A indústria farmacêutica é hoje um gigante, numa área, a saúde, ela mesma em expansão. Nos Estados Unidos, é bom lembrar, a saúde é hoje o principal setor da economia, com 15% do PIB e crescendo. Isto torna a saúde, naturalmente, um grande negócio, e a guerra pelos lucros tem pouco a ver com a imagem que encontramos nas publicidades, com um senhor atencioso e elegante cuja preocupação central é utilizar a ciência para o nosso benefício. De preferência, a bata branca.

A indústria farmacêutica gosta de puxar para si o cobertor dos grandes avanços que atingimos em termos de saúde, por exemplo com o aumento da longevidade. A realidade, é que a parte esmagadora dos avanços se deve à melhor alimentação, higiene, água limpa e saneamento básico, elementos para os quais esta indústria não contribuiu. E no caso das vacinas, trata-se de aportes dos sistemas públicos de pesquisa e prevenção, que por razões óbvias nunca interessaram muito às corporações. Menos doentes, menos clientes.

O livro de Marcia Angell, médica e durante décadas editora de uma das principais revistas científicas do setor, o New England Journal of Medicine, está gerando um grande impacto, pois é realmente uma autoridade no assunto, e escreve com os fatos na mão. Para quem acompanha as falcatruas do setor – que têm aparecido regularmente mas sempre em fragmentos nas mais variadas publicações científicas – o sentimento é de que finalmente temos o conjunto de dados básicos reunidos e sistematizados. E a imagem que resulta não é muito animadora.

Primeiro, quando aos resultados efetivos: “Nos quatro anos a partir de 2000, houve apenas 32 medicamenos inovadores num total de 314 aprovados. Mesmo nesta pequena coleção, apenas sete vieram das 10 maiores empresas farmacêuticas americanas. Houve um para cada empresa em Pharmacia, Merck e Bristol-Myers-Squibb em 2000; um da Merck em 2001; nenhum em 2002; um para cada em Pharmacia, Wyeth e Abbott em 2003. Onde estavamPfizer? Lilly? Schering-Plough? O fraco resultado nunca chega perto de justificar toda a retórica sobre quão inovadora seria a indústria farmacêutica americana, nem todos os avisos de que se ousarmos regular os preços, estaremos prejudicando o prodigioso fluxo de medicamentos que salvam vidas”. (p.235 da edição original, tradução nossa LD).

E esta quantidade de medicamentos que aparece no mercado? A autora explica como 77% dos medicamentos aprovados são os que chama de “me-too drugs”, medicamentos que não trazem nada de novo relativamente a medicamentos anteriores, mas apenas uma pequena alteração que justifique um novo nome, e se possível uma nova patente. Patentes e direitos exclusivos de comercialização permitem por sua vez manter preços astronômicos relativamente aos custos dos medicamentos, e durante décadas, o que é absurdo com o ritmo tecnológico moderno.

Tudo se justifica, naturalmente, com o fato das empresas terem de desenvolver pesquisas. Com cifras, a autora mostra que na decomposição dos preços de venda, seguem em ordem decrescente grande massa de gastos com publicidade, os lucros e em nível bem menor o gasto com pesquisa. Para as 10 maiores empresas norteamericanas, as cifras respectivas em 2002, para um valor total de vendas de 217 bilhões de dólares, são as seguintes: os gastos com publicidade foram de 67 bilhões, os lucros de 36 bilhões, e a P&D 31 bilhões. E os gastos com pesquisa, na realidade, consistem dominantemente na aquisição de direitos sobre a pesquisa desenvolvida no setor público e no setor universitário financiado com recursos públicos, fonte dominante da base científica do setor nos Estados Unidos.

Angell traz também os dados (já de conhecimento público há algum tempo) sobre a fraude que representou a cifra que foi martelada no mundo inteiro de que custa em média 800 milhões de dólares desenvolver um medicamentos. A cifra real não chega a 100 milhões. É interessante que a FAPESP, na sua publicação Pesquisa, apresentou ao público científico brasileiro um amplo artigo assumindo como real os 800 milhões, quando a sua falsidade já estava amplamente comprovada, evidência da presença entre nós do lobby do setor.

A grande verdade é que esta indústria (que gosta de se apresentar com o nome de
‘laboratórios farmacêuticos”) responde aos acionistas, e não aos usuários. Os usuários pela natureza do setor não têm informação para contestar o conteúdo de uma pílula, ou o preço no caixa. A ofensiva dominante das empresas consiste em ganhar os médicos para os seus produtos, e o processo de corrupção apresentado pela autora é impressionante, sobretudo porque os próprios médicos ficam confusos com a quantidade de drogas quase idênticas. Como já acontece no Brasil, o seguimento das receitas nas farmácias permite controlar se os médicos recrutados estão efetivamente receitando o que a empresa amiga recomendou. Mas a indústria ganhou igualmente presença importante dentro do FDA, o organismo que aprova os medicamentos nos EUA, no escritório de patentes, e na bancada republicana (não só) do Congresso.

A parte final do livro apresenta propostas práticas de regulação do setor, nos planos do marco legal, da organização do controle, da responsabilização pelos processos, da flexibilização de patentes. Uma belíssima leitura, Marcia Angell escreve como quem não precisa inventar nem ornamentar o que tem a dizer. É um estilo franco e direto de quem domina o assunto e entende a urgência.