Um planalto isolado no coração da Ásia, com apenas 2 milhões de habitantes (a China tem 1,3 bilhões) desperta que tipo de interesses? Por alguma razão o surgimento repentino do problema do Tibet na mídia internacional me deixou um tanto desconfiado. Deixamos morrer 10 milhões de crianças por ano, e poucos acham que se trata de um problema de direitos humanos. De AIDS já morreram 25 milhões (fonte F&D, FMI, 2008), e as empresas discutem as taxas de lucro sobre os medicamentos. Mas o Tibet…

Quando grandes potências se preocupam com direitos humanos em países distantes, a razoável cultura histórica de que disponho me leva a olhar duas vezes. Não se preocupe o leitor, sou simpático à autonomia (Deus sabe o que é realmente independência na era global), aos direitos de cada povo à sua própria cultura e decisões políticas descentralizadas. E os monges têm jeito inofensivo e simpático. Mas história é história.

Os ingleses se interessaram pelo Tibet, invadindo-o em 1904. Transcrevo o parágrafo que a Wikipedia apresenta sobre este assunto: “In 1865 Great Britain began secretly mapping Tibet. Trained Indian surveyor-spies disguised as pilgrims or traders counted their strides on their travels across Tibet and took readings at night. Then, in 1904 a British mission under the command of Colonel Francis Younghusband, accompanied by a large military escort, invaded Tibet and reached Lhasa. The principal pretext for the British invasion was a fear, which proved to be unfounded, that Russia was extending its power into Tibet and possibly even giving military aid to the local Tibetan government. But on his way to Lhasa, Younghusband slaughtered many Tibetan troops in Gyangzê who tried to stop the British advance.When the mission reached Lhasa, the Dalai Lama had already fled to Urga in Mongolia, but Younghusband found the option of returning to India empty-handed untenable. He proceeded to draft a treaty unilaterally, and have it signed in the Potala by the regent, Ganden Tri Rinpoche, and any other local officials he could gather together as an ad hoc government. The treaty made provisions for the frontier between Sikkim and Tibet to be respected, for free trade between British and Tibetan subjects, and for an indemnity to be paid from the Qing court to the British Government for its expenses in dispatching armed troops to Lhasa. The provisions of this 1904 treaty were confirmed in a 1906 treaty Anglo-Chinese Convention signed between Britain and China. The British, for a fee from the Qing court, also agreed “not to annex Tibetan territory or to interfere in the administration of Tibet”, while China engaged “not to permit any other foreign state to interfere with the territory or internal administration of Tibet”.[40][41]”

Naturalmente, trata-se de britânicos, e de história antiga. Mas de toda forma, o interesse em dominar uma região absolutamente estratégica na “belly” da Ásia Central, e cujo de manutenção não seria muito cara, além de poder ser apresentada como intervenção humanitária, me pareceu digno de explorar.

Um pouco de pesquisa me levou a esta excelente pesquisa da Kansas University, The CIA’s Secret War in Tibet. Trata-se de algumas décadas atrás, pois é assim que aprendemos história, depois que a revelação dos fatos se torna menos explosiva, ou seja, quando o Declassified Documents Reference System nos Estados Unidos permite pesquisar a história que realmente existiu. Sobre a base de documentos e entrevistas, os autores – cujas simpatias são todas pro-tibet, escrevem o livro mencionado.

Lembremos a pre-história: o Tibet é ligado aos mongóis a partir do século XIII, e em 1720 passa para o domínio chinês com a dinastia Manchu. Os inglêses aparecem (para defender a liberdade do comércio, naturalmente) em 1904, conforme detalhado acima, e enquanto a China mergulha na guerra contra o colonialismo, o Japão e o antigo regime – tempos das lutas de Chang-Kai-Chek, Mao Tse Tung e outros, Tibet respira por ausência de potências, inclusive a chinesa, em plena guerra civil. Com a revolução de 1949, a China volta a exercer a soberania sobre todo o território, inclusive o Tibet. Falar em “invasão” chinesa como se utilizou no Ocidente, é evidentemente uma simplificação.

Os autores fazem o ponto sobre o Tibet tradicional: “Tradicionalmente, mais de um quarto da população masculina do Tibet, normalmente um filho em cada família, opta por uma vida de celibato religioso. Neste número monges especializados vieram a desempenhar papéis tão diferentes como domésticos ou atletas. Os seus amplos monastérios serviam não só como casas de religião e centros de estudo, mas também dominavam vastas propriedades rurais (vast manorial estates) que administravam o grosso do produto da economia nacional. Três-quartos do orçamento nacional, por sua vez, eram dedicados à formação de monges e à manutenção das instituições religiosas”. (p.2) Em outros termos, um Estado religioso, e uma hierarquia religiosa sustentada por pessoas que não meditavam.

“It was by no means a pefect existence, however. Tibet’s legions of monks were not above internecine struggles that sometimes degenerated into divisive, bloody skirmishes. The religious bureaucracy oversaw a primitive criminal code – major crimes were punishable by mutilation – and enforced economic monopolies that made for an exsceedingly wide social gap. Moreover, Tibet’s spiritual leaders had shunned the introduction of most Western innovations because they feared that modernity would erode their central standing in society. Tibet, as a result, was the ultimate dichotomy: a nation pushing the envelope in terms of philosophical and spiritual sophistication, yet consciously miring itself in the technology of the Middle Ages”. (p.5)

O livro conta como, em 1959, a CIA ajuda o Dalai Lama, então com 23 anos, a se exilar na Índia, para formar um governo no exílio, demandando independência. O irmão do Dalai Lama, Gyalo, passa a trabalhar para a CIA em tempo integral. O próprio Dalai Lama passou a receber um “stipêndio” de 180 mil dólares por ano, para sustentar o movimento. (“Ever since the arrival on Indian soil, the CIA had secretely channeled a stipend to the Dalai Lama and his entourage. Totaling $180.000 per fiscal year, the money was appareciated but not critical. Most of it was collected in the Charitable Trust of His Holiness the Dalai lama, which in turn was used for investments, donations and relief work” – p. 230)

A caridade envolveria igualmente a formação, organização, financiamento e transporte de guerrilheiros, com a participação da Índia, interessada em conter eventuais avanços Chineses: “The Indians, with CIA support from the Near East Divsion, would work together in developing Uban’s 5.000-strong tactical guerrilla force. The CIA’s Far East Division, meantime, would unilaterally create a strategic long-range resistance movement inside Tibet. The Mustang contingent would also remain under the CIA’s unilateral control” (174)

Os que deixassem o Tibet receberiam nos acampamentos militares formados no norte da Índia bons salários. O recrutamento ficaria assim facilitado, dadas as condições de pobreza no Tibet. “Finding willing takers was no problem, as the patriotic call to duty – and the chance for meaningful employment – held great appeal among the refugee population”. (177) O processo era organizado pelo irmão do Dalai Lama, Gyalo, com supervisão do conselheiro para-militar senior da CIA, Tucker Gougelmann, Este era um veterano do Vietn, onde tinha sido responsável pela organização da rede de centros de interrogatório provinciais (“provincial interrogation centers”) (224) com métodos hoje notórios.

Os milhares de recrutas, no entanto, se recusavam a entrar no Tibet, e os resultados neste plano foram limitadíssimos. Os americanos decidiram então utilizá-los no movimento independentista no Paquistão-leste. “An ARC An-12 airlift began shuttling nearly 3000 tibetans to the Indian border adjacent to East Pakistan’s Chittagong Hill tracts. To reinforce their deniable status, the guerillas were hurriedly given a shipment of Bulgarian-made AK-47 assault rifles”. Era a contribuição da CIA para o nascimento do Bangladesh.

Esta nota está ficando longa. O livro, para explicitar a montagem pela CIA das operações no Tibet (inclusive o financiamento das iniciativas na ONU para construir um status internacional para o Dalai Lama), mostra como foi montada a participação de Taiwan nas operações (Taiwan também reivindica o Tibet), o uso de bases militares na Tailândia, operações utilizando o Laos e o Nepal.

O importante, é que não há muitos sorrisos pacíficos e inocências religiosas em todo este processo. O livro fecha em 1974, os arquivos se fecham sobre episódios mais recentes. Os autores fizeram uma pesquisa muito confiável, e vale a pena se dar conta dos antecedentes da luta que hoje se trava pelo controle do núcleo vulnerável desta região da Ásia. É importante igualmente lembrar que os Chineses sempre estiveram ao par da dimensão dos interesses internacionais, e hoje seguem com evidente preocupação a instalação da cadeia de bases militares americanas no Turkmenistão, Uzbequistão, Tadjiquistão, Kirghiztão^, o leque de repúblicas ex-soviéticas ao norte do Afeganistão (amplamente documentada pelo Le Monde Diplomatique e Business Week, entre outros). Estamos falando de eventos em curso em 2008, e a razão agora é o interesse do povo afegão. Os chineses, e não só eles, têm boas razões de verem com desconfiança a preocupação do Ocidente com o Tibet

As aspirações podem ser perfeitamente legítimas. A sua utilização nem sempre é. (LD, Agosto 2008)