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Um título com este grau de generalidade em geral não inspira, ou então precisa ser muito bom. Este livro é muito bom, muitíssimo bem documentado, apoia-se em bibliografia de primeira linha acompanhada de entrevistas com alguns dos principais conhecedores da área. Que área? A que está mudando o mundo, a explosão do conhecimento em todas as áreas de atividade, com foco principal na conectividade.

Estas notas de leitura não pretendem fazer resenhas, mas de recomendar boas obras, e levantar algumas idéias mestras. Para já, o quadro geral: o computador permite transformar o conhecimento em notação digital, estocá-lo em volumes virtualmente infinitos, articular texto, símbolos, som e imagem, buscá-los de forma inteligente (Boole); a internet permitiu conectar os computadores, colocando-os em rede; a Web permitiu conectar os próprios conteúdos dos computadores, sob suas várias formas; a Web semântica evolui para conectar tipos de relações. A construção avança, e o conhecimento com o qual trabalhamos já não é o que estocamos na nossa cabeça com anos de educação e experiência: é o conjunto do conhecimento humano disponibilizado em meios digitais. A matéria prima do conhecimento mudou de lugar.

Os sistemas lógicos avançam no mesmo ritmo. Antigamente eram as classificações, agrupávamos os objetos segundo pertencimentos, características em comum. Depois veio a idéia da árvore, e a hierarquização do conjunto: na árvore do conhecimento, temos o tronco, os galhos, as folhas, as maçãs –as ramificações da vida de Lineus. Nas metodologias facetadas, as classificações já não precisam escolher o critério significativo (mamíferos ou ovíparos pelo tipo de reprodução), pois pode-se reconstruir a classificação completa segundo os mais variados critérios (tamanho, peso, tempo de vida ou o que for) permitindo os mais variados cruzamentos. Com o “tagging”, passamos a construir sistemas de classificação e relacioná-los com os sistemas de outros pesquisadores: os sistemas de relacionamento passam a se relacionar (delicious).

A cultura muda, ou tende a mudar: não necessariamente votaremos em quem uma grande emissora nos diz que devemos votar, não necessariamente compraremos o que nos empurram. O espaço da interatividade ganha gradualmente um espaço crescente, sobretudo com a nova geração, e as construções culturais tornam-se sociais. Myspace, Facebook e tantos outros aparecem na nova conectividade social. A música de sucesso não será necessariamente a que terá pago o maior jabá, e sim a que se distingue por filtragem colaborativa dos que gostam de música. Será o ocaso dos gigantes de intermediação cultural? Poderemos nos ver além da Globo?

As novas tecnologias permitem, como o havia previsto Toffler há mais de vinte anos, evoluir para sistemas mais democráticos, pois o conhecimento pode ser usado sem que o seu estoque se reduza. Permitem, mas não garantem. A forma de empresas de telefonia garantirem as velhas tecnologias, é tentar impedir que as pessoas comuniquem gratuitamente via internet; a forma de evitar que todos possam produzir música para todos e ouvir o que gostam a qualquer momento é obrigar-nos a comprar caixinhas de plástico com um disco dentro, últimos sobreviventes do 78 rotaçoes, do longplay, do diskette, como se fosse necessário na era do imaterial. Para um universo que insiste em tratar a lógica da economia do conhecimento com as leis da era dos bens materiais, é preciso criar escassez para o mercado dar lucro. Tudo é pirataria, violação de propriedade intelectual. É a luta das tecnologias do controle e da apropriação, tentando evitar os processos colaborativos que as novas tecnologias permitem.

Outra abertura interessante, é a generalização dos “sensores” cada vez mais baratos e ubíquos: câmaras digitais nas ruas, seguimento de cada compra que fazemos ou livro que compramos através do cartão, a nossa localização através do telefone celular, o registro de onde passa a placa do nosso carro, o registro dos medicamentos que tomamos através do banco de receitas, os novos softwares que permitem cruzar todas estas informações e estreitar o foco em cada um. Mais perniciosas que o “big brother” são as “little sisters”, bem menos visíveis.

As janelas que se abrem são inúmeras, e nenhuma delas é a certa, ou a última. No livro de Pisani e Petiot, dois franceses que na Califórnia pesquisam a linha de frente das transformações, encontramos não conclusões, mas os eixos de mudança, com as suas possíveis e inseguras transformações. Bela leitura. Eu sei, está em francês, mas a edição em inglês está saindo, e quem sabe uma editora no Brasil se interesse…Contato e mail (escrito por extenso para reduzir spam): pisani arroba gmail ponto com