MIT, 2009

A educação está confortavelmente sentada na sua poltrona favorita, com audiência cativa, aulas em fatias de 50 minutos, quadro negro, giz e livros escolares que dividem o conhecimento em fatias chamadas disciplinas. Os pais estão tranquilos, não necessariamente com a qualidade do ensino, mas porque os meninos estão em lugar razoavelmente seguro, e se possível, com horário integral, durante o dia todo, assim podemos cuidar da vida. E os meninos saberão o comprimento do Nilo e conhecerão Dona Carlota Joaquina. A poltrona confortável do sistema educacional continua confortável, mas o solo debaixo dela está se deslocando. O sistema está se deslocando.

A etapa cosmética está sendo cumprida. As escolas estão se dotando de acesso à internet, as crianças estão ganhando computadores, começamos a conectar a sala de aula ao conhecimento planetário. Mas por enquanto, convenhamos, trata-se de um verniz de modernidade em cima de um sistema vetusto. Mantemos o sistema tradicional, em particular os sagrados 50 minutos, e acrescentamos uma superestrutura de TICs, tecnologias de informação e comunicação.

Bemvinda seja a modernidade das TICs, não é isto que está em jogo. O que está no centro da discussão do relatório do MIT sobre o futuro das instituições de ensino na era digital, é que com a fantástica revolução da era do conhecimento, é o próprio conceito de educação que se desloca. O que o professor está contando, qualquer menino acessa de maneira mais detalhada e atualizada clicando na wikipedia. O mapa do livro de geografia ganha vida com google-earth, onde você pode fazer superposição da visão satélite com mapa de infra-estruturas ou de mobilidade populacional. O conhecimento, na realidade, não está mais na cabeça do professor e no livro escolar, e sim nas ondas eletromagnéticas e nos milhões de textos, músicas, poemas, obras de arte, videos científicos e outros que banham o planeta, e são disponíveis gratuitamente na ponta dos dedos, que aliás os meninos têm neste aspecto bem mais ágeis que os nossos.

Colocam-se perguntas mais amplas: que conhecimentos – entre tantos – interessam, para quê, e quem os valida, e com quem interagir para discutir conteúdos? Como trabalhar em rede na construção do conhecimento? Como hierarquizar dados, informação, conhecimento e saber? Como se constroem as metodologias, como se aprende a navegar no oceano de conhecimentos? Como trabalhar as transformações necessárias quando os professores são frequentemente os primeiros a se sentirem inseguros com as mudanças? Como introduzir mudanças quando a diretor está presa nos problemas do vidro quebrado e do encanamento entupido?

O texto do MIT trabalha 10 eixos de mudança: uma aprendizagem onde a iniciativa do processo está mais com o próprio aluno (peso do self-learning); evolução da estrutura piramidal (diretor, coordenador de curso, professor, aluno) para uma estrutura colaborativa horizontal; evolução do “quê” se aprende para o “como” se aprende. Evolução da verdade aceita porque doutor fulano disse, para a construção compartilhada da credibilidade; da gestão centralizada para sistemas descentralizados; da aprendizagem de canal único para aprendizagem em rede; dos sistemas de copyrights aos sistemas abertos de acesso; da educação como fase da vida para um sistema permanente de interação com o conhecimento sempre renovado; da educação “nacional” para escalas territoriais variáveis.

O estudo constata que nos Estados Unidos 35% dos alunos abandonam o secundário antes de terminar, o que representa um imenso esforço jogado fora (p. 31). No Brasil, as cifras são mais catastróficas ainda, e se apóiam no elefante no meio da sala que insistimos em não ver: nesta era de internet, televisão, twitter, interface, google, wikipedia a Dona Carlota Joaquina e o comprimento do Nilo realmente não são vistos como relevantes. O elefante indica um fato simples: o que estamos ensinando não é suficientemente relevante para interessar aos alunos. E francamente, 12 anos de carteira – e ficar sentado para jovem é outra coisa do que para nós – para aprender coisas de relevância discutível é um ato de heroísmo.

Na palavra dos autores, “when we advocate institutional change for learning institutions, we are making assumptions about the deep structure of learning, about cognition, about the way youth today learn (about) their world in informal settings, and about a mismatch between the excitement generated by informal learning and the routinization of learning so common to many of our institutions of formal education. We advocate institutional change because we believe our current formal educational institutions are not taking enough advantage of the modes of digital and participatory learning available to students today.” (p.20)

Além da avaliação da subutilização dos potenciais da era digital pelas instituições de ensino, e a sistematização de propostas, os autores não têm papas na lingua sobre os impactos da transformação da educação em “commodity” comercial: “All this began to change at the onset of the 1980s. The neoliberal cuts in state services, including notably to educational resources at all levels, driven in the past three decades by the marriage of political economy and the culture wars, have meant a resurgence in inequality tied to educational access, the insistence on test-driven pedagogy, and the class bifurcation, racially molded, in access to creative learning practices. The earlier emphasis on public education has given way to its privatizing erosion at all levels, whether through experiments in corporately run schools and school districts, through charter schools and vouchers, through distance learning programs for the racial poor on reservations, the dramatic privatization of higher education, or through the introduction of user fees for the likes of libraries and especially museums and their transformation by the cultural industry model of urban branding into sites for tourist attraction.” (37-38)

Na era do conhecimento, o universo escolar, que tem por matéria prima justamente o conhecimento, está se defasando perigosamente. As cifras de abandono escolar inclusive nas universidades indicam a dimensão do desafio. O relatório anexo é relativo aos Estados Unidos, mas nos interessa a todos. Além do texto básico de 41 páginas, há um pequeno dossiê de experiências inovadoras já aplicadas. A partir deste relatório, já foi produzido um livro, The Future of Thinking, publicado em março de 2010. Trabalhar este universo de transformações pode realmente ser um dos principais eixos de construção do nosso futuro.

Acesse em: http://mitpress.mit.edu/9780262513593

(L.Dowbor, setembro 2010)