Dissertação de mestrado em administração na PUC-SP, fevereiro de 2008, orientação prof. Ladislau Dowbor, banca com os professores Luciano Junqueira e Luis Carlos Merege.

Na minha imaginação, esta dissertação quando publicada sob forma de livro terá como título “Do discurso à ação: A solidão do profissional de Responsabilidade Social Empresarial”.  Por enquanto, este excelente trabalho está disponível com a autora, sob e na biblioteca da PUC-SP.

O conceito de responsabilidade social empresarial, RSE, está generalizado no planeta, mas é recente. O resultado é um descompasso entre as necessidades e o nível de formação.

 

Empurrar a marca já não basta, é preciso mostrar que a atividade da empresa é socialmente útil e ambientalmente sustentável. Em outros termos, o mundo corporativo está descobrindo a ética, e já era tempo. Para quem acompanha a governança corporativa, é evidente que há uma grande distância entre a adesão ao discurso, e a implementação de políticas.

A cultura dominante ainda é pouco estimulante. Veja-se a política de corrupção ativa por parte das grandes empreiteiras, as fraudes da indústria farmacêutica mundial, a manipulação de preços pelo oligopólio dos grãos, o esgotamento dos mares pela pesca oceânica industrial, o caos financeiro gerao pelos chamados “investidores institucionais”,  a política dos grandes grupos do petróleo. O vale-tudo empresarial não é exceção. Com o crescente nível de informação da sociedade, a consciência das pessoas progride e os dramas estão sendo melhor compreendidos. As pessoas sentem na pele o impacto de  aquecimento global, da escassez de água limpa, da polarização planetária entre ricos e pobres que nos coloca em clima de guerra. Com as novas tecnologias e a formação de gigantes empresariais, o lucro se concentra, os empregos gerados são poucos, e os impactos ambientais se tornam planetários. Não basta a empresa avaliar os “outputs”, é preciso avaliar os resultados sociais, econômicos e ambientais, os chamados “outcomes”.

 

O trabalho de Fátima Alexandre apresenta uma excelente sistematização da evolução dos conceitos e dos posicionamentos, que vão desde o cheque para uma instituição de caridade, até a mudança dos próprios processos produtivos (core business), visando uma contribuição positiva para a sociedade.

 

O foco principal está no profissional da RSE. Trata-se de uma área que se expandiu em ritmo acelarado, em período recente, fazendo com que o profissional da seja geralmente uma pessoa sem formação específica na área, emprestado por outro setor, de marketing ou de recursos humanos. Os profissionais da RSE assumem a função, mas passam a aprender no próprio caminho. Enfrentam um grande descompasse entre as necessidades profissionais e as soluções “por empréstimo” que frequentemente resultam em atitudes apenas cosméticas.

Preso entre as pressões da empresa que quer melhorar a imagem sem excessivos esforços, e as exigências crescentes da sociedade por atitudes mais responsáveis, dotado de poucos recursos, e com pouca autoridade na instituição, além de capacitação específica incipiente o profissional da RSE vive a tensão de quem tem de responder a um objetivo grande com meios pequenos. Isso sem falar da tão frequente hipocrisia empresarial, onde se exige mais capacidade cosmética (greenwsashing) do que ação de verdade, gerando uma conflito ético permanente para o profissional.  

A Pós-graduação em administração da PUC-SP está acumulando um acervo interessante de trabalhos sobre o tema, valendo a pena lembrar por exemplo os trabalhos de Robeto Galassi Amaral, Paulo Rogério Lima, Rosângela Quilici, Célia Santana, entre outros, resenhados abaixo.

Fátima tem uma excepcional capacidade de sistematização, a sua linguagem é clara, permite uma visão de conjunto muito bem ordenada, além de trazer interessantes casos concretos através das entrevistas realizadas. Recomendo.

Autor: Maria de Fátima Duque Caçador Alexandre