Hoover, o famoso chefe do FBI, foi durante quase quarenta anos o homem forte dos Estados Unidos, a eminência parda colada em cada sucessivo presidente, e assina uma das farsas mais bem montadas que se conheça: uma visão moralista de homem simples, duro e reto, à frente de uma instituição centrada no combate ao crime e na proteção dos valores básicos da sociedade.

Na realidade, dos anos 1920 até quase a década dos 1970, a pretexto de defender a sociedade dos inimigos internos e externos, Hoover montou um gigantesco sistema de fichamento de toda e qualquer pessoa que pudesse um dia exercer influência: artistas de cinema, movimento negro, congressistas, jornalistas e, evidentemente, presidentes. Montou com isto a mais impressionante máquina de chantagem política que já se viu no mundo, na defesa do seu próprio poder, e na defesa das políticas de direita em geral.
Como isto foi montado apareceu muito mais tarde, à medida que foram sendo abertos os arquivos. Summers escreve no início dos anos 1990, quando os arquivos já aparecem, e muitos dos que conviveram com Hoover ainda podiam ser entrevistados. O resultado é uma história fascinante, pois muito além da arquitetura paralela de poder montada por Hoover, aparece de forma bastante mais diferenciada e sofisticada como funciona na realidade o poder nos Estados Unidos.
Entender os Estados Unidos é importante. Leituras dinâmicas e apaixonantes como a deste livro não substituem, evidentemente, a leitura de uma boa história dos Estados Unidos, como por exemplo a do excelente A People’s History of the United States de Howard Zinn (lamentavelmente ainda não publicado no Brasil). Mas ler a história, ou a biografia pessoal/política de grandes personagens permite uma impressionante visão de bastidores sobre os dramas de uma nação, através de uma vivência concreta.
O livro de Summers é muitíssimo bem documentado, mas a leitura é leve, e a vida de Hoover interessante. Este autêntico carrapato da política norte-americana, que se manteve presente junto a todos os presidentes, influenciando inclusive de maneira muito forte a política relativa à América Latina (o FBI tinha esta prerrogativa, a AL sendo considerada de certa maneira política “interna” durante longo tempo), utilizou métodos dos mais prosaicos da baixa política (muito parecido neste sentido com um colecionador de arquivos pessoais e sexuais que foi o ACM entre nós). Manteve relacionamentos homosexuais durante toda a sua vida, o que não o impediu de perseguí-los implacavelmente em nome da sua imagem de policial durão, e de utilizar o argumento para quebrar opositores.
O livro apresenta também a vantagem de salpicar um pouco de modéstia na visão que temos da alta política. Muitas decisões históricas foram tomadas não sobre a base de uma profunda reflexão, mas sobre a base de um gravador debaixo de uma cama, ou de uma escuta telefônica. Nada que nos surprenda no Brasil, mas ver como isto funciona em larga escala, com o apoio de uma grande organização policial, que tinha direitos ou pretextos para entrar na vida pessoal de qualquer pessoa, ajuda a entender o mundo. Como tudo isto se fez com amplos discursos moralistas, e emocionantes declarações sobre os valores da família e o bem da nação, fechamos o livro balançando filosoficamente a cabeça, pensando em Darwin e na realidade do homo sapiens, mas com a pontinha de um sorriso.
Comprei o meu exemplar, em inglês, nos “livros usados” da Amazon. Lamentavelmente não existe em português, mas já foi traduzido em espanhol (editora Amaranta, veja sob www.livrariacultura.com.br ). É bem possível que se encontre no site de sebos www.estantevirtual.com.br