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– Penguin Press, New York 2010 – ISBN 978-1-59420-253-7

A construção teórica que nos apresenta Clay Shirky é muito simples. Primeiro, vem o próprio conceito de excedente cognitivo. Cada um de nós tem uma grande quantidade de conhecimentos acumulados, que nos vem tanto de estudos, como de experiência prática, viagens, vivências, pesquisas inovadoras. Compartilhamos apenas uma pequena parte deste conhecimento acumulado. Somando o capital cognitivo acumulado em bilhões de pessoas no mundo, temos aí uma fonte impressionante de riqueza parada ou subutilizada. “Nossas ferramentas tecnológicas que permitem tornar a informação globalmente disponível e passivel de descobertas, por amadores, com custo marginal zero, prepresentam assim um choque enorme e positivo para a possibilidade de combinar conhecimentos”. (142)

Uma dimensão do uso desta riqueza, deste capital cognitivo, é a que utilizamos para a nossa própria sobrevivência, no emprego, nas pequenas negociações do nosso cotidiano. Mas de longe a maior parte é simplesmente armazenada nas nossas cabeças, às vezes partilhada com os nossos filhos e amigos, na esperança que não repitam as nossas bobagens. E quando nos vem uma grande idéia, não a aproveitamos, pois não temos o meio de disponibilizá-la. Fica na nossa cabeça, rodando, e em geral mofando, a não ser que pertençamos ao ambiente de criação especializado que corresponde. Em termos técnicos, é em grande parte um capital parado, ou travado por conceitos estreitos de interesses comerciais, fixados na era do bem físico.

O segundo ponto, é que estamos entrando rapidamente na sociedade e economia do conhecimento. O que isto significa basicamente é que um produto hoje se torna viável e útil muito mais pelo conhecimento incorporado (pesquisa, tecnologia, design, comunicação, imagem etc., os chamados intangíveis) do que pela matéria prima e trabalho físico incorporados. A caneta que utilizamos poderá ter 5% de valor pela dimensão física do produto, e 95% pelo conhecimento incorporado. É o deslocamento chave relativamente à economia dos bens físicos que predominaram no século passado.

O terceiro ponto, é que o conhecimento, como principal fator de produção de bens e serviços na economia moderna, muda as relações comerciais. Se eu peço um quilo de arroz para o meu vizinho, devolverei o mesmo pacote de arroz, pois se não o meu vizinho terá prejuizo. Mas se ele me dá uma idéia sobre como preparar um bom prato com este arroz, eu ganhei uma boa idéia, ele não perdeu nenhuma. O conhecimento é um fator de produção que, contrariamente ao aço, petróleo ou madeira, não se reduz quando se distribui. Pelo contrário, como cada idéia tende a gerar outras idéias por via de associações inovadoras, o estoque de idéias se multiplica.

A mudança é profunda. Tudo que estudamos em economia está centrado na sua missão principal, que é a alocação racional de recursos escassos. Alocação de bens que se forem utilizados num produto, não estarão disponíveis para outros. No caso da idéia, do conhecimento, deixam de ser escassos por duas razões: primeiro, porque pela sua própria natureza não são bens rivais, quem comunica uma idéia não deixa de tê-la. Segundo, porque a idéia sendo imaterial, software da economia por assim dizer, pode ser tansmitida em volumes virtualmente infinitos nas redes de internet que hoje conectam o planeta, dois bilhões de pessoas hoje, e durante esta década provavelmente todos os habitantes, todas as escolas, todas as empresas, repartições públicas, hospitais ou postos de saúde. É a era da conectividade: “Vivemos pela primeira vez na história mum mundo onde fazer parte de um grupo globalmente interconectado é o caso normal da maioria dos cidadãos”. (24)

Redefine-se assim, de forma radical, a função da mídia: “O conjunto de conceitos ligados ao mundo da mídia está desandando. Precisamos de novas compreensões desta palavra, que dispense a conotação de ‘algo produzido por profissionais para o consumo de amadores’. Aqui vai a minha: mídia é o tecido de conectividade da sociedade”. (54) Neste sentido, adquirem nova importância as formas de livre circulação da informação: “A informação pode agora tornar-se disponível globalmente, em número ilimitado de cópias perfeitas, ao custo marginal zero. Como resultado, cada modo de comunicação que um dia teve de depender de precificação do mercado dispõe hoje de uma alternativa que se apoia em compartilhamento aberto”.(110)

O quarto ponto está ligado às motivações. Durante longo tempo o nosso raciocínio econômico se viu paralizado pela magistral simplificação de que as motivações no comportamentoeconômico se reduzem à maximização racional de vantagens. Na realidade, há uma grande motivação subestimada, o prazer de realizar uma coisa útil, o gosto de contribuir, a excitação de uma coisa nova. Junte-se o prazer de construir uma coisa boa de forma colaborativa com outras pessoas, a satisfação do trabalho competente, e temos a mistura necessária para uma profunda transformação nas regras do jogo. Nas palavras de Shirky: “As pessoas querem fazer algo para tornar o mundo um lugar melhor. Ajudarão se forem convidadas a fazê-lo”. (17)

O raciocínio se fecha com uma análise do tempo livre que temos para nos dedicarmos a coisas úteis, o tempo sobre o qual temos livre opção. Tomando-se algumas horas por dia, são mais de um trilhão de horas por ano, no planeta, que podem ser transformadas em iniciativas que são ao mesmo tempo úteis e prazeirosas.

De onde vem o sucesso da Wikipedia, a maior e mais eficiente enciclopédia que a humanidade já produziu? Vem simplesmente do prazer das pessoas contribuirem para o conhecimento geral. O imenso estoque planetário de conhecimentos acumulados nas cabeças das pessoas, com a sua impressionante diversidade, pode simplesmente ser transformado em instrumentos úteis para todos. E na era da economia do conhecimento, quando este se torna o principal fator de produção de riquezas, colocar em rede este capital cognitivo pode melhorar a condição humana. “Conectar a humanidade nos permite tratar o tempo livre como um recurso global compartilhado, e nos deixa desenhar novas formas de participação e de compartilhamento que aproveitam este recurso.”

Esta análise traz um deslocamento importante da nossa visão de mundo, do nosso comportamento individual mal justificado pelo cinismo de que o mundo é assim mesmo, que o ser humano não tem jeito. “Assumir que as pessoas são egoistas pode se tornar uma profecia que se autoconfirma, criando sistemas que asseguram muita liberdade individual para agir, mas não muito valor público ou gestão de recursos coletivos para o bem público”.(112)

Abre-se assim um universo interessante de visões colaborativas: “Onde mercados e gestores foram os mecanismos dominantes de criação em larga escala, podemos agora acrescentar esta forma de produção social como uma forma de assumir tais tarefas, usando o nosso tempo livre agregado em tarefas que consideramos interessantes, importantes, ou urgentes, utilisando a mídia que agora nos abre oportunidades de criar coisas juntos, de articular o nosso tempo livre e talentos particulares em algo útil. Esta é uma das grandes novas oportunidades desta era, e que muda o comportamento das pessoas que dela se aproveitam” (119)

Um belíssimo livro, bem escrito, sem arroubos ideológicos, trazendo as linhas mestras da economia do conhecimento, mais um tijolo nesta construção onde já encontramos as excelentes contribuições de livros como Wikinomics de Don Tapscott e Anthony Williams; Grátis: o futuro dos preços, de Chris Anderson; Apropriação indébita de Gar Alperovitz e Lew Daly, O Futuro das Idéias de Lawrence Lessig, A Cauda Longa de Chris Anderson , A Era do Acesso de Jeremy Rrifkin. A visão da economia criativa está tomando forma. (L.Dowbor)