Raramente 4 páginas de leitura são tão significativas. É o primeiro balanço abrangente da distribuição da riqueza no planeta. O título da Folha de São Paulo de 6 de dezembro, reproduzindo artigo do Financial Times, resume bem o drama: “Só 2% concentram metade da riqueza mundial; os 50% mais pobres da população respondem porvapenas 1% da riqueza do planeta, aponta órgão ligado às Nações Unidas”.

Os dados estatísticos de que dispomos referem-se normalmente à distribuição de renda, dados igualmente importantes e dramáticos. São os dados que nos informam, por exemplo, na metodologia do Banco Mundial, de que cerca de 3 bilhões de pessoas no planeta vivem com menos de dois dólares por dia, dos quais 1,2 bilhão com menos de um dólar.

A pesquisa do WIDER (World Institute for Development Economics Research), da Universidade das Nações Unidas, aponta para outra drama, que é o da concentração da riqueza acumulada. Na realidade, as duas metodologias estão vinculadas, pois a renda maior dos mais ricos permite que acumulem mais propriedades, mais aplicações financeiras, enquanto os pobres estagnam. Assim, a riqueza acumulada (“net worth: the value of physical and financial assets less debts”, o que equivale ao que o relatório define como “a comprehensive concept of household wealth”), ou riqueza familiar acumulada, tende a polarizer ainda mais a sociedade, e leva em particular à formação de gigantescas fortunas que pouco têm a ver com a contribuição que estas pessoas ou famílias deram para a produção da riqueza social.

A riqueza familiar acumulada é estimada em 125 trilhões de dólares para o ano 2000, equivalendo a 144 mil dólares por pessoa nos EUA, 181 mil no Japão, 1.100 dólares na Índia, 1.400 na Indonésia.

Esta apropriação da riqueza desenha uma geo-economia do tipo “Alfaville-Alfavela”:
“A distribuição regional de riqueza acumulada (asset holdings) mostra uma riqueza pesadamente concentrada na América do Norte, Europa, e países da Ásia de alta renda, que juntos representam quase 90% da riqueza global. Apesar da América do Norte ter apenas 6% da população mundial adulta, possui 34% da riqueza familiar.”

É natural que a acumulação de riqueza dentro dos países siga a mesma tendência, pois familias mais ricas tendam a poder acumular mais. O fosso interno dos países agrava-se portanto: “A parte dos 10% mais ricos varia de 40% na China a 70% e mais nos Estados Unidos e alguns outros países”…”Nossos resultados mostram que o decil superior de riqueza era dono de 85% da riqueza global no ano 2000. Os 2% de adultos mais ricos do mundo tinham mais da metade da riqueza global, e o 1% mais ricos detinha 40% de toda a riqueza familiar. Em contraste, a metade de baixo da população adulta mundial detinha meramente 1% da riqueza global. O valor Gini para a riqueza global foi estimado em 89, o mesmo valor Gini seria obtido se 100 dólares fossem distribuidos entre 100 pessoas de tal maneira que uma pessoa recebesse 90 dólares, e os 99 restantes 10 centávos cada”.

Curiosamente, quando se fala em distribuição de renda, em imposto sobre a fortuna, em imposto sobre herança, a mídia fala em populismo e demagogia. Não ver os dramas que se avolumam com das dinâmicas atuais é ser perigosamente cego.

O relatório está apresentado (em inglês) no Newsletter do Wider, e pode ser acessado em www.wider.unu.edu/newsletter/newsletter.htm no número que corresponde a 2006, II.