Gar Alperovitz and Lew Daly, The New Press, New York, London, 2008, 978-1-59558-402-1

Por baixo deste título espinhoso, uma jóia. Um livro curto, muito bem escrito, e sobretudo uma preciosidade teórica, demonstrando de maneira clara a deformação generalizada do sistema de remuneração, ou de recompensas, que o nosso sistema econômico gerou. Nesta época de crise financeira, encontramos inúmeros defensores do sistema, dizendo que realmente houve exageros, mas a globalização financeira teria assegurado muitos anos de prosperidade.

Trata-se, aqui, de apropriação indébita: na realidade, houve progressos apesar da globalização financeira, essencialmente devidos aos avanços tecnológicos e científicos, estes sim fonte de aumento efetivo de produtividade.

E como se deram estes avanços? Trata-se de uma ampla construção social, da criação de um ambiente denso em conhecimento e pesquisa, que envolveu todo o nosso sistema educacional, imensos investimentos públicos, e um conjunto de infraestruturas que permitem que estes avanços se generalizem, envolvendo desde a produção de eletricidade, até os sistemas modernos de comunicação e assim por diante. Ou seja, o progresso produtivo que verificamos constitui uma gigantesca maré que levanta todos os barcos.

Levanta todos os barcos, mas a remuneração vai para alguns proprietários. As minorias que se apropriam de uma exorbitante parcela da riqueza gerada pela sociedade, apresentam-se como “inovadores”, “capitães da indústria”, “empreendedores” e outros adjetivos simpáticos, mas a realidade é que conforme cresce de maneira impressionante, durante o último século, o acúmulo de conhecimentos e o nível científico geral da sociedade, a porcentagem de idéias que estas elites acrescentam no estoque geral é mínimo, enquanto a sua apropriação tornou-se absolutamente gigantesca: o 1% dos mais ricos nos Estados Unidos se apropria de mais renda do que os 120 milhões na base da sociedade.

Ou seja, há um imenso enriquecimento no topo da pirâmide, baseado não no que estas pessoas aportaram, mas no fato de se apropriarem de um acúmulo historicamente construído durante sucessivas gerações. Trata-se de enriquecimento sem os aportes produtivos correspondentes. Na terminologia do livro, unjust deserts, trata-se de uma apropriação não merecida (not deserved), e que está deformando cada vez mais as dinâmicas econômicas e a funcionalidade do que temos chamado de mercado.

Para dar um exemplo trazido pelo autor, quando a Monsanto adquire controle exclusivo sobre determinado avanço na área de sementes, como se a inovação tecnológica fosse um aporte apenas dela, esquece o processo que sustentou estes avanços. “What they do not have to consider – ever – is the huge collective investment that brought genetic science from its isolated beginnings to the point at which the company makes its decision. All of the biological, statistical, and other knowledge without which none of today’s highly produtctive and disease-resistant seeds could be developed – and all of the publication, research, education, training and related technical devices witout which learning and knowledge could not have been communicated and nurtured at each particular stage of development, and then passed on over time and embodied, too, in a trained labor force of technicians and scientists – all of this comes to the company free of charge, a gift of the past.” (55)

Trata-se aqui de um dos melhores livros de economia que já passaram por minhas mãos. Bem documentado mas sempre claro na exposição, fortemente apoiado em termos teóricos, na realidade o livro abre a porta para o que podemos qualificar de teoria do valor, mas não da produção industrial, e sim da economia do conhecimento, o que Daniel Bell qualificou de “knowledge theory of value”.

Leitura indispensável. Comprei o meu volume, para variar, na Amazon. Para os que se assustam com teoria econômica, confiem, bons autores não precisam complicar, e este volume é transparente – para quem quer entender, evidentemente.