O mundo está ficando mais esperto, ou pelo menos mais informado. Com Inequality Predicament das Nações Unidas que apresenta um balanço da situação social mundial; o relatório de 2007 do painel intergovernamental sobre as mudanças climáticas, com a Stern Review que faz um balanço dos custos econômicos do aquecimento global, e inclusive a repercussão do ótimo documentário de Al Gore, está se elevando rapidamente o nível de compreensão dos impasses estruturais do planeta.

A grande verdade é que estamos enfrentando desafios estruturais, o que os americanos chamam de mega-trends e os franceses de tendances lourdes, cuja inércia ultrapassa em décadas qualquer medida que se tome agora. O livro de Thomas Homer-Dixon, cientista político canadense, organiza os diversos ralatórios e informes setoriais, e apresenta uma visão de conjunto muito bem documentada. Não se trata de exercícios acadêmicos abstratos. Trata-se do futuro de todos nós. A idéia forte que o autor demonstra com clareza, é que as grandes ameaças estruturais convergem e se tornam sinérgicas.

O relatório da ONU sobre a desiguladade (The inequality predicament: report on the world social situation 2005) conclui prosaicamente que “o gap de renda entre os paises mais pobres e os mais ricos tem aumentado nas últimas décadas”. Claro, todos têm progredido. A renda per capita dos 20 países mais pobres passou, entre 1960-1962 e 2000-2002, de 212 para 267 dólares, um aumento de 26%. Mas o mesmo dado para os 20 países mais ricos mostra que passaram de 11.417 para 32.339 dólares no mesmo período, um aumento de 183%. Considerando que esta dinâmica está se agravando, num mundo cada vez mais apertado e conectado, que futuro isto prepara? E não temos nenhuma solução institucional, nenhum governo mundial para promover a redistribuição que existe, por exemplo, em qualquer democracia avançada.

Converge para este drama a evolução da pressão demográfica. Temos hoje 6,4 bilhões de pessoas no mundo, aumentando num ritmo de algo como 75 milhões a cada ano, e com um perfil de consumo crescentemente surrealista, nas duas pontas, na escassez e nos excessos, na desnutrição e na obesidade. Cerca de 2/3 do crescimento populacional se dão na área da miséria. Não estamos mais na era das populações pobres e isoladas. O planeta é um só, encolhendo dia-a-dia, e os pobres sabem que são pobres, e que as políticas atuais as inundam de armas baratas e lhes vendem medicamentos a preço de ouro. Que cidadania lhes resta, e que cidadania nos resta, se não temos como enfrentar este tipo de problema?

O modelo de consumo do planeta é o dos ricos. Por que razão não teriam todos os chineses e todos os indianos direito a ter também cada um o seu carro? A pressão coletiva que resulta é desastrosa, simplesmente porque os ricos se dotaram de um perfil de consumo cuja generalização é inviável. Esta política se traduz numa pressão sobre recursos não-renováveis que o planeta não pode suportar. Os dados sobre o esgotamento da vida nos mares, a erosão dos solos, a redução das reservas de água doce nos lençóis freáticos, a destruição acelarada da bio-diversidade, o desmatamento e outros processos estão hoje sendo acompanhados em detalhe, numa demonstração impressionante do que podemos chamar de capacidade técnica e impotência política, pois todos vemos as coisas acontecer, e ficamos passivos, pois não há correspondência entre os mecanismos políticos e a realidade que temos que enfrentar.

Estas dinâmicas estão sendo temporariamente mantidas por uma matriz energética que sabemos ser insustentável. A nossa pequena espaço-nave terra veio com tanques de combustível, o petróleo, que se acumularam durante mais de cem milhões de anos, e que teremos liquidado em menos de duzentos. Achamos normal mobilizarmos um carro de duas toneladas para levar o nosso corpo de 70 quilos para postar no correio uma carta de 20 gramas. O homo economicus do século XXI joga nas nossas cidades modernas cerca de um quilo de produtos no lixo. Não nos damos conta do desperdício. Todos sabemos que vivemos um sistema insustentável a prazo, conhecemos a dimensão dos impasses, e apenas esperamos que apareçam tecnologias milagrosas que abram novos caminhos na última hora. E que alternativa resta ao cidadão? Se não tiver carro, nas dinâmicas ditas modernas, como sobrevive? E alguém vai eleger um político que assume que vai aumentar o prêço dos combustíveis?

O resultado que está explodindo nas manchetes, é o aquecimento global. O Relatório Stern constata que por mecanismo espontâneo nenhuma empresa irá optar por energia renovável quando os outros estarão explorando o petróleo barato. A frase de Nicholas Stern, pacato ex-economista chefe do Banco Mundial, é forte: “A mudança climática apresenta um desafio único à ciência econômica: trata-se da maior e mais abrangente falência do mercado já vista”. Se o mecanismo de mercado não resolve, é preciso constituir dinâmicas políticas. Dispomos hoje de um nível sem precedentes de informação sobre este drama maior do planeta: o relatório do Painel Intergovernamental sobre Câmbio Climático, de fevereiro de 2007, apresenta dados inequívocos e hoje incontroversos. Os cálculos de Nicholas Stern sobre o que isto representa em termos de custos para a economia mundial mostram que é muito mais barato tomar providências agora do que remediar no futuro. Para os céticos e desinformados, há ainda o excelente Verdade Inconveniente de Al Gore. E o que fazemos?

Pessimismo? Não, apenas bom senso e informação organizada. Os desafios principais do planeta não consistem em inventar um chip mais veloz ou uma arma mais eficiente: consiste em nos dotarmos de formas de organização social que permitam ao cidadão ter impacto sobre o que realmente importa. Com a globalização, o processo se agravou. As decisões estratégicas sobre para onde caminhamos como sociedade passaram a pertencer a dinâmicas distantes. As reuniões dos que mandam, em Davos, lembram vagamente as brilhantes reuniões de príncipes em Viena no século XIX. A ONU carrega uma herança surrealista, onde qualquer ilhota do pacífico com status de nação tem um voto, tal como a India que tem um sexto da população mundial. As grandes empresas transnacionais tomam decisões financeiras, fazem opções tecnológicas ou provocam dinâmicas de consumo que afetam a humanidade, sem que ninguém tenha como influenciá-las. Democracia econômica ainda é uma noção distante. Somos cidadãos, mas a realidade nos escapa.

Misturei um pouco nesta resenha idéias do autor com as minhas preocupações. Isto porque o livro é instigante e provodca reações. A leitura é leve, flui rapidamente. As referências bibliográficas sáo ótimas. Boa leitura