planejamento de Varsóvia, não existem nas cidades brasileiras políticas articuladas e inteligentes. Falta governança, que de maneira mais clara, podemos entender como a ausência de boas administrações.

 

Nesta entrevista, Dowbor defende a criação de políticas mais eficientes para o uso da água, planejamentos de longo prazo e uma maior participação dos cidadãos no sistema decisório. Para isso, o economista acredita que as pessoas precisam ter também um melhor conhecimento dos problemas da cidade.

 

Quais são os principais problemas enfrentados pelas cidades brasileiras?


O principal problema é de governança. Não é falta de recursos, mas o processo decisório referente a estes recursos. São Paulo tem uma renda per capita de 30 mil reais e investimentos ridículos em metrôs e transporte público de massa em geral. Isso gerou grandes investimentos na área individual, cada um tenta resolver o seu problema comprando um automóvel; levou a cidade a ter mais viadutos, pistas nas marginais e mais automóveis. Hoje a cidade está com sobrecustos imensos. O paulistano perde em média no trânsito duas horas e quarenta minutos. São Paulo tem todos os engenheiros necessários para resolver o problema de mobilidade. Por que não se tomam essas medidas? O custo individual para milhões de pessoas obrigadas a usar o carro no mesmo horário, indo para os mesmos lugares, é catastrófico.

 

Em que outras áreas os municípios ainda precisam de atenção?


Ainda existe uma situação extremamente precária na área de saneamento. Não se investe em saneamento. Inaugurar um viaduto é bonito, mas inaugurar esgoto não rende voto. O principal vetor de doenças é a água contaminada. O resultado é que se gasta muito mais com a saúde do que se deveria gastar para resolver o problema dos esgotos. Nós temos que gerar um sistema decisório coerente com as necessidades das populações. As tomadas de decisões acabam sendo feitas para agradar o interesse de corporações que investem financeiramente nas campanhas eleitorais. Esse é o ponto-chave. Precisamos democratizar o processo decisório.

 

E como é possível ter um sistema de governança participativo?


Isso já está na nossa Constituição. O povo exerce através de seus representantes ou através de um conjunto de mecanismos definidos na própria Constituição. Tem sido pouco utilizado porque no Brasil existe um fraco conhecimento por parte da população de seus problemas. Nós temos iniciativas como Minha escola, meu lugar, em Santa Catarina, onde se insere no currículo escolar o estudo da própria cidade onde a pessoa vive. Dessa maneira cria-se cidadania consciente sobre os problemas da comunidade. Não existem sistemas adequados de informação. Nós temos iniciativas muito interessantes e relativamente recentes, como o IRBEM, indicador de bem-estar em São Paulo, dinamizado pelo Instituto Ethos e pelo movimento Nossa São Paulo e a rede de Cidades Sustentáveis. Gradualmente nós temos que gerar uma sociedade muito mais informada dos problemas porque a população não informada, não participa.

 

Como esses estudos e trabalhos produzidos pela sociedade civil e o terceiro setor são utilizados pelos governos e os tomadores de decisão?


Essa é uma grande dificuldade. Dos 5.565 municípios brasileiros, pouquíssimos têm sistemas adequados de informação organizada para um gerenciamento racional de informações. Isso é uma grande fragilidade. O que está dinamizando os processos, e nos deixa mais otimistas, é que com as novas tecnologias de informação e comunicação fica muito mais fácil gerar um sistema tanto dos problemas das cidades como do uso de recursos. O potencial da geração da transparência é extremamente poderoso. Um bom exemplo é o caso do Piraí Digital, no Rio de Janeiro, onde toda a cidade tem acesso à banda larga e à internet. A penetração das tecnologias permite a circulação da informação. Outro caso é o da Favela de Antares, também no Rio, que generalizou o acesso à banda larga e com isso surgiu uma nova economia local.

 

O acesso à tecnologia permite a descentralização e o barateamento da administração municipal?


Sem dúvida nenhuma. Em São Paulo temos os Poupatempos (centrais de atendimento de vários serviços municipais), mas cada bairro deveria poder resolver seus problemas administrativos localmente sem precisar ir para as regiões centrais da cidade. A tecnologia permite a descentralização, mas como tudo está ligado em rede, não há desarticulação ou dispersão de dados ou do processo. Nas empresas essa realidade já é arroz com feijão. Há muitas companhias nos Estados Unidos que têm os serviços de secretariado na Índia – se fala inglês e está online, não muda grande coisa, né? Então, na realidade, você pode descentralizar radicalmente um número de serviços, o que significa que as pessoas não precisam sair do seu bairro para resolver os problemas. Em vez da pessoa ligar o carro ou pegar o ônibus para resolver o problema, quem viaja são os bits, o que é muito mais barato.

 

As cidades brasileiras não foram planejadas levando em conta o meio ambiente. Há tempo de reverter esse quadro?


Não apenas existe tempo, mas é absolutamente necessário. Nós aplicamos aqui nos anos 80 e 90 coisas que foram feitas nos anos 50 e 60 na Europa. Veja os bons exemplos dos rios Sena, na França, ou o Tâmisa, na Inglaterra. Não é porque são países relativamente mais ricos que aqui a gente não pode fazer. São Paulo é uma cidade extremamente rica e seria plenamente viável, mas transformou seus rios em esgotos. A mobilidade urbana centrada no carro cobriu os córregos e os vales e impermeabilizou a cidade. Já existe um plano de interligar os rios Tietê, Pinheiros e as represas de Guarapiranga e Billings e ter um hidrovia percorrendo a cidade. Óbvio que não vão podemos continuar jogando esgoto no rio, como se faz hoje.

 

Como podemos melhorar a questão da água?


As cidades brasileiras perdem hoje 40% da água que produzem. Guarulhos, em São Paulo, perde 48%. É um desperdício de recursos. Tóquio, no Japão, perde somente 3%. As cidades precisam ter um plano integrado da água. Temos o exemplo de Londrina, por exemplo, que conseguiu limpar os rios e riachos e simultaneamente foi arborizando as beiras e hoje essa área serve de lazer para a população, além de propiciar a melhoria climática e da qualidade do ar. Acho que isso é perfeitamente viável.

 

Também é preciso haver uma mudança cultural no comportamento do cidadão brasileiro?


Sim, dos cidadãos, das empresas e sobretudo assegurar que os governos municipais respondam aos objetivos de qualidade de vida. O exemplo da água é evidente. Sabemos que o investimento com o saneamento básico traz uma economia de 4 reais na área da saúde. Então não se está gastando, mas liberando recursos para outros setores. Podemos ter cidades mais arborizadas e silenciosas. Eu estive agora na China discutindo justamente a questão das cidades e lá grande parte das motos são elétricas, ou seja, menos poluentes e silenciosas. Mas nem sempre a solução está somente na mão do cidadão. O governo precisa oferecer políticas públicas e as empresas precisam responder a essas demandas. Na realidade, a área empresarial, a comunidade e os movimentos sociais e o governo têm que gerar políticas articuladas e inteligentes.

 

Há falta de um planejamento de longo prazo?


Este é um problema essencial. Nós temos que ter planejamento, uma visão de longo prazo e sistêmica. Com o planejamento, as propostas são discutidas pela sociedade antes que se façam as coisas. É mais democrático porque todos os atores sociais participam da decisão. Além disso, é necessário uma coerência sistêmica no que se faz. Precisamos trabalhar com horizontes móveis, planos diretores de 10, 20 e 30 anos.

 

Fonte: http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/parceiros-do-planeta/politicas-articuladas-para-cidades-inteligentes/

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