http://www.hm-treasury.gov.uk/media/8AC/F7/Executive_Summary.pdf

Nicholas Stern,Governo da Grã-Bretanha, London, Outubro de 2006.

O Titanic, evidentemente, não tinha como afundar. As probabilidades eram ridículas. Por outro lado, acelerar o navio daria belas notícias nos jornais, levantaria entusiasmos e financiamentos, permitindo mais investimentos e assim por diante. Enfim, o progresso. A realidade é que o navio afundou, e junto com êle uma certa prepotência dos que arriscam tudo para sair na primeira página. Mas as culpas nunca estão de um lado só, e entre os que ignoram riscos e os tímidos que não avançam por excessiva prudência, há bastante espaço para o bom senso.

O poder não costuma estar nas mãos dos que têm bom senso.. É interessante questionar por que razão prevaleceu a decisão irresponsável no caso do Titanic, ou a irresponsabilidade sistêmica no caso do naufrágio da gigantesca e tecnicamente tão bem dotada Enron ou, em escala bem mais ampla, porque prevalece o imobilismo decisório no caso do aquecimento global, onde assistimos impotentes à evolução do planeta para zonas de alto risco, com consequências potencialmente catastróficas.

No meio dos minimamente informados, há poucas dúvidas quanto à realidade do aquecimento global. Mas como as tecnicalidades climáticas são obscuras, e empresas como a Exxon-Mobil e outras gastam rios de dinheiro para ridicularizar o risco e caluniar cientistas, ficamos na dúvida. Este ponto não é secundário. O New Scientist apresenta vários relatórios das instituições científicas norte-americanas sobre as iniciativas do governo Bush para deturpar dados ou travar as informações sobre mudanças climáticas. A guerra de números contraditórios é real, e não ajuda a compreensão.

O governo britânico tomou uma medida mais sensata. Encarregou Nicholas Stern, que foi economista-chefe do Banco Mundial, e portanto é pouco propenso a extremismos ecológicos, de fazer as contas. As contas do Relatório Stern referem-se aos dados climáticos mais confiáveis, que ele utiliza para avaliar o impacto propriamente econômico: o que aconteceria, em termos de custos, ao se verificarem as projeções climáticas já razoavelmente seguras, calculando-se os impactos mais prováveis, sem desconhecer o grau inevitável de incerteza. Trata-se da primeira avaliação abrangente da “conta climática”.

O resultado é apresentado num relatório extremamente ponderado, e que pode ser lido gratuitamente na internet, por meio do excelente resumo executivo de 27 páginas (endereço abaixo)..O Relatório está tendo um grande impacto mundial, pois veio justamente preencher esta grande necessidade, por parte de pessoas de bom-senso e não especializadas, de entender os pontos centrais da questão. Somos bombardeados por inúmeros dados sobre as projeções climáticas, e fragmentos de possíveis catástrofes, mas o impacto econômico de conjunto não tinha sido avaliado.

A essência das conclusões, é que os custos de não fazer nada, de se continuar o que chama de business as usual (BAU), são incomparavelmente mais elevados do que de se tomar providências. A análise dos dados, segundo Stern, “leva a uma conclusão simples: os benefícios de uma ação forte e precoce ultrapassam consideravelmente os custos. As nossas ações nas próximas décadas poderiam criar riscos de ampla desarticulação da atividade econômica e social, mais tarde neste século e no próximo, numa escala semelhante à que está associada com as grandes guerras e a depressão econômica da primeira metade do século 20. E será dificil ou impossível reverter estas mudanças”.

Não nos cabe aqui resumir os dados e argumentos aparesentados de maneira extremamente transparente no Relatório Stern. Mas vale a pena realçar que se trata da sorte do planeta, e que o “business as usual” gera neste caso riscos inaceitáveis. Os mecanismos de mercado são simplesmente insuficientes, pois em termos de mercado, sai mais barato gastar o petróleo que já está pronto no subsolo. A visão sistêmica e de longo prazo se impõe, e isto implica mecanismos de decisão e de gestão que vão além do interesse microeconômico imediato. Neste ponto, Stern é direto nas suas afirmações: “A mudança climática apresenta um desafio único à ciência econômica: trata-se da maior e mais abrangente falência do mercado já vista”. (“Climate change presents a unique challenge for economics: it is the greatest and widest-ranging market failure ever seen”).