Quando eu era criança, já nos anos 1950, os meus professores jesuitas proibiram o uso em aula das canetas esferográficas que surgiam: diziam que era moda que ia passar, e eu deveria continuar a molhar a caneta no tinteiro. Na época sofríamos com as inevitáveis manchas de tinta no caderno, tragédia passível (quase) de excomunhão escolar. A Bic era moda, o tinteiro seria eterno. A opção da igreja era pela eternidade.

Hoje sento para escrever enfrentando tela plana, disco rígido, versões 5.0, ataques de virus, megahertz, gigabytes, provedor, modem e o terror de todos os dias: uma cruz vermelha no meio da tela, com um barulho ensurdecedor, indicando que realizei uma ação proibida. Cada geração tem as suas tragédias. Não precisa mais excomungar, Deus está online.

Pequenos dramas a parte, vale a pena dar um zoom para trás, e dar uma olhada mais geral no que está acontecendo, buscar a big picture como gostam de dizer os americanos. Estamos entrando a passos largos na sociedade do conhecimento, brigamos com os nossos bytes individuais,,mas frequentemente desconhecemos os desafios esturutrais. Navegamos todos na Web (os www), pensamos vagamente que foi inventada pelos americanos, e desconhecemos o autor desta autêntica revolução na conectividade planetária que foi Tim Berners-Lee, que desenvolveu o sistema no centro de pesquisas nucleares de Genebra. Desconhecemos igualmente que o sistema é regido por uma organização não governamental, sem fins lucrativos. O livro básico de Berners-Lee, Weaving the Web, sequer encontra-se traduzido em português.

Entender o que está acontecendo além do nosso computador é um dos desafios científicos maiores que enfrentamos. A forma de elaboração, disponibilização e apropriação do conhecimento online gera um terremoto organizacional pelo menos tão profundo quanto foi o surgimento das fábricas na era da revolução industrial. Para produzir bens materiais em massa tivemos potentes máquinas agrupadas em unidades fabrís, jornada de 8 horas, trabalho assalariado, infraestruturas para transportar toneladas. Na economia do conhecimento teremos o quê?

Já resenhamos aqui um livro fundamental para estudar este processo, o The Future of Ideas, de Lawrence Lessig. No capítulo Economia do Conhecimento do meu livro Democracia Econômica (Vozes, 2008, veja neste site) apresentamos algumas das principais tendências e suas implicações para a ciência econômica. Vale a pena seguir este filão de pesquisa, pois se trata de uma das principais forças reestruturadoras do planeta.

O livro acima, The Cathedral and the Bazaar, utiliza no título uma imagem: construir uma catedral exige uma visão predefinida, e um sólido controle verticalizado de todas as atividades, com forte centalização das decisões. No caso do bazar, a imagem é da imensa bagunça de inúmeros comerciantes e artesãos, cada um contribuindo com uma parte do processo que é aparentemente caótico, mas acaba prestando inestimáveis serviços ao abrir espaço para cada um contribuir livremente com o que achar mais útil ou interessante. O próprio livro é disponibilizado gratuitamente online, no quadro de um copyright diferente que pode ser consultado em http://www.opencontent.org/openpub/

O pano de fundo, evidentemente, é o livre acesso: se eu entrego um bem material a alguém, deixo de tê-lo, e portanto a apropriação é fundamental, e com isso a propriedade privada torna-se central nas regras do jogo social. No caso do conhecimento, eu passar o conhecimento a mais pessoas não limita o conhecimento que eu tenho. Em consequência, as dimensões econômicas e sociais de todo o processo mudam profundamente.

O livro de Eric S. Raymond é um pequeno clássico na sua área, e apresenta as formas concretas de organização da contribuição espontânea e colaborativa em rede na construção de inovações nas tecnologias da informação. É natural que os grandes grupos privados, cuja fortuna depende de se limitar o acesso ao conhecimento – pois o somente o seu controle estrito impede que se torne de livre utilização, e portanto sem valor comercial – busquem a demonização de toda esta área de atividade. Assim os hackers, comunidade colaborativa de inovações tecnológicas, são jogados no mesmo saco que os crackers, os que implantam virus, buscam quebrar contas bancárias e assim por diante.

Aqui, trata-se de explicitar a lógica colaborativa no aperfeiçoamento tecnológico, partindo da visão de que inúmeras idéias espontaneamente trazidas para uma construção inovadora podem constituir um processo de produção diferenciado: o bazaar funciona. Para produzir tênis ou hamburguers talvez não, mas para produzir conhecimento, sem dúvida. Na base, está o conceito de externalidades positivas das redes (positive network externalities, 144) que permitem romper a separaçao entre o produtor e o cliente, já que o cliente torna-se também colaborador do processo. Onde está a ameaça? “Um fato central que a distinção entre valor de uso e valor de venda permite-nos notar é que somente o valor de venda é ameaçado pelo deslocamento de fontes fechadas para fontes abertas (open source); não o valor de uso.” (129) Pelo contrário, o valor de uso se reforça, tanto pela generalização do acesso como pelo fato de usuários diferenciados poderem trazer para o processo de produção a visão de quem enfrenta efetivamente os inúmeros e variados problemas que surgem.

Raymond marca bem este ponto: os processos ligados ao conhecimento são processos interativos. A própria compra de um sofware é de menos, o processo de apoio, manutenção, serviços e atualização é que constitui o essencial. “Se (como é geralmente aceito) mais de 75% dos custos do ciclo de vida de um projeto típico de software está na manutenção e debugging e extensões, então a política geral de se cobrar um preço de compra elevado e taxas de suporte relativamente baixas ou zeradas deverá levar a resultados que servem mal todas as partes”.

“A coisa piora. O uso real implica chamadas de serviço de apoio, que reduzem as margens de lucro a não ser que sejam cobradas. No mundo de código livre, busca-se a maior base possível de usuários, para obter o máximo de retorno e um mercado secundário o mais vigoroso possível; no código proprietário busca-se o máximo de compradores, mas o mínimo de usuários. Portanto a lógica do modelo da fábrica recompensa melhor os vendedores que produzem bens de prateleira – software que é suficientemente bem divulgado (marketed) para assegurar vendas mas na realidade inútil na prática. O outro lado desta moeda é que a maioria dos vendedores que seguem este modelo de fábrica não terão resultados no longo prazo. Financiar indefinidamente despesas de suporte a partir de um preço fixo só é viável num mercado que se expande num ritmo suficiente para cobrir o suporte e os custos do ciclo de vida implicado nas vendas de ontem com as vendas de amanhã. Quando o mercado se torna maduro e as vendas se reduzem, a maior parte dos vendedores não terão outra esolha senão de cortar despesas tornando os seus produtos órfãos” (120-121)

Em outros termos, diz Raymond, “o software é dominantemente uma indústria de serviços que opera com a persistente mas infundada iulsão de ser uma indústria manufatureira” (120)

Estamos aqui no centro da discussão sobre as novas lógicas econômicas e organizacionais que implica a transição para uma economia do conhecimento. O livro vale a pena, não é novo, mas é um pequeno clássico, e partindo da cultura das pessoas que criam as ferramentas informáticas, traz-nos uma visão muito rica. Veja em http://www.oreilly.com/catalog/cathbazpaper
Veja em português sob http://www.geocities.com/CollegePark/Union/3590/pt-cathedral-bazaar-1.html