O livro de Tim Kasser parece ir na contramão, mas na realidade reflete uma tendência que está ocupando um espaço crescente: a generalização do saco-cheio com o fato de nos matarmos de trabalhar para resultados que não nos satisfazem.

“Quando olhamos a nossa cultura contemporânea de consumidor é claro que as pessoas são constantemente bombardeadas com mensagens de que as necessidades podem ser satisfeitas adquirindo-se os produtos adequados. Você se sente inseguro na estrada ou na sua casa? Compre o pneu adequado, ou a fechadura. Preocupado de que vai morrer jovem? Coma este cereal e faça o seguro com esta empresa, por prudência. O seu gramado está feio em comparação com o do vizinho? Compre este cortador de grama e tal fertilizante. Não consegue o namoro? Compre estas roupas, este shampoo, e este desodorante. A sua vida carece de aventuras? Tome estas férias, compre este carro esporte utilitário, ou assine tal revista. As sociedades de consumo também providenciam muitos modelos de papel social, sugerindo que uma alta qualidade de vida (ou seja, satisfação de necessidades) ocorre quando alguém atingiu com sucesso objetivos materiais. Heróis e heroinas de culturas de consumo são no conjunto ricos, bonitos, e frequentemente famosos. Essas são as pessoas, nos dizem, que têm sucesso, cujas vidas nos devemos nos esforçar por imitar e emular. Em face destas mensagens que glorificam o caminho do consumo e da riqueza, todos absorvemos e internalizamos de certa maneira culturas materialistas. Ou seja, incorporamos mensagens de uma sociedade do consumo nos nossos sistemas de valores e de crenças. Estes valores então começam a organizar as nossas vidas ao influenciar os objetivos que perseguimos, as atitudes que temos para determinadas pessoas e objetos, e os comportamentos que adotamos.” (26)

A pesquisa de Kasser, no prestigioso MIT, se concentra na avaliação do custo humano do desvio sistemático dos nossos valores e dos nossos comportamentos para a aquisição de bens materiais, gerando frustração que por sua vez gera insegurança e reforço do comportamento consumista.

O ponto de partida é conhecido: dizer que “o dinheiro não traz a felicidade” é uma bobagem verdadeira, pois para pessoas que não têm acesso ao essencial, mais dinheiro significa mais conforto, e uma vida mais satisfatória, coisa bastante óbvia. Mas também o inverso é verdadeiro, pois a partir de um certo nível de consumo, da ordem de 10 mil dólares de renda anual per capita (ou seja, algo como 3,3 mil dólares mensais para uma família de 4 pessoas), o aumento de renda já não muda grande coisa no sentimento de satisfação com a própria vida.

Um quadro interessante (45) mostra que entre 1956 e 1998, o nível de renda americano em dólares de 1995 passou de cerca de 7 mil para cerca de 21 mil dólares, ou seja, triplicou, mas a porcentagem de pessoas que se disseram felizes (very happy) permaneceu impressionantemente estável, em torno de 30% da população. Kasser relata resultados semelhantes na Europa e no Japão.

Mas o essencial das pesquisas de Kasser está centrado no confronto entre valores que as pessoas nutrem, e a autoavaliação sobre a satisfação com a vida que levam. Basicamente, as pessoas que centram os seus valores no sucesso material, na compra de bens, na aparência externa e na popularidade, apresentam sistematicamente indicadores mais baixos num conjunto de avaliações que envolvem desde autoestima até uma série de distúrbios psicológicos.

Muito interessante é o fato de nos questionários apresentados em detalhe no livro, aparecer uma clara diferenciação entre pessoas que buscam satisfação de certa forma “fora” de si mesmas, por meio de bens, imagem projetada, dinheiro, e pessoas que buscam maior satisfação na riqueza cultural, nos relacionamentos próximos e numa certa autenticidade, indicando maior construção “interna” da sua qualidade de vida, na linha da auto-realização (7). Estes últimos apresentam sistematicamente indicadores mais elevados de satisfação, menor frequência de disturbios emocionais e mentais e assim por diante.

É fácil ser superficial e irresponsável nesta área. Mas a realidade é que Kasser fez a lição de casa, trabalhou décadas em sucessivas pesquisas, e tanto a riqueza das pesquisas como o confronto com pesquisas semelhantes de outros países indicam claramente que corrermos cada vez mais rápido para termos cada vez mais coisas constitui simplesmente um impasse em termos da prosaica qualidade de vida.

Kasser menciona a piada cínica que corre por là: a mulher, diz a piada, precisa de quatro animais na vida: um vison no armário, um jaguar na garagem, um tigre na cama, e um burro que pague a conta. Kasser mostra a que ponto são pouco felizes os que seguem a fórmula. Os burros, na realidade, são os que acreditam nestas piadas, e de tanto buscarem sucesso, passam ao lado da vida.

Particulamente importante, para nós das áreas sociais (e especialmente para a psicologia social), é o fato de se começar a trabalhar seriamente os impactos psicológicos do consumismo obsessivo nas suas diversas dimensões.

Para a ciência econômica, isto implica se debruçar sobre um conceito extremamente estranho: a felicidade das pessoas. Vale a pena, a este respeito, mencionar o livro de Eduardo Gianetti, “Felicidade”, publicado pela Companhia das Letras. Outro livro muito bem documentado sobre o assunto é “Happiness and Economics”, de Bruno S. Frey e Alois Stutzer, Princeton University Press, Oxford, 2002. Este último desenvolve em particular a visão de que boa parte da satisfação não vem de um “resultado”, por exemplo mais dinheiro, mas do “processo” da construção da nossa vida. Será que os economistas estão descobrindo alguma coisa?

Chega, boas leituras.