Neste espaço solto de coisas divertidas ou agradáveis, lembrei de colocar um poema do português Antonio Gedeão, de rara beleza. Tinha lido na Africa. E ficou na minha memória apenas esta verso: “Somos  confusos como as florestas… coloquei no google, e encontrei inteiro. (L. Dowbor)

Somos confusos como as florestas

Tu, e eu (e todos!! nós),
temos enredos na voz,
armaduras e espessuras
que nos encobrem de nós.

Anda.
Percorre-me sem desvios,
inteira, plena, despida,
infância desprevenida
sem roupas nem atavios.

Anda.
Rasga esta verde espessura
com teus gestos afiados.
Insinua-te, procura,
derrama a tua brancura
nos trilhos enviesados.
Progride e canta.
Penetra neste matagal bravio,
desembrulhada e erecta
como a vela dum navio.
Singra, desliza suave
como gota que escorresses,
como luar que batesses,
penugem que esvoaçasses.

Entra e serve-te. Verás,
ou caídos ou suspensos,
frutos de aromas intensos
que em silêncio morderás.
Teus dentes lhes darão sumo,
teus lábios lhes darão gosto
e o veludo que presumo
macio como o teu rosto.

Tuas mãos os farão belos
e alegres como facetas,
verdes, azuis, amarelos,
vermelhos e violetas.

De um arrepio, na espessura,
toda a floresta estremece.
Eu dou-te a minha loucura.
Dá-me o canto que a adormece.

António Gedeão