O aporte de Vázquez-Barquero gira em torno à importância da cidade, vista na dimensão territorial e com o seu contexto regional, e focando-a como espaço de construção de processos de desenvolvimento econômico. O desenvolvimento é neste sentido “endógeno”, gerado e dinamizado de dentro do território, de baixo para cima. Trata-se de pensar como o conjunto dos atores sociais da cidade pode dinamizar de forma organizada o uso dos seus recursos, gerando inclusive um sistema mais rico de relacionamento com espaços econômicos mais amplos.

Sobre este tema, é sem dúvida um dos tratados mais ricos e criativos que tenho lido. Prima em particular pela organização extremamente sistemática da discussão, a apresentação ordenada das principais contribuições teóricas, uma excelente bibliografia, e a apresentação de exemplos práticos.

A nossa evolução em termos de conceituar a relação entre a economia e o território tem sido notoriamente frágil. Sem dúvida, tivemos a visão dos “polos de desenvolvimento” do François Perroux, o sucesso dos distritos industriais como por exemplo em Villa el Salvador, a conceituação em torno aos “arranjos produtivos locais” desenvolvida no Sebrae, a visão já mais integrada do desenvolvimento do território nos trabalhos de Carlo Trigiglia, com as experiências amplamente conhecidas da Emiglia-Romagna e de Jordi Borja em Barcelona.

Há uma progressão clara neste processo, na medida em que chegamos à compreensão da importância da iniciativa local na dinamização e orientação do desenvolvimento. A força do trabalho do Vázquez-Barquero vem do fato de ter articulado o conjunto das peças do sistema: como as grandes empresas podem contribuir pelas formas de articulação com as dinâmicas locais, como os mecanismos de inovação tecnológica podem ser mobilizados para um processo articulado de desenvolvimento, como utilizar as redes afim de tecer complementariedades entre os diversos setores de atividade, como gerar processos coletivos de aprendizagem e assim por diante.

Não há muito mistério nisto. Uma empresa funciona quando os seus vários setores se constituem de tal maneira que a força de um estimule a capacidade dos outros, gerando economias de escala, economias de aprendizagem, economias de colaboração e assim por diante. Porque não pensar o território como um sistema articulado e organizado em torno ao bem estar econômico, social e ambiental dos seus cidadãos?

Estmos longe de pensar o local como espaço isolado: a dinâmica é endógena no sentido da dinâmica dominante ser apropriada e guiada pelos sujeitos econômicos e sociais locais, mas é também da capacidade de articulação com os outros níveis econômicos – a região, a nação, as dinâmicas globais – que vai resultar a inserção adequada do local. De certa maneira, trata-se de articular o local no sentido de maximizar as suas chances e oportunidades no conjunto.

O “Endógenous Development” foi traduzido e publicado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sob o título de “Desenvolvimento endógeno em tempos de globalização”, mas se esgotou rapidamente. Seria importante voltar a disponibilizar este texto em português. Enquanto não sai uma reedição, o livro em inglês está disponível, comprei o meu pela Amazon.com
Uma belíssima leitura.