O britânico James Lovelock tanto é um ícone do movimento ambientalista, como sobretudo o grande promotor da visão integrada das transformações da nossa terra, batizada de Gaia, vista como um sistema planetário de regulação em que os processos geológicos, as transformações químicas, as mudanças atmosféricas e os impactos biológicos geraram e reproduzem as condições de existência da vida.

Lovelock é hoje bem velhinho, e na leitura quase ouvimos a voz rouca de tanto clamar pela proteção da nossa herança planetária, pela preservação da frágil espaço-nave na qual navegamos. O título implica que a face de Gaia está se esvanecendo, e o subtítulo “a final warning” – um aviso final – é ainda mais forte.

Todo o texto é polémico. No conjunto, Lovelock apresenta fortes argumentos de que o aquecimento global está sendo fortemente subestimado, em particular porque os frágeis modelos que temos para prever as mudanças climáticas são baseadas em extrapolações que têm dificuldades em incluir os reforços circulares (feedbacks) das dinâmicas. É o caso dos rios que se formam por baixo das geleiras e que aceleram a sua fragilização, da perda do efeito “albedo” de calor refletido pela superfície branca da neve e do gelo, da deterioração da contribuição da vida marítima pelo aquecimento da água (tanto em termos de produção de oxigênio como de absorção de dióxido de carbono) e assim por diante.

O nosso atraso nas análises integradas viria da fragmentação das análises científicas: “I think the blame lies mainly with scientists in the nineteenth century, who for their own aggrandizement seized and declared independent the territories of physics, chemistry, Earth and life sciences. This conflict over turf still goes on, and new disciplines keep forming. To expect the unifying ideas of Gaia to be welcome in such an environment was foolish, almost as bad as trying to bring peace to a quarrelling married couple – predictabley they unite, but in opposition to the intervener. Not suprisingly, the restored union of the sciences brought fort biogeochemistry and Earth system science.” (120) Assim a “biogeoquímica” abre espaço para uma análise integrada dos processos.

Lovelock defende posições com paixão. Acha que o nuclear é necessário e inevitável, pela necessidade de ir além dos combustíveis fósseis frente a uma demanda mundial de energia fortemente crescente. Acha também que é estéticamente horrível e inútil de ponto de vista energético a energia eólica. Mas não é o essencial na rica leitura deste livrinho, um grito de um cientista indignado com a forma como tratamos o único planet que temos. Belíssima leitura, de um fim de semana no máximo pelo tamanho do livro. Na linha das aplicações práticas, é muito mais “pé no chão” o Plano B 4.0 de Lester Brown. Mas o ensaio de Lovelock se lê como se lêem os clássicos, que nos obrigam a nos distanciar do imediato e ver o quadro geral.