Tornou-se moda, ultimamente, achar que afinal o colonialismo não foi tão ruim, que trouxe a modernidade para povos atrasados e bobagens do gênero. Não é má vontade das pessoas, nem necessariamente preconceito: em geral, trata-se simplesmente do desconhecimento de como as coisas se deram. O livro de Adam Hochschild é neste sentido uma leitura apaixonante, a abertura de uma janela muito bem documentada sobre as engrenagens das relações coloniais na África. Como eu gosto muito de ler livros de história, não manuais de história, mas histórias bem contadas de como se passaram as coisas, tive nesta leitura um prato cheio. Recomendo de coração, pois não se entende a África de hoje sem se referir aos mecanismos que a tansformaram.

Quando vemos um bom filme, temos a vontade que outros o vejam, compartilhem do prazer. É um pouco o sentimento que me invade. Sabendo por experiência o pouco que o brasileiro conhece do continente africano – uma visão tarzânica ou quase, reforçada por uma mídia que só apresenta visões superficiais – recomendo com força este livro, que descreve a era colonial, mas faz entender o presente.
O rei Leopoldo II, soberano da pequenina Bélgica, resolveu, no fim do século XIX, pensar grande: estimulado e assessorado por um explorador de muita fama e poucos escrúpulos, Stanley, organizou a conquista e exploração do que foi na época o Congo Belga, mais tarde Zaire e de novo Congo, hoje teatro de dramas que não cessam. A conquista deu-se não com simples envio de tropas, mas essencialmente através da criação de uma impressionante e bem financiado movimento humanista: aproveitando o tráfico de escravos que subsistia na costa Leste da África, Leopoldo multiplica missões de solidariedade, mobiliza religiosos, faz discursos indignados, e só então, com fervorosa indignação e apoiado por numerosas organizações humanitárias, concorda em fazer o sacrifício: ocupa um território de dimensões quase européias no coração do continente, para salvá-lo da escravidão. Para compensar as perdas financeiras com a missão humanitária, aceitará patrocinar o comércio de marfim e, com o avanço do automóvel, da borracha.
Estamos aqui numa época que já não tem caravelas, a economia move-se com trens e navios a vapor, a política se refere à democracia e direitos humanos, as empresas montam impressionantes arquiteturas financeiras. Leopoldo navega com habilidade neste emaranhado de valores humanos e monetários, e tece uma das maiores fraudes que já se montou: com ampla reputação de bemfeitor, acumula uma gigantesca fortuna, às custas de massacres e exploração cujo custo humano é hoje estimado entre 8 e 10 milhões de pessoas. Foi gradualmente, com a crescente indignação de missionários e pessoas da sociedade civil que denunciavam a violência e a rapina, – e particularmente com a abertura parcial dos arquivos que o tempo permite – que se chegou a uma visão de conjunto de como se deu o processo.
Hochschild sistematiza e apresenta com uma narrativa cativante uma das maiores tragédias do século passado, reconstruindo a trajetória da Conferência de Berlim até a lógica do assassinato de Partrice Lumumba pelos serviços secretos belga e norteamericano nos anos 1960. O Congo entra na era da independência com as feridas abertas e ódios acumulados por quase um século de violência inimaginável, o seu principal lider e presidente eleito assassinado, e 30 pessoas com grau universitário. Faça-se um país.
O livro de Hochschild é corajoso, mas não é um livro de horror: no essencial, faz-nos entender os mecanismos sofisticados que sustentam e disfarçam a barbárie. A Companhia das Letras editou este livro em 1999, a edição em inglês que tenho em mãos é de 2005, com um apêndice de atualização. Na livraria Cultura o livro aparece como esgotado, mas vale a pena procurar e localizar esta jóia de realidade entre tanta ficção.