Alternativas inteligentes de uso da energia – 2012, 9p.
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Alternativas inteligentes de uso da energia – 2012, 9p.

Autor
Ladislau Dowbor
Tamanho
9 páginas
Originalmente publicado
Data

Alternativas inteligentes de uso da energia[1]

Ladislau Dowbor

25 de abril de 2012

As alternativas de energia são vistas em geral do lado da oferta: as fontes de energia, como hidroelétrica, de combustíveis fósseis, nuclear, eólica, solar, geotérmica ou ainda que aproveita os movimentos do mar. O esforço planetário para reduzir os impactos climáticos e para poupar petróleo está levando – ainda que lentamente –  a amplos investimentos na mudança do perfil da oferta, diversificando as fontes, priorizando as energias renováveis e limpas.

O outro lado da moeda, no entanto, e complementar, reside nos esforços para influenciar o uso da energia. É interessante lembrar que quando das grandes crises mundiais do petróleo, em 1973 e 1979, os preços aumentaram de forma radical. Na época, houve estudos sobre a mudança de comportamento dos americanos, frente ao aumento do custo energético: fábricas aprenderam a economizar energia, casas passaram a utilizar material isolante para enfrentar o frio ou o calor, os carros começaram a ser vistos já não apenas do ponto de vista do luxo, mas da eficiência energética. Pelos excelentes resultados obtidos em curto espaço de tempo, se constatou que havia um imenso desperdício de energia. Assim a sustentabilidade energética exige trabalhar tanto no lado da oferta da energia como na racionalização do seu uso.

No caso brasileiro, algo semelhante ocorreu quando do apagão no início da década passada. Foram adotadas medidas de emergência envolvendo uma ampla campanha de conscientização da população, os que reduziram o consumo se viram premiados nas suas contas, os que se excederam foram multados, mas no conjunto houve uma fortíssima redução de energia, sem que as pessoas se vissem obrigadas a se privar. Constataram simplesmente que estavam desperdiçando energia em quase todas as formas de uso, e que podiam reduzir fortemente o consumo de energia sem sacrifícios nem sofrimento: bastaria atentar para um uso inteligente do recurso.

A população brasileira, da ordem de 200 milhões de pessoas, tem um nível de consumo muito desigual. À medida que a desigualdade se reduz e os pobres passam a consumir, o consumo energético do país deverá se expandir fortemente. Como ordem de grandeza, temos cerca de 50 milhões de pessoas que constituem o nosso “quarto mundo”, e certamente outro tanto de gente que deve passar a consumir decentemente, e em muitos casos atingir o nível de consumo mais amplo das classes mais abastadas. O consumo vai se expandir no conjunto, exigindo mais energia tanto para utilização direta sob forma de equipamento doméstico e de transportes, como para a indústria e a agricultura.

A composição inteligente, mais eficiente e menos poluidora, da matriz energética pelo lado do consumo é portanto essencial. O Brasil, evidentemente, não está sozinho neste processo. O enriquecimento geral do planeta, que impacta diretamente no consumo de energia das pessoas e das empresas que as abastecem, não poderá, nem deveria, ser evitado. Somos 7 bilhões de habitantes no planeta, com os dois terços mais pobres consumindo menos de 10% dos bens e serviços produzidos. Mas a generalização do tipo de consumo perdulário dos Estados Unidos – 4% da população mundial e 25% das emissões de gazes de efeito de estufa – simplesmente não é viável. Isto é importante porque o Brasil será levado a participar, com o resto do mundo, de um amplo esforço de mudança do perfil de consumo. O eixo central não consiste na privação e no sacrifício, e sim na organização e na inteligência do uso.

O uso da energia vincula-se praticamente a todas as nossas atividades. Portanto, trata-se de um desafio civilizatório, de uma mudança cultural. Até hoje, continuamos na corrida por consumir mais, pois isto aumenta o PIB, e gera mais empregos, reduzindo a nossa angústia principal que é de não podermos sustentar a nossa família. Com 7 bilhões de habitantes no planeta, e 80 milhões a mais a cada ano, esta visão é simplesmente suicida. Este planeta, constatamos cada vez mais, não é tão grande assim. Nesta espaçonave todos têm de começar a se comportar como tripulantes, e não como passageiros – isto sem falar dos que querem se comportar como passageiros de primeira classe, confortáveis e bem servidos, gerando um rastro de custos que nos oneram a todos.

Uma ilustração simples, trazida pelo relatório das Nações Unidas, mostra de forma resumida a articulação que desponta. Na Coréia do Sul, frente aos desafios climáticos e à crise financeira mundial de 2008, decidiram lançar um programa de 36 bilhões de dólares para a modernização do transporte público urbano. As repercussões são várias: ao dinamizar o transporte público, torna-se mais eficiente a mobilidade urbana tanto em termos de tempo gasto pelas pessoas como pela redução da poluição; o programa gera 960 mil empregos, o que melhora a situação social; como os empregos geram salários e demanda, melhora a conjuntura e reduz-se o efeito da crise financeira; e como o investimento está condicionado a tecnologias mais avançadas nas empresas, ajuda o país a se manter em boa posição no plano do avanço científico-tecnológico que está se tornando estratégico. E naturalmente, reduz-se drasticamente o consumo de energia no transporte das pessoas. Não é sacrifício, é articulação inteligente.

É natural que esta evolução do “consumir mais” para o “consumir melhor”, da corrida pela quantidade para a visão da qualidade, da análise individual dos projetos – interesse de uma montadora em vender mais carros – para o interesse social final, só comece a se materializar hoje, quando estamos sentindo a pressão das ameaças do fim do petróleo fácil, da mudança climática, do esgotamento de tantos recursos, da revolta dos dois terços da população mundial que sabem que estão sendo mantidos fora do sistema. O Banco Mundial explicita isto de maneira delicada, ao se referir aos 4 bilhões de pessoas que “não têm acesso aos benefícios da globalização”. Como diz bem Ignacy Sachs, somos condenados a reinventar.

O Brasil de urbanizou. Cerca de 85% da população vive em cidades, e cerca de um terço em grandes metrópoles, Mas mesmo nas cidades médias o problema do trânsito está se tornando crítico. Pesquisa da Rede Nossa São Paulo mostra que nesta cidade se perdem diariamente 2:43 horas por dia no trânsito, tempo em que as pessoas nem descansam nem trabalham, nem estão com a família. Levantam cada vez mais cedo para conseguir chegar a tempo, e a vida de família fica prejudicada. Quando têm carro, andam numa velocidade média de 14 quilómetros por hora, em primeira e segunda, com imenso gasto de combustível, deslocando 2 toneladas de equipamento por pessoa de 70 quilos. Um corredor de ônibus leva 23 mil pessoas por hora, na faixa de automóveis ao lado passam 3 mil no mesmo período. O gasto de combustível por pessoa/quilómetro é dezenas de vezes superior ao que seria se andassem de ônibus. Isto sem falar do transporte por metrô, incomparavelmente mais eficiente, usando energia limpa, e permitindo imensa economia de tempo da população.

Matriculam-se diariamente milhares de novos automóveis nas metrópoles. Não por necessidade, mas por massacre publicitário, e sobretudo porque não há alternativa pública de transporte. Na realidade, todas as famílias da periferia também terão automóvel, e o problema não é o automóvel em si. Ter carro para grandes compras, para fins de semana e deslocamentos familiares não é o problema. O problema é, numa cidade de 11 milhões de pessoas como São Paulo, 6,5 milhões de pessoas se deslocarem diariamente na mesma hora na ida e na volta, todo dia no mesmo trajeto, para ir trabalhar e para levar os filhos na escola. Este deslocamento massivo no mesmo horário, quando transferido para uma densa rede de metrô e de corredores de ônibus e troleibus, libera as vias para um uso mais diversificado.

Uma pesquisa econométrica em Lisboa mostrou que quanto mais carros entram na cidade, mais devagar andam os ônibus, e mais gente decide optar pelo carro por não aguentar o ônibus. O planejamento integrado do desenvolvimento do sistema de transporte coletivo da cidade é portanto vital, para mudar a matriz energética que desperdiça petróleo, polui a cidade, e gera uma perda de produtividade sistêmica. A pessoa, individualmente, não tem como resolver, precisa chegar ao trabalho, e opta pela solução individual que é o carro, ainda que o orçamento o obrigue a se privar em áreas essenciais.

É interessante constatar que não se calcula o desperdício, mas sim a contribuição para a elevação do PIB  que representam o aumento da venda de automóveis, o número de oficinas mecânicas, as hospitalizações, as motos que agora vêm preencher o que resta de espaço entre as ruas. Os jovens nas motos morrem diariamente, numa tragédia silenciosa que já não indigna. A realidade é que são as empreiteiras e as montadoras que mais financiam as campanhas políticas dos administradores urbanos, e o resultado são mais carros, túneis e viadutos, e no caso de São Paulo, ridículos 74 quilómetros de metrô. Shanghai, que começou a construir em 1995, tem 420 quilómetros.

O imenso desperdício de energia pela opção errada na matriz de transportes urbanos é evidente. Mas a opção rodoviária é igualmente trágica. O Brasil transporta quase dois terços da sua carga por caminhão, gastando diesel, pneus, asfalto, e com custo tonelada/quilómetro absurdo. Em um país de grandes distâncias como o Brasil, o sistema gera sobre-custos para todos os produtores, diretamente nos fretes, ou indiretamente via impostos e pedágios para a manutenção das estradas. Se olharmos o Brasil no seu conjunto, quase todos os centros econômicos são portuários, de Manaus a Porto Alegre, com a exceção de Belo Horizonte e região. A matriz de transporte necessária ao país é evidentemente a priorização do transporte por água, incomparavelmente mais barato, interligando a nossa economia atlântica, e com uma rede ferroviária servindo o interior, enquanto o caminhão fica apenas para curtas distâncias e carga fracionada. Isto gerará economia de combustível, e através da redução da componente custos de transporte em todas as regiões produtivas, gerará economias externas e aumento de produtividade sistêmica.

Outra mudança muito significativa no perfil de consumo energético está no prosaico chuveiro elétrico. Com chuveiros tipicamente de 2500W, quando as lâmpadas frias têm um nível de consumo da ordem de 15W, o banho tornou-se um poderoso consumidor de energia doméstica. Além do volume do consumo em si, pesa muito o fato dos banhos serem tomados em milhões de domicílios quase à mesma hora. Como se trata de energia elétrica, e a eletricidade não é estocável, a sobrecarga na rede torna-se muito elevada. Para não haver colapso na rede, as geradoras da energia têm de arcar com investimentos muito maiores, no nível do pico de consumo. Em numerosos países, as empresas de fornecimento de energia financiam a instalação de painéis solares nas casas, pois sai mais barato para elas investir neste equipamento doméstico e equilibrar o nível de consumo, do que investir em capacidade maior de geração.

Na realidade, enquanto a produção de eletricidade com células fotovoltaicas já está chegando ao nível comercial, ainda que com dificuldades, o aquecimento solar da água que utilizamos está plenamente dominado em termos tecnológicos, barato e confiável. Em termos de gastos domésticos, a redução de custos é muito significativa, e o investimento mesmo individual se recupera em pouco tempo. Aliás, o teto das casas é um espaço imenso dentro de uma zona urbanizada, usado apenas para fazer escorrer a chuva, quando em numerosas regiões já serve tanto para aquecer água como para captar água de chuva que vai servir para diversos usos que não exigem potabilidade. Muitas casas inclusive aproveitam a parte superior com uma laje impermeabilizada em vez de telhado, permitindo a existência de jardins que tanto absorvem água como permitem a produção de plantas úteis e estabilizam a temperatura da casa, reduzindo o uso do ar condicionado. Um terraço entre estas plantas, inclusive, pode ser bem agradável.

A água é um elemento essencial do nosso perfil de consumo, e com amplo impacto energético. De forma geral, em vez de entendermos a sua dinâmica natural, e a aproveitarmos, tentamos impor a nossa lei. Cobrimos os córregos naturais, as várzeas, todo o sistema natural de escoamento, com asfalto para carros, depois canalizamos o que resta para acelerar o escoamento, e em seguida aprofundamos a calha porque o acúmulo da água é mais acelerado, e como não é suficiente construímos piscinões – tudo com muito gasto de concreto, e muita densidade em energia. Mas também, com belos contratos para as empreiteiras. Um dia estas obras serão desestruturadas, e os rios e riachos voltarão a ser limpos, piscosos, com muito verde e espaço para passeios, humanizando a cidade, quando hoje na realidade apenas servem para empurrar esgoto. Entender a natureza, a adaptar-se a ela, pode ser muito mais barato, tanto em termos financeiros como energéticos.

No caso da água que bebemos, foram feitos numerosos estudos. Assegurar água limpa na torneira de cada residência constitui um sistema simples e barato. Vender água em garrafas no supermercado gera custos energéticos calculados por Lester Brown, no seu belíssimo Plano B 4.0, em cerca de mil vezes mais do que vendê-la na torneira da nossa casa. Este gasto desmedido envolve a produção de garrafas de plástico, o seu transporte, a sua manipulação, a sua disponibilização nos supermercados, a energia que usamos para buscá-la, frequentemente de carro, o tempo despendido, o descarte e transporte final até o aterro, os plásticos que utilizamos para acondicionamento em diversas etapas, inclusive no saco de lixo. Estudos do IDEC mostram que em geral não há muita diferença em termos de conteúdo de coliformes fecais entre a água na torneira e a maioria das águas engarrafadas disponíveis no comércio. Mas parece mais chique comprar água. Na realidade, um bom filtro, e os há que refrigeram bem a água, não só torna tudo mais barato, como gera impressionantes economias familiares no uso de refrigerantes. Um copo de água fresca e limpa ainda é uma das coisas simples que nos fazem sentir bem.

Pensar a casa, o nosso domicílio, e o seu balanço energético, é muito interessante. Hoje há contadores de uso de energia elétrica que permitem detalhar quanto estamos usando em ar condicionado, aquecedores, torneira elétrica, geladeira, e os inúmeros pontos de “stand by” – aquela luzinha vermelha que permite ligar os aparelhos. Os sistemas que permitem desligar luzes e eventual ventilador quando não há pessoas no quarto constituem um excelente fator de economia. Mas muitas vezes fica difícil as pessoas resolverem individualmente os problemas. O stand by tipicamente consome 4W, o que é muito, dado o número crescente de aparelhos domésticos. A exigência, por parte de organismos reguladores, de que o stand by não consuma mais de 1W obriga as empresas a avançar nas tecnologias, tal como a exigência de maior eficiência energética e a instalação de conversores catalíticos levou a carros muito mais performantes. As tecnologias devem nos liberar de custos, facilitar a vida, e não dificultá-la.

Na realidade, as mudanças exigem ação articulada tanto dos poderes públicos, como das empresas e da população em geral. As pessoas seguirão indo de carro para o trabalho enquanto não houver transporte público adequado, continuarão a usar chuveiros elétricos enquanto não se generalizar a oferta de sistemas de aquecimento solar e de manutenção adequados, comprarão água nos supermercados – os de classe média para cima – enquanto não se assegurar melhor qualidade de água como serviço público. O modesto gás de cozinha continuará a ser transportado e vendido em pequenos botijões que circulam por toda a cidade, com impressionante ineficiência energética, enquanto as prefeituras não generalizarem o acesso ao gás de rua, inclusive aproveitando a produção de gás dos aterros sanitários.

A eficiência energética dos equipamentos domésticos melhorou muito depois que a lei passou a exigir que nas lojas uma geladeira, por exemplo, exiba o seu nível de uso de energia. Trata-se assim de um processo de construção de consciência na população, através de sistemas adequados de informação, mas também de pressão sobre as empresas tanto por parte do consumidor como dos órgãos reguladores. A eficiência do consumo energético se organiza, deve ser administrada. Trata-se de uma política pública, não apenas de governo.

O livre acesso à banda larga é outro fator muito importante da racionalização do uso da energia. Em cidades como Piraí, no Estado do Rio de Janeiro, a generalização do acesso permite que mais cidadãos resolvam os seus problemas pela internet, e os bits viajam mais rápido e mais barato do que o nosso deslocamento de carro ou de ônibus, além de reduzir o tempo perdido para resolver um problema pessoalmente. Isto envolve tensões entre as empresas que cobram pedágios sobre a circulação de informações e conhecimento, e as necessidades públicas. Para dar um exemplo, no caso da reconstrução de New Orleans depois do furacão Katrina, “o ímpeto foi construir uma rede de banda larga sem fio em escala metropolitana destinada a assegurar um serviço público gratuito de internet, o que permitiria também assegurar a comunicação necessária para os  serviços do governo e de emergência. A empresa Bell South ameaçou processar a cidade se a rede municipal de New Orleans continuasse a ser administrada pela cidade. Em consequência, a rede foi comprada por uma empresa de fora” [2]No caso, tecnologias que geram economias sistêmicas no território e para todos, são travadas para assegurar lucros para um grupo. É a economia do pedágio.

A generalização do acesso à banda larga sem fio constitui um fator importante de racionalização do uso de energia, e na realidade de eficiência sistêmica de todos os processos produtivos. Com a economia mundial evoluindo rapidamente para a economia do conhecimento, a livre circulação das informações torna-se essencial. A rua também tem custos, inclusive incomparavelmente superiores aos custos da banda larga, que navega em ondas eletromagnéticas, com pouca infraestrutura necessária, mas ninguém imaginaria cobrar pedágios nas ruas para as pessoas passarem. O fato das ruas serem gratuitas não impede que se instalem comércios e diversos tipos de atividades, estas sim remuneradas. O atraso na criação de uma infraestrutura pública e gratuita sem fio leva a que milhões de pessoas façam viagens inúteis, a que empresas acumulem estoques desnecessários. O uso de motoboys para colher uma assinatura, ilustra bem o quanto interesses privados ou o atraso na compreensão das tecnologias gera custos para todos. A ineficiência gerada tem custos energéticos, e o balanço energético deve ser levado em consideração nas suas diversas dimensões, inclusive de tempo perdido e de mudança climática.

A indústria da construção constitui outra área madura para uma revisão profunda dos seus parâmetros. As chamadas “construções verdes”, ou “arquitetura sustentável”, envolvem desde o tipo de matéria prima, sem esbanjamento de concreto, até a racionalização do transporte dos materiais, para evitar desperdícios, passando pelo aproveitamento de materiais locais – na Costa Rica usa-se bambu para construções muito sólidas – uso muito mais generalizado de vidro para assegurar mais luz natural, painéis duplos nas esquadrias para estabilizar a temperatura ambiente, sistemas naturais de ventilação para reduzir a necessidade de ar condicionado e assim por diante. Estacas de grande profundidade e com tubos embutidos constituem formas de aproveitar a geotermia, economizando sistemas artificiais de aquecimento. Há um despertar universal, disperso ainda e relativamente lento, mas que progride, para uma visão de que a qualidade do que fazemos pode ser tão ou mais importante do que a quantidade, e de que a construção de edifícios de ostentação, buscando impressionar pela riqueza esbanjada, pode impressionar menos do que edifícios simples mas inteligentes. De certa forma, é uma mudança cultural lenta mas profunda que nos leva a perceber as novas oportunidades das tecnologias, ao mesmo tempo que as tragédias ambientais nos estimulam a acelerar o passo.

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(foto telhado verde em La Paz)

 

As ameaças ambientais nos levam a colocar em questão a obsessão consumista de que somos autores e vítimas. Gerou-se um modelo surrealista e perdulário de consumo, típico das classes média e alta dos Estados Unidos, e uma visão artificial do sucesso, centrada na capacidade de ostentar uma casa com garagem para quatro carros, com ar condicionado em cada aposento, e modelos de carro que têm de mudar a cada ano, e roupas que têm de ser descartadas ainda que sejam boas e bonitas, e seios que têm de ser recheados para parecerem o que já não são, e caríssimas roupas de griffe pagas não pela utilidade que apresentam mas pelo status que confere a marca, ainda que sejam todas Made in China ou no Bom Retiro. O cidadão moderno de sucesso joga fora em média um quilo de produtos por dia. Compra uma fruta que viajou mil quilómetros para que possa compor uma bela travessa de uvas fora da estação, e impressionar as visitas.

Somos autores, mas também vítimas. As crianças passam horas diárias frente à televisão, grandes empresas de marketing geram publicidade destinada a criar pequenos, e mais tarde grandes consumidores, mas sempre obcecados. O esforço publicitário custa-nos hoje algo como um trilhão de dólares por ano, distribuído na conta de telefone, da TV a cabo, do acesso à internet, e embutido também no preço de cada produto que pagamos, queiramos ou não, vejamos publicidade ou não. Criou-se a indústria do comportamento econômico, que as pessoas não gostam de reconhecer, pois parece fraqueza de espírito comprar algo por influência da publicidade. O ser humano é influenciável, é uma fragilidade, mas também uma das suas grandes qualidades. O assédio comercial é em grande parte responsável por esta deformação impressionante de pessoas que não sabem mais onde colocar as inutilidades que compram, enquanto um bilhão de pessoas no planeta não tem o suficiente para comer. O social e o ambiental são como a mão e a luva, um se articula com o outro.

As embalagens tornaram-se um espelho interessante do consumismo reinante. Um par de meias comprado num shopping obriga o comprador a desfilar com uma imensa bolsa de plástico ou de papel, transformado o comprador em homem-sanduíche da loja, carregando-lhe o nome. Em Toronto, no Canadá, as lojas são obrigadas a cobrar pelos sacos plásticos, uma quantia modesta, dez centavos de dólar, mas foi suficiente para que houvesse uma drástica diminuição do desperdício, sobretudo porque a vendedora é obrigada a perguntar se a pessoa quer uma sacola, para cobrar. Em média desperdiçamos meio quilo de embalagem por pessoa por dia, na classe média. O desperdício de energia envolvido é muito grande, desde o custo energético das embalagens, até o transporte e destino final dos resíduos sólidos. Numerosas empresas que entregam um fogão, por exemplo, são obrigadas a desempacotar e instalar o produto, reutilizando a embalagem par a entrega seguinte, o que por sua vez leva os fabricantes a desenhar embalagens que possam ser reutilizadas. Há espaço para a vida inteligente.

O fio condutor que guia a problemática energética vista pelo lado do uso é a circularidade dos ciclos produtivos. Em vez do sistema linear tradicional, em que extraímos recursos naturais, os transformamos em produtos, consumimos e descartamos em lixões, gerando esgotamento de recursos naturais de um lado, e contaminação de outro, devemos avançar para o processo circular em que os produtos são desenvolvidos de maneira a que possam ser reciclados ou reutilizados, gerando no fim um balanço ambiental neutro em termos de natureza, e minimizando os impactos ambientais em geral. Muitas empresas hoje já montam computadores de forma a que os diversos componentes possam ser facilmente desmontados e reutilizados em outros produtos. O planejamento produtivo, portanto, não se limita ao ciclo de produzir e vender – e ostentar o dinheiro ganho – mas busca organizar a sustentabilidade de um conjunto de sucessivos ciclos produtivos.

Um eixo importante da mudança da matriz energética resulta das recentes transformações tecnológicas nos meios de transporte, com a generalização de carros, motos e bicicletas elétricas. É importante lembrar que as tecnologias já existiam em grande parte, mas que só recentemente a pressão da sociedade por sistemas energéticos limpos, e o custo crescente do petróleo, levou as empresas a dinamizarem a sua reconversão para os veículos elétricos ou híbridos. O ponto frágil ainda são as baterias, onde as tecnologias avançam mais lentamente. Mas no horizonte está a clara possibilidade das pessoas gerarem eletricidade a partir de células fotovoltaicas nos seus telhados,  recarregando as baterias. Está no horizonte uma cidade silenciosa, e não mais o ruído histérico de uma moto acelerada. Com isso, o petróleo passará a ser utilizado para tarefas mais nobres do que acionar o motor e o ar condicionado de veículos parados nas grandes avenidas das metrópoles. Há bom senso no horizonte.

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(Foto moto elétrica em Shanghai)

Uma dimensão menos visível da economia do uso de energia nas cidades está ligada à própria forma de organização urbana. A extrema desigualdade de renda passou as se refletir na deformação da organização territorial da cidade. Onde há empresas e empregos, gerou-se uma forte atração pelo espaço de moradia, e os terrenos e aluguéis passaram a ser muito caros. A população trabalhadora foi assim buscar espaços onde poderia pagar a moradia, gerando-se uma profunda divisão espacial entre o local de trabalho e o local de moradia, sobretudo nas áreas metropolitanas, com cidades-dormitório que obrigam as pessoas a realizarem diariamente grandes viagens para trabalhar ou resolver os problemas mais simples como um pagamento na prefeitura, ou até para ir ao cinema no fim de semana. Do lado dos ricos, multiplicaram-se os condomínios distantes, luxo cercado e isolado, gerando também viagens para qualquer detalhe do cotidiano. O resultado são milhões de pessoas que precisam se deslocar constantemente, em grandes distâncias, e sobretudo com grandes perdas de tempo e combustível.

A reorganização urbana que desponta, é o bairro com grande dose de auto-suficiência. As tecnologias modernas permitem perfeitamente que a maior parte dos serviços públicos seja disponibilizada localmente, no “espaço-a-pé” do cidadão, no bairro, sem exigir deslocamentos, e sem prejuízo da coerência do sistema que pode ser articulado online em toda a cidade. Não é dispersão, é gestão em rede. Ultrapassando visões estreitas de “zona residencial” e “zona comercial” separadas, hoje se entende que em cada local deve haver diversos serviços privados ou públicos, facilitando a vida das pessoas. A própria ideia de escolas que exigem grandes viagens de carro diariamente é absurda, o normal é as crianças poderem ir a pé ou de bicicleta. O lazer também precisa ser descentralizado, evitando absurdo de uma pessoa que tira o carro da garagem, fixa a bicicleta no suporte, viaja até um parque, libera a bicicleta, e depois refaz o processo para voltar de carro para casa.

Esta organização racional do território, na visão do bairro auto-suficiente numa série de atividades básicas do nosso cotidiano, tem evidentes repercussões não só na economia da energia como na economia de tempo, no resgate do convívio social, no prazer colaborativo de uma vizinha tomar conta da criança de outra na praça ou no parque, enfim, no resgate de uma vida civilizada, organizada no que tem se chamado de economia do bem-estar, ou do bem-viver.

Um fenômeno que tem se expandido rapidamente é a redução das viagens dos produtos que consumimos. Muitas cidades buscam se dotar do chamado “cinturão verde” de horti-fruti-granjeiros, o que permite que a cidade disponha de produtos frescos, e sobretudo que não viajem por grandes distâncias. Cidades como Imperatriz do Maranhão, para dar um exemplo negativo, compram quase tudo no Sudeste do país, com transporte por caminhão, quando grande parte dos produtos poderiam ser desenvolvidos localmente, gerando emprego e renda. Na Inglaterra hoje já é obrigatório os supermercados exibirem a proveniência dos produtos, os “quilómetros rodados” de certa maneira. Em Belo Horizonte a prefeitura mudou o sistema de aquisição de produtos para a merenda escolar: em vez de comprar dos grandes intermediários, fez convênios com pequenos produtores em volta da cidade. Redução de custos energéticos, melhor alimentação nas escolas, melhor controle de agrotóxicos.

O que vimos neste leque de alternativas no uso da energia,  – e há muitos outros – é que não basta produzir energia limpa, é preciso organizar o consumo de maneira inteligente. Muitas coisas pode fazer cada família, como reciclar, utilizar restos para compostagem, reformar a sua casa, substituir o chuveiro elétrico e assim por diante. Mas muitas coisas exigem que haja organização do serviço público: para deixarmos o carro em casa precisamos de transporte coletivo, para a reciclagem fazer sentido precisamos de um sistema de recolha condizente e assim por diante. E tanto as empresas como a mídia, e em particular o sistema de publicidade, precisam se reorientar para promover um consumo equilibrado e consciente, resgatando a sua capacidade informativa em vez de martelar visões artificiais de sucesso consumista. Devem informar sobre os produtos, e não empurrar um modo de vida.

Em outros termos, trata-se de uma mudança cultural. Cada ato de compra, cada momento de utilização de um produto, devem nos levar a pensar em duas dimensões: se é bom para nós, sem dúvida, mas também se é bom para o conjunto da dinâmica social. Jogar o óleo que serviu para fritar batatas na pia pode ser mais simples para mim, mas gera sobrecustos para todos. É bem mais barato despejar o óleo num recipiente, enquanto está concentrado, do que limpar rios depois. Somos todos tripulantes, cada um tem de fazer a sua parte. Como a energia é de certa maneira o sangue que alimenta todas as nossas atividades, não há aqui apenas um responsável: as soluções encontram-se no esforço articulado de todos. Não se trata de sacrifícios: trata-se de bom-senso.


[1] O presente artigo faz parte da obra de Emílio Lèbre La Rovere, Luiz Pinguelli Rosa, Ladislau Dowbor e Ignacy Sachs – Energias Renováveis no BrasilRenewable Energy in Brazil)- Edição bilíngue – Núcleo de Estudos do Futuro, NEF, PUC-SP. Editora Brasileira, São Paulo 2012 www.editorabrasileira.com.br  

[2] “The reconstruction of New Orleans was the impetus to build a metro-scale wireless broadband network to provide free public Internet service, and it also provided needed communications for government and emergency services. Bell South threatened the city with legal action if the New Orleans municipal network were continued to be run by the city. Consequently, the network was bought by an outside company.” (https://en.wikipedia.org/wiki/Municipal_broadband )

 

Bibliografia

Chandran Nair – Consumptionomics – John Wiley and sons, London, 2011

Lester Brown – Plano B 4.0  (livro online na íntegra)  https://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/estante/plano-b-4-0-mobilizacao-salvar-civilizacao-531719.shtml

Ladislau Dowbor – Democracia Econômica – Ed. Vozes, São Paulo 2009 – https://dowbor.org/10demoecovozes3.doc

Emílio Lèbre La Rovere, Luiz Pinguelli Rosa, Ladislau Dowbor e Ignacy Sachs – Energias Renováveis no Brasil – Renewable Energy in Brazil)- Edição bilíngue – Núcleo de Estudos do Futuro, NEF, PUC-SP. Editora Brasileira, SÃO Paulo 2012 www.editorabrasileira.com.br  

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