Shit!

O gostoso de uma boa leitura é que sempre pode nos surpreender. No caso, foi com certa desconfiança que fui adentrando no misterioso universo dos coliformes fecais. Este, naturalmente, esclareço para os analfabetos científicos, é um universo de merda. Tão familiar e tão distante. Distante, porque dele todos queremos distância, mas familiar quando abrimos os pulmões na beira do laguinho do Ibirapuera, onde os ditos jorram generosamente com os jatos de água, mas que também nos borrifam discretamente – coisa que eu descubro, entre tantas coisas, no livro – quando puxamos a descarga sem ter antes baixado a tampa.

É um universo de surpresas. A autora, a pesquisadora Rose George, é uma britânica sorridente, estudou em Oxford, escreve para o New York Times, enfim, nada que a predispusesse a priori a abordar um tema e um problema que todos fingimos ignorar. A questão que ela trata é bem simples: o que acontece com a merda? Digo bem este palavrão, para ser fiel à autora, que se indigna com os eufemismos com que tratamos esta coisa tão prosaica. Nas Nações Unidas, o problema central que são as doenças causadas por formas ineficientes de organização do destino final, é tratado como “water-related diseases”. Vamos deixar de conversa, escreve Rose, trata-se de “shit-related diseases”.

A esta altura, esclareço aos poucos leitores que ainda não viraram a página, foi a curiosidade que foi-me empurrando. Provavelmente também um pouco da mesma excitação doentia que tive ao ler o livro Perfume, inclusive com a dimensão cômica dos tão chiques parisienses que tinham de estar sempre vigilantes quando do alto se esvaziavam penicos. Para quem viu o monumental O Leopardo, de Lucchino Visconti, deve ter ficado talvez na memória – a cena é rápida – o nojo do Príncipe de Salinas que no baile das elites sicilianas dá por acaso uma olhada na sala de águas, coalhada dos mais variados formatos de vasos aristocráticos. O que acontece depois da festa? Sei que estou me estendendo um pouco relativamente às dimensões mais sérias do assunto em foco, mas não posso deixar de lembrar a visita ao romântico castelo de Chinon, ambiente dos poemas de Byron, na Suíça tão limpinha, onde o tradicional espaço de extrema privacidade era na realidade uma sucessão de orifícios numa imensa bancada situada na parte superior, e de onde os dejeitos caiam das alturas diretamente no Lac Léman, com os graciosos cisnes e gaivotas que conhecemos. Teríamos progredido?

Se misturo bom humor com a gravidade dos fatos, é que este é rigorosamente o tom do livro de Rose, que ri dos nossos pudores, e traça um dos melhores diagnósticos que já tive ocasião de ler sobre um dos principais problemas da humanidade: o saneamento básico. Saneamento básico, na realidade, é um problema bem básico. A gravidade está nos números: morrem mais pessoas por contaminação com coliformes fecais do que com AIDS. A diarréia de que sofrem tantas crianças no mundo – e morrem no ritmo da ordem de 1,8 milhão por ano – constitui uma das grandes tragédias planetárias. “Nenhum ato de terrorismo gera devastação econômica na escala da crise em água e saneamento”. Quando vemos um universo de favelas, pensamos na exiguidade das casinhas, e na promiscuidade dos quartos, mas não pensamos na humilhação das mulheres que tentam fazer as suas necessidades da maneira mais discreta possível, alvo frequente de agressões sexuais. É uma tragédia que atinge bilhões de pessoas no planeta.

A economia do setor é evidente. “As pessoas com saneamento decente têm menos doenças e perdem menos dias de trabalho, e não têm de gastar com funerais para as suas crianças mortas com cólera ou disenteria. Economizam nos medicamentos, e o estado economiza com tratamentos hospitalares caros. Cada dólar investido em saneamento traz um retorno médio de $7 em gastos evitados com saúde e ganhos de produtividade”. E os avanços tecnológicos são evidentes, com separação de fezes e urina, tratamento, novos sistemas mais limpos onde curiosamente a China está trazendo exemplos inovadores.

Pensamos, é claro, nos países em desenvolvimento, nas massas pobres da Índia. Mas o drama é geral. Contaminamos pessoas, rios, peixes, mares. A humanidade defeca sobre o planeta ao ritmo de 1,7 milhões de toneladas dia, mas o essencial parece ser pensar em outra coisa. Leitor, leia, divirta-se de forma útil. Está em inglês: se for editor, edite, vale a pena, vai tirar a sua editora da crise financeira e do assunto aqui tratado.