A aritmética não é uma ferramenta complexa. No entanto, há pessoas que resistem às mais claras evidências: estamos num planeta de dimensões finitas, portanto de recursos finitos. Alguns recursos se reproduzem, e até se ampliam com novas tecnologias, como é o caso dos produtos agrícolas. Outros se reproduzem nos limites de um ciclo natural, como a água. E outros são simplesmente não reproduzíveis, como o petróleo e os metais raros, ou pelo menos não na nossa escala de tempo. Hoje entendemos os limites, porque conhecemos as reservas que temos de praticamente todos os recursos naturais necessários à nossa reprodução. E está ficando claro que temos de nos limitar, ou entraremos em crise.

Uma conta simples consiste em ver se o que produzimos é suficiente. O PIB mundial é de 60 trilhões de dólares, arredondando. E a população mundial é de 7 bilhões. Se dividirmos um pelo outro, chegamos a um PIB mundial per capita anual de 8,5 mil dólares. Para uma família de quatro pessoas, são 2,8 mil dólares por mês. Para o Brasil, pode não parecer muito, por causa da valorização do real, mas de qualquer modo, e para o planeta, é uma capacidade de compra que permite que todos vivam de maneira digna e confortável.

Chandran Nair parte de um raciocínio simples: os quatro bilhões de asiáticos estão entrando agora no mercado de consumo. Praticamente ainda não consomem carne. Os americanos consomem 9 bilhões de frangos por ano. No dia que os asiáticos generalizarem o consumo de frango, no nível americano (dois frangos e meio por pessoa por mês), haja galinha, e haja ração. O exemplo é prosaico, mas coloca um problema que todos afinal conhecemos, e que apenas empurramos para a parte de trás do cérebro, que é onde armazenamos questões para as quais não vemos solução, ou para as quais as respostas não nos agradam.

Mas o tempo passa, e a cada ano são 80 milhões de pessoas a mais, e nos cálculos de Lester Brown, 220 mil pratos novos na nossa mesa planetária na hora do jantar. Em outros termos, o que Chandran propõe, é que a Ásia enfrente o desafio de promover um outro tipo de consumo, e portanto um outro tipo de desenvolvimento. Daí o título, consumptionomics¸ o papel da Ásia na reformulação geral das nossas opções econômicas, sociais e políticas. “A Ásia talvez seja agora, dado o seu estágio de desenvolvimento e as realidades duras que enfrenta, a que se encontra em melhores condições para liberar o capitalismo do seu aprisionamento por fundamentalistas e ideólogos de mercado” (15)

As prioridades de consumo ocupam um lugar de destaque neste raciocínio: “Até os residentes de favelas migraram para celulares e Ipods, mas os seus excrementos ainda correm sem tratamento no rio. Visões semelhantes podem ser encontradas pela Ásia afora, em Dehli, Jakarta e Manila. Mas como é que, enquanto celulares e outros bens elétricos se tornaram sempre mais baratos, banheiros ainda constituem um item de luxo? Porque é que as melhores inteligências estão ajudando empresas a fazer mais iToys e bancos a equilibrar as suas contas, mas não participam da governança que determinará o nosso futuro coletivo? Este livro explora as minhas respostas a estas perguntas – que vivemos num mundo cujos valores são fixados por um sistema econômico que incentiva e recompensa aqueles que geram o crescimento para um grupo seleto que são essencialmente instituições Ocidentais”.(15)

O eixo principal do raciocínio do autor, é que devemos nos orientar muito menos pela produtividade do trabalho, inclusive porque precisamos de mais empregos, e cada vez mais pela produtividade dos recursos, que são cada vez mais escassos. “A ênfase na elevação da produtividade do trabalho que dominou a indústria desde o início da revolução industrial, deveria ser substituída por uma ênfase na elevação da produtividade dos recursos. Os governos deveriam encorajar inovações que utilizam menos recurso e não menos pessoas, em particular quando se trata de uso do solo e da água.” (93)

Não surpreendentemente, os estados nacionais, na visão de Chandran, deverão jogar um papel central. “Se a China e a Índia quiserem buscar um caminho que os leve ao desenvolvimento equilibrado – e não o caminho definido pela economia do consumo – permitindo-lhes administrar a degradação ambiental e focar a redução da pobreza, o estado precisará desempenar um papel central. Em certo grau, isto já está acontecendo, em particular na China”. (100)

Mas é uma outra visão do estado: “O papel central do estado deve ser reformulado, da proteção dos indivíduos e das suas propriedades para a proteção do capital natural e dos serviços ecológicos….O meio ambiente precisa ser colocado no centro da elaboração das políticas, e não visto como um complemento a ser considerado ao se desenhar outras políticas”.(99)

O livro é rico, um relato bastante simples e de bom senso, com muitas propostas práticas. Não há equações nem econometria, esta forma curiosa da economia se blindar contra o bom senso, ao excluir o comum dos mortais. (L.Dowbor)