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O título sugeriria um sonhador. François Morin é tudo menos isto. Conhecedor profundo da área financeira, um profissional da área, membro do Conseil Général de la Banque do France, escolheu este título não por falta de realismo, mas justamente por saber que o sistema agigantado de intermediação financeira, longe de ajudar a financiar o desenvolvimento que nos é necessário, tornou-se um sorvedor de recursos (navegando nas dívidas públicas), uma máquina desgovernada (não há banco central mundial) e descontrolada (são grandes demais para se administrarem).

O ponto de partida é a constatação do que acontece no mundo com Wall Street. “As normas absurdas de rentabilidade impostas pelos gestores de capitais acarretam ao mesmo tempo a desumanização das condições de trabalho, a rapina dos ecosistemas e a submissão das políticas públicas aos interesses privados e não à vontade dos cidadãos.”

No plano propositivo, “para abandonar a especulação sobre as taxas de juros e de cambio, é preciso reconstruir um sistema monetário internacional que permita gerir a moeda como um bem comum da humanidade. E para escapar ao poder exorbitante dos gestores de capitalismo,  será necessário reformar o marco jurídico das empresas para repartir o poder entre todos os atores que participam do processo produtivo”.

A força do livro do Morin – creio que é o melhor que lí sobre a reforma do sistema financeiro e as saídas para a crise – é que não se trata de mais um grito de raiva e de indignação (aliás perfeitamente legítimos), mas da análise fria de um especialista que domina a área, e traça de maneira muito objetiva as medidas básicas para a mudança.

Tendemos ainda a raciocinar com a visão de muitos poupadores dispersos, e de gestores profissionais que aplicam este dinheiro para otimizar a rentabilidade sem matar a galinha de ouro, que é em última instância a capacidade produtiva de cada país. Hoje, no entanto, nos gigantes trilionários internacionais mandam os chamados investidores institucionais, que colocam patamares de maximização de rentabilidade, e autorizam bônus e remuneração segundo se consiga ou não atingi-los. Perdem-se assim a capacidade de gestão ordenada, a visão de longo prazo, e a compreensão sistêmica. É o vale-tudo da maximização a qualquer preço, inclusive recorrendo a operações ilegais.

O que se desenha no pequeno livro do Morin, é a engrenagem, o funcionamento realmente existente da intermediação financeira. As técnicas de alavancagem, o high frequency trading, o carry-trade,, a arbitragem, a dominação dos sistemas produtivos pelos sistemas de intermediação, a inversão do papel de financiadores da produção para o de extratores de riqueza, a apropriação do Estado tanto para mudas as leis que regem o sistema de intermediação financeira como para montar uma gigantesca máquina de endividamento público – com a consequente apropriação de parte crescente dos nossos impostos, – cada mecanismo é claramente descrito, mostrando a necessária mudança: sistemas menores, descentralizados, e mudança do processo decisório dos grandes grupos através da alteração do marco jurídico que os rege.

O livro está em francês, escrito em linguagem perfeitamente acessível para não economistas, muito bem estruturado. A editora Vozes (Petrópolis) já adquiriu os direitos de publicação no Brasil, será um excelente instrumento de trabalho para todos nós. E para quem ainda lê o francês, está aí um prato cheio, enquanto não sai o livro no Brasil.